• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Reparo e perdão (Yom Kippur) (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Reparo e perdão (Yom Kippur)

Paulo Rosenbaum

22 setembro 2015 | 16:27

Perdão como Bordão

Esqueçam simetria. Desfaçam equilíbrios. As balanças hoje podem perder qualquer relevância. Perdão é desrazão. Afinal, qual sentido teria conceder anistia sem reciprocidade? A concessão é irracional. A unilateralidade é enganosa. O bordão chamado perdão é perturbador. É quando nossa insônia precede a gentileza. Quando o humor enfrenta seus decretos. O desafio é lento e violento. Perdão poderia ser um método, uma instância operacionalizada na fraternidade. Antes de desligar, pense no desproporcional esforço para contratar o sentimento oposto. Habitualmente, escolhemos a disputa. Enquanto o ódio é uma meta, a tolerância não recompensa. O perdão nada repara. Há, portanto, um indulto que nos agrega e existem ofícios sem justiça. Por outro lado, precisamos reconhecer o imperdoável. Há uma ofensa contra todos os homens, imitigável. Nesse caso, perdão algum pode revogar o ônus. E o que entendemos de rancor? Para o talmudista devemos aprender com as crianças: “as crianças escolhem ser felizes do que estarem certas”. No repente pouco psicanalítico poderia nos ocorrer esquecer para avançar. Renunciar à pressa dos vereditos. A justiça exige espaço. Nós, pacificação. O perdão não trás quitação, cicatrização, anulação ou redenção. O perdão nos obriga a renunciar às certezas. Trata-se de fenômeno antinatural que confronta as leis da adaptação. Abrir mão dos argumentos é aceitar não julgar. Se a beleza do dia do Perdão nasce desse paradoxo, sua ética perdura pela simplicidade: viva e deixar viver.

Tags: Blog Estadão Rosenbaum, dia do Perdão, Reparo e perdão, talmudista, viver e deixar viver, Yom Kipúr

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/reparo-e-perdao-yom-kippur/

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Só as ruas esvaziam palácios (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Só as ruas esvaziam palácios

