• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Não é porque (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Não é porque

Paulo Rosenbaum

07 junho 2016 | 12:19

 

Não é porque removemos o entulho que podemos aceitar tudo, não é porque fomos as ruas que nos submeteremos à qualquer faixa, não é porque o crime compensa que nos tornaremos cúmplices, não é porque o progressismo falhou que seremos adeptos do atraso, não é porque a vigilância está mais atenta que aceitaremos o Estado Policial, não é porque a contaminação é geral que a infecção é a mesma, não é porque estamos em casa que as ruas não podem reaparecer, não é porque quem deveria nos representar falha, que a representação faliu, não é porque estamos sem uma boia intacta que usaremos o penúltimo prego, não é porque eles tem foro privilegiado que a maioria merece injustiça, não é porque as indicações foram feitas que a contabilidade de favores pode persistir, não é porque o Poder nos insulta que precisamos recusar a governabilidade, não é porque eles são nacional-desenvolvimentistas que estão errados, não é porque persistem na seletividade dos alvos que aceitaremos tiro ao alvo, não é porque eles foram grampeados que todos nós recusaremos garantias de privacidade, não é porque elegemos heróis que nos cegaremos ao narcisismo, não é porque temos paciência que o inflamação não cresce, não é porque desejamos paz que abandonaremos os motins, não é porque empobrecemos que a dignidade passou a ser um luxo, não é porque perdemos a inocência que hostilizaremos a pureza, não é porque as prisões pululam que teremos equidade, não é porque estamos confusos que não reparamos nas cores, não é porque a corte é soberana que aceitaremos absolutismos, não é porque naturaliza-se a exceção que ela deixa de ser selvagem, não é porque falta civilidade que a cidadania está perdida, não é porque o outono se prolonga que o inverno será relapso, não é porque enxergamos a insanidade que perderemos a lucidez, não é porque estamos aflitos que cassarão nossa voz, não é porque a espiritualidade se desorganizou que submergiremos na matéria, não é porque tudo foi se concentrando que a distribuição será barrada, não é porque os bolsos da pessoa física não se encheram que usurpar o Estado deixou de ser hediondo, não é porque estamos quase paralisados que esgotamos a vitalidade, não é porque preferimos a tolerância que não seremos contundentes, não é porque quem obstaculiza a justiça é quem deveria promove-la que o delito prescreve, não é porque um timing se impôs que ele veio na hora certa, não é porque sou eu quem digo que todos os demais não possam sentir de forma semelhante, não é porque as crianças estão sem infância que nós temos o monopólio da maturidade, não é porque a anomia chegou que não precisamos de parâmetros, não é porque a justiça social se arrasta que ela não avança, não é porque a compassividade nos inunda que a parcialidade pode prevalecer, não é porque podemos entender as motivações dos perversos que eles devem ser tomados como vitimas, não é porque nossa passividade é ancestral que as paixões foram extintas.

E por que ainda estamos aqui, e não lá fora, para berrar não?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-e-porque/

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Da Ignota Culpa de todo Cidadão (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Da Ignota Culpa de todo Cidadão

Já carimbou? Pois não? O que nós, o Estado, precisamos te relatar? Agora é oficial. Terás que conviver com o terror, aceitar a usurpação, renunciar à integridade, rejeitar a transcendência e submeter-se à imanência sem consistência. Nem notaram? Já estão rendidos. O trator pode parar. Vossos corpos, ceifados, prontos para as empilhadeiras. Se não fosse Nice seria Jerusalém, Orlando ou Dacca. Por que insistir neste tema? Ainda acham que vosso infortúnio é pertencer a essa geração? Céus, é claro que não. E quanto às crianças? Elas, que nem tiveram essa chance? De escolher se queriam pertencer. Não nos cabe responder. Como você deve intuir nós não somos responsáveis por muita coisa além da arrecadação.

