• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Contrariando Kafka: Israel e o dever do mundo. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

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Contrariando Kafka: Israel e o dever do mundo.

                                  Paulo Rosenbaum

“Ouço o hebreu que lê suas Crônicas e Salmos”

Walt Withman

Hoje a noite é Yom HaAtzmaut.

Dia da Independência. Dia no qual um país muito pequeno, de apenas 10 milhões de habitantes, tornou-se livre e soberano.  

Não é obrigação do mundo amar Israel, mas é dever moral do mundo deixar que Israel viva. O fio condutor da nação hebraica não é afinal a cultura, a ética, nem mesmo o código civilizatório, mas um Livro.

Sem esta compreensão, a paz absoluta será sempre um delírio. Mas a paz provisória pode ser real. Desperdiça-la sempre será um erro.

Mas para isso é preciso impor condições: em primeiro lugar é obrigação da civilização exigir que devolvam os reféns sequestrados.

Em seguida não permitir o que tem sido feito com os judeus, desumanizar todos aqueles que desejam e lutam genuinamente pela paz.

É, portanto, um dever moral da humanidade levantar a voz contra o totalitarismo antissemita e todas as formas de intolerância que só faz crescer seus decibéis e garras toda vez que, preguiçosamente, o mundo decide silenciar.

Tem sido perturbador observar a inércia e capitulação de parte da humanidade em relação às justificativas do uso do terror como ferramenta política. Pois, ao fim e ao cabo, no caso dos extremistas que governam Gaza e os exércitos proxys dos aiatolás, não há, nunca houve um objetivo territorial crível nas negociações. A meta nunca foi a paz justa, mas a insanidade arrogante do triunfo total: a extinção de Israel e dos judeus.

Um mundo que não contasse com Israel seria um mundo sem sentido. A preservação de Israel é, sim, um compromisso moral do mundo. Não apenas pela necessidade de permanente redenção moral em relação à tragédia da Shoah (o holocausto), mas porque a autodeterminação do povo judeu exige tanto respeito e apoio quanto a dos demais povos.

É preciso denunciar a manipulação da linguagem: a palavra sionismo transformou-se num álibi, numa saída alternativa para legitimar a ignomínia racista: desumanizar e insultar os judeus mundo afora. Chama a atenção o uso dos símbolos históricos da esquerda por parte de gente que é abertamente homofóbica, misógina e não tem um pingo de apreço nem pela democracia nem pelos direitos humanos.

Basta recorrer à história. Israel foi atacado em 1948-49, 1956, 1967, 1973, 1982, 2006, 2023 até o presente momento. Neste último, em sete fronts distintos, uma consequência direta do massacre contra civis no sul de Israel.

E eis que se trata de uma nação reconstruída depois de um longevo exílio imposto de 2.000 anos. Um País que ressurgiu sob a insígnia do esforço coletivo de pioneiros com ideais sociais-democratas que inventaram a posse coletiva da terra com os primeiros Kibutzim e viabilizaram uma região onde predominavam os desertos.

E como explicar esta expansão desproporcional da desinformação acerca de Israel?

Porque funciona!

Funciona como manobra diversionista. Funciona para apontar o Estado Hebreu como o bode expiatório vitalício. Funciona para servir como causa para as causas ideológicas perdidas à esquerda e à direita. Funciona para as redes antissociais e suas legiões de impulsionadores acríticos. Funciona especialmente para ludibriar as massas sem perspectivas.

Israel promoveria extermínios em massa? Ora, é quase enfadonho repetir. Basta debruçar-se sobre os números: o crescimento populacional da população árabe desmente qualquer tese de genocídio e a inserção dos 2.2 milhões de árabes israelenses na vida do País é uma prova auto evidente que renega a ridícula acusação de apartheid.

O massacre de 07/10 praticados pelos terroristas jihadistas no sul de Israel apenas fez a verdade eclodir. Um canto foi exaustivamente verbalizado pelas hostes criptonazistas: não permitiremos nem que Israel, nem que vocês, judeus, existam.

Contrariando Kafka: devemos reafirmar o poder da esperança. Não adiante, já! Afinal, os fanáticos ainda não são a maioria, e quem renasceu das cinzas conhece o outro nome pelo qual a fé atende: convicção da esperança. 

Enquanto isso, permaneceremos lendo Crônicas e Salmos.

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Desta vez, começaremos com as Brancas. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Desta vez, começaremos com as Brancas.

Paulo Rosenbaum

“A tolerância se torna um crime quando refere-se ao mal”

Thomas Mann

Somos as vezes surpreendidos, com eventos inesperados. Acidentes. Conflitos vindos do nada. Tempestades súbitas. E ameaças que se concretizam: o incontrolável. Mas há uma outra alternativa: antecipar-se ao que pode ser antecipado. Não viver reativamente. Dar início. Romper com o jogo ação – reação.

É chegada a hora, sejamos contundentes. O que é que vocês esperavam?

Que sentássemos até que vocês viessem novamente e roubassem mais vidas? Mas notem bem, há uma vida que não pode ser anulada, o registro das memórias. Ela contém a vida dos milhões que você e os seus cúmplices tentaram inviabilizar século após século. Em tempo, doravante recusaremos o papel da boa vítima. A boa vítima é aquela que tenta agradar seu algoz com boas ações. No nosso caso a outra face não está disponível, nem à venda. Não somos vítimas no sentido estrito do termo. Deixa-se de ser vítima quando não se espera mais nada de ninguém. Renunciamos ao papel de vítimas porque nos libertamos do jugo da paciência.

E agora, somos gratos, esta geração iracunda que vive pelo ódio anônimo nos fez amadurecer uma convicção: daqui para a frente seremos veementes, seremos veementes como agentes de nossa própria história.

Uma palavra para os oportunistas e quinta-colunas: até os kapos, aqueles serviçais dos nazistas, eram mais coerentes, afinal tentavam sobreviver. Vocês? São voluntários insignificantes. O que o traidor ignora são os rastros que deixa. As pegadas. Os colaboracionistas apostam no aplauso e na glória fugaz. Mas os registros ficam: os vídeos das marchas com multidões ostentando bandeiras do terror, tua performance nos campi universitários encurralando e linchando estudantes judeus.

Será necessário recalibrar a liberdade, formular uma dosimetria jamais vista, e mesmo que a justiça tarde, acontecerá. Será um julgamento de proporções inéditas.

Por quê?

Porque pela primeira vez na história contemporânea as marchas ecoaram apoio à degola de bebês, estupro coletivo, incineração de pessoas vivas, vivissecção, e a celebração do massacre, não como vingança, mas acompanhada do gozo histérico. O triunfo da pulsão da morte. O culto a thanatos. Tudo isso já havia acontecido, jamais nessas proporções. E quanto aos reféns? Expliquem-me como os terroristas e seus cúmplices conseguiram naturalizar que eles estão com 58 sequestrados, entre vivos e mortos?