Paulo Rosenbaum

30 outubro 2015 | 10:11

RUAS_PALACIOS

A política, depois de percorrer um abismo sobrenatural, desceu ao inacreditável. É com ele que devemos nos acostumar. É um momento no qual toda análise escapa à objetividade. A leitura do quadro atual, saturada, alcançou um lugar comum:  tudo é insuportavelmente igual e a contaminação indistinta. Todas as visões confluem à superfície. Principiante ou veterano, tanto faz, qualquer um que se debruce sobre a atmosfera do Brasil atual não consegue ir além dos relatos descritivos, ou de narrativas ideológicas maquiadas de investigação jornalística. E não se pode simplesmente condená-los. É preciso compreender que um quadro assim pediria um outro sistema de notação. Trata-se de um método ainda não inventado. Pois o panorama não é o de um caos comum. Experimentamos uma estranha falta de esperança. Aquela que extingue toda perspectiva, mas subsiste em nossos corações e mentes.  Apesar de toda pancadaria, sobra algum fragmento de credulidade. De que outro modo explicar a naturalidade com que aceitamos a situação depois de tudo que testemunhamos? Estaríamos anestesiados com a intensidade do implausível? A franca espoliação do País nos legou a desvitalização. De colapso em colapso assistimos a desorganização. Anomia para a qual ninguém apontou solução. Temos que considerar com seriedade a hipótese de que pode não haver uma. As raras respostas se concentraram na saída da crise. E como sair de uma crise construída, que não pode ser alcançada sem a conivência de toda a sociedade? Só que reduzir o dolo a um passivo exclusivo do “outro”, nos coloca sob custódia de um juízo que ninguém domina. Viramos reféns da intolerancia e do maniqueísmo. E, principalmente, sofremos nas mãos de quem domina a ciência do marketing político. A regra do jogo foi erguida, vitalícia, para que ao marchar em falso, migremos sem sair do lugar. Uma educação foi forjada para obter gerações amorfas. Incapazes de sair sem incendiar algum patrimônio. Adestrados para avançar contra inimigos, sempre ao sabor da indicação de alvos pré selecionados. Ninguém por aqui carrega cartazes: “Nossa fome é de renda” nem “Onde está a infraestrutura?” Há muito o sentimentalismo e a paixão se tornaram o padrão para as adesões políticas. A racionalidade,  a análise e a decência são para os que ainda aceitam o contrato social. Esse vale só para o mundo externo. O poder abusa. Usa o belo discurso para gerar uma lógica auto-referente. O resultado desta didática empírica é cunhar uma única moeda, uma única linguagem, num único objetivo: acumular matéria e provendo todos os meios para obtê-la. Nas margens dos palácios dos três poderes, e, dentro deles, vigora a lógica do time, da corporação, do alinhamento automático. É bem mais do que um simples Cor X San, Fla-Flu ou Gre-Nal. Estamos submetidos a um regime de fidelidade mórbida. Ou seja, não importa o que aconteça com o País, não interessa a performance, tampouco a eficácia. E nem venha falar de ética. Por favor, não exiba os vídeos que certificam os crimes. Prefiro não ver. São montagens. É a sua interpretação dos fatos. Sua câmera tem lentes compradas. Isso mesmo, são pagas para distorcer a realidade. A realidade? Sou o único com a prerrogativa para classifica-la. Não estamos em Cuba ou Caracas. Estamos num lugar bem mais perigoso: no hiato despersonalizador. Onde oposição e situação combinaram um revezamento baseado na irresponsabilidade. A República é hoje um desmanche suburbano. Onde o poder emana do povo e será exercido à sua revelia. O Estado se virou contra a cidadania. O bom selvagem convocado desde o Instituto desceu das arvores para se vingar das elites, enquanto a burguesia arrependida ensaia seu último carnaval de rua. Quem apoia a violência como método, corta a própria carne para defender o opressor. E faz parte do malabarismo ocultar os nomes impressos nos passaportes. Mágicos  suprapartidários e transnacionais. A adesão acrítica pode ser analisada pelo prisma da ausência de horizonte. Afinal, a inércia também é uma escolha, senão a principal. Nesta letargia endossamos a paralisia. Só as ruas esvaziam palácios, porque, as vezes, a única forma de se libertar da insanidade é a convulsão.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/so-as-ruas-esvaziam-palacios/

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A pele que nos divide: diáforas continentais

14 domingo abr 2019

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“Ser poeta significa presidir como juiz a si mesmo”

             Henrik Ibsen

A pele que nos divide: diáforas continentais do poeta e romancista Paulo Rosenbaum é editado pela Quixote+Do Editoras Associadas

A Quixote+Do Editoras Associadas, editora mineira em atividade desde Março de 2017, lança “A pele que nos divide: diáforas continentais”, novo livro do poeta e romancista Paulo Rosenbaum.  O livro reúne poemas que para Lyslei Nascimento, professora de Literatura Comparada e Teoria da Literatura na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, ecoam a célebre lição de Carlos Drummond de Andrade: “penetre surdamente no reino das palavras, elide sujeito e objeto, chegue mais perto e contemple as palavras: ei-las impregnadas de múltiplos sentidos, em estado de dicionário”.

Para Nascimento, esse estado de dicionário da poesia de Paulo Rosenbaum traduz-se em “impensáveis palavras”, “levas de assombros”, “papéis pisados”, numa lírica tensão entre o que é exato e múltiplo simultaneamente. Para Wander Melo Miranda, que apresenta o livro, “este livro se afasta da orientação dominante na poesia brasileira contemporânea, apegada em geral ao que se poderia chamar de “trivial e corriqueiro” e “por isso o livro é uma espécie de Muro das Lamentações – “descontínua diáspora/livro de bilhetes” (“Ode ao Muro”) – que se ergue como testamento e presságio, conforto e desolação, linguagem e silêncio: palavra tornada coisa em si mesma”.