Esgotadas as possibilidades de qualquer coisa estável,  reduziremos tudo às oscilações. Ao progresso que se conserva. À conservação do nada que progride. Uma instabilidade é só prenúncio, quando vezes já repetimos. Vocês não assistem programas partidários?  E a velocidade digital e os artigos descartáveis? E as facilidades do desconhecido? O xadrez impessoal das Potencias? O núcleo duro do inadiável? Como vocês devem saber essas radicalizações rápidas não se curvam e ninguém mais pode decidir sobre nada seja quem for eleito? Alguém capturou o espírito destes tempos? Terás que compartilhar o horror. Viverás num estado de animação suspensa. Não te será concedida trégua e ainda assim serás coagido a reconhecer nossa hegemonia. O mundo não era má ideia, mas agora, convertido, tornou-se compassivo com os crimes. Nosso delito tem uma vantagem. Insuperável. Podemos nos perdoar ou mudar de discurso, tanto faz.

As vítimas? Ora, são culpadas involuntárias por algum delito, da indiferença social à ganância. Do indesculpável aval à prepotência do passado colonial ao segregacionismo racista. Atenuantes? Tente outra saída. Sempre acharemos um furo para os seus álibis.

Vosso destino? Serão explodidos, envenenados, bombardeados e manietados por uma destas causas ou todas elas em conjunto. Quem se importa? Você que não deu abrigo ao refugiado, que não foi solidário, que não fez doações, também não escapara do nosso radar penitencial. Se tiver a oportunidade de ser trucidado, desconfie de você mesmo. Se quiser achar teu algoz culpe sua natureza egóica insanável, afinal foi ela quem te colocou no paredão.

Cidadãos, ouçam, não é nada pessoal, mas este Estado aqui não mais te protege. Decidiu que têm muito mais o que fazer. Não se ofenda. É que elegemos outras prioridades. Por que você não foi consultado?  Você sabe distinguir a causa justa das suas necessidades pequeno-burguesas? Não? Pois é, por isso mesmo tomamos as rédeas e decidimos quais causas merecem precedência. Vamos resumir para que o Senhor entenda e memorize de uma vez por todas: o sujeito individual perdeu a importância. E o interesse. Deste ponto em diante nós só lidamos com multidões, rebanhos e lobos solitários. O Senhor vai insistir e protocolar uma reclamação? O nosso SAC encontra-se indisponível. Tente depois das eleições, até lá teremos novidades no guichê

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-ignota-culpa-do-cidadao/

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Não mais reconheço lágrimas (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Não mais reconheço lágrimas

Paulo Rosenbaum

31 Agosto 2016 | 15h54

Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia,

A sede de fim da folia.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-reconheco-mais-as-lagrimas/

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O reino amarrotado (Estadão)

14 domingo abr 2019

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O reino amarrotado

Paulo Rosenbaum

12 Novembro 2016 | 12h00

O que fazer com povos que não sabem votar? É assim que os fóruns se saem ao deparar com resultados desagradáveis que recusam as previsões. Se for mesmo preciso, troque-se o povo, mantenha-se o governo. Os consensos destes pequenos e poderosos comitês tem repulsa por resultados desfavoráveis ao prognostico. Trata-se de uma clínica peculiar, ninguém mais precisa consultar o enfermo. Basta sair de uma reunião com rumores e deita-los na mesa do chefe da redação. Escrevi faz algumas semanas que a polícia definiria as eleições. Influenciou, mas não foi decisiva.

A democracia serve desde que aqueles que escolhem sigam a trilha exigida pelos que se acostumaram a pensar por todos. A intelligentsia nos proporciona essas e outras benemerências por dó de nossa inconsistência, por compassividade com nossas lacunas intelectuais e penalizada com a ignorância popular que ainda não captou o valor do sacrifício. No dossiê fica claro, a falta de erudição da classe média foi a grande responsável por “franjas de rancorosos” e “bolsões de intolerantes” que não entendem o significado das próprias decisões. Esta elite acadêmica merece respeito pois poupa-nos do desconforto das escolhas que teríamos imensas dificuldade em fazer. Estes facilitadores do voto evidente de bom grado aceitam uma peculiar diversidade: a multiplicidade homogênea de opiniões. Em resumo, não tem tanta certeza de que todos estejamos preparados para a democracia.