Se me incomoda ver os civis da Faixa sofrerem? Evidentemente. Mas há um abismo moral entre a vítima e o protagonismo daqueles que massacraram 1.200 civis durante um festival de música. O agressor assassina e berra “assassinos” para o outro lado. Acusa de genocídio quando ele mesmo explicita suas intenções genocidárias. É uma versão do que, por aqui, conhecemos como o famoso “pega ladrão” alardeado pelo punguista como despiste enquanto foge com o fruto do seu roubo. Não há portanto equivalência ética entre quem usa sua própria gente como escudo e aqueles que, apesar de tudo, ao fim e ao cabo, lutam por sua gente e, ao mesmo tempo, preocupa-se em tentar proteger aqueles que são meros anteparos humanos. Imagine, apenas imagine, se a mesma força e empenho do bloco de nações que pressiona Israel fosse redirecionado a obrigar os inimigos da humanidade a devolver os cativos e acabar com a guerra? A guerra terminaria amanhã. Mas as nações hibernam, torcendo que o mal desapareça sozinho. Não compreenderam a frase dramática de Thomas Mann de que “a tolerância  se torna um crime quando se refere ao mal”. Enquanto nas ruas do ocidente temos marxistas armados e o islã radical unidos pela mesma causa, quem diria? E esta incompreensão tem um custo que vai muito além da segurança de apenas um povo, ameaça nossa concepção de liberdade, de direitos humanos e de democracia. É incrível que não se compreenda ainda que os judeus são apenas a faísca para um incêndio de grandes proporções.

A grande novidade desta quadra histórica de perseguição religiosa (pois é o que é) é que o desfecho será outro. Não será aplacado pelas mentiras que os diplomatas costumam contar uns para os outros. Nada, absolutamente nada, poderá deter o que se avizinha. Não é ameaça. É apenas o anúncio público de uma nova atitude existencial e as suas consequências. Análogo ao de uma pessoa que teve a experiência de quase morte, ou EQM. Todo sujeito que emerge do referido estado volta completamente transformado.

Os judeus da Terra acordaram assim no dia 08 de outubro de 2023. Saíram da letargia para a ação. Saíram das cordas para a renovação da luta. Saíram do gueto eterno para, se preciso, enfrentar o mundo. O mundo no qual uma minoria estridente move uma abjeta campanha de desumanização. Num processo lento, mas progressivo, há décadas as instituições foram cedendo espaço ao discurso, (e ação) de ódio contra judeus. Dentro e fora das faculdades. Trata-se, na verdade, de um renovado pacto filonazista, o qual, a despeito das transformações cosméticas conservou seu núcleo duro.

Se a tua conclusão é a de o povo hebreu abandonou o pacifismo numa cultura dentro da qual o livro principal menciona a palavra shalom 236 vezes, você, mais uma vez, errou.

O mundo quando sóbrio é avesso ao terror como ferramenta política. Acordamos sobressaltados pelo pesadelo coletivo e fomos todos coagidos a virar enxadristas, mas desta vez, começaremos com as brancas.

Moveremos a primeira peça, daremos o primeiro saque, largaremos na pole position.

Enfim, agora é um absoluto: determinaremos qual será o jogo.

Será um torneio emocionante.

As regras? Ainda estamos confeccionando o material.

Aguardem.

______________________________________

Leia também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/contrariando-kafka-israel-e-o-dever-do-mundo/

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Enigma da justiça e a legítima defesa (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Enigma da justiça e a legítima defesa 

E por que deveríamos explicar?

Eles fizeram todo o barulho.

Instigaram as massas

Induziram as redações ao erro

Moldaram a insanidade.

E contra todas as evidências você lhes concedeu

O benefício da dúvida.

E cabe a nós explicar?

Por qual motivo o faríamos?

Deduza sozinho.

Por que daríamos satisfação a quem sempre tripudiou de toda argumentação?

Justificativa após justificativa contra vossa convicção automática?

Quem nos incumbiu de debelar tua crença dogmática?

Existe um tumulto ancestral em nossos corações.

Uma multidão de pessoas em cada um de nós.

Cada uma delas tentando entender o que ninguém pode explicar

Mas uma delas, apenas uma, a anciã,

Levanta mais cedo e vira porta voz.

Quando ela fala, o respeito é máximo.

O que ela expressa, estremecimento tácito.

Ao denunciar o mundo simula despertar.

Como toda consciência súbita

Fugaz até voltar à letargia.

O que as praças, as ruas, e o teu patético teclado desejam?

Alinhar-se ao regime tirano?

Que esperássemos por novas imolações?

Que a hidra de lerna migrasse para a vizinhança?

Para mais uma solução final?

Resignar-se com o extermínio não é uma solução.

Desta vez a barbárie ficará fora.

Um leão esgotou a complacência

Heroísmo é inverter o pensamento.

Sustentar a verdade contra o mar de desinformação

E poucos sobrevivem para testemunhar o resultado de seus feitos.

Hoje, homens, mulheres e crianças, trancados.

Dormitam intranquilos nos abrigos.

Por que? Para que?

Para acordar e respirar.

Não é incrível que a solidariedade seja tão rara?

Tu te escandalizas com a negligência do ocidente?

Ou cegaram-se, para contornar a verdade com a narrativa?

Para eximir-se do jogo que fizeram!

Tarde demais.

A prova está no domínio do mercado de consciências.

Levar o crédulo à perplexidade pode ser perigoso.

A profecia de Wiliam Blake:

No mercado onde se vende a verdade ninguém vem comprar.

Enquanto eles permanecem famintos por nós.

Já olharam as bandeiras que carregam?
A aversão à luz?
A impermeabilidade ao amor?
A obsessão pelo físsil?

Céus! É pura aversão à luz

Impermeáveis ao amor

E obcecados por material fissíl?

Como isso entra na tua aritmética?

Por que raios precisaríamos te colocar a par?

Como se ocupar de tanta covardia?

Conhecemos o cinismo das nações

Caçando a razão com tochas de piche.

O escudo não é de ferro, apenas  inarredável convicção

Uma forma que criamos para que o mundo pudesse amanhecer

Acordar sem os incêndios selvagens.

Por que deveríamos explicar a legislação

Para quem crê personificar o Estado?

Nossos dias estão contados, não nossas vidas.

Não vou comprovar teses ou analisar conflitos,

Rabiscar cartografias já conhecidas.

Só avisar que a defesa é a única medida justa.
Por que eu discursaria sobre nossa autoexplicativa invisibilidade?
Ela é autoexplicativa.
Somos do mesmo tecido que o benfeitor,
E únicos como ele.
Por isso, o singular vale mais do que Estados inteiros.
Poderíamos sentar todos como uma família,

Mas nos disseram que não espaço nas vossas mesas.
Estão ocupadas com o vil e valores.

