• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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O uso da Narrativa como falsificação da História. (Jornal O Dia, versão impressa e digital)

10 domingo ago 2025

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O uso da Narrativa como falsificação da História.

Por Paulo Rosenbaum

“Liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”

Isaiah Berlin

A palavra antissemita, foi um termo cunhado por um jornalista alemão em 1879 para contornar a palavra judenhass, ódio aos judeus, e, ao mesmo tempo, manter o conceito mais vago e brando. O termo que reuniu as palavras “anti” e “semita” foi elaborado dar um contorno mais asséptico para se referir à atitude racista de um modo mais confortável e técnico.

Após os ataques terroristas de 07/10 contra civis no sul de Israel, onde 1.200 pessoas a maioria de civis, entre os quais bebes, crianças e mulheres, foram massacradas e 253 pessoas foram sequestradas por um exército composto de inimigos da humanidade, os antissemitas mudaram de tática: escolheram ser transparentes.

Pois este sentimento misojudaico (misos-ódio em grego) ressurgiu de forma inaudita pelo mundo antes mesmo que as forças de defesa retaliassem contra os tiranos que governam a faixa de Gaza.

No entanto, podem economizar perplexidade. Já que o que se seguiu aquele acontecimento não passou de uma previsível e lógica progressão da atitude misojudaica: complos, assassinatos coletivos, e crimes praticados contra individuos e coletividades ao redor do mundo. Mísseis balísticos atirados sobre cidades israelenses a esmo, diariamente, contra populações civis. Proxies bem articulados, com apoio e financiamento do regime dos aiatolás para invasões ao norte ao sul.

A reativação do sentimento misojudaico chegou com a modernidade, e, mais recentemente, sob a pós-modernidade tardia. Sob distintos álibis e contextos, a lógica que os guia se tornou cada vez mais dificil de despistar: a necessidade de encontrar pretextos para forjar acusações contra um carrasco polivalente: a estrela de David.

E, em cada espirito do seu respectivo tempo, esta tarefa tem sido cumprida à risca por distintos agentes. Como hoje é possível opinar sob o anonimato de codinomes e senhas digitais, o esperado aconteceu: ataques contra as comunidades judaicas ao redor do mundo floresceram. Mensagens de odiadores e seus cúmplices inundaram as redes sociais e uma correspondente e desproporcional audiência potencializada pela repercussão nas coberturas das mídias. Em geral seguindo acriticamente a tendência do barulho. Uma parte delas se tornou repentinamente muito leniente e preguiçosamente seletiva para acionar seus mecanismos de checagem de fake news e desinformação.  

Ouviu-se que descendentes do povo que atravessou o Sinai há 3334 anos, portanto em 1.312 antes da era civil, talvez não sejam os sujeitos ideais para denunciar o estado da arte alcançado pelo misojudaismo de nosso tempo. Decerto soaria mais crível se o protesto chegasse através de gente que está fora da bolha. Assim o sistema criou uma fórmula até certo ponto eficaz para reforçar a mordaça de quem quer resistir às calunias. Mas calar quem vem sendo hostilizado diariamente nas ruas, de forma direta ou indireta, seria como pedir para um médico não lutar pelo seu paciente apenas porque ambos compartilham dos mesmos pontos de vista. Não há conflito de interesse, nem atitude partisã quando se advoga pela legitima defesa.  

Vale também ressaltar uma outra categoria de misojudeus, são aquelas pessoas que estrategicamente se afirmam geneticamente pertencentes à categoria de “judeus” os quais, junto com seus associados, simulam uma peculiar espécie de “objeção de consciência”. A “objeção”, é, evidentemente, uma manifestção cabotina uma vez que consiste em acusar unilateralmente o estado judaico de exercer a legitima defesa de forma relativamente eficaz.

Importante salientar o abuso do termo “narrativa” como se houvesse uma forma de falsificar a história. E essa tendência pode ser desmascarada, analisando o número de argumentos incoerentes e contraditórios usados para criminalizar não apenas o Estado de Israel, mas a própria existência dos judeus.