Formadores de opinião são todos sócios nesta matéria. A credibilidade dos consultores políticos, cientistas sociais e institutos de pesquisa que analisaram as últimas eleições só não está arrasada porque os critérios para avalia-la evaporaram junto. Uma fumaça incomoda. O vapor penetrou no desejo de escolher pelos outros. Bom mesmo seria a ditadura dos corpos docentes. O wishful thinking que vem ocupando as cátedras. Suas expertises fariam toda a diferença se ao menos tivessem o aval para instalar o cabresto, leve, prático, não incomodaria e  seria descartável.  Mínimo, poderia ser levado até a boca da urna para depois ser descartado em algum beco sem saída. Seria, inclusive, biodegradável.

Decerto que os populistas estão em alta e a vida culta deveria zelar por práticas políticas mais civilizadas. Mas para os titulares da sabedoria, há coisas mais importantes em jogo como, por exemplo, preservar o status quo. Para isso, seria vital convencer todos — sempre se pode recorrer às  campanhas publicitárias com financiamento público — de que o establishment nunca esteve tão saudável. De que está tudo sob controle. É preciso reforçar a tese de que só há um lado enfermo, o resto está nas mãos da neurose, ou dos liberais, tanto faz.

Não foram só analistas, nem cientistas políticos ou a mídia: todos os critérios e instrumentos de predição ficaram em estado de animação suspensa. Isso significa que a escolha num pleito democrático deve prever a histeria da surpresa. E no manual, a saída de emergência está no primeiro parágrafo: “1- Em caso de derrota criar o clima da presunção catastrofista”. A adoção de 1 “repara o terreno” e ajuda a disseminar o item 2:  Afirmar veemente e persistentemente: “nós não dissemos?”.

Mas os dados de solo indicam que a aversão ao populista anti estético explicita como nunca a seletividade intelectual. A análise descarta a realidade e foge com a fabulação daqueles que monopolizaram o bem pensar. Não houve um só que previsse que as escolhas se afunilariam até o drama. Foi então que, num tardo reflexo, perceberam que para negar a trombeta seria necessário santificar o establishment.

Sempre funcionou, mas eis que a velha formula vem perdendo vinco. Que venha o reino amarrotado.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-reino-amarrotado/

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Silêncio dos órgãos (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Silêncio dos órgaos

Paulo Rosenbaum

14 Dezembro 2016 | 09h09

 

Sob a proteção do rei James I, Willian Harvey descobriu em 1628 a circulação do sangue em seu clássico “De Motus Cordis”— algum tempo depois de Miguel Servetus, que, sem protetores, foi queimado vivo pela santa inquisição e não sobreviveu para gozar a fama — as cidades se reorganizaram e foram arquitetonicamente dispostas de acordo com a função que o coração exercia. O principal distribuidor de sangue para o organismo – mas não único pois sabemos da rede auxiliar chamada de glomus — inspirou as transformações nas urbes.

De um ponto central saiam as várias vias, as quais, por sua vez, estabeleciam conexões e interligações, tais quais os vasos sanguíneos. A arquitetura copiava a fisiologia, a arte incorporava a natureza. Assim, não é nova a relação entre mudanças culturais e as descobertas da ciência.

As inovações científicas sempre influenciaram como a Polis e o próprio Estado deveriam funcionar. O filósofo e epistemólogo, professor da Sorbonne e sucessor  de Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, definiu saúde com seu famoso aforismo de que um estado aproximado de cura seria representado pelo “silencio dos órgãos”. Isso significa que, quando o organismo está relativamente saudável e em homeostasia os órgãos não gritam, não fazem alarde dos sintomas, são discretos e protagonizam, sem grandes esforços, aquilo que devem fazer para assegurar a manutenção da vida. Para existir, os seres vivos não devem nota-los em seu funcionamento.

A garantia deste processo tem como resultado um admirável trabalho harmônico entre os órgãos e sistemas de modo que eles se auto regulam, numa notável interdependência e impressionante autonomia. Nem sempre esta maravilhosa perfeição perdura e nem sempre a saúde se processa durante a estabilidade. Crises podem ser benéficas para corrigir uma disfunção ou evidenciar uma deficiência ou super eficiência.