Vulneráveis, escolhemos sobreviver nas bolhas.

E hoje resolvemos explodi-las.

Porque não nos poupou da obsessão

(e aprendemos como o êxito alheio te provoca)

Entendemos que espalhar nosso conteúdo é a garantia de sobrevir.

Eis que seguiremos à revelia das tuas permissões.

Perguntas do nosso passaporte?

Estão nas pilhas de papeis que criamos.

Vivemos por e para o sentido.

Ai esta, enfim, vossa explicação

Chame como quiser, hasbará, krav magá ou chatima tová.

Declaramos o fim de uma era.

Nossa existência prescinde da tua anuência.

O nunca mais jamais será novamente explicado.

Nem aqui, nem nos mercados

Assim nasce um dos enigmas da justiça:

Israel é sua legitima defesa.

________________

Leia também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/a-travessia-de-m…trega-das-tabuas/

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De Moisés para o Mundo. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/de-moises-para-o-mundo/. Dom, talento e vocação:

De Moisés para o Mundo

Dom, talento, vocação

.A vida tem um jeito estranho de nos informar que, não importa a sofisticação dos cálculos, a acurácia da metodologia ou a racionalidade aplicada, sempre seremos pegos de surpresa.

Se você pensa que a páscoa judaica refere-se somente aos judeus, decerto há um grande engano. Ali houve um dos momentos que quebrou os paradigmas conhecidos. Um código de ruptura nasceu ali. Houveram outros nascimentos, na cultura, na ciência, nas artes.
Mas ali houve algo seminal, que pode ter determinado, inspirado e criado as condições para muitos outros desdobramentos.

Não só a história não chegará a um fim, como está decretado: há um estado permanentemente errático das coisas. Há uma névoa de desorganização cuja lógica não conseguimos distinguir. Mais uma vez, por mais previsível que tudo parecia ser, o mundo apareceu com mais um lance de dados inédito. Me refiro à anomia, à confusão no mundo, ao populismo e especialmente ao fanatismo fundamentalista que parece estar dando as cartas (e votos) mesmo nas nações mais industrializadas do planeta.

Moisés, membro da tribo de Levi, antes de ser Moisés foi filho de escravos, foi filho adotivo do faraó, foi chefe de obras no Egito, foi o favorito de Ramsés, e surpreendido quando descobriu sua própria origem revoltou-se com a servidão do seu povo, teve a pena de morte decretada, foi um foragido, novamente escravo, migrou para o norte da África , e, descobri recentemente, tornou-se um lider e Rei da Etiópia. Toda essa longa trajetória para enfim voltar para receber uma missão.

Como afirmava Jonathan Sacks existe o dom, o talento, e existe a vocação. O dom é uma habilidade inata, assim como o talento que, em geral, podemos ver despertado na primeira infância, aquele que muitos desenvolvem à genialidade, enquanto outros apenas preenchem carreiras.

Já a vocação aparece quase à contragosto, quase com estupefação. Ela vem e se impõe quase à revelia do sujeito. Surge de onde menos se espera e interpõe-se entre a vida e o sujeito. A vocação é uma espécie de decreto que muitas vezes carrega o sujeito para longe do seu desejo e faz com que ele seja arrastado em direção a uma missão ignorada. Uma missão incompreendida perante a temporalidade ordinária ao qual estamos submetidos.

Moisés, ou na versão hebraica Yekuziel, foi um sujeito múltiplo, tão múltiplo que nos trouxe o pentatêuco com seus milhares de desdobramentos.

Notem que os registros ali não são apenas narrativas, são os percursos históricos, vivenciados por milhões de testemunhas. E a essência de Pessach não se limita a liberdade que os filhos de Israel conquistaram ao se libertar do jugo egípcio. Mas sim seus efeitos colaterais: achar seu próprio caminho, assumir a responsabilidade de ser, agora sim, sujeito da própria história.

Sabem por que essa não é a mesma páscoa de sempre?

Não é porque fomos duramente castigados de todos os lados de uma forma tão infame e tão generalizadamente que quase escapa à qualquer capacidade analítica tradicional.

Não apenas porque desde o fim do holocausto o dilema se interpôs aos judeus de uma forma brutal, inapelável, incontornável, mas porque agora os obrigou a escolher. E dentre todas as escolhas aquela que ira definir o futuro. Passividade ou ação? Submissão ao terror ou resposta? Qual resposta? Como resistir a uma demanda de que o ódio é um caminho aceitável?

Não sucumbir ao ódio e ao desejo de vingança é uma destas charadas que o destino impôs.

O outro, muito mais sofisticado, é saber como recolher os cacos sem se cortar neles. Sem que os drenos de energia violenta nos sangrem a alma. A alma que precisa voltar a ser reconhecível. Voltar a ser o elemento peregrino de calma e reflexão. E até conter um elemento estoico da imperturbabilidade.

A liberdade, esta que seria a tônica original da festividade da páscoa. E esta Páscoa pode ter migrado para uma novíssima ideia, deslocou-se para uma perspectiva que transcende o auto-domínio, a ausência de opressão e até mesmo o livre arbítrio.

O triunfo da liberdade, a qual costumávamos achar um direito natural mostrou-se subjugada pela ação predadora de maiorias que perderam o sentido original.

Essa é uma Páscoa diferente de todas as outras não porque continuamos a demandar o que parecia ser o direito natural obvio: que sejamos livres, mas porque compreendemos que não há nada garantido.

E o senso de imprecisão nos leva a uma regressão inusitada, talvez benéfica: nos conduz a uma humildade muito primitiva. A humildade que fez com que Yekuziel fosse o escolhido para receber as instruções do Grande Quem.

Sim, ele que foi muitas coisas, que teve uma grandiosidade que se foi se estabelecendo de forma orgânica, que teve muitas vidas distintas, que preferia não ser o líder, que arguia o seu Mentor celeste com uma naturalidade desconcertante. Sim, foi ele mesmo que teve a vocação promulgada. Moisés foi conduzido a um posto nunca aspirado.

Mas posso ousar responder: se você for chamado não resista, essa é a única liberdade que te espera.

Essa é a liberdade de saber que seus dons estarão sempre sujeitos ao chamado da vocação. E se ela te chamar, ah se ela te chamar: ceda.

Não postergue, não negue, nem tente resistir

Se a vocação te escolher, aceite. Acate. Abrace.

A alternativa a isso é a luta invencível.

Você pode até tentar, mas até aqui não há registro de vencedores.

Há uma liberdade à espreita, ela tornou-se inadiável.

E o Pessach é uma chance única para chama-la de volta.

Chag Pessach Sameach! Feliz Páscoa!

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/

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Dia Internacional em memória das Vítimas do Holocausto. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

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Dia Internacional em memória das Vítimas do Holocausto.