O conjunto de poemas aqui reunidos surge no momento apropriado, depois de Rosenbaum se firmar como romancista. “Diáforas continentais convida o leitor a experimentar o poder redentor das palavras, capazes de se perguntar sobre a realidade e, ao mesmo tempo, de promover um salto para o maravilhoso e o onírico – ou mesmo para o trágico” escreveu Fernando Paixão no prefácio. E para Nelson Archer, que assina o posfácio do livro, os poemas reunidos em “A Pele que nos divide” configuram-se como metapoesia crítica é , moderna e arcaica ao mesmo tempo, pois diz de sua própria condição judaica. O que Rosenbaum nos oferece neste livro é o proverbial sétimo dia da criação, aquele dia no qual nos dedicamos ao repouso dos músculos, mas não da mente: o shabbat perpétuo da poesia”.

Em mais um momento crítico da história, no qual surtos xenofóbicos e espasmos de truculência disfarçados de solução aparecem ao redor do mundo, um livro de poesias parece deslocado e rigorosamente desnecessário. Pois esta costuma ser a marca da resistência. Todo poema é um instantâneo que não se deixa abater pelo útil nem submeter-se ao necessário. Contra o vendaval de coisas passageiras, a poesia permanece. Afinal, ela é o registro de toda nossa invisibilidade.

Paulo Rosenbaum é poeta e romancista e escreve para o Estadão (blog Conto de Notícia). Médico, pós-doutor em Ciências, é autor de A verdade lançada ao solo (Record, 2010) e Céu Subterrâneo (Perspectiva,2016).

Ficha técnica

A pele que nos divide: diáforas continentais

Autor: Paulo Rosenbaum

Editora: Quixote+Do Editoras Associadas

Capa – concepção e design: Marcelo Girard

Miolo – concepção e diagramação: Caroline Gischewski

www.quixote-do.com.br

Assessoria de comunicação

Quixote+Do – Luciana Tanure

Celular/WhatsApp: (31) 98230-77-36

editora@quixote-do.com.brfullsizeoutput_493b

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A incrível história de uma obsolescência induzida (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A democracia’ o governo do povo, para o povo, pelo povo. Esse é o padrão, o slogan que todos nós fomos treinados a aceitar quando a palavra mágica DEMOCRACIA surge na testeira do jornal, tela do I pad ou no screen dos celulares, certo?

Poís algo muito plástico pode estar acontecendo com o conceito neste exato minuto. E não é apenas um mimetismo provisório, de ocasião, é mesmo um caso de mutação. A democracia pode não mais ser definida pelo sentido original que costumavamos atribuir à palavra. A ruptura é ampla e decreta, além de antecipar a instabilidade sobre o futuro próximo. O significante deslocou-se do significado dando origem às metamorfoses que passaram a servir muitos interesses, menos a quem mais interessa, a saber, a multidão, os beneficiados anônimos. Massas habitualmente magnetizadas pelo populismo ou desatentas a ponto de aceitar que se casse silenciosamente o único artício de voz que lhes resta.

Refiro-me às democracias que, a despeito de votações, referendos e sufragios, não tem seus desejos atendidos. Observem apenas — sem julgar o mérito da questão — a escolha dos ingleses pelo Brexit (e as subsequentes sabotagens do Casa dos Lords) , as eleições recentes no EUA e Brasil (e a histeria aprioristica generalizada) , a insatisfação crescente com Macron e Merkel (e as inssurreições semi anárquicas especialmente em Paris), e enfim o vergonhoso silencioso silêncio sobre as ditaduras de Maduro e Ortega.

E por que?

Os alodemocratas, estas lideranças inovadores e criativas deram um jeito de não atender as demandas populares em seus países sob as mais diferentes alegações. Por exemplo, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, conhecido ideólogo de inspiração marxista, recentemente revelou sua grandiloquente síntese: “vivemos em sociedades politicamente democráticas, mas politicamente fascistas”. Exatamente: o sistema é perfeito, quem não presta são os povos.

A justificativa cultuada por quem se alinha com este sistema de notação é notável: sem modéstia recorre-se ao mais puro maniqueísmo instrumental ideologicamente construído para afirmar que tudo que não for progressista é inferior ou simplesmente “mau”. Não é uma peça original: em função do estado de desinformação dos enormes contingentes de seres incultos contumazes, desconhecedores crônicos, eleitores inabeis e politicamente manipulados “mais desta vez vocês escolheram errado” grita o establishment para enfim profetizar — “Não se preocupem, nós retificaremos vossas decisões”.

