• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos do Autor: Paulo Rosenbaum

E não te basta viver ? (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Hoje você passou, nenhuma névoa se dissipou, mas tua mão acenou. E dai que o País está assim? Nós? Nós não estamos assim. Vivemos apesar dele, apesar de todos eles. Eles não são alicerces de nada. Esqueça a pressão, fuga, denúncia e concentre-se na poesia. Desconcentre-se na poesia. Mude de lugar a cada minuto. Este deslocamento não aliviará nada. As dores permanecerão. A decepção também. Mas o giro virá. O giro que permite ver o outro lado, e todos os lados, e as ruas em profusão, e as calhas mudas, a chuva de vento.

Eu te disse, e não faz muito: estamos juntos sem que você perceba. Sempre estivemos. Não há um fim para estradas, elas se dobram, mudam de nome, fixam-se em vias trifurcadas, mas não terminam. Tua dor é ver a bagunça, o caos induzido, a justiça escolhida? A minha é te ver sofrer por isso. Sempre foi assim. Nada mudou. O sem precedentes sempre teve precedentes. Tua vida não pode ser fixada por tabelas. Nem por enredos que não foi você quem escolheu. Não acredite em estímulos externos. Esqueça as manchetes. Concentre-se, mais uma vez, pela primeira vez, ao menos desta vez, nos detalhes. Nas pinturas não vistas, nos livros não lidos, na cor inexata de uma árvore. Não, isso não é meditação. Apenas uma ação para te tirar daqui. A Terra já é vasta. Muito mais ampla que tua imaginação. Esqueça o Cosmos enquanto você pisa no chão. Apague os buracos negros e enxergue a gruta. Abaixe as pálpebras e esqueça o Paraíso distante, o perdido, o resgatado. Atenção ao implausível. Essa grama ai, essa que você pode sentir sob os pés. Essa mesma. Ela não sumirá, nem o céu, nem o ar. Não sumirá agora.  Este céu irrepetível que muda no instante. Ao gosto aleatório de dados que não param. Tire o dia para não conferir nada.

O sabor da lembrança é uma fruta nem vista nem provada.  É um lugar que você nunca pisou. Uma trajetória da qual você não tinha, nunca teve, a menor ideia. Era para te levar mesmo a um outro lugar, e, num átimo, mostrar porque não podemos ter apegos.

Errática?

Pode ser

A alienação programada. Com tantos probos, ilibados, figuras notórias mostrando o rosto insinuando modestia. Conforme repetiu Montaigne;  e não te basta viver? Isso. Serão só alguns momentos com o si mesmo. Sem ligar nada. Sem precisar de nada. Sem mergulhar em nada que não seja um alongado agora. Exato, aniquile as nostalgias antecipadas. Nem finque pé em nada. A redoma serve para isso, mas quem falou em redoma? É só para aprender a viver sem eles. Mas, ao mesmo tempo, não abandonar a coragem.  A coragem é a garantia. Não me refiro ao heroísmo infundado. Mas à reafirmação da honra, precocemente esgotada,  pelas ideologias, pelas insinuações de consciência, pelo simulacros de política.

Isso é política?

A coragem é a única garantia que temos para enfrentar tudo, se for preciso, contra tudo e todos. O tom da conciliação não é de capitulação. Mas de um tonus que finda toda hegemonia. O que recusa o binário sem aceitar pré condições. Homens que abandonam suas estrelas para entrar na maré perigosa.   Mas isso não é tudo. Essencial retirar-se de cena. Participar como sujeito é rejeitar tudo que é impessoal. Um patrimonio feito de estoicismo e transparencia. A bondade com estranhos, a gentileza irrefletida, a boa vontade laica.

A maioria é silenciosa, temos ainda que viver por nós mesmos. A solidariedade só pode começar com a dor do resgate. O amor, pela vontade de permanecer. O horizonte, pela fusão de perspectivas. Neste que é seu dia oriente-se pelo banco de areia e abandone o pó. Tua vida depende disso, todas dependem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/e-nao-te-basta-viver/

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Jugo (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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E quanto ao Jugo?

Nem se cogita

Nem será julgado.
Julga-se, julgo, a letra, não a filosofia

Julga-se a caneta, não a ideologia

Deixam de examinar o corpo, o caule

é onde reside a carga hostil do direito

Num Pais onde tudo é inesperado
e, sem cuidado, atiça o defeito

Na casa movediça, dissipam-se as telas da justiça

Percebe-se o mal feito, e a carne, em desleixo
expia, sem nenhuma sanção ao eleito

Atenção à renuncia e à punição coletiva,

aos amordaçados arrastados
na maratona de acovardados

Eis que chegou a hora de anunciar
“Morte súbita da Republica”
Que, sem cerimônia com os desesperados
Dança sobre a cabeça dos governados

Só há um engano que não trai o mal
Da voltas e retorna como milagre

Desembocando em desfecho fatal

Combinando  armadilhas que o político

consagra em benefícios imaginários
tornando vidas secas, miseráveis, amargas

reduzidas a códigos binários

Mas é aí que tudo será transformado

E o que nos foi expropriado

será, enfim, restaurado,

E as camadas de beligerância

insufladas de litigância

Mover-se-ão no sentido reverso

Subirão à espada, com furiosa tolerância e velocidade

Quando tribunais desistem das tribunas de impunidade

E, se, ainda assim, nenhum diálogo vingar

Ficaremos serenos, compenetrados no perene

para lentamente recompor, do começo

o destino que nos virou pelo avesso.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/jugo/

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Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold

“Uma descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”

“Céu subterrâneo” do poeta e romancista Paulo Rosenbaum é um convite a participar de uma jornada única muito especial. A obra, profundamente existencial, enquadra dentro de um gênero policial pouco comum, que mistura memória e identidade, existência e destino do ser humano. A ideia de criar um comum denominador entre o passado de uma cidade e a “psique humana” (já comentada por Sigmund Freud em O Mal-Estar na Cultura); é um grande desafio para poucos escritores.