Dia Internacional em memória das Vítimas do Holocausto.

Este poema é para todos que um dia chegaram a erroneamente classificar como “Genocídio” a legítima defesa do Estado de Israel recente contra os inimigos da humanidade que promoveram o pior massacre contra judeus desde o fim do holocausto.

Leia, ouça, e principalmente sinta e reconsidere.

O campo de concentração de Auschwitz foi libertado há 80 anos neste dia. Ali perderam a vida cerca de 1,1 milhão de pessoas.

Por mais esforço que façamos nada será o suficiente para honrar aqueles que perderam a vida nestes e naqueles dias difíceis de guerra, injustiça e tirania. O que de fato podemos fazer para homenageá-los de fato?
Garantir que serão lembrados para sempre?
É muito pouco.
Que seus nomes serão gravados em livros e pergaminhos?
Já está em andamento.
A grande reverencia será incorporar suas vidas às nossas.
Como?
O grande tributo será mostrar ao mundo que não aceitamos a ideia de que simplesmente perderam a vida, uma vez que elas não foram em vão.
Se houvesse um cortejo ele deveria ser evidenciar a consagração de seus sacrifícios.
E para isso precisamos recuperar suas vidas como exemplos. Não apenas de bravura, coragem e persistência.
Mas a pura consciência de que não houve sacrifício, mas um novo tipo de mutação: nós somos os herdeiros espirituais de suas existências.
Isso pode não bastar.
Decerto não é o suficiente.
Mas, doravante, dará sentido aos nossos dias no mundo.
E assim podemos viver para fazer jus ao que cada um deles significou.

O poema abaixo foi elaborado visitando um dos primeiros lugares onde teve início os ataques aos nossos ancestrais. A “kristallnachat“(noite dos cristais)  desencadeou e liberou todo potencial de destruição e a maior campanha de perseguição religiosa de toda a história moderna, culminando com a morte de 6 milhões de judeus, este sim Genocídio documentado e comprovado. Além de incontáveis outras minorias que eram consideradas elimináveis pela ideologia ariana dos nazistas. Hoje metamorfoseado em perseguições religiosas acobertados pelo manto do antissionismo.

Hoje é o dia para lembrar destas pessoas.

Não apenas os judeus que caíram, mas ciganos, negros, homossexuais, doentes mentais e outras minorias que foram exterminadas em Campos de Concentração distribuídos pela Europa entre 1941 e 1945.

Seis milhões*

Os seis milhões estão bem aqui.

posso senti-los

sob meus pés,

seus últimos segundos regulares, como todas as descidas

rítmicos como gelos.

intensos como florestas

No declive de gênero

fantasiados de corporações, patentes, insígnias

jogados nos trens improvisados,

como máquinas de extração

enquanto metrificavam cada judeu

enquanto gigantes como a IBM e a Krupp

acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo

não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha

os trilhos da proficiência

Não vi campos,

nem sinais de gritos,

ou angústia das vítimas

senti cada parada

cada pequeno solavanco no trilhos

até as cavernas preservadas

nas coleções intactas

ou na predação canônica dos apitos dos fornos

A seleção naturalmente objetivada

pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi,

(nem quem não viu),

Nem quem soprou o silêncio

para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos

                                      que alimentam quem dizima!

De quem negou quando sabia o que acontecia

Só saberemos quando vivermos

nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos dedos

ou nas qualidades extintas

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida, ou sem,

melancólica será,

Aí temos o protocolo abominável

a experiência romântica

sustentada numa escala insuperável

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas

alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.

na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm

o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros

e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo

é para que essa perplexidade

gere totens

e olhos sem braços nos alcancem

em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa

a violência do descuido

Mas a noite, sim

Mesmo que a presença

Seja recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

Estejam livre,

Achamos que,

do tabuleiro de onde estiver,

deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas

os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunhei monumentos no qual as vítimas são eles)

Mesmo à distância com o meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

Só faz 80 anos

Os campos estavam nos libertando

da vida

Enquanto a eugenia dos doutores

do partido

Subiam de incenso na mente do povo

do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros

jamais o barômetro do céu

agirá aqui-agora.

                                                 Desaparecemos no escuro.

Porém,

Permaneceremos, ali, lá fora.

Stuttgart -Paris

Junho de 2007

* Publicado no livro de Poemas “A Pele que nos Divide” Quixote-Do”, 2017

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Esqueçam a resiliência! (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Esqueçam a resiliência!

“Reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”

Paulo Vanzolini

Segundo o dicionário de Oxford, a primeira acepção da palavra “resiliência” é “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.” Oxford Dictionary.

Alguns termos e palavras entram no glossário cotidiano, afinal, como afirmam, a língua é viva. Entretanto, algumas destas palavras incomodam. Não apenas pela imprecisão, e abrangência indevida. Pode ser apenas uma idiossincrasia de escritor, mas o incomodo é porque se uma palavra entra na moda como uma distorção e ela é incorporada como um conceito inapropriado, a linguagem se descaracteriza. É certamente o caso da palavra “resiliência”.

Em primeiro lugar porque “resiliência” é um termo da física, tardiamente adotado pela psicologia. Vale dizer, como já vimos acima na clássica definição do Oxford Dictionary, ela traduz um conceito que se refere primordialmente à matéria.  Um fio, a borracha, vidros metálicos, até mesmo o aço submetido a um torno mecânico (não aquele famoso torneiro mecânico, sem ofensa) pode apresentar a tal propriedade da resiliência.

É um pouco perturbador a forma como o termo resiliência foi incorporado à linguagem, como um jargão de características psicológicas das pessoas. Se quer dizer que somos inquebrantáveis, mente. Se seu significado é que nunca esmorecemos, é pretensioso. Se quer dizer que somos duráveis, engana. Ao contrário da resiliência não voltamos ao estado anterior depois que uma pressão exagerada nos esmaga.

A música do Vanzolini é auto elucidativa: “reconhece a queda”. Esse é o ponto fulcral do problema. Reconhecer a queda é aceitar que o trauma não tem volta. Caiu, assume! Admita o tombo. Sem isso, o levantar-se subsequente é uma falsidade.

Fala-se tanto dos negacionistas, mas quando as pessoas se levantam, sem sentir as dores da pancada, trata-se de uma falsa superação. É estoicismo à revelia. É negar o sofrimento. Assim como aqueles que não fazem o devido luto, acabam enlutados através da vida. Claro que temos que sacudir a poeira, porque cada grão serve como um fragmento da memória dos desastres e acidentes de nosso percurso vital. Cada partícula do tombo cai no solo, é o resultado do que acaba de acontecer. A etapa posterior “dar a volta por cima” é apenas um terceiro momento, bem mais difícil e que jamais se dá sem nos transformar.