Enquanto isso, outros órgãos podem ser obrigados a se desdobrar para corrigir o equívoco dos vizinhos que não estão cumprindo seus papéis. São obrigados a tamponar a má atuação alheia, de sorte que ao “regular o desvio de função de um sistema que não está indo bem” o conjunto de outros sistemas mudam, se reconfiguram sempre com a finalidade última de preservar a vida.

Há, neste sentido, uma inteligência vital e solidária que age autonomicamente e em função do todo. Não é raro que o drama envolva sacrifícios em prol da preservação da vida.

Como Edgar Morin explicou, a diferença entre máquinas e organismo vivo é que se um dos componentes da máquina falha, ela pifa, por sua vez, uma unidade vital pode sobreviver mesmo quando um de seus componentes falha. Pois está acontecendo, neste momento.

Quando ocorre uma dor desmesurada, o aparelho neurológico “desliga” o sistema, de forma a preservar o corpo do colapso completo: a morte. Se há um comprometimento infeccioso no pulmão como, por exemplo, o bacilo da tuberculose, o sistema imunológico, não podendo destrui-lo completamente, encapsula-o e calcifica-o, de modo que o bacilo pode até permanecer vivo, porém torna-se inofensivo. E, a não ser que a resistência caia a ponto de desmanchar a defesa e libera-lo para fazer o estrago nos organismos susceptíveis, as pessoas podem conviver com o agente infeccioso sem necessariamente ficarem enfermas.

Estas analogias serviriam para construir paralelos entre o funcionamento do Estado e o Organismo. A primeira delas é que não cabe ao Estado o papel de reitor onipotente. Mas tampouco se trata da ideia reducionista de encolher o Estado ao mínimo. Isso não mudaria seu status quo, pelo menos não a ponto de torna-lo minimamente eficiente caso respeitasse a função para o qual foi designado. Isso é, se não extrapolasse suas atribuições, se não impusesse leis artificiais e se não legislasse em causa própria. Mas, principalmente se não se comportasse como um órgão desgarrado do corpo, correndo o risco de se tornar um antígeno e precipitar a temida reação auto-imune, quando o organismo passa a estranhar seus próprios componentes.

O Estado tem sido recriminado e pode passar à condição de moléstia, porque, em oposição ao conceito de “silêncio dos órgãos”, tem feito muito barulho por nada. Pois desta atuação equívoca só podem brotar instituições com os mesmos hábitos e tendências. Estado e Instituições muito barulhentas tendem a impor seus perturbadores decibéis aos tímpanos da sociedade.

O Estado brasileiro em particular, voluntariamente desorganizado por gestões caóticas — não satisfeito em nos acordar de madrugada com sobressaltos, foi perdendo a noção de conjunto. Passou a considerar que pode prescindir do convívio harmônico entre os poderes. E sob o endogenismo autocentrado de cada um destes poderes, clausulas constitucionais vão sendo abolidas ou reinterpretadas, para, em estranhas concessões hermenêuticas, adapta-las às conveniências do instante. Soluções de varejo podem funcionar, provisoriamente, até que o próximo imbróglio sobrevenha.

O agravante é que essa atuação equivoca do sistema político partidário está sendo exercida com plena noção de seu significado. Exatamente porque o fisiologismo político acordou, e sabe que, numa perspectiva de funcionamento integrado e eficiente, teria sua hegemonia minada. Veria ameaçada a menina dos olhos dos governantes: a centralização dos tributos. Atualmente taxas públicas extorsivas com dividendos privados vingativos.

O Estado, unido em desfavor da sociedade, defende-se com unhas e dentes porque sabe que não resistiria à inspeção atenta da razão. Uma análise independente mitigaria seu alcance e reforçaria a ideia de que os distritos deveriam ser prioridade. Um exame crítico evidenciaria como o sistema político atual se tornou anacrônico e de que a solução, não sendo o Estado policial, estaria no combate à ignorância.