Um dos motivos desta confusão é de que talvez a motivação central da intolerância não pode ser explicitada de forma consciente. Sim, pois o monoteísmo também se refere simbolicamente à singularidade de cada sujeito. Trata-se de uma concepção intolerável para determinadas concepções mentais que elevam o Estado à altura de uma deidade substituta onde o sujeito é apenas um resíduo, que precisa ser anulado, eclipsado, reduzido a um papel insignificante.

Nem valeria elencar os argumentos usados com destaque para a infundada acusação de neocolonialismo, passando pelo risivel revisionismo histórico de que os judeus nunca foram escravos no Egito, o holocausto nunca aconteceu, além de outros malabarismos pseudo historiográficos. Sob este ponto de vista, o déficit de honestidade intelectual não tem sido mais considerado uma aberração por algumas academias, destarte pode ser indultado e até premiado, especialmente se a ideologia estiver a serviço da causa: uma boa causa vale uma boa fraude. 

Perdidos, buscam recorrer ao desesperado recurso de que a “narrativa” pode não apenas substituir fatos, mas modelá-los e instrumentalizá-los de tal forma que, ao fim e ao cabo, qualquer traço da informação verdadeira seja obliterado. Notem que quem se alinhou ao eixo dos devotos da cólera são aqueles que até há pouco autointitulavam-se progressistas. Progressismo deveras peculiar este que apoia ditaduras sanguinárias, defende governos autocratas, e exalta teocracias homofóbicas e misóginas. Neste caso, a virtude moral estaria em perfilar-se ao reacionário como sugeriu o iracundo Schopenhauer.

Uma palavra sobre o papel representado pelo atual chefe do executivo brasileiro, que deveria obedecer a histórica e eficiente tradição diplomática do Itamarati e tomar a frente na proteção das minorias, pautar-se pelo respeito aos direitos humanos. Infelizmente deixou-se seduzir pelo misojudaísmo para sacrificar o direito e a análise equilibrada no altar das conveniencias de ocasião.

É direito constitucional garantido que as pessoas possam expressar os seus pontos de vista, inclusive os preconceituosos. Ao mesmo tempo, historicamente, o policiamento da linguagem costuma terminar em tirania. Mas estes direitos foram muito além de possibilitar a expressão dos preconceitos.

Esta marcha da ideologia vazia caminha, mas não sem slogans como os recentes, “guilhotina”, e  “mortezinhas” que escapam da boca daqueles que não conseguem suprimir o que realmente pensam. Ao engajar massas ora desinformadas, ora possuidas pelo espirito de manada, o projeto locupleta-se com democracias populistas intolerantes, geralmente regidas por autocratas decadentes.

Neste caso, minorias estridentes sentiram-se encorajadas a adotar os slogans e senhas para as várias modalidades de linchamento, censurando, empunhando cartazes raivosos, além de facas, tochas e finalmente morteiros e bombas incendiárias. E é assim que se obtém uma tolerancia seletiva que serve ao propósito e que deu origem ao projeto: criar uma formula universal que funcione como um motor de unificação de todas as forças parasitas e ociosas oriundas de uma geração acrítica. 

Por outro lado, como deveriam se comportar os judeus que, testemunhando a inércia da maioria, vem sendo hostilizados por minorias que se impõem aos Estados com uma pregação aberta de intolerância e violência?

Devem seguir estoicos? Ou viver em negação? Como se fosse apenas mais uma das milhares de vezes que aturam e sobrevivem às perseguições? Ou formular novas estratégias de autodefesa para além das já existentes?

Seja lá quais forem as respostas, a luta contra o racismo misojudaico, não pode prescindir de ninguém, precisa de todos, como já havia antecipado o sobrevivente do holocausto e prêmio Nobel da paz, Elie Wiesel. De todos aqueles que apreciam não apenas o status quo de um mundo livre, o qual visivelmente está encolhendo, mas dos que intuíram que o totalitarismo geralmente começa com este tipo de sentimento contra uma cultura, e termina de forma generalizada, aglutinando intolerância e belicosidade.