Vejam, por exemplo, a recente e dramática história dos reféns israelenses que voltaram para casa depois de 480 dias encarcerados sob torturas diárias nos túneis dos inimigos da humanidade. A mídia internacional os considerou “saudáveis”. Foram bem tratados pelos fanáticos? Receberam auxílio médico da supostamente isenta entidade conhecida como Cruz Vermelha? Nada disso. Obviamente que não. Sofreram as torturas e sevicias típicas de quem é governado pelo ódio e pela ideologia que prega o extermínio de um povo. Neste caso os judeus. Portanto, me permitam a digressão, mas sempre que escutarem a palavra antissionismo, por gentileza, façam a errata automaticamente: substituam por racismo antissemita, o que eles querem mesmo dizer é que são contra os judeus. É perseguição religiosa na cara dura. Então como, pelos céus, alguém pode estar saudável tendo vivido sob circunstâncias daquele tipo?

Existem chagas vitais, e há lesões do espírito. Não há, portanto, como estar saudáveis ou serem aclamados como resilientes. Talvez tenham desenvolvido síndrome de Estocolmo, muito provavelmente precisarão de longos períodos de recuperação e cuidado, e, como todos nós, jamais serão os mesmos, jamais retornarão ao status psicológico anterior. Evidentemente eles devem ter reconhecidos seu heroísmo e tenacidade por terem sobrevivido em um meio quase impossível. Não há nada de fortuito em suas sobrevivências. Elas pagarão um preço altíssimo por terem conseguido, assim como a sociedade israelense.

Voltando à ideia mais genérica: nossos traumas — segundo Freud, incuráveis— são, de certa forma, permanentes, e em certa medida insuperáveis, mesmo quando conseguimos atribuir a eles um novo significado.

Deste modo, toda tentativa de imputar à palavra resiliência uma equivalência à resistência, fibra, couro grosso é indevida. Somos seres friáveis, isto é, sangramos. Isto basta para entender quão não resilientes somos. As experiências traumáticas ou impactantes nos deformam e jamais voltaremos a ser quem éramos.

Sangramos e sobrevivemos porque, de algum modo, temos alguma reserva de fé. A fé, ou, como alguns preferem, a determinação. Já outros escolhem nomear como a convicção da esperança. Então de onde vem a misteriosa esperança? Difícil dizer, mas decerto ela é contraintuitiva, ilógica e irracional. E é uma esperança impura, pois convive com a aflição, com a dúvida, com o sofrimento mental e a ambivalência.

Diante da admissão de tamanho do sofrimento humano a bizarra permanência desta inusitada esperança, é, agora sim já podemos revelar, um atributo que podemos classificar como não natural.

Agora já podemos chamar pelo nome apropriado: a convicção da esperança é sobrenatural.

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Grão de areia na ampulheta (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Grão de areia na ampulheta

Dia de aniversário. Sempre há um elemento melancólico em fazer anos. Recebo mensagens de colegas amigos, conhecidos e desconhecidos com desejos de coisas boas. Fico atento à autenticidade nas comunicações. A maioria costuma ser protocolar. E dai? O que realmente importa é que você tenha pessoas que se lembrem de você, certo? Estar na memória de alguém é sobreviver para além do self.

Entretanto, hoje, um fato inusitado aconteceu. Uma das mensagens, de um remetente desconhecido, trouxe um estranho impacto. Eram 3.33 AM quando, sob a conhecida insônia crônica, e desaconselhando todas as recomendações dos especialistas, abri o celular depois que a luz piscou.

A mensagem:

“Que teus dias desçam livres como a areia de uma ampulheta!”

Sem dúvida era original.

Mas, como quem toca num objeto proibido larguei o artefato móvel. O objeto que alguns chamam de celular, o grande culpado por substituir a interlocução por comunicados unilaterais. O responsável pelo desvio de função,  distração permanente e pela geração de alienados que digitam sem parar.

E então, sabendo que não mudaria a realidade, já me preparava para forçar o sono.

Inútil.

Sem conseguir voltar para dormir despertei matutando sobre o enigma.

Não havia remetente. A mensagem veio do vácuo?

Quanto vezes deparamos com falsos enigmas, mas ali havia realmente algo misterioso.

Acordei de vez e uma série de especulações vieram liberar o espírito da curiosidade. Prefiro o termo espírito à neurotransmissores por razões que talvez só alguns psiquiatras consigam especular. Afinal, o que aquele remetente desconhecido quis dizer com isso?

Arrisquei começar a digitar uma resposta e pensei em perguntar com delicadeza.

“Amigo, antes de tudo, muito obrigado. Poderia me explicar melhor o significado da sua mensagem?”

Mas a autocritica censurou.

“Patético” exclamei alto.

Era óbvio o significado. Algo como uma metáfora para me desejar uma vida longa. Apaguei.

Seria ridículo enviar aquilo.

E eu que sonhava com mensagens originais, autenticas – e esta era sobretudo criativa — e me flagro tentando encontrar alguma mensagem cifrada num simples desejo de feliz aniversário?

Recostei-me e fechei os olhos, mas eis que a paranoia voltou violenta como os bumerangues que retornam quando falham em atingir seus alvos.

O que será que ele quis dizer fazendo a analogia dos meus dias descerem livres como a areia de uma ampulheta? Se ele tivesse escrito “que os teus dias sejam como a areia” seria auto evidente. Se tivesse escrito que os teus dias sejam contados como a areia teria me recordado da promessa que o Criador fez para Abraão sobre a descendência do patriarca: “que o número de teus descendentes seja como a areia das praias e as estrelas no céu”. Mas que os meus dias “desçam livres como a areia de uma ampulheta”?

Então um sono pesado desceu sobre mim, e tive um daqueles sonhos que sabemos que não podem ser apenas sonhos.

Ali eu inspecionava uma ampulheta quando detectei um grão de areia que ficou preso no trajeto. Olhando melhor ele estava parado no ar. Por que o teimoso não descia como todos os demais?

Sacudi a ampulheta e eis que o obstinado floco teimava em ficar suspenso. Suspenso ou entalado?  Olhei em volta e constatei que o mundo continuava a girar, a rotação da Terra  intacta, os objetos e pessoas idem. As velhas leis do cosmos lá estavam, intactas. Se me pedissem uma explicação lógica para o fenômeno eu simplesmente diria:

“Não faço a menor ideia”.

Deduzi que era algum fenômeno magnético, talvez eletrostático, interferia no movimento descendente da areia. Seria decorrente de um ciberataque? Fui pesquisar dentro de casa e os computadores estavam funcionando. Já os relógios não, os ponteiros parados naquele número: 3:33.  Abri a janela, e havia um avião transitando no horizonte. A gravidade ainda parecia ser uma lei universal, menos em algum país do hemisfério norte. Intrigado, voltei-me à ampulheta e lá estava ele, o pó obstinado, parado bem no meio do afunilamento do vidro.