É exatamente esse o temor que domina o Estado escandaloso. Encapsulado, o medo é de que descubramos que ele é bem menos necessário do que faz supor. De que, assim como a vida, nenhum órgão pode prescindir dos demais sem infligir danos permanentes à vitalidade. Para que possamos respirar, o Estado vai precisar silenciar. Ou, calar a boca.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/silencio-dos-orgaos/

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Meditativo 1 (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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MEDIDATIVO 1

O Presente instante,

recusa adiantes
Desafio de principiante,
A constância da presença

Demanda expressa insistência

Estar já, aqui,

pressupõe reter o momento
negar o automático

Livrar-se da primazia do acabado
Move o sentido, atento

É o nada anterior, flutuante
Mescla fresca de sensações

Absorve do murmúrio interior
O conjunto de fixações,
As percepções Ambulantes

Suspender juízos,
Selecionar imagens
Voos seletivos,
Paradas, instantes
Comandos ignorados

de costumes desconhecidos

E dominantes

Representar-se, intenso

renegar a pressa
Para aqui, inteiros
Lançados na luta,

a principio, perdida

conter a dispersão permanente

recusar a condição persistente

aquietar-nos os murmurios

Até a resposta do Mergulho:

silencio ou barulho?
Preso no sonho
Das gaiolas imanentes
No forro da memória
Sopra, agora
Oscila, impermanente
Modula, afora

Embora o mundo
Imponha incondicional rendição
Que se fixe atenção
No existir sem imposição
Na Negação do estilo:

Notar, enfim, a distinção

colossal e discreta

entre efêmero e efemérides.

Processos e meta.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/meditativo-1/

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Agora Selvagem (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Agora Selvagem

IMG_8344

Em nossos tempos vigora uma estranha solenidade, uma cultura não explicitada e dias postergados para um momento onde tudo será resolvido à exaustão.

Os rumores são de que, ao fim e ao cabo, teremos um País mais limpo. Precisamos reforçar um aspecto da argumentação: não há um único equivalente moral para o desmonte sistemático do Brasil nos últimos 13 anos, mesmo contra o argumento — real — da centenária espoliação crônica. E a resposta não poderia ser a revolução histeria onde, depois da acefalia política e da terra arrasada um recomeço possível seria partir do zero, do atraso e da miséria. Colossal engano. Sim, os pactos ainda são imprescindíveis, e a base da sobrevivência política, vale dizer, do espírito político e da coesão republicana.

Duro admitir, mas a multidão impetuosa parece repetir inconsciente o desastroso refrão do desvio: “nunca antes na história deste Pais”. Quando a análise mostra que não há, e nunca houve um “nunca antes” muito menos um “nunca mais”.

 Sem precedentes, as sequelas da gestão desastrosa — que a atual tenta reparar ainda que ameaçando deslizar sob erros antigos  — serão mais longevas do que alguém se atreve dizer. Pois não existindo a sonhada restituição integral, devemos contar apenas com ressarcimentos de superfície, indenizações injustas e um legado de divisões maliciosas na sociedade civil.

Mas mesmo que a limpeza se processasse sob denuncias, castigos e chibatadas a higiene nunca garantiu pureza, nem a inocência, caráter. Houve um método, ativo, intenso, programado e, enfim, a democracia encontra-se mais uma vez vulnerável. As instituições tensas e confusas. Mesmo que resistíssemos à tentação do reacionarismo, nada justificaria esperar tanto tempo pelos desfechos. A metáfora é auto evidente, mostra que a República vaza no naufrágio do choque de poderes, os quais trabalham contra os interesses coletivos.

O clima está formado. Mas quem, senão nós? Ou não somos nós o clima do mundo? Ou já abdicamos do controle das responsabilidades?  É esta nave uma e a mesma comum embarcação? Ou a poesia — que jamais foi saída — é canoa solitária? O estado de animação suspensa, no qual todo vislumbre obscurece o céu com uma dimensão que nunca pode ser contabilizada. Estamos testemunhando épocas sem lastro, homens sem direção, e exaustão de ponteiros sobrepostos.