Enganados, iludidos e sem conhecimento de causa elegeram um péssimo caminho, quando o que conviria seria mesmo aquele que o bom e velho establishment decretou como o bem personificado, mas como o único viável. O único que serviria para prosseguir com o projeto original, ainda que ninguém saiba bem o que seria isso. A ludopatia do socialismo utópico do “quase acerto”? O capitalismo de Estado que se orgulha de poder funcionar sem sujeitos livres. Portanto, o ingrediente chave para negar o que a maioria realmente deseja e expressa através dos votos parece estar se tornando um padrão. Ele se utiliza de uma espécie de justificacionismo que encontrou quase perfeita universalização no aforismo do Pelé.

Lá atrás o Rei do Futebol afirmara que o “povo não estava preparado para votar”, antecipando que nunca esteve, nem estará. Mas já que precisamos manter a gestalt há quem o justifique pois afinal foram gestões consecutivas do partido dos trabalhadores que nos trouxeram até o abismo atual, abismo que a deseleição corrigiu apenas parcialmente, uma vez que as forças, vale dizer, as torcidas organizadas derrotadas, a inabilidade e o neutralismo instrumental ainda formam um conjunto impagável, porém épico que se expressam através do coro nonsense:

“tomara que dê errado”.

Apesar do montante de irracionalidades, a democracia seguiria oscilante rumo a sua teleologia maior, conseguir acomodar os conflitos, assegurar segurança com liberdade e prover o bem estar da maior parte dos cidadãos de uma nação. Entretanto, a aristocracia residual em união fisiológica absoluta com parte da elite intelectual deliberou que o rumo deve, prudentemente, ignorar a opinião pública. Ou induzia-la a acreditar por persuasão sistemática. A outra fórmula teria sido arquitetada pelo conjunto de intelectuais e mentes brilhantes, apoiada por consensos censitários invioláveis e sustentada pelo longo histórico da tradição de instituições corporativas.

Foi assim que a fragmentação do poder foi sendo instaurada na República através dos perigosos e inflamatórios jogos de justiça. Atenção, pois não se trata mais da independencia de poderes. É outra coisa que está em cima do tabuleiro, os dados lançados numa mesa sem o conhecimento público. O jogo de bastidores, onde os escritórios do Poder centralizado emanam suas estratégias. E onde os segredos do “todos contra todos” são cultuados e desenvolvidos. É assim que, da direita à esquerda vem crescendo a indústria de intolerantes, terroristas avulsos com alcatéias digitais, além de novos e velhos bodes expiatórios, tendo como arquétipo obcessivo os judeus.

O ponto nodal para adrestrar as massas incautas é definir o quantun de consciência necessária para traçar o próprio destino um “povo” (um eufemismo para distinguir as massas dos bem pensantes) precisa ter para ter suas decisões chanceladas e, quem sabe, ter o direito de traçar o próprio destino.

A alternativa é ter a emancipação e a liberdade canceladas e, para isso, inventar um neologismo qualquer.

Que tal Alodemocracia esclarecida?

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-incrivel-historia-de-uma-obsolescencia-induzida/

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Céi a dois (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Céu a Dois

Paulo Rosenbaum

13 junho 2016 | 19:05

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

Tags: blog conto de notícias, dia dos namorados, O Paraíso revisitado, O primeiro amor

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O inexorável destino da arrogância (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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 O inexorável destino da arrogância

Paulo Rosenbaum

18 abril 2016 | 16:03

Não faz muito tempo. Na época vivíamos dias estranhos, torcíamos para que malandros destronassem sócios e ex-comparsas. Havia uma pseudo esquerda, que derrotada, chorava por uma antecipação nostálgica do que era só desejo de justiça social, aquela que nunca vigorou. Enquanto isso, uma direita obtusa comandava um espetáculo que nem lhe pertencia. Hoje, à distância do tempo, é difícil avaliar. Mas, a tragédia da experiência de poder daquele núcleo duro político, mesmo removido e posteriormente processado e preso, não mereceria comemoração. Açoitar a civilidade sem piedade costuma dar nisso. Somos forçados a escolhas que nem pedimos, nem entendemos. Mas é preciso impor particularidades. Não há normalidade alguma aceitar obstrução à justiça. Muitos diagnosticaram que aquele governo caiu pela soberba, o inexorável destino da arrogância.