Oxalá que as guerras estejam mesmo perto do fim, mesmo que seja um fim provisório. Destarte, o que foi testemunhado não pode mais ser ignorado. Precisaremos dar sequência ao grande serviço: impedir que as sociedades sigam contaminadas e regidas pelo instinto do ódio, afinal este seria a consagração do grande objetivo dos fanáticos em seu longo e sistemático trabalho de sabotar a civilização.

O momento é decisivo e a demanda por coragem será exigida daqueles que pressentem que há um lado justo da história. Sentem, porque a racionalidade está comprometida pela desinformação e pelo dogmatismo doutrinário das ideologias.

Pois bem, esse dia chegou.

Seremos os pioneiros para implementar essas transformações.

Não há mais espaço para neutralidade, e uma vez que a esperança não tem autonomia para se impor, ela exige determinação e pessoas dispostas a viver por ela.

Nós estamos. E vocês?   

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Só a Utopia é Justa. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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apesar de avanços no Brasil, como o aumento do IDH, considerando que a utopia e o sonho são as alternativas viáveis para a construção de um mundo mais justo., destacando que, diante de uma realidade caótica, o "impossível" deve ser buscado

Só a Utopia é Justa

Ainda que o gigante pareça estar em crise de narcolepsia, perdura a necessidade de que a esperança ainda seja crível. De Thomas More à John Lennon a Utopia nunca saiu de moda.  Acreditamos no impossível, nada a ver com futebol.

Justiça seja feita.  Graças aos ganhos alcançados sob o plano real — que o atual regime tenta destruir com obstinação maníaca  — conseguiu-se aumento do IDH da maioria dos municípios brasileiros. Malgrado o país tenha melhorado em muitos aspectos, especialmente na desigualdade social – uma das 10 piores do mundo — não conseguiu inculcar na elite, nos dirigentes e na própria população, uma das qualidades essenciais da democracia: assumir responsabilidades.

Sem ela viveremos de sustos. Revolucionar valores tem a ver mais com o mundo que valoriza qualidades, do que com o que os grupos escrevem em suas placas reivindicatórias.   Mas e se as regras que permitiriam o resgate estão cercadas pelas catracas do atraso, de um anacrônico  sistema cartorial?  Sair por ai contestando sem foco, não é saída, é escapatória.

Crescer não significa abandonar ambições e expectativas, nem a derrocada final de uma utopia que nunca chegou.  O amadurecimento tem a ver antes com enfrentar consequências. Sejamos sensatos, o foco deve ser por mudanças não  razoáveis. Sejamos pois adeptos do implausível como meta.

A maturidade ensina que a demolição prematura de instituições que apenas começavam a funcionar é o resultado de grave erro de avaliação. Não basta ter a soma dos votos e a maioria. Na era do tempo real, sem pactos pelo consenso não haverá governabilidade. Nunca. Quando se convoca uma marcha pelas redes sociais ninguém pensa nisso. O protesto, que era manifesto, que era resistência, que era indignação, adquire uma autonomia escusa.

Não porque existem vândalos. Os anarquistas predadores que pensam ser, servem. Servem bem para construir repúdio por mudanças e mostrar quão pior pode ser. São, portanto, a antítese da revolução.  Não se enxergam assim mas são reacionários cheios de si. E eles não estão sós. Por trás das mascarados que roubam e depredam e do crime impune que se alastrou pelo Pais — lá atrás e agora mais recentemente de forma alarmante — está uma inimputabilidade inconsequente que o poder se auto outorgou. Fora dos quadrados de Brasilia, das masmorras dos shoppings centers, onde é que há segurança publica?

Em processo falimentar.

Pois não é  isso que se faz quando se criam foros privilegiados, justiça inacessível e critérios seletivos, móveis e anti constitucionais para o que se costuma chamar “igualdade de oportunidades” e tribunais militantes?

Para cada  autentico hater, vândalo, invasor, ou revolucionário de ocasião que se infiltra nas redes antissociais ou nas ruas, há um correspondente que se esconde na vidraça blindada das autoridades, dos palanques, no palavreado auto congratulatório e nos discursos de posse.

São facetas igualmente injustificáveis e daninhas. Enquanto uma é televisionada a outra permanece privativa em circuito fechado nas carreatas eletrônicas daqueles que se definem por influenciadores.