O retardo e/ou afobação da justiça acumula desvios dificilmente ultrapassáveis. A meta final substituiu educação por punição, ainda que nenhuma pedagogia bem sucedida poderá se basear em vingança ou penitência. Não, se realmente aspira qualquer transformação benévola. Por  isso, a equanimidade é uma neutralidade ativa, uma aquisição estoica, num contexto no qual os destaques máximos são promotores, juízes e réus.

Vale dizer, quanto tempo para que a justiça desça à ação, e ao ato conclusivo?  A predação parece mais astuta que a prudência, enquanto o clamor do instantâneo vigora sobre a morosidade de uma razão que se perdeu em desmanches progressivos, ou depoimentos de palanque. Isso, enquanto o mundo acompanha uma ruptura nas comunicações: parece só existir um agora, selvagem. Toda pavimentação longa, todo edifício estruturado, e qualquer perspectiva de futuro, soterradas pelas demandas imediatas. No mundo da reatividade e do tirocínio bumerangue, o Estadista prospectivo não tem a menor chance frente ao populista sem pavio. O anti diplomata dogmático obscurecerá a eficácia da sutileza instrumental. O mal estar na cultura deslocou-se para desafios inúteis, supérfluos e insuficientes, enquanto ela, a própria cultura,  parece seguir a mesmíssima rota da política: idem ibidem.

A esperança, assim como os processos históricos, também prescreve.

Nossa sorte serão os hiatos, as frestas, as brechas dos retornos à revelia. As tendências que atendam também ou principalmente ao mundo interno. Um renascimento tardio da subjetividade. Estará viva no não alinhamento automático. Em uma novíssima rede de novas pautas. Uma nova cultura que fosse capaz de superar a infantilidade contracultural e os desafios primitivos dos embates direita-esquerda. Na recusa pacifica a toda ideologia, e numa feroz critica à toda idealização. Que seja pelo reexame da experiência de cada sujeito. Demandas que, estáveis num meio altamente instável, impõem-se como desejos ou necessidades, pouco importa.

Podemos chama-las ou não de espirituais, de qualquer forma serão atuais e vitais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia
http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/agora-selvagem/

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Pessach para todos os êxodos do mundo (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Pessach para todos os êxodos do mundo

O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário. É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada. Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo.  Quem vai e quem fica? Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto. Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder.  Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação. O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo. E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas. Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos. É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados. Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-para-todos-os-exodos-do-mundo/

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Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina)

Paulo Rosenbaum

24 Maio 2017 | 09h40

Hipocrates (V-IV a.e.c)

Ninguém sabe qual será o desfecho para mais um episódio de anomia institucional. No entanto existem aspectos clínico epidemiológicos que ajudam a compreender o processo político nativo e esta quadra maligna a qual hoje tentamos atravessar.

Um deles é o conceito de redução de dano. O viciado em heroína — uma droga elaborada a partir da resina das sementes da papoula e que provoca adição das mais cruéis e letais — não pode ser privado abruptamente de toda droga sob o risco de apresentar um quadro dramático conhecido como síndrome de abstinência. Pode levar o sujeito à euforia, depressão, sintomas graves, podendo até progredir ao colapso, distúrbios neurológicos, cárdio-circulatórios incluindo um não desprezível risco de morte.

O que se faz nestes casos? Tenta-se substituir a heroína por outra substância, a  metadona, Também um poderoso opiáceo, igualmente narcótica, porém com repercussões clinicas muito menos graves e que permite, em alguns casos, manejar a situação por algum período. Quando bem sucedido, será possível retirar gradativamente ou diminuir de forma significativa a droga.

Antes de julgar e apenar este texto como maniqueísta ou pró partidário, a leitura atenta deve provar exatamente o contrário. Trata-se de fria análise diante de um quadro clínico grave onde toda decisão será difícil e até mesmo constrangedora, pois se trata, não mais das facilidades binárias de escolher entre o bom e o ruim, mas distinguir entre o mal e o péssimo.

Pois bem, o atual governo equivaleria à metadona em inicio de tratamento, enquanto a administração lulo-petista atuava e vem atuando de modo similar à heroína, e caso persistisse, mataria o paciente por overdose.