Tudo começou há algumas décadas. Havia um sistema de castas. Políticos e personalidades tinham o que se chamava de “foro privilegiado” e os membros de um poder interferiam abertamente sobre os demais. A sociedade parecia hipnotizada pela culpa. Nenhum outro País ocidental tinha legislação tão benévola. Em nenhum outro rincão de mundo legislar em causa própria estava tão naturalizado. Todos diziam defender a democracia, que, como hoje sabemos, virou uma vaga noção polissêmica. Sem qualquer valor argumentativo. Ditadores e massas manipuladas os usavam abertamente para defender o que lhes conviesse. Somente em nossos dias soubemos também que nada teria sido fortuito. A brincadeira fiscal era um dos cernes do programa. O “exército industrial de burgueses desempregados” fazia parte essencial da arquitetura da desconstrução. Persistente e determinadamente a desorganização foi sendo sustentada e martelada nas cátedras, na mídia subsidiada, nas reuniões do Partido. Sob o lema já anacrônico na época — “destruir o sistema para reconstrui-los em outras bases” — as anti reformas eram impostas com tal facilidade que os agentes se diziam surpresos com a “mansidão incauta da maioria”. Os slogans se proliferavam para obstaculizar os debates. Com técnica e método tiveram êxito notável. Mitômanos e ingênuos, intelectuais e gente simples, era comum que todos aceitassem as armadilhas. Até que caíram na Rede. Bem que tentaram metamorfoses mudando de perfil, escondendo o currículo e a folha de serviços prestados. Alguns buscaram exílio, negados, pois não havia naqueles Países cláusulas de abrigo por crime comuns.

Alguém, a identidade correta sempre ficou indeterminada, teve a ideia inspirada em um velho livro. Penas alternativas não seriam suficientes para recuperar aquela parcela de políticos que cederam suas reputações aos crimes. Mesmo aqueles justificados como empréstimos para um bem maior. A cooptação e seu sinônimo mais conhecido, a corrupção tornava-se institucional. Era o preço a se pagar para fazer do jeito deles. Nas prisões comuns ou de segurança máxima ainda continuaram convictos em seus delitos. A pergunta que a sociedade se fazia à época era “por que a taxa de recuperação dessa gente é tão baixa?” Muito inferior do que a dos detentos comuns. Afinal, ali havia gente pouco educada, mas também aqueles que frequentaram escolas caras e pós graduados em grande centros do saber, nacionais e internacionais.  Estudos mostravam índices mínimos de recuperados e reintegrados à sociedade. Além disso, o cálculo para mantê-los permanentemente monitorados era um peso para o Estado. “As Cidades Reeducativas” surgiu como uma nova concepção. Só depois adotada por outros continentes. Nada mais dentro do espírito de uma nova formação do que condena-los a viver governados por eles mesmos. Estes presídios neo urbanos forjaram uma nova ideia de regeneração e um novíssimo conceito de reintegração social de agentes públicos. Banidos para sempre das funções administrativas para a sociedade, eram condenados a viver as vezes pela vida toda nestas cidades especiais. Gestores públicos devidamente protegidos, passaram a ser obrigados a estagiar lá. O objetivo era observar tudo que não deveria ser feito em gerenciamentos políticos. Um deles concedeu recentemente uma entrevista e sintetizou da seguinte maneira sua experiência: “Meu aprendizado lá foi ter percebido como eles enxergam a função do político. O surpreendente é que a maioria vê o Estado como um desvio de função. Me parece uma visão insanável. Falam sem parar. Dedicam seus discursos a família. O mais estranho é que têm ideias preconcebidas sobre tudo e não aceitam outras formas de enxergar a administração pública. Um deles chegou a me dizer sem nenhum constrangimento — e isso me fez perceber quão perturbados eles ficaram nos anos nos quais reinaram — que “se a sociedade não pode existir do jeito que nós a concebemos, melhor que ela não exista”. Foi proveitoso e didático, só não quero mais pisar lá, a arrogância me enjoou.”