A Roma nascida da lenda de Rômulo e Remo, ou a Jericó de muralhas impenetráveis; emerge na obra de Rosenbaum das ruínas de Hebron, uma cidade conflitiva situada nas montanhas da Judéia a 40 quilômetros de Jerusalém. A sua santidade é resultado de dois fronts: uma narrativa de massacres e uma batalha permanente para obter a posse daquele lugar. Em Hebron, lugar denso, localidade repleta de histórias; paira um ar de mística e esoterismo. Trata-se de um dos pontos geográficos mais antigos do Planeta, o sitio em que foi registrada a primeira transição comercial da história por Abraham, pai de árabes e judeus.

Efron ben Tzohar vendeu a gruta Makhpelá ao Patriarca Abraham por 400 dinares. A fortaleza herodiana composta de uma muralha retangular passou a mãos bizantinas em 614 (virando basílica), para logo acabar em poder dos árabes em 637. Os cruzados os derrotam em 1.100, mas os muçulmanos a recuperam em 1.188 com Saladino, transformando-a em mesquita. No século 13, tribos de mamelucos proíbem a entrada de não muçulmanos no recinto sagrado; uma proibição ampliada após 1929, agora durante o Mandato Britânico da Palestina.

O atrativo turístico de Hebron não era a cidade, mas a Makhpelá, o “Túmulo dos Patriarcas”, onde pela tradição judaica estariam enterrados Abraham e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Léa. Para Há fontes menos fidedignas que incluem os sepulcros de Moisés e Tzipora e até de Adão e Eva. Segundo o “Sêfer Hazohar” (Livro do Esplendor) atribuído ao grande sábio R. Shimon Bar Yohai, na Makhpelá estão dispostas as portas para o “Paraíso de Alto”; deixando ainda em aberto a oportunidade de uma pessoa justa entrar no “Paraíso de Baixo”.

No texto de Rosenbaum, Hebron é o segundo lugar sagrado, seu ar místico é um ponto nevrálgico de animosidades, afinal qualquer fagulha pode ascender os brios entre árabes e judeus. A Hebron de “Céu Subterrâneo” abriga numerosos jornalistas e observadores internacionais. É uma cidade que, teoricamente, havia superado os traumáticos “Acordos de Oslo” em 1993, o trágico assassinato do Premiê Itzhak Rabin em 1995, o expansionismo xiita e até a “Primavera Árabe” iniciada em dezembro de 2010.

Nessa Hebron toda contemporânea aparece o protagonista de “Céu Subterrâneo”: o psicólogo Adam Mondale, um judeu laico especialista em comportamento animal, destituído do cargo de diretor de uma renomada universidade brasileira, aposentado precocemente para embarcar em uma aventura ímpar: buscar o significado oculto de uma fotografia pouco nítida hospedada faz algum tempo numa máquina Polaroide.

Adam Mondale apresenta digressões com relatos de sua família. Nele desfilam sua esposa, seu sogro, pais (escravos da indústria automobilística alemã, sobreviventes do Holocausto), a ditadura no Brasil, as pesquisas acadêmicas e, naturalmente, seu desejo de tornar-se um reconhecido escritor. Para Berta Waldman, Titular do Departamento de Literatura Hebraica da USP, Adam Mondale é o alter ego do autor, contemplado com uma bolsa a Israel para pesquisar material e escrever seu próximo livro.

O tempo em que transcorre a jornada de Adam Mondale não é cronológico. Suas aventuras começam em Jerusalém com a dificuldade para falar o hebraico, a conversa com o taxista que o deixa em plena madrugada na rua, as malas difíceis de carregar, o precário apartamento alugado pela internet (a falta aquecimento na moradia), e a vontade de Adam de adaptar-se para que tudo na viagem desse certo.

No primeiro dia, já instalado em seu apartamento, Adam viaja de taxi a um laboratório fotográfico especializado em revelações de todo tipo. Ali ele entrega um negativo que poderia guardar parte de uma imagem original. O que conteria teria essa imagem? Pois é essa imagem o núcleo da trama, uma mescla de mistério e suspense, um misto de enigma e segredo.

A tal imagem é da Makhpelá, porém ela precisa ser decifrada. Que há de oculto na Makhpelá? Parafraseando Shakespeare: To be or not to be? Eis a questão… Uma foto ou um documento podem tirar qualquer pesquisador do anonimato ou do limbo da mediocridade. A santidade de Hebron afeta mentalmente o protagonista. Adam está ciente da importância do lugar e isto o deixa perplexo, atônito e eufórico na sua constante busca. Não é exagerado afirmar que elucidar o que há na gruta da Makhpelá passa a ser a obsessão final do personagem.

O interlocutor imaginário de Adam Mondale é Assis Beiras, a quem destina suas reflexões metalinguísticas: “Se há alguma função para o escritor, só pode ser fazer com que o leitor se afaste do método e seja tomado pela imaginação. Tomado. Só assim, com a função da razão pura suspensa, a história funcionaria como uma vida à parte. Só assim poderíamos circular entre os dois mundos, do autor ao leitor”. Convenhamos que esta nobre proposta do autor  não é nada fácil de concretizar; uma vez que cada um de nós, (pobres mortais), mal sabe caminhar dentro de seu “mundinho real”; totalmente condicionado e delimitado por necessidades básicas.

Berta Waldman explica: “na tradição teológica judaica (especialmente na talmúdica, ligada à lei oral), a interpretação do texto não visa apenas delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar novas camadas de sentido até então ignoradas”. Para ela, “o midrash contem, assim, um sentido que não se fixa. Como não se fixa, no sentido de não se definir exatamente, a imagem a partir da decifração do que se oculta na Makhpelá. A imagem suja, precária e indefinida é identificada como uma possível fonte primária…”.

O livro “Céu subterrâneo” nos mostra que a interpretação midrâshica não é a única possível. Eu mesmo entendo ser mais apropriado fazer uma leitura pós-moderna, na qual a superposição de tempos do romance, o mundo imaginário que surge em torno do psicólogo Adam Mondale, o mistério oculto a ser desvendado e a realidade volátil (em choque permanente com a existência cotidiana), geram um clima em que o homem convive com um universo de ícones e signos que pedem esclarecimento e elucidação de um sentido.