Isso precisaria ser amplamente compreendido pelos promotores e juízes sob pena de condenar o paciente, a nossa “Republica Federativa” à morte ou a uma prisão perpétua à revelia.

Outro conceito médico pertinente aqueles que querem sabotar as garantias constitucionais para fazer justiça é o aforismo herdado do hipocratismo “primun non nocere” cuja tradução seria “em primeiro lugar, não causar dano”, provavelmente ignorados pela procuradoria. Ainda outro aspecto clínico que os doutores em questão desconhecem é que nem sempre deve-se buscar a máxima imunidade, as patologias autoimunes estão aí para demonstrar isto, já que “máxima” pode significar desregular pelo excesso. Não tenhamos ilusões, o Estado clinico da República é de máxima gravidade, de UTI mesmo, e seja lá qual for o entorpecente, estamos todos intoxicados com as imagens, áudios maquiados e o exercício de uma hermenêutica de qualidade duvidosa, mazelas às quais estamos sendo impiedosamente expostos. Merecemos ou não algum tipo de salário adicional de insalubridade?

Pode-se recorrer à medicina mais uma vez para construir outra analogia. A homeostase é um fenômeno  clínico   insinuado pelo fundador da homeopatia Samuel Hahnemann, comprovado pelo pai da medicina experimental Claude Bernard ,e finalmente desenvolvido como tese pelo médico norte americano Walter Cannon, o qual cunhou o termo que em conjunto com suas pesquisas lhe rendeu um premio Nobel de medicina. Este fenômeno se presta a explicar as condições estáveis que o organismo precisa ter para conseguir manter o equilíbrio das funções corporais. Ele é quase equivalente à saúde e seus mecanismos adaptativos que executam muitas diante de um meio altamente instável, uma admirável atividade com a finalidade de preservar a harmonia entre aparelhos e sistemas orgânicos.

Isso significa que, mesmo num momento de alta turbulência, a sociedade também pode ser comparável aos sistemas orgânicos e deve encontrará meios de reagir/adaptar-se às turbulências naturais (moléstias e epidemias)  ou artificiais (armadilhas frutos de messianismo jurídico) . Os mecanismos de defesa podem sobrevir através de crises febris, eliminações violentas, sintomas agudos ou insidiosos. Alguns sintomas amedrontam, mas eles significam resposta, vale dizer, que o paciente está imunologicamente hígido e em plena mobilização das forças da sua vitalidade.  Mesmo assim, pode não ser suficiente, ele pode precisar de novo impulso para sair do estado defensivo e enfrentar aqueles agentes agressores, ou no caso da nossa analogia  pessoas ou partidos que desrespeitem a constituição. Como sempre, existem os piores que — aqueles que por exemplo sequer a assinaram — como é o caso do governo anterior e de seus partidos terceirizados.

Sem conseguir a estabilidade homeostasica, o prognóstico é mais ou menos previsível, desceremos a um quadro séptico generalizado, a tal infecção sistêmica.

Ninguém é ingênuo o suficiente para atribuir a vastidão da crise como responsabilidade única de Lula, PT e seus apoiadores, mas é evidente que, sob o discurso ideológico populista estes ativamente fermentaram o imbróglio, para que a massa danosa crescesse de forma descontrolada. Para, enfim, criar um banquete corrupto de proporções épicas, talvez sem parâmetros comparativos com outros escândalos da história política-policial mundial. Cálculos grosseiros indicam mais dinheiro desviado do povo brasileiro nos últimos 13 anos do que aquele empregado, por exemplo, no plano Marshall para reconstrução da Europa no pós  guerra.

Ninguém está mais digerindo o ativismo jurídico ou a lentidão voluntária com que os impasses estão sendo cozidos no vapor do caos. Antes que o grande vomito jorre até a boca e a anomia torne-se a política oficial, seria desejável costurar uma união cívica também sem precedentes. Agora é chegada a hora da legitima defesa e o único consenso possível que resta em nossa débil resistência é encurralar aqueles (incluindo instituições aparelhadas) que dominaram o Estado para desmonta-lo. Ou será melhor esperar a incineração sentados?