Céus, quem outorgou tanto poder para essas figuras que emergem diretamente do vácuo? Quem autorizou estes fenômenos do senso comum que se auto catapultam através da omissão dos intelectuais (e as vezes sob sua supervisão) e da falência de uma ação pedagógica critica?

E como a filósofa ensinou: quando se perde a autoridade alguém clamará por autoritarismo.

Se a realidade parece perdida, recorramos ao impossível.

Tomemos este, que é um dos seus mais significativos e sub explorados verbetes do dicionário.  Até o suposto defeito vira virtude na voz polissêmica dos glossários.

Deduza sozinho examinando o que consta sob a rubrica “impossível”: áporo, sonho de louco, pedra filosofal, vôo de um boi, o irrealizável, não há, não haver possibilidade de espécie alguma, querer sol na eira e chuva no nabal, prende la lune avec les dents, incendiar o Amazonas, meter o Rocio na betesga, tirar leite de um bode na peneira, carregar água num jacá,  abarcar o céu com as mãos, assar qualquer coisa no bico do dedo, extinguir-se no planeta o calor central, acabar no céu a rotação dos astros, querer ter o dom da ubiquidade, inacesso, inabordável.

O impossível só pode ser o que acabamos de realizar, é o possível visto por alguém fora das nossas órbitas.

Em outras palavras, só o impossível é viável e só a utopia é justa.

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Macabeus Vivem! (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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"jamais se repetirá", a determinação e a força do povo aumentam. A afirmação de que um novo slogan se ergue, apesar da adversidade, apontando para as consequências da ignorância e da intolerância. Ele destaca que, desonram a verdade e promovem o sectarismo, enfatiza a luta pela justiça e a defesa dos direitos

Macabeus Vivem!

“A primeira obediência a Deus é a resistência à tirania”

Howard Fast em “Meus Gloriosos irmãos”1

A mensagem de Chanukah — que neste ano se comemora dia 25 depois do pôr do sol, junto com o Natal — é universal.

Vocês que se ocultam atrás das meias medidas. Vocês que desinformam com meias palavras. Vocês que impõem uma forma única de ver o mundo e não permitem que as outras subsistam. Vocês que escrevem sem saber interpretar os fatos. Vocês, que julgam sem conhecer as leis. Vocês, que usam tabuleiros viciados para noticiar. Vocês que usam a história para desinformar. Vocês, que influenciam sem responsabilidade. Vocês que desprezam aqueles que são cativados. Vocês, que formulam vereditos seletivos. Vocês, que sabem perfeitamente que, na verdade, não se trata de Israel. Vocês, que sabem, mas tergiversam sobre o único lugar onde os judeus tem incontestável direito de viver. Vocês, que tem uma inconfessa atração por fanáticos. Vocês, que cultuam suásticas dentro das tocas. Vocês, que torcem por Gulags e Stalin. Vocês, que mentem sobre as intenções de extermínio. Vocês, que sabem muito bem quem iniciou todas as guerras. Vocês, que financiam mercenários na África. Vocês, que escravizam crianças no Extremo Oriente. Vocês, que manipulam os dados. Vocês, que desonram as academias com desonestidade intelectual. Vocês, que simulam dialogar segurando a adaga entre os dentes. Vocês, que sonham com a destruição de todas as pontes. Vocês, que se movem junto com o horror. Vocês, que militam para que se repita o drama milenar das perseguições, confiscos e falta de liberdade religiosa. Vocês que decidiram usar a ignorância como escudo contra a verdade. Vocês que dissimulam  imparcialidade enquanto transpiram sectarismo. Vocês que financiam os idólatras da ideologia única. Vocês, que se casam com o tirano e trucidam o libertador. Vocês, que usam a diplomacia para calar o lado justo da história. Vocês que estão nos campi agitando bandeiras dos inimigos da humanidade. Vocês, que agridem a esmo. Vocês que lançam ogivas envenenadas sobre civis. Vocês, que evocam o Criador enquanto atropelam multidões em celebrações. Vocês, dominados pelo espírito da violência. Vocês, que se associam a regimes despóticos, falsas democracias e narcoestados. Vocês que traem o código humano mais elementar. Vocês, que entorpecem os despreparados. Vocês, que mantém 101 pessoas acorrentadas. Vocês, dirigentes de organizações de saúde que negligenciam os enfermos nos calabouços. Vocês, que despejam bilhões de recursos em túneis para sequestros. Vocês, que fingem liderar, mas fazem o jogo dos extremos. Vocês, que se concebem como “resistência”, mas são mercenários vassalos.  Vocês, eufóricos com cancelamentos arbitrários. Vocês que fustigam inocentes. Vocês, que se aliaram aos contra iluministas. Vocês, que oprimem, censuram e privam as mulheres de autonomia e dignidade. Vocês, que fingem tolerância. Vocês que ilustram livros didáticos infantis educando com fuzis. Vocês, que vivem comemorando a decapitação de bebes. Vocês, que arrancam os cartazes solidários aos cativos. Vocês que adornam vossas casas com morteiros. Vocês que intimidam seu próprio povo. Vocês que desconhecem o valor da paz. Vocês que rompem todos os contratos sociais. Vocês, que revisam a história do mundo até que ela se encaixe em vossas teses de ofício. Vocês, que usam a linguagem para embaralhar o discernimento. Vocês, cuja estratégia é o ataque aleatório. Vocês, que condenam aqueles que se defendem. Vocês, que morrem por causas sem sentido. Vocês, que não enxergam que a vida tem primazia sobre a morte. Vocês, que frustram todos os acordos. Vocês, que entoam cânticos de ódio. Vocês, que escolhem a cegueira contra a visão, a tortura contra a compassividade, a força contra o entendimento. Vocês, que matam com convicção. Vocês, que condenam as vitimas. Vocês, que se opõem à legítima defesa de um Estado contra aqueles que ameaçam sua existência. Vocês, que dominaram as instituições dos homens desviaram suas funções para espalhar intolerância, medo e a ignomínia.  