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-inexoravel-destino-da-arrogancia/

Tags: arrogância, blog conto de noticia, blog estadão, Cidades Reeducativas, democracia, impeachment, inexorável destino da arrogância, o futuro, polissemica democracia

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Transitoriedade (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Transitoriedade

Paulo Rosenbaum

16 maio 2016 | 10:40

 

Instável, é como definimos o agora. Instável, o que vemos lá fora. Inadequado, o cenário não procede. Não sei se é por isso, mas pertencimento faz cada vez menos sentido. E se essa for a identidade? Um permanente não pertencimento. O direito ao isolamento. O não alinhamento. E se o poder for o fator de nosso esvaziamento? Recusar o estado dramático? Que escraviza pelo medo? O espelhamento hostil que degrada. Estamos saturados de sonhos cortados ao meio. Esfacelados por perigos ocultos e seu proposital rastro de opacidade. Cegos pelo infinito desleixo. E se só não desejarmos mais fazer parte? Tomar partidos? Recusar as conclamações? Faculta-se o direito de não opinar? E se as minhas percepções não precisarem de respaldo? E se recusássemos as histerias? Ou esquecêssemos ideologias?  Ninguém sabe: nenhuma facção oferece resposta. E se fôssemos menos atentos? Recuperar os sinais analógicos da convivência. Sem as digitais descartáveis. Sem o peso da coerência. E, se, desligados, cedêssemos espaço à alienação. Razão pura e sentimentalismo puro se esgotaram. Estamos na mesma nau, remando contra mares oblíquos. Embarcados de improviso queremos descer dos desvios de finalidade. Dos privilégios de consenso. Das instâncias superiores. Das nomeações de réus. Não enxergamos união onde ela inexiste. Exige-se honestidade que explicite conflitos. Eis o realismo imediato. E ele não é para todos. Com a melancolia antecipada, oscilamos na adaptação. É sôfrego constatar; nas horas decisivas, a responsabilidade é indivisível. A decisão, isolada. A ameaça, corrente. Empenho e aposta. Reformas e resposta. Tínhamos exclusividade, recusamo-la. A oportunidade, desperdiçamo-la. É mais do que justo condoer-se com a miséria e divergir na terapêutica. Relutamos, sem notar que a vida não incide lá atrás. Não há futuro sem o instante. Não é possível sofrer adiante. O tempo, vigente, único presente. A política não define mais ninguém, e os rótulos perderam a validade. Velhas vanguardas dormem no deja vu. A justiça já não representa o poder. Toda mudança é assim, pródiga em sustos. É preciso lembrar, se a felicidade esta nas relações e as inimizades políticas são circunscritas, o fôlego é provisório, e amizades devem sobreviver à liquidez do transitório.

_________________________________________________________________

Prezados amigos do blog e colegas jornalistas, convido todos para o lançamento do meu livro “Céu Subterrâneo” que acaba de ser editado pela editora Perspectiva. Trata-se de uma ficção escrita a partir de uma estadia em Israel e definido pela professora titular de literatura da USP Berta Waldmann, que assina a apresentação, como “Um Midrash brasileiro”. Também contei com a preciosa ajuda da Professora Lyslei Nascimento da UFMG que elaborou a orelha do livro. A lista de pessoas para agradecer é bastante extensa. Pretendo fazer isso pessoalmente. Então amigos, será dia 17/05 as 18:30 na livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo. Agradeço antecipadamente a quem puder vir, compartilhar e divulgar para outras pessoas.

Um grande abraço,

Paulo Rosenbaum

Convite - JPEG

Tags: blog conto de noticia, blog estadão, céu subterrâneo, ficção, impeachment, oposição, redes sociais, tempo e metáfora, totalitarismo, transitoriedade

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Eternidade do Instante (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Eternidade do instante