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E não te basta viver ? (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em E não te basta viver ? (Estadão)

Hoje você passou, nenhuma névoa se dissipou, mas tua mão acenou. E dai que o País está assim? Nós? Nós não estamos assim. Vivemos apesar dele, apesar de todos eles. Eles não são alicerces de nada. Esqueça a pressão, fuga, denúncia e concentre-se na poesia. Desconcentre-se na poesia. Mude de lugar a cada minuto. Este deslocamento não aliviará nada. As dores permanecerão. A decepção também. Mas o giro virá. O giro que permite ver o outro lado, e todos os lados, e as ruas em profusão, e as calhas mudas, a chuva de vento.

Eu te disse, e não faz muito: estamos juntos sem que você perceba. Sempre estivemos. Não há um fim para estradas, elas se dobram, mudam de nome, fixam-se em vias trifurcadas, mas não terminam. Tua dor é ver a bagunça, o caos induzido, a justiça escolhida? A minha é te ver sofrer por isso. Sempre foi assim. Nada mudou. O sem precedentes sempre teve precedentes. Tua vida não pode ser fixada por tabelas. Nem por enredos que não foi você quem escolheu. Não acredite em estímulos externos. Esqueça as manchetes. Concentre-se, mais uma vez, pela primeira vez, ao menos desta vez, nos detalhes. Nas pinturas não vistas, nos livros não lidos, na cor inexata de uma árvore. Não, isso não é meditação. Apenas uma ação para te tirar daqui. A Terra já é vasta. Muito mais ampla que tua imaginação. Esqueça o Cosmos enquanto você pisa no chão. Apague os buracos negros e enxergue a gruta. Abaixe as pálpebras e esqueça o Paraíso distante, o perdido, o resgatado. Atenção ao implausível. Essa grama ai, essa que você pode sentir sob os pés. Essa mesma. Ela não sumirá, nem o céu, nem o ar. Não sumirá agora.  Este céu irrepetível que muda no instante. Ao gosto aleatório de dados que não param. Tire o dia para não conferir nada.

O sabor da lembrança é uma fruta nem vista nem provada.  É um lugar que você nunca pisou. Uma trajetória da qual você não tinha, nunca teve, a menor ideia. Era para te levar mesmo a um outro lugar, e, num átimo, mostrar porque não podemos ter apegos.

Errática?

Pode ser

A alienação programada. Com tantos probos, ilibados, figuras notórias mostrando o rosto insinuando modestia. Conforme repetiu Montaigne;  e não te basta viver? Isso. Serão só alguns momentos com o si mesmo. Sem ligar nada. Sem precisar de nada. Sem mergulhar em nada que não seja um alongado agora. Exato, aniquile as nostalgias antecipadas. Nem finque pé em nada. A redoma serve para isso, mas quem falou em redoma? É só para aprender a viver sem eles. Mas, ao mesmo tempo, não abandonar a coragem.  A coragem é a garantia. Não me refiro ao heroísmo infundado. Mas à reafirmação da honra, precocemente esgotada,  pelas ideologias, pelas insinuações de consciência, pelo simulacros de política.

Isso é política?

A coragem é a única garantia que temos para enfrentar tudo, se for preciso, contra tudo e todos. O tom da conciliação não é de capitulação. Mas de um tonus que finda toda hegemonia. O que recusa o binário sem aceitar pré condições. Homens que abandonam suas estrelas para entrar na maré perigosa.   Mas isso não é tudo. Essencial retirar-se de cena. Participar como sujeito é rejeitar tudo que é impessoal. Um patrimonio feito de estoicismo e transparencia. A bondade com estranhos, a gentileza irrefletida, a boa vontade laica.

A maioria é silenciosa, temos ainda que viver por nós mesmos. A solidariedade só pode começar com a dor do resgate. O amor, pela vontade de permanecer. O horizonte, pela fusão de perspectivas. Neste que é seu dia oriente-se pelo banco de areia e abandone o pó. Tua vida depende disso, todas dependem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/e-nao-te-basta-viver/

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