Vocês não se enganem.  O paradoxo é exatamente o mesmo de outras épocas históricas. Quanto mais vocês tentarem nos asfixiar, com mais vontade de respirar emergiremos. 

Agora prestem atenção e notem que poucas vezes estivemos tão fortalecidos e determinados.

Durante muito tempo depois do holocausto o que prevaleceu foi o slogan “nunca mais”.

Pois agora saibam, e de uma vez por todas, chegou a hora decisiva, a hora de dizer basta:

O novíssimo slogan é “jamais se repetirá”.

De agora em diante, quando as luzes predominarem, aceitem!

Elas são, como as velas milagrosas de Chanukah, inapagáveis.

_____________________________________________________________________________

1- O livro retrata a saga da luta dos Irmãos Macabeus contra o despotismo e o jugo neo helenista.

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WeRemember, um gol da memória! por Ariel Krok (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Abaixo, reproduzimos o artigo de Ariel Krok, também veiculado na mídia internacional, para ampliar a campanha mundial contra o antissemitismo, o racismo, a xenofobia e todas as formas de preconceito e discriminação.

A Campanha “WeRemember” (Nós Recordamos) é uma iniciativa do Congresso Mundial Judaico e exorta as pessoas a um movimento de tolerância e acolhimento. Depois dos ataques terroristas do dia 07/10 o movimento tornou-se muito mais significativo e urgente.

Pedimos aos leitores que se engajem nesta luta divulgando e compartilhando esta mensagem. A luta pela paz é interminável. Façamos dela nosso leitmotiv.

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#WeRemember, um gol da memória!

Por Ariel Krok

Há pouco mais de cinco anos o staff do World Jewish Congress, entidade máxima das comunidades judaicas em mais de cem países, criou a campanha mundial de lembrança e conscientização do Holocausto para o combate à todas as formas de discriminação e perseguição em todo mundo.

A ideia era usar as mídias sociais para atingir o maior número de pessoas em todo mundo, uma hashtag (#) que chegasse em todos os cantos da terra e que tocasse nos corações de todos os povos, todos os países, todas as religiões.