“Céu Subterrâneo” de Paulo Rosenbaum é um convite para viajar no túnel do tempo. É um livro para tentar resgatar a camada oculta de nossa existência e, acima de tudo, para “escapar” (mesmo por algumas horas ou dias); de nosso repetitivo e muitas vezes monótono mundo cotidiano. Leitura instigante e cativante, o romance é uma “descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”.

Reuven Faingold é historiador e educador; PhD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É também sócio fundador da “Sociedade Genealógica Judaica do Brasil” e, desde 1984, membro do “Congresso Mundial de Ciências Judaicas” em Jerusalém. Atualmente, é o diretor dos projetos educativos do “Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto” em São Paulo.

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Metanoia (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Podem me acusar a vontade, não fui eu. Simplesmente, não fui eu. (alguém pigarreia na fileira lateral) É isso, cadê as provas? Ah, indícios, indícios não são provas. Evidências? Também não são. Anotou ai? O que? Não caros, já falei até para aquele senhor naquela República, eu só supervisionei as obras. Que coisa? O governo. Teve aloprado? Teve. Quais planos? A ideia veio aos poucos. Que alguém atire o primeiro barril de petróleo, mas o que eu fiz qualquer um no meu lugar faria. Minha consciência está tranquila, tenho lugar garantido na história. Como assim abuso? Como diz a nossa Professora de filosofia essa é a sua narrativa. A minha? Ora, a minha é simples. Desde que o mundo é mundo para corrigir as injustiças você tem que cometer outras. Não, não foi bola de neve nenhuma. Foi, foi planejado, mas não fui eu. Por que eu não assumo? Filha, todo mundo sabe que esse negocio de culpa não é comigo. Eu vivo do dia a dia. Planejamento, deixo para os outros. Sou bom de papo, todo mundo sabe disso. Como assim postes? Tenho culpa se gostam de quem eu indico? Tenho culpa de ser o mais carismático, de ser adorado por companheiros que ganharam muito comigo, pelo pessoal das comunidades eclesiais? Me diz que culpa tenho de o pessoal ai sair dizendo que eu era o redentor? Que sou a única salvação. Se acredito nisso? Vou te confessar que no começo eu achava exagero  mas você vai vendo que pode ser sim. E veja, não é falta de modéstia, é só ver o que o outro lá falou? Eu, “eu era o cara” lembram? (olha para os lados e todos juntos, em jogral espontâneo, soltam a gargalhada mecânica que cessa subitamente quando ele se volta novamente à jornalista) Se eu acho que eu sou o que acham de mim? Mas que pergunta filha. Bom, nunca na história alguém tinha feito os milagres que eu fiz. Eu fiz tudo, tudinho que está ai. Vai dizer que não tirei milhões do sufoco? E dai? perderam tudo pela incompetência. Mas eu…sabia, tinha certeza que você ia me perguntar isso. O desemprego? Quanto? 14 milhões? Eu fiz o País bombar, eu empreguei,  não acha que tenho direito de desempregar? Sou um patrão exigente caramba.  Quer chamar de milagre econômico? Pode chamar. Já falaram isso antes na ditadura? Menina, isso dessa crise passageira que está ai não fui eu. Isso foi ela, ela quem fez as burradas. Eu fui responsável por ela chegar lá? Eu só fiz a minha parte e o que minha consciência disse. É lógico que tinha que ter mudado a constituição para eu ficar direto, mas a gente tem que aturar esta lengalenga de democracia, e lembre que não controlamos toda a imprensa. (suspira fundo e fala sussurra uma palavra que foi entendida pela jornalista como “ainda”) Mas agora aprendemos a lição, da outra vez vai ser muito diferente. Eu obedeço tudo que ele, meu foro intimo me dita entende? Não, não é foro de São Paulo. Olha isso pessoal (vira-se para sua plateia) Ela é piadista. Está tirando comigo? Ah, você acha que eu mereço? Cana, cadeia? Foi o primeiro passo? E isso ai. Eu também acho que no fim, na última hora sai o acordo e fica por isso mesmo. Vai ficar todo mundo de cabelo em pé, mas ai, (aproxima-se como se fosse contar um segredo) aí a sociedade engole. Engole sempre, não é querida?

E o que eu quis dizer com o que? Ah isso? Eu disse isso, com estas palavras? “Quem sabe eu prendo ele depois? (olha para cima tentando evocar as frases feitas desditas) Sabe que sinceramente não me lembro (olha para cima, balança a cabeça e aponta para o próprio peito). É que num Congresso do partido e todos aqueles Sindicatos, a gente tem aquele carinho especial e se empolga. Os companheiros, gente que ajudei a crescer na vida, que dei aquela força, sabe como é que é.

Não sabe? Espera ai. (muda o tom de voz com uma rouquidão que o toma de assalto) Agora a senhora está sendo malcriada. Ah se ainda eu fosse presidente…além desse bico na Rede Esfera onde é que você trabalha mesmo? Por que? Se fosse em Banco ou em Jornal amigo eu ia ter que dar uns telefonemas. (olha para a sua equipe sorrindo a procura de um assessor de óculos e meio calvo) Se sou vegetariano? Este negócio da carne já deu. O que a senhora está olhando?  Quer saber por que tantos advogados aqui em volta? Só rico pode? Todo bacana tem direito e eu não? E eu vou lá saber quem banca, não mexo com isso, pergunta para o Alceu, o Vácar, é verdade, agora isso é com a Gláucia. Ela está bem ali, e aponta para a parlamentar que faz um gesto incompreensível de volta). Organização criminosa? Veja se não enche guria. (bufa contrariado) Eu sei que é uma entrevista, e dai? Meus advogados não te avisaram antes das perguntas? As respostas (bate com o dedo no papel de anotações da jornalista) eu quero ver antes de ir ao ar. (vira-se para outro assessor: você vê isso direitinho certo?) (resposta subserviente com o queixo)

E olha, comigo não tem essa de mulher independente. Como é que me sinto por ser réu? Vá…faz o seguinte, pergunte para o Papa filha. Tá bom assim? Não, não estou nem um pouco irritado pô. Eu não intimido ninguém não. Na eleição a gente conversa para você ver uma coisa. Quando eu estiver lá vou te chamar tá bom? Ameaça? Não, você entendeu mal. Quem sabe te dou uma exclusiva (dá uma piscada nervosa em direção a entrevistadora) Por que parar a entrevista? Estava ficando bom. (ameaça espreguiçar e enfia as palmas das mãos entre as pernas), Acabou?