Naquele exato momento ouvi um som altíssimo: eram trombetas. Não tinha nada a ver com o novo presidente americano. Anúncio apocalíptico? Seria o prenuncio do fim? Virei-me, e um túnel enorme se abriu diante de mim:

— Entre, uma voz emitiu sua ordem. Uma autoridade imperativa, excelsa, categórica.

Se não estivesse sóbrio pensaria numa alucinação alcoólica. Descartei um surto psicótico e continuei andando em direção ao túnel. Devo ter andado quilômetros até tentar alcançar o outro lado. Foi ficando cada vez mais estreito. Cogitei se aquilo era o que se costumava descrever na quase maioria das experiencias de quase morte.

Ao piscar os olhos a nuvem se desfez e finalmente consegui me desvencilhar. Eu era o grão em queda livre. A descida durou muito, até finalmente bater as costas no fundo da ampulheta. Quando me ergui uma luz branca espargiu um halo radiante que me atordoou.

Ao acordar meu travesseiro estava ensopado de suor.

Entendi que fluência é a liberdade de um grão de areia em uma ampulheta. Era a qualidade sobre a quantidade, a leveza do deslize contra a estagnação. Era a vida como rio, lutando para não ser mar morto. Era o tempo, que sendo uma dimensão pode ser interrompido. Era a liberdade, palavra cujo sentido foi se deformando para ser instrumentalizada pelos ditadores e tiranos do mundo. Ficar mais velho não é inevitável, mas o modo como descemos rumo ao fundo da ampulheta pode mudar tudo.

Não são apenas as mensagens cifradas que nos deslocam a um outro nível de consciência, é a interpretação das palavras que pode mudar tudo.

Este aniversário foi muito diferente graças a isso. Passei a olhar de outro modo a passagem do tempo.

Obrigado amigos, especialmente aquele — ESTEJA ONDE ESTIVER — que me enviou a mensagem anônima.

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Rivellino e as partículas erráticas. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tags

gato de Schrodinger, Maimonides, particulas erraticas, Rivellino, Xavier Bichat

Rivellino e as partículas erráticas.

No dia 08 de janeiro, meu irmão Sérgio nasceu.

Faleceu há décadas no dia 06 de fevereiro com apenas 12 anos de idade.

Nosso sofrimento, exacerbado pela situação de exílio, jamais caberia espremido em palavras. Sua ausência parece permanente, e, imagino, que assim é com todos que tem alguém que já habita o outro lado, de onde, segundo Hamlet, ninguém jamais voltou. O Rei, pai de Hamlet, recentemente falecido, manda recados para lhe revelar os segredos que dominarão o drama teatral mais completo e representativo da existência humana.

Shakespeare era um exímio instrumentador de metáforas: “jamais voltou”. De fato, jamais voltou porque não era necessário, sempre estiveram por perto.

Num universo onde contamos com o princípio da indeterminação, a observação da expansão constante das galáxias a partir de um ponto central, a radiação cósmica de fundo, o cálculo teórico de Einstein sobre o raio de curvatura do Universo, cabe humildade. Com todos estes elementos acima não se pode ter as mesmas certezas que tínhamos na era positivista da ciência. A maioria confunde a incerteza com pseudociência. Muitos ainda vivem sob o paradigma não vitalista e sob a égide da imortalidade científica de princípios estanques, do binômio causa-efeito, e da ordenação mecanicista do mundo.

Como dou fé que a ciência possui muito mais perguntas que respostas, tenho me permitido considerar que, se formos resolutos e honestos nessa premissa, teremos que admitir que quanto mais compreendemos o mundo, menos certezas teremos e mais conscientes do nosso desconhecimento ficaremos. Sócrates tentou sintetizar essa angústia.

A despeito das razões de chance precisamente no dia 08 de janeiro recuperei uma foto que o genial jogador de futebol Roberto Rivellino dedicou ao meu irmão.

Acaso ou necessidade? Coincidência ou sincronicidade? Jogo de dados ou destino predeterminado?

A razão tende a justificar tudo segundo a lógica de probabilidades aleatórias. É verdade, o pensamento rápido engana. Calma, sei que há um diagnóstico da psicopatologia para pessoas que enxergam padrões em tudo, porém ninguém pode refutar categoricamente a hipótese de que, mesmo na ausência, haja sempre um resíduo de presença.

É inexplicável, ainda que seja quase palpável. Muitos sabem que, ao meditar ou rezar, pressentimos. Preferem chamar de intuição? Estado alterado de consciência? Isto é, percebemos espécies de elétrons e partículas insistentes que circulam erráticas. São elas que perduram. E não se resumem apenas à memória ou a mera evocação intelectual.

Tal faísca pulula em nós, todos os dias. Num teclado, numa voz feminina, num coro, e lá está ela. É a forma que a morte encontrou para brincar conosco. Soa pouco lúgubre? Insuficientemente solene? O que podemos fazer se necessitamos do lúdico para sobreviver? Pelos menos é como tentamos nos esquivar da obscuridade. Aprendi com um justo: temos que rir a cada quinze minutos. Maimônides recomendava o mesmo. Psicólogos bem-humorados também. Médicos conscientes sabem que, a despeito de ter muitas prerrogativas, eles não têm nenhum direito de desanimar os pacientes.

E como fazemos desaparecer a sensação das perdas irreparáveis?

Só hoje ficou claro para mim. Aquela foto do ídolo do Corinthians e a dedicatória que ele fez tem uma atualidade sobrenatural: ainda estão acontecendo. Com o que hoje sabemos é uma trapaça achar que o tempo é unidirecional. O tempo vai e vem porque é uma dimensão. E por que não seria assim com a vida?

Há mistérios que nunca desvendaremos. Jamais elucidaremos porque há uma simultaneidade inapreensível Isso indica que a vida é um projeto totalmente inacabado.

E nem venham me falar sobre o neo paganismo da inteligência artificial e dos sucessos absolutos da tecnologia. Não, eu não os rejeito, apenas duvido que possam se expressar com a mesma desenvoltura das pessoas. Em outras palavras, saber que somos perecíveis nos coloca num lugar muito distinto de qualquer robô com quociente de inteligência interminável.  Computador quântico algum vai poder sentir como nós, que somos finitos sem precisar renunciar ao infinito — que também somos. Estamos, portanto, num espaço singular, inimitável.

E o que nós temos que elas, as máquinas, não possuem? As máquinas e mesmo todas aquelas parafernálias que podem nos bater em acumulo de inteligência e cultura, não conseguem negar a morte para poder viver. Enquanto nós a negamos com os pés juntos. Exatamente ai está um privilégio exclusivo dos humanos.