Paulo Rosenbaum

16 outubro 2015 | 18:35

InstanteXXXXX

Você pode não querer falar no assunto, entrar em negação, debruçar-se sobre o tema ou bloquear quem insiste, mas o fenômeno persiste: só temos a eternidade do instante. Num mundo de passagem para que insistir no conforto das coisas que permanecem? Se ao menos a arte de construir agendas fosse outra. Reparem, não há, nunca houve, nada sólido. Não me refiro ao materialismo, que dura e é solenemente subestimado pelos cultores de soluções políticas mágicas. Ou alguém viu um anti capitalista confesso atacar o culto à matéria?  As criações mentais dos homens são precárias. Tão frágeis que a história chega a perder o rumo. E bem na nossa frente, a não linearidade do momento. Sim, há um sentido para a história. Imediato, imanente e presente. Fantasie momento como uma espécie de neutrino extraviado. Uma unidade dispersa. Uma partícula que pode ou não se soltar do resto. Efemérides elásticas. Um vestígio que rompe com o antes, e logo se desfaz do depois. Por isso, o agora é único e premente. E, ao contrário da nostalgia, da memória que evoca, e do que foi nossas cansativas colaborações do que é o tempo, o agora é nossa chance de vida provável. Uma chance. Enquanto procrastinadores e antecipados estão condenados a perder, nós viemos para estar. E, se a política é a grande efeméride, deve ser desconstruida a cada letra, a cada segundo. Ela não manda, nem comanda, não importa o que o se diga. Toda fração de tempo merece ser vivida sem que ela determine tudo. Viver por ela é perder a ficção, que, ao mesmo tempo, é a realidade. Os super racionalizadores que nos perdoem mas ainda temos algum chão antes de abrir mão da fantasia. O instante é uma revelação, uma singularidade, a faísca do big bang. Expansão sem moldura. Que se negue a constância, desminta-se a rotina. Erga-se o tijolo da descontinuidade. Que o barro seque nos grãos da ampulheta. Numa erosão lancinante, o engano perdura duplo: passado e posteridade. Imaginem universos constituídos por “jás”. Imaginem percursos sequenciais que apagam pegadas. Sem negação ou oposição à eternidade. ,é que seu tempo não pode ser comandado pela liberdade. Dela, somos súditos passivos, inoperantes, resignados. O mundo da ação exige originalidade. Atualidade das invenções. Imaginem toda pauta reconstituída com atualidade. Imaginem-se na aventura inaugural do homem. Conceba uma política de esvaziamento. Abandono das ideologias,  conceitos, da toda vida baseada em rastros. Imaginem a vida liberta das arqueologias, das ameaças, dos rumores inquietantes, das promessas invasivas, da democracia aprendiz. Se fôssemos mais homens e mulheres do presente, desprezaríamos ao mesmo tempo o pó, o passado,e o futuro. Para quem só consegue enxergar hedonismo será preciso reconfirmar: todo prazer pode estar no viver aqui, já.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eternidade-do-instante/

Tags: blog conto de noticia, estar aqui, eternidade do instante, imanente, instante, já, neutrinos, singularidade

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Não mais reconheço lágrimas

14 domingo abr 2019

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Não mais reconheço lágrimas

Paulo Rosenbaum

31 Agosto 2016 | 15h54

Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia,

A sede de fim da folia.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-reconheco-mais-as-lagrimas/

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Indócil liberdade (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Indócil liberdade

Paulo Rosenbaum

29 junho 2016 | 16:11

“Constranger: as três primeiras acepções. 1. compelir, (à cabralina, braço forte, sob pretexto, contra a vontade)  2. restringir (inibição, restrição, refreio, percluso, coibitivo) 3. acanhamento. (modéstia, comedimento, humildade, arder o pejo nas faces pudibundas, envergonhar-se, atomatar-se, ficar cor de pimentão, desprezar a popularidade)”