Deixa que falar uma coisa: a senhora está aqui porque esta sendo paga, o pessoal da Esfera não te avisou? E quer saber? Anote ai. Tá escrevendo? Eu elejo quem eu quiser. Não mais? Por que? Porque meia dúzia de burgueses falam mal de mim nas redes sociais e batem panelinhas? Não estou nem ai. Eu não quis dizer nada. A massa está na mão. E fique sabendo. Que ficar quieto que nada. (afasta a mão do assessor que tentava interromper sua fala).

Cala a boca você. Aonde está aquele candidato lá do inicio? Sumiu, morreu. Que lulu paz e amor que nada, aquilo foi para a ocasião. Agora é para valer. (levanta e enxuga o suor frio da testa enquanto o advogado sênior cochicha algo em seu ouvido com o que ele aparentemente concorda e volta a sentar, trocando de feição)

Desculpe moça, (voz subitamente embargada) podemos continuar sim, é que eu me emocionei, a jornalista entende não? É muita pressão. (antes das lágrimas diluídas do olho esquerdo já empunhava o lenço de seda bordô). Falando honestamente, eu sempre confiei em vocês. Me desculpa. Não quis te estressar. Vamos fazer o seguinte, amanhã mesmo meu pessoal edita a fita. Eu falei perícia? Falei edita. Tá bom assim?  Antes de ir para o ar fale com o pessoal do Instituto e com os meus advogados Ok? Ainda está gravando? Pode desligar essa maldita câmera rapaz? A câmera hein, não a câmara. (riso indeciso) Então dona, foi um prazer falar com você. (ele se prepara para levantar)

Uma última pergunta? Claro. (senta-se novamente). Não tá gravando, certo? Ok.  O que tem este negócio de “nós e eles”? Fala a verdade, bem bolado, palmas para o casal de Feira. E o “coração valente”, essa foi de mestre. Foram condenados? Isso não tem a menor importância. Por que agora estou tão bem humorado? Porque confio na justiça do meu Pais. (gargalhadas espontâneas vindas de vários pontos do estúdio que só se interrompem com o olhar censor do entrevistado) Se eu não me arrependo? E o que é arrependimento? (bate a mão na própria perna e levanta-se sorrindo)

(ele sai abotoando e apalpando o bolso do paletó como se procurasse algo como um gravador chinês de U$ 35 acompanhado de assessores, advogados, motorista e copeira)

Regret – (english) Do latim gretan, chorar. Para o linguista e etimologista francês Littré a palavra vem do latim regradus (retorno) talvez de uma doença.

Metanoia – Do grego, arrependimento, remorso

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/metanoia/

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Seis Milhões (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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PUBLICADO NA COLETÂNEA “A PELE QUE NOS DIVIDE”, Quixote-Dô, Belo Horizonte 2018

SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.

posso senti-los
 sob meus pés,

regulares, como todas as descidas,

rítmicos como gelos.

intensos como arestas

No declive de gênero fantasiados de corporações 
nos trens improvisados,

como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus

a IBM e a Krupp
 acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
 não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha 
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos
 que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos

dedos ou nas qualidades extintas,

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica

sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas 
alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm 
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo 
é para que essa perplexidade

gere totens 
e olhos sem braços

nos alcancem
 em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa 
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

Achamos que, 
do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distância do meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos

Os campos estavam nos libertando da vida

Enquanto a eugenia dos doutores 
do partido

Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros jamais

o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

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Privatizem os homens públicos (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Privatizem os homens públicos

Como primeiro homem público privatizado da história ele não sabia se deveria agradecer ou lamentar sua nova condição. Para ele era inédito ser um homem normal, cidadão equiparado a todos os outros na República. Estranhou sentar em frente à mesa por 8 intermináveis horas para exercer um ofício remunerado. Com alguma melancolia, percebeu que precisava acordar, usar transporte público para dirigir-se ao seu emprego, segundo na vida, aos 68 anos. Claro que para ele, ex-homem público, que sempre se considerou um trabalhador e até forjou uma sigla com o nome, os políticos e os parlamentares que elaboravam leis para que o resto da sociedade obedeça não são meros cidadãos. Líderes que comandam o rebanho não podem, por princípio, estar submetidos às mesmas regras que os comuns.

No íntimo, ele e seus companheiros sempre souberam que, em sua grande maioria, sua atividade não passava de um pseudo protagonismo. As leis criadas e recriadas ao gosto dos fregueses não passavam de regulamentos medíocres, ordenações inúteis e até mesmo prejudiciais ao conjunto da sociedade. Apesar disso ele gostava de discursar e frisava sempre o quanto se esforçava para obedecer o juramento que fez de defender os valores republicanos.  “Viemos recuperar a ética na política e atender ao conjunto da sociedade”. Por mais que tentasse, ele não conseguia se libertar de uma ideia obsessiva — desde que assumiu o cargo de deputado federal e finalmente presidente da República aclamado  — de que a sociedade tinha um débito com ele. Quanto mais ele governava mais ele se convencia de que a dívida era impagável.

Eis que aqueles que o orbitavam começaram a pensar como ele. E, ele mesmo, começou a acreditar nas palavras de ordem e slogans mistificadores que criou originalmente para ludibriar as massas.  Sua tese foi ficando cada vez mais sólida: no lugar de civilizar as instituições ele as rebaixou ao servilismo corporativo. Em vez de transformar a cultura da corrupção ele a alçou a um patamar inédito e naturalizando-a como mais um que fazer político.   Foi assim que passou a entender ser “homem público” no Brasil significava pertencer a uma casta, ponto final. Este berço de homens intocáveis e invioláveis era para ele a prova de que sua concepção particular de democracia triunfara no País. Aqueles que nasceram ungidos para governar estão — sem falsa modéstia — num patamar acima do resto. E assim como ele seus parceiros se associaram numa coalização onde o mal feito vingava desde que as urnas consagrassem os nomes que ele abençoava com a maldição fisiológica. Encontrou parcerias proficuas em todos os partidos para saquear o Estado, com salvaguardas plenas dos outros poderes e do grande capital.