Os elétrons estão soltos — é permitido que também os chamemos de alma — e por isso eu hoje me permito saber – e sem precisar recorrer a nenhuma mistificação – que há algo vivo em tudo. E porque não haveria de ter uma partícula do meu querido irmão também presente num objeto que ele tocou, sobre o qual ele se emocionou,, e sobre a qual ele sorriu tímido e envergonhado ao ler “Ao Sérgio, uma recordação de seu amigo. 27/11/69.”

Imagino que Rivellino nunca soube disso, mas aquela foto, milagrosamente intacta, preservou um fragmento que simplesmente não existiria se, justamente, nesta data, eu não a tivesse encontrado, depois de estar perdida por décadas caído atrás de uma estante.

E isso me remete a totalidade daqueles que passam pelos lutos. Pessoas que perderam pessoas, filhos, mães, pais, avós e avôs, tios e amigas. Sem esquecer daqueles que caíram nas guerras e nos acidentes. Lembrando dos que não sabemos — como o gato de Schrödinger —  se estão vivos ou mortos, dos que desapareceram sem deixar rastros, e, principalmente, dos que se encontram sequestrados e confinados nos calabouços da escuridão.

A memória é decerto um consolo ainda que de uma insuficiência desconcertante. O fundador da histologia, o médico Xavier Bichat escreveu que “a vida é o conjunto de fatores que resistem a morte”. Mas, é aí mesmo que reside o centro da minha reflexão: a vida afinal é um esforço de recuperação permanente frente à morte. Se quiserem, a vida é uma convalescença antecipada.

Mas se a morte estiver inserida nesta estranha continuidade? Não, o artigo não é um corolário espírita ou religioso, ainda que Deus, como primeiro motor, seja a hipótese mais provável para justificar essa equação.

E se mostrássemos desde cedo às crianças que desaparecer é a única garantia da continuidade e da permanência. Não como um jogo de palavras, mas como a verdade da existência. De que é o significado de cada um que sobrevive à extinção de um corpo. Um significado fantasma, que benevolentemente nos acompanha para sempre.

Não, não é encosto.

Rivellino driblou o tempo com sua dedicatória. Aquela foto (aqui reproduzida) imortalizou sua jogada, mas foi a partícula do Serginho com a qual hoje pude entrar em contato que me encheu de uma esperança imotivada.

E isso não tem nada a ver com o incorrigível defeito de ainda torcer pelo Corinthians.

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A travessia de Moisés – Shavuot (A entrega das tábuas da Lei)

06 sexta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/a-travessia-de-moises-shavuot-a-entrega-das-tabuas/ Paulo Rosenbaum A travessia de Moisés – Shavuot (A entrega das tábuas da Lei)
Moisés estava recebendo as últimas instruções antes de descer da montanha. Estava por lá há 40 dias e 40 noites, ele meditava enquanto fazia jejuns não intermitentes. Especulava sobre a natureza do Criador: Invisível, mas que interfere no mundo físico. Onisciente e Onipresente, destarte permite o inimaginável. Ele lutava pela convicção da esperança contra sua racionalidade desconfiada. Tentava ser contraintuitivo como um cientista, mas aberto ao inesperado como um Poeta.
O ambiente no acampamento estava carregado e tenso.
Moisés cochilou, e acordou com uma bronca:
— Acorda aí meu caro.
Moises achou que ouvia coisas, virou para o lado e pegou no sono novamente.
(Estrondo violento)
— As suas ordens, oh Senhor.
— Desce filho, desce que tá pegado. O caldo está entornando.
— Hoje tem canja?
(Som da terra se partindo e fendas de terremoto se abrindo)
— Foi mal. Perdão!
— Vai logo antes que eu perca minha paciência e olha que ela é do tamanho do raio de curvatura do Universo. Albert sabe, ele é do Conselho e está aqui ao lado, e não me deixa mentir.
Moshe calçou as sandálias e desceu devagar equilibrando as tabuas pesadíssimas. A carga estava na responsabilidade. Já havia quebrado as anteriores quando viu o que faziam no acampamento com o bezerro de ouro.
Confabulou para si: Ih, tem uns itens aqui nessas tábuas que vai fazer o pessoal chiar horrores.
— Yekuziel filho, posso ouvir pensamentos também.
— Rei do Universo, sinto, é que conheço bem essa rapaziada. E como fica o sigilo entre criatura e Criador?
— Quer mesmo que te mostre onde fica o sigilo?
— Altíssimo, pega leve comigo, sabe quando foi minha última refeição?
(Chove em abundância Maná, com gosto de churro!)
— Grato Senhor!
O monte Sinai estava cheio de vida e florescia conforme ele ia passando com as tabuas e o seu mensageiro.
— Sr. Estou com medo, o pessoal esta impaciente lá embaixo.
— Certo, suave, pega leve.
— Preciso confessar, não consigo ser um ortodoxo.
— E quem disse que você precisa ser, conhece o lema da entrada do Jardim do Paraíso?
— Não conheço
— É: viva e deixa viver.
— É que um amigo me disse que sou um ortodoxo não observante.
— Excelente. Vou adotar. Eles podem esperar mais um tantinho, chegue com classe.
— Eu sei Todo Poderoso mas eles…o Sr conhece!
— Conheço, oh se conheço
— Estas leis são para sempre?
— Para todo o sempre.
— É que (Moisés fica sem jeito mas desembucha) – É que vai demorar um tempo para o pessoal se adaptar.
— Decreto aplicação imediata para toda a humanidade. Para os primos. É isso ou a coisa vai para a fissão nuclear.
— Certo, podemos repassar?
— Desce.
— Posso dar uma lida antes
(Trovão violento)
— Desce já.
— Opa. Descendoô.
Aproximando-se do acampamento Moisés detecta de longe uma certa anarquia. Ninguém se interessa. Todo mundo parece grudado no celular.
Ele pigarreia para tentar receber alguma atenção.
— Preparem-se, que aqui estão as instruções que devem ser seguidas.
— Moshe, pode esperar terminar? Estamos vendo a CPI.
— Mais uma? Qual CPI?
— A dos aposentados
(Faíscas erráticas e brasas voam de todos os dados)
— Oh irmãos, isso aqui que trago nestas pedras é muito mais importante.
Moises nota que também há muita gente grudada num telão
— O que aquele pessoal está assistindo ali? É o Timão? Interfere o Senhor.
— Altíssimo. Nem te conto!
— Estão vendo o que?
— Noticiário internacional.
— Boas notícias?
— Depende.
— Depende do que?
— É que eles estão tentando entender como estamos sendo acusados por estar nos defendendo, e olha, os inimigos da humanidade fizeram barbaridades e ainda tem gente sequestrada.
— Cansei.
Pela segunda vez na história do Universo o Criador Suspira e o mundo para.
— Alegam o que desta vez?
— Que não temos direito à legitima defesa.
— Mais uma vez essa história?
Moises cogita voltar para cima, e pedir novas instruções. E roga:
— Altíssimo? Não dá para nos dar um refresco?
— Só tenho de maracujá, brincadeira. Eu tento, mas todo mundo precisa colaborar.
— Mas e toda essa situação? Os zumbis admiradores do Adolf saíram do armário.
— No pasaran!
— Agora senti firmeza!
(Trombetas de anjos soaram exigindo mais formalidade)
Moisés recolhe-se
— Ofereça a paz condicional em boa fé e se não aceitarem veremos.
— Este todo mundo irredutível. Enxergo muita desunião.
— Ai, ai, ai, já falei que o caminho é menos ego. Nunca leram Viktor Frankl? Não sabem o que é auto transcendência?
— Não ouvi bem o que tu disse Excelso.
— Falei baixo porque os freudianos têm birra.
— Ah, aí também rola uma divisão?
— E onde não tem?
— Aqui está todo mundo convencido que tem razão!
— Que ironia, eu que sou quem sou não estou irredutível
— Qual é o caminho? Dá uma luz aqui para a gente!
— Minha especialidade. Acordos, podem ser provisórios, faz tempo que abandonei a Utopia.
— Acordos de Abrahão?
— Chames como quiser — mas esse foi um filho muito amado, pai de muitos povos.
E ele tem enorme prestígio aqui em cima e respeito dos primos.
— O pessoal tem birra de quem fez a proposta!
— Menos ego moçada, devia ter feito esse o meu primeiro mandamento.
— Quer mexer? Ainda dá para editar. Trouxe o lap.
— Fica assim mesmo!
— E o Macron?
—- O da bofetada? Véio, aquela doeu.
— É que ele andou insuflando a turminha radical, manja, os que querem impor homogeneidade religiosa?
— Bom, como já avisei, vida e morte esta nas mãos da língua, ele deveria é ter mais respeito com a Bardot.
— Perdão, não é a Bardot, é só Brigitte.
— As vezes a informação demora um pouco para chegar aqui.
— Aqui é Musk! Chega rapidinho.
— O que, óleo essencial?
— Esquece.
— Agita aí, porque vocês precisam de um milagre.
— Desculpa a insolência Mestre, mas esse é o seu departamento.
— É verdade, mas já fiz tantos, e vocês já estão crescidinhos. Eu e a cúpula formamos maioria e decidimos que chegou a hora de ser apenas observadores participantes.
— Qual cúpula? Ai também tem Executivo, Legislativo e Supremo?
— Evidente. Divisão de poder e rodizio. Pergunta para o Freud, ele é que está na coordenação.
— Cheguei aqui bem embaixo, o que faço agora?
— Estou vigilante, dou a maior força, mas a bola está convosco. Boa sorte e Mazal Tov.
(Luz brilhante e ubíqua irradiada da Terra em direção aos céus)
— Amem.