Quer saber notícias? Elas não são boas. Isso é, depende da versão. Há uma espécie de dependência química de versões que vai sempre depender do que você quer olhar. As analises tem um único mas gravíssimo defeito, o analista. Todas estas consequências se devem à causa? Mas que causa é essa perguntou um estudante? Aquela que só nos inclui nas vicissitudes? Aquela em que o publico e o privado, emaranhados, estão dando nós?  Estamos cheios de razão, assim como cheios de versões para dar. Mas haveria um suporte unívoco para explicar o quadro? Algum aparato humano que nos aproximasse — por convicção ou exaustão — de uma versão menos viciada, menos cheia de nós mesmos? Haveria uma interpretação cuja neutralidade fosse tão intensa que a transparência de sua índole bastasse?  Alguma que nos trouxesse a verdade? Ah perdão. Já ia me esquecendo. Não há mais verdade alguma. Ou, melhor, ela está onde ninguém ousa pisar. Em nossos tempos a relativização transcendeu Einstein. Um ativismo relativador pronunciou seu veredito: nada pode ser considerado como vero. No máximo verossimilhante. Nenhuma boca pode ser considerada pura.? E, já que não há mais verdade (e pelo visto, nem mesmo critérios jurisprudenciais respeitáveis) podemos nos considerar liberados. Livres para opinar. E quando opino o que me concedem não é só a liberdade poética para tecer uma tese como expor todos meus nervos impregnados com o cinismo da incerteza. Este que vemos em declarações sucessivas depois das denuncias. Este, quando, às vezes pode-se ouvir no final dos noticiários: “nossa produção tentou, mas não conseguimos contato”. Estaremos naquele denial de proporções patológicas, geralmente profetizado e reservado para final de ciclos?

E, de quem estamos afinal falando? Deve, tem que haver, algum consenso mínimo que nos permita dizer quem são eles. De qual material são compostos? Ferro e aço? Serão autônomos que servem à revolução. Que nos execram, digo, nós a sociedade, os chupins aposentados da Nação?  Poderia usar a ironia, mas me assusto com as possibilidades de que estejamos tangenciando a verdade. Os que desinformam, os que violam, aqueles que, ao enunciar diálogo, decretam as conversas? Talvez o tempo tenha escolhido outro ritmo. Talvez nem mesmo o senso comum nos recoloque em acordo. Acordos pressupõem deposição das armas, e, como se sabe, espíritos customizados não se movimentam. No País inaceitável defende-se atentados, impedir professores de exercer seus ofícios não é crime, e torcer pela falência do sistema é uma atividade docente. Quando reclamamos da anomia ninguém suspeitava que o contraponto seria um Estado Policial ou a volta do arbítrio. E ele voltou, pela porta lateral. Na mão de um único poder despejou-se a constituição.

A liberdade, esse bem máximo, pode ser um insulto do lado errado das grades. Mas, mesmo assim, estão a nos persuadir diariamente: as instituições funcionam, o País goza da mais perfeita normalidade, as leis observadas. De um telescópio, em Órion. Eis que viola-se mais do que uma constituição por dia. Mas há algo neles muito mais imperdoável que tudo: nos fazer colar na tela para torcer pelas prisões, debates estúpidos, mentiras de ocasião, propaganda enganosa, corporativismo, seleção de palavras vazias, calada da noite, cargos comissionados, cultura suspeita, gritos estudados, histeria no senado, mortes sem sentido, poesia rebaixada, manchetes encomendadas, balas extraviadas, dossiês cruzados, filas de pedintes, pais sem oficio e mães perdidas.

Ajudaria admitir que o Mal tem alguma existência real. E ele está solto. Não só fora das grades, mas cooptando vozes e ameaçando a liberdade de centenas de milhões. Já me belisquei para comprovar. Não é delírio, mas pode ser um conto do Machado de Assis. Está em “O Alienista”. Há ali algo que está muito perto de se cumprir, para bem além da metáfora. Estamos todos em cana para que um punhado deles usufrua o espaço, limpo de gente, desinfetado das vozes que se opõem, higienizado por leis autocráticas. É duro assumir, mas o País é um imenso constrangimento ilegal, o problema é que só alguns pedidos chegam às cortes. Não é difícil ser inteligente ou santo, o difícil é ser justo.

É aí que me levanto e me ponho a postos. Dá para sentir que tudo pode mudar. A liberdade é uma entidade apressada e pode se tornar indócil.  Precisamos esquecer que somos pacientes e convencer o carcereiro. Uma hora dessas ele esquece a chave na fechadura.

Tags: “O Alienista”, blog conto de noticia, constrangimento ilegal, democracia, indócil liberdade, jogo democrático, lado errado das grades, Machado de Assis, o direito é justo?, o que é justo?, prisão e legalidade, timing da justiça

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