Chamem como quiserem: evolução, darwnismo social, triunfo da esperteza, ou ética pessoal. Segundo ele ou “a sociedade aceita o que idealizamos para ela ou é melhor que ela nem exista”. A seita cresceu e o aparelhamento tornou-se natural, afinal ele personificava o “nós” e todo resto da sociedade era apenas o “eles”.  A desconstrução começou tarde, quando os postes eleitos por ele demonstraram suas desastrosas autonomias destruindo a economia. Foi quando perderam a esportiva sob vaias épicas e protestos de milhões.

Ainda naquele seu primeiro dia de sua volta à vida civil, notou que a palavra “emprego” e “assalariado” lhe causava um imitigável sentimento de mal estar difuso. Ele bem que tentou consertar a linguagem, uma de suas especialidades. Exigiu que pelo menos os seus lá de casa mudassem a forma como chamavam sua nova tarefa: doravante deveriam somente se referir às suas atividades como “oficio” ou “atividade regular remunerada”, jamais “assalariado”, nunca “funcionário”. Mas, apesar do apelo ter sido atendido por alguns dias, parentes logo esqueceram e voltavam a pronunciar as malditas palavras.

O verdadeiro choque foi quando ele completou um mês de atividade regular remunerada. Ele olhou a página recebida das mãos do chefe do RH e procurou, mas era aquilo mesmo, só meia página com um boleto. Ele nunca havia visto um holerite, sempre teve secretárias, assessores, seguranças, churrasqueiros, fidalgos, discípulos, pupilos e vassalos para fazer essa e outras tarefas de pequena monta. Ele não poderia confessar nas redes de TV nem nos comícios do partido, mas ele passou a se conformar que se não fosse o acumulo que conseguiu na vida publica, toda sua carreira seria um completo embuste.

Sua prole e futuras gerações estariam garantidas para todo o sempre e sua recém criada casta sobreviveria até às mais graves crises econômicas, a maioria delas, gerada pela sua errática política que ele mesmo apelidava de “contabilidade criativa” e “nova matriz econômica”.

Às vezes, só por diversão, ele pedia que seu cozinheiro lhe apresentasse seu saldo bancário e a lista de suas propriedades amealhadas através das vantagens indevidas utilizando o dinheiro público. Quando alguém um dia ousou lhe perguntar se não não sentia nenhum remorso pelo que fez ao País, ele respondeu com a convicção dos mitômanos:  “não tenho meu caro, encaro isso como um ressarcimento, a sociedade me deve tudo isso e muito mais”. Costumava ser aplaudido de pé por aqueles que usufruíram dos benefícios de seus decretos e medidas provisórias. Foi assim que elegeu postes e — com a ajuda da mídia e de intelectuais graduados — ficou blindado e imune às críticas.

Agora, sem bens, com amigos em buracos e esconderijos, e com a pena alternativa que se seguiu à sua temporada na prisão ele teria sua chance de ressocialização. Segundo o despacho dos juízes que em uma inédita sentença proferiu:

“Não há uma solução simples mas nós do judiciário entendemos que o primeiro passo será privatizar os homens públicos.  Seu maior crime não foi a corrupção sistêmica, nem mesmo a fortuna pessoal que acumulou, mas ter destruído a democracia inclusive criando personagens idênticos, aparentemente opostos a ele.  Agora que não temos mais um Supremo, mas este imenso colegiado de juízes independentes, sem vínculos partidários ou ideológicos, podemos avaliar melhor como o sistema foi pervertido. Só com este tipo de apenamento estes homens que já foram públicos, e agora privatizamos, poderão conhecer o ordinário e abandonar coercitivamente a fantasia de que são especiais. Desta forma é melhor que este condenado passe a vivenciar um pouco a sociedade que ajudou a criar. Que ele aprenda como é experimentar a vida e as dificuldades de um homem comum. Que sinta como é viver como a maioria das pessoas. Sabemos que este senhor  — que segue com sintomas de que é um grande personagem e tem aspirações messiânicas  — deve vivenciar essa novíssima modalidade de punição como uma última terapêutica. Mesmo, como reiteram os laudos, estando no limite do incurável, acreditamos que ele ainda tenha chances de ser reeducado”.

Ao final daquele mês de trabalho, repreendido por fazer “jogadas” com seus colegas de sala, tendo simulado várias doenças e depois de tentar convencer seu chefe a dobrar sua fortuna insinuando que teria contatos para conseguir um pacote de desonerações, foi despedido por justa causa. Sem emprego estável ele voltou para o sistema prisional, onde atualmente cumpre o restante da pena e negocia palestras em troca de redução da condenação prometendo dar um jeito nos que o mandaram para a cela.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/wp-admin/post.php?post=5754&action=edit

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O poder viciado (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O PODER VICIADO

O poder viciado? Hoje ele tem uma prioridade. A única. Precisam escapar do juízo, dos jurados, dos julgamentos. Poderíamos inferir muitas coisas, discordar do uso abjeto com que os infortúnios são usados. Ficar indignados em detectar como a manipulação política nos direciona nas causas e consequências do trágico.

Mas, em nome da nitidez é bom que se diga, antes de tudo,  que a vereadora carioca, neste evento, foi vítima de um ato de terror.  Assim como todo transeunte, como os policiais, como os cidadãos que não puderam contar com ninguém e, agora, abandonados em suas sepulturas. É preciso suspender o juízo ideológico para declarar que nada justifica a morte de inocentes. E, ao mesmo tempo, tudo se justifica no combate contra aqueles que matam inocentes. Sim, inocentes. A maioria. Mas qual maioria? A maioria encontra-se submetida. A maioria está amarrada. A maioria está engessada pela inércia. Tolhida pelas explosões de informações contraditórias plantadas pela realidade, as naturais e as artificiais. Com todos os fuzis à mostra é preciso explicitar: sem expor a marca do cassino que representa — há mais de uma rede apostando pesado no “todos contra todos”.