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Shabat shalom

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O pedido de perdão que o mundo deve a Israel (Blog Estadão)

08 sexta-feira nov 2024

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O pedido de perdão que o mundo deve a Israel

Não será agora. Marquem a data. Deve ser cedo do que mais tarde. A ideologia recusa entender o tamanho do equívoco. As massas caíram no conto da indignação artificial. De uma perspectiva histórica, não perceberam o significado do crescimento silencioso da intolerância. Da opressão anunciada como liberdade para odiar. Licença para detestar. E autorização para injuriar. A racionalidade perdeu o sentido original. O mundo ainda não compreendeu, mas não nos cabe mais explicar.

Não agora.

Declaro que qualquer suspeição que recaia no que estou para expressar doravante não será um argumento válido. Proclamo suspenso o conflito de interesse. Assim como estão abolidas as tentativas de nos calar. Encarcerar o que pensamos. Catalogar o que sentimos. A hegemonia temporária que pensa que pode nos cancelar. A tirania que vem embalada em papéis de ‘libertária”.

Vocês ainda não entenderam o timbre da nossa voz. Nem como sabemos erguer voos. Tampouco imaginam nosso poder de levantar-se. O mundo não tem a obrigação de nos amar. Precisa apenas saber que nosso direito de existir suplanta qualquer objeção. Não estamos pedindo permissão. As cinzas que sepultamos não são álibis. Mas, com elas, eternizamos nossa dor através da esperança. E isso tua ironia não poderá jamais remover. Tuas bandeiras não têm poder para nos afligir. Nem as tuas armas para nos inibir. Nem tua sombra obstaculizar a luz que emerge da nossa ancestralidade. Não há opacidade que ultrapasse nosso desejo de persistir. Somos meio inquebrantáveis. Somos como o vento, chegamos invisíveis sem que ninguém consiga nos deter.

Passaremos adiante, com, sem, ou apesar de vocês. Estamos afirmando: ficaremos. Para minimizar os argumentos viciados e propagam as mentiras dos inimigos da humanidade, acreditem, a maioria não duraria segundos nas mãos deles. Se voltamos a Sion podemos chamar a peregrinação como bem entendermos. E não está ao teu alcance nos restringir. Enquanto a legitima defesa foi transformada em acusações. E a tentativa de proteger os cidadãos inocentes nomeada como agressão. Nós usaremos a paz para absorver teus mísseis. Sobreviveremos aos teus foguetes erguendo barricadas de confiança. Nos abrigaremos em bunkers para neutralizar o ar das suas ameaças. E lançaremos enxames de palavras que te dirão sonoramente o que nunca suspeitavas.

E quanto a vergonha que recai sobre os outrora chamados centros do saber. Reitores que precisam amordaçar os palestrantes. Estudantes que debatem com porretes em punho.  E nem ousem usurpar o que outrora já foi chamada de esquerda. A correta descrição do vosso padrão encontra-se em Wilhelm Reich. Procurem-no.

Aos que defendem os que sopram explosões. Aqueles que exaltam os covardes. As tentativas de recuperar os sequestrados foi transformada na retórica da vitória para os inimigos da humanidade. E quanto aos aplausos nas marchas intolerantes? Os slogans com exortações à violência? A instrumentalização de quem não tem ideia da realidade de solo.

O mundo deve desculpas a Israel.

Não porque não existam erros que precisam ser corrigidos. E equívocos que exigem saneamento. Mas porque toda vossa saga leva à injustiça. Uma injustiça racionalizada como causa. Toda desinformação que ocupou tua cabeça através das mídias e das redes antissociais.

O perdão que Israel e seu povo merecem pode não estar ao teu alcance.

Mesmo assim, será exigido.

E, como sempre o livro da paz estará pronto para ser servido no banquete que prepararemos para todos aqueles que vierem com fé.

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/o-perdao-que-o-mundo-deve-a-israel/
👏👏👏👏👏

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https://editoraperspectivablog.wordpress.com/2016/04/29/as-respostas-estao-no-subsolo/

Entrevista sobre o Livro

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