Todo mundo sabe, a guerra é contra os civis, mais de 60.000 mortos por ano. Sete assassinatos por dia. Para além da epidemia de homicídios quem se importa com a dor individual? Quem só pensa no acerto de contas? Sob o prédio imponente da orla arrematado pelos graúdos e impunes chefes do crime, os mandantes controlam as câmeras com drones. Dominam completamente o ciclo malévolo que criaram. Trafico de influencia e desvio de função. Tempo de latência e pesquisas de opinião. Tudo se mistura num turbilhão de medo e confusão.

Aqueles que se dizem contra hegemônicos montam a escada para alcançar definitiva e permanentemente a hegemonia. Ninguém precisa supor isso. Não depende de interpretação. Eles confessam em suas timelines, em seus blogs, em seus programas partidários: é isso mesmo. Com a cabeça feita pelos psicofármacos das drogarias ou pelos fármacos sem patente, negociadas por um punhado de pacotes, que prometem vender a leveza perdida, afinal a grande demanda atual é anestesiar toda má consciência. A violência é o ópio do povo.

Estamos submissos a uma omissão programada e programática de um Estado abúlico. Por planos de sabotagem rabiscado em bilhetes. De uma pacificação que acabou como capitulação ao fuzilamento da sociedade. O Estado que não funciona é cúmplice. Os interesses sociais de quem deveria zelar pela sociedade há muito deixaram de ser direitos coletivos. É possível sentir na pele que o poder age a favor de quem demonstra força. De quem a exerce sem relutância. Com balas, com sangue frio, com a mira em punho, com truculência profissional, como usurpação das funções. Nas contundentes palavras de Viktor Frankel — psiquiatra sobrevivente do Shoah que fundou a corrente conhecida por logoterapia:

“O sistema político está comprometido porque o poder está nas mãos de minorias que usam o poder de forma indecente.  Só existem duas raças: a raça das pessoas decentes e a raça dos indecentes”.

Cedo ou tarde a decência terá que impor sua paz.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/poder-viciado/

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Bolo Bem Brasil (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Bolo Bem Brasil

O prato Bolo Bem Brasil Brasil é de sabor doce-amaro, feito com uma federação patina dourada em banho-maria, levado ao forno com lascas corporativas baseadas em vantagens indevidas, recheado com desvio de função do Estado e regado à creme embrulhê.

Modo de Preparar

Reservar urnas eletrônicas inauditáveis e colocar no micro-ondas e insista em cobrir tudo com papel mantega. Separar laranjas maduras com muitos parentescos e espalha-las em uma forma especial por longas extensões territoriais. A carne deve ser padrão exportação e precisa repousar inerte no Planalto.  Esperar até que asse ao ar bem livre. Deixe descansar antes de esperar. Se algum procurador estiver por perto, esqueça, ele costuma errar feio o ponto certo. Delate qualquer alteração de cor e verifique o prazo de validade apócrifo gravado do Frigorífico goiano. Reservar abobrinhas frescas picadas recolhidas do sítio do ex-amigo do partido. Retirar do forno, picar cebola e, sem chorar, verter leite derramado por cima até que a bandeira vermelha indexada sofra aumento. Esperar o bolo inflar sem crescimento e nunca reparti-lo, a não ser migalhas que você pode juntar em bolsa do tipo família.  O grosso pode ser cortado e dividido entre chegados nomeados para cargos de chefs vitalícios. Em seguida esfrie e unte com fina camada de óleo monopolizado. (importante checar se a usina escolhida tem ferrugem incomestível de Pasadena, pois a receita ficaria impagável) Desonere a farinha com economia criativa e um caminhão de vantagens gourmets. (há uma receita variante com massa podre alienada) Esperar para colocar fermento popular a gosto e tiras de tarifas mal assadas e bem esticadas. Amasse as batatas quentes e recheie com pato ao contribuinte. Ao jogar pimenta malagueta, cuidado com os olhos dos outros. Levar ao forno por tempo indeterminado, cuidando para não torrar. Retire e salpique com folhas de arruda brava para afastar olho gordo e manter o regime sem nenhuma oposição. Retire a constituição da cozinha e deixe-a como sempre fechada na sala ao lado, o vapor costuma deixa-la com odor desagradável. Finalmente verifique se a camada triplex está no lugar e flambe tudo com gás subsidiado até formar uma crosta caramelizada que na alta culinária chamamos “erosão de estado”. Enfie o dedo do meio — atenção para não meter a mão — e prove. O sabor é bem excêntrico.

A receita está pronta para ser saboreada.

Recomendações

Mesmo que algum desavisado libere, não eleja nenhum ingrediente que esteja condenado.

Ao servir para estrangeiros  avise que é “very typical” ou “bem típico” e que será preciso paciência com nosso ágil sistema legislativo pois para aprovar o prato já conta com duas medidas provisórias e 116 projetos de lei prontos, em fase final de um trâmite de alguns anos.

Se for apresentar a receita em cadeia nacional no horário gratuito mostre sempre o lado fresco do prato (costuma embolorar rápido)

Sem o carimbo de inspeção federal e os 38 impostos recolhidos o produto não poderá ser consumido.

Servir a cada 4 anos recomendando moderação e mastigar bem antes de cada garfada, pode ser de difícil deglutição.

O Ministério do Desabastecimento adverte, pode causar refluxo e dependência da segunda instância.

Fica eleito a comarca de Caracas no caso de insatisfação do consumidor com os insumos providos pelo BNDES. (se quiserem a receita você pode dizer que é segredo de Estado)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/bolo-bem-brasil/

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Fisiopatalogia da culpa e a elisão na linguagem (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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É muito provável que quem viu o excelente filme “1945” (Hungria, 2017) ficou apreensivo nas poltronas e saiu com a sensação de ter vivenciado uma experiência única: acompanhar didaticamente as etapas de como opera a fisiopatologia da culpa. Sabe-se que cerca de 250.000 judeus foram mortos nos países do leste europeu depois que o nazismo já havia sido oficialmente derrotado. O filme — que se passa num pequeno vilarejo húngaro — mostra dois judeus vestidos em trajes tradicionais ortodoxos voltando de trem para o que seria sua cidade natal. Sua enigmática chegada agita a vila com apreensões e, mais uma vez, reacende-se — num conhecido e abjeto automatismo — o “problema judaico” como Marx gostava de se referir aquele que seria um elemento estranho e perturbador dentro de suas propostas ideológicas. É sempre assim com doutrinas e ideologias, quando alguém ou alguma coisa não cabe nela, classifique-a como “problema” e, quando ninguém estiver por perto, elimine-a.

Imagino que boa parte das pessoas gostaria de acreditar — por conforto, estratégia ou omissão — que isso é passado e o antissemitismo é página virada. Pois não é. Não faltam exemplos atuais. Uma parte dos legisladores na Polônia resolveu aderir à estratégia revisionista em alta mundo afora. A novidade agora é abolir o passado ou renegá-lo (o que parece ser cada vez mais tentador quando se fundem caneta e poder) através da criminalização instrumental da linguagem. A partir de agora o uso de expressões como “polish death camps” ou “campos de extermínio poloneses” será rigorosamente punida.  Em recente sessão o parlamento polonês aprovou a resolução, que depois foi aprovada pelo senado, e agora apenas aguarda a sanção presidencial para entrar em vigor. O conteúdo poderia ser engraçado se não representasse um escárnio contra a história e um atentado à livre expressão. A lei em vias de ser aprovada: será crime passível de punição legal e pena que inclui a prisão por até 3 anos de detenção para quem, por exemplo, usar a expressão “campos de extermínio poloneses”. De fato, para sermos justos, os campos onde se naturalizou a chacina e a crueldade contra judeus e outras minorias, foram instalados pelos invasores alemães em território polonês. O que não se consegue explicar — e a justificação funcionaria como confissão — é por que 250.000 judeus encontraram a morte, a espoliação de bens e a expropriação de patrimônio bem depois que os nazistas foram derrotados. A solução imaginada é apenas uma tentativa ineficiente de reverter a culpa pela conivência de uma parcela da população e governo poloneses à época da guerra. Mais eficaz seria mudar esta percepção expondo os horrores de toda forma de intolerância, mas as soluções fáceis e sinistras são as mais caras ao nosso tempo. Virou hábito retorcer os processos históricos, de fato é um dos vícios em nossa era.

O que vale notar é que fenômenos como este denotam — mais frequentes nas extremas esquerda e direita — algo para além do mero revisionismo. É a linguagem que entra em mutação para construir uma elisão instrumental da linguagem. E a armadilha não é só a proibição de narrativas incomodas. A legenda do clube associativo Psol-PT recém publicou uma nota que repudia a presença da comissão LGBT de Israel na parada Gay realizada em São Paulo, por sinal, o único País democrático do oriente médio e também o único que não discrimina esta comunidade. Enquanto isso, os arautos da probidade socialista exaltaram a delegação palestina onde os gays são rotineiramente esfolados vivos. Não é caso isolado, a estupidez política assumiu proporções de pandemia e a desonestidade intelectual assumiu o comando naqueles que deveriam ser os grandes centros do saber.

O mesmo engano persistente na análise do acirramento atual entre Israel e as organizações que declraram abertamente em sua “carta”constitucional o desejos de exterminar aquele Estado. A estratégia adotada, e muito bem aplicada, por parte dos grupos terroristas, com destaque para o Hamás que oprime — diante dos olhos inertes do mundo — os cidadãos na faixa de Gaza. Usando táticas da chamada guerra assimétrica e financiado pelos aiatolás iranianos, monarquias árabes  e jihadistas mundiais eles buscam na imolação de sua população civil numa tática para fazer ressaltar a suposta “desproporção” de forças. Apesar de ser patente o desequilibro, nem de longe, ele tem sido transferido à ação. Existem vários relatórios — pouco divulgados por uma imprensa especializada na pré condenação do Estado judaico — que as forças de defesa de Israel têm um dos exércitos que mais se preocupa com a preservação da população civil.

Está acontecendo em tempo real, aqui e agora. Hoje mesmo que é o dia final do Ramadã, o mês de jejum dos islamistas, a população civil de Gaza está sendo “convocada” — a 100 dólares a cabeça — para ir até a cerca que separa os dois territórios para lançar pipas incendiárias, coquetéis molotovs e outros artefatos caseiros, porém mortais, contra a fronteira sul de Israel. A mídia tem se esmerado em cobrir o “lado mais fraco” esquecendo-se que Israel já devolveu Gaza aos palestinos há quase uma década além de fornecer água, combustível e energia aos seus habitantes, a despeito dos mísseis e morteiros que recebe em suas cidades, nos parques e nas escolas do sul do País. Enquanto isso boa parte da ajuda bilionária recebida é direcionada pelos dirigentes palestinos para táticas de guerrilha, compra de material bélico e construção de túneis para infiltrar terroristas Vale dizer, Israel pode cometer erros, mas entre eles nao está a despreocupação com o caráter e espírito humanista que fundou as bases sionista para o retorno dos judeus à sua terra ancestral.

O que se vê entretanto na linguagem escrita e falada — No Brasil e pelo mundo — sao as velhas e ressuscitadas acusações contra Israel e seus habitantes que sim, lembram a pregação sistemática contra os judeus durante o III Reich alemão. A testeira dos jornais e nas manchetes Israel figura como um vilão a priori, de qualquer forma, em todas as circunstâncias. É sob esta manipulação que vivemos, com o agravante de que isso é muito mais grave do que a mera adulteração das notícias: envolve um esgarçamento da linguagem. Um passo então, para tentar obter o monopólio do pensamento. Assim, a comunicação confessa, sob tortura, que a elisão linguística encontra-se de fato instalada no mainframe. Pois o que será que estes jornalistas e professores universitários aprenderam na graduação sobre o conflito israelo-palestino  senão uma doutrinação maniqueísta reiterada e nada reflexiva de que o Estado hebreu é o algoz e a eternas vítimas são os palestinos. Pois não é  que as “vítimas” escutaram as aulas magistrais e assimilaram a doutrina?

Hoje as lideranças terroristas perceberam que a propaganda de vitimização e falseamento de dados e imagens traz um saldo um pouco mais efetivo e é bem mais econômico do que providenciar a logística para os homens-bomba. A tática tem cobrado um alto preço para os judeus em Israel, mas também fora dele. O que o Ocidente ainda não detectou é o tamanho do arrastão que o aguarda. O preço impagável que essa mesma demonização gerará, como efeito-espelho — sobre as sociedades europeias como um todo. Se os refugiados merecem abrigo, o mesmo não se pode dizer dos jihadistas do Islã radical, que hoje gozam de tolerância excessiva dos países da União Europeia. No entanto, à portas fechadas,  já é possível perceber a insônia em Bruxelas e alguns começam a admitir o tamanho do equivoco em receber milhões sem criar uma estrutura econômica e social que os acolha. E principalmente a indulgência exagerada O excesso de civilidade com a barbárie pode ser um sintoma de falência da cultura, pois como escreveu Isaiah Berlin, “liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”.

Segundo a matéria publicada no NYT, a intenção dos legisladores é redirecionar a culpa que ainda pesa — justificadamente — sobre a Polônia durante a segunda guerra mundial e fazê-la recair, exclusivamente, sobre os nazistas alemães. Este escritor, descendente de judeus poloneses — cujo avô serviu o exército da Polônia  —  tem orgulho de ter ele mesmo uma parcela polonesa e sugere portanto que as autoridades locais abandonem ou reformulem o projeto.

A história já nos ensinou que a farsa, mesmo quando muito bem estruturada, acaba desmontada pela própria força dos eventos e, como um elástico super tensionado, quando não há mais nada artificial que o detenha, volta com violência à posição original, espirrando para longe toda impregnação manipulada. Há um bumerangue à deriva, e ele está vindo com força direto em nossa direção. Desta vez, não nos desviaremos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/fisiopatologia-da-culpa-e-a-elisao-na-linguagem/

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Dicionário Eclético Universal (últimos adendos) Estadão

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Dicionário Eclético Universal (últimos adendos)

Toga

Subs. Masc. Manto escuro e mágico muito utilizado para fazer desaparecer inconveniências políticas.

Capa mutante inventada em Brasília que transforma quem o usa em legislador monocrático.

Copa

Subs. Fem.

Empoderamento do topo das árvores.

Sin. Playground onde Putin vem exercitando czarismo ao ar livre.

Foro

Exemplos na literatura

“Querida, parece que deu cupim no forro privilegiado” in Peças anedóticas (San Bernardin)

Polarização

Estado de animo artificialmente exaltado, geralmente usado para simular oposição entre dois lados idênticos. Obs- pode apresentar variantes com sinais invertidos.

Ref. Não confundir “polarização” com respostas ao absurdo.

Ref.2 “Esquerda e direita unidas, jamais serão vencidas”(Nicanor Parra)

Oposição

Antiga, anacrônica e ultrapassada prática antes comum no sistema político chamado democracia, que consistia em fazer resistência à situação. Hoje desmoralizada e em completo desuso, especialmente na América Latina.

Fundo partidário

O oposto de raso tributário. Prática de legislar recursos marketologicos em causa própria emulando benefício coletivo.

Sin 1. Nomenclatura também usada como sinônimo de “fundo perdido” na linguagem popular.

Sin. 2 – 1.7 bilhão.

Recesso parlamentar

Cantinho escuso reservado para negócios de baixíssimo interesse republicano.

Militantes

Robôs com rebaixamento cognitivo comandados por controle remoto. (Obs- pilhas de fábrica duram muito pouco, recomenda-se reclamar com o produtor)

Fake news

Antônimo contemporâneo  de “eu sou a única verdade”

Transmissão obsessiva-paranóica ininterrupta da rede Cnn.

Ref. Não confundir com má interpretação de texto.

Concertação geral

Indução sistemática de amnésia coletiva.

Sin. Acordão para eleger representante ao cargo máximo com compromisso de conceder anistia ampla, geral e irrestrita aos criminosos institucionais.

Estadista

Espécie política sob risco de extinção. O registro do último espécime foi um avistamento numa floresta austral patagônica. Segundo relatos de testemunhas ele cobria a nudez com tanga de folhas avulsas descartadas de texto constitucional.

Desvio de função

Culto religioso ortodoxo praticado no Brasil por 13 anos.

Ref lit. “O Bessias está indo te entregar”

Constituição federal

Carta sem destinatário conhecido.

Sin. Objeto usado para idiossincrasias hermenêuticas. Rel. interpretações especializadas na arte da distorção.

CPI

Prática de investigação protelatória.

Ref. Simb. analogia na literatura “Para inglês ver”.

Condução coercitiva

Meio de transporte inevitável em grandes centros urbanos brasileiros.

Supremo Corte

Espécie de talho especial muito usado na alta costura.

Ref. Costuma expor decotes por muitos considerados indecorosos.

Acordo nuclear com o Irã

“Plutônio pode? ” Frase atribuída ao líder moderado da Guarda Revolucionária antes de ameaçar despejar material radioativo nos Países que ameaçaram não endossar o pacto.

Kim Jo

Conhecido golpe publicitário narcisista de corte de cabelo

Antissionismo

Doutrina que com pequenas ressalvas éticas prega a destruição dos judeus e de Israel

Antissemitismo

Doutrina que, sem ressalvas, prega a destruição dos judeus e de Israel

Petrobrás

Monopólio em permanente campanha por subsídios da sociedade.

Sin. O combustível mais caro do planeta.

Esquizocracia

Regime político baseado em acordos contraditórios, neologismos e governança baseada em slogans.

Sin. Estado de anomia gerenciado como se houvesse uma estratégia de Estado.

Homens públicos

Sujeitos com vaga noção de diplomacia, economia e estratégias para construir políticas públicas que postulam cargos legislativos com campanhas de marketing bilionárias.

Analog. Frequentemente são notórios iletrados, exímios locutores, ilustres atores amadores, rufiões nas horas vagas, imitadores de auditório, oportunistas fisiológicos que chegaram à linha sucessória, ex membros párias da hierarquia militar que pregam truculência ou eleitos que ocupam efemeramente o mandato alegando sacrifícios em busca de cargos mais altos.

Estado Policial

Movimento messiânico que pregava a solução política universal na suspensão das garantias individuais.

Segunda estância

Lugar onde alguns podem acabar gozando mais liberdade que outros graças às estâncias superiores.

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