Cinco anos depois, em 2020 a hashtag #WeRemember se tornou o TT (trending topic) numero 1 no Twitter em países como Alemanha e Canadá, e foi o quarto tópico mais falado no Twitter globalmente com mais de 270.000 tweets registrados e não para de crescer…

Nestes cinco anos, bilhões de views foram registrados com postagens de milhões de pessoas comuns mas também de centenas de artistas, esportistas, jornalistas, juízes, chefes de Estado, dignitários de nações, reis e rainhas, líderes religiosos e até do Papa.

A luta contra o racismo, xenofobia, antissemitismo, misoginia, islamofobia, homofobia e toda forma de discriminação é uma batalha diuturna, uma luta constante, incessante, mas extremamente necessária, infelizmente cada vez mais nos dias de hoje.

Com toda esta gente postando, comentando, compartilhando e aumentando o número de visualizações (views), cria-se um awareness que age como um importante e abrangente catalisador para a conscientização do maior número de pessoas em todo globo.

A participação, neste ano assim como em anos anteriores, de tantos clubes de futebol no nosso Brasil é algo ímpar, único no mundo e motivo de grande orgulho para todos nós. A cada postagem, como as deste ano, do Atlético Mineiro, do Botafogo, Corinthians, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Clube do Remo e Vasco da Gama muito nos honraram.

É um número enorme de gloriosas histórias, somados temos cerca de quinze campeões da Copa Libertadores e dez campeões Mundiais, respeitáveis conquistas junto com torcidas ruidosas, gigantes que fazem o recado chegar em todo planeta. Dos doze times que participaram, dez são as maiores torcidas do Brasil, dentre estes, três – Flamengo, Corinthians e São Paulo – estão entre as dez maiores torcidas do mundo segundo a FIFA, não é pouca coisa.

Foram tantas homenagens emocionantes como a entrada em campo de Gre-Nal um dos derbies mais clássicos do mundo, ou do Corinthians segurando uma grande faixa, o Santos com um post lindo, e as diversas postagens de doze dos maiores times brasileiros, além do maravilhoso vídeo publicado pelo Internacional de Porto Alegre, foi de tirar o fôlego.

Não faltaram amigos para ajudar nesta difícil tarefa de convencimento das equipes e todos os tramites junto a CBF, por isto deixo aqui minha imensa gratidão para esta turma que trabalhou muito nos bastidores e dos seus contatos nos  times do coração.

É de encher o coração de esperanças por um mundo melhor, sem ódio, sem violência.

Muitíssimo Obrigado!

#WeRemember and will never forget / #Recordamos e nunca esqueceremos

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Desinformação assistida. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Desinformação assistida

Paulo Rosenbaum

Não, isto não é uma discussão sobre a eutanásia do quarto poder. Testemunhamos mídias cuja missão tem sido desinformar, filmes que registram a história com viés ideológico, documentários que ocultam a verdade, jornais que tergiversam sobre o gravíssimo abuso de poder por aqui e acolá. Os mecanismos que supostamente foram criados para controlar a desinformação transformaram-se numa estratégia para perpetua-la. Vale dizer, controlar o vazamento do falso de uma tal forma que a massa, mesmo desconfiada, aceite a marca de “jornalismo ilibado”.

Ora, não é preciso muita astúcia para entender que o mundo idealizado da informação acabou. Não precisam acreditar, basta ler com atenção os blogs sujos, a mídia shinobi, o poder integral, a BBC, Al Jazeera e suas filiais ao redor no mundo. Igualmente não é preciso ser muito perspicaz para perceber que a mistura de propaganda com informação resulta em insciência.

Talvez a arte de bem informar renasça adiante, mas, pelo menos por hora, tenhamos em mente de que não há quase nada confiável, muito menos análises técnicas e imparciais. Os analistas disponíveis, salvo raríssimas exceções, adotam a linguagem do senso comum, exercem pouco seu dever sagrado da autocrítica e vão misturando coleta de fontes secundarias com inspirações superficiais do momento.

Uma palavra sobre o instantâneo: a velocidade com que as news se disseminam através de boatos, retransmissão e posts nas redes antissociais é também um fator que corrói a virtude do que é verdadeiro. E as máquinas com chips já aprenderam como o boato e as análises de ocasião são lucrativas. Ou seja, por enquanto, é irreversível.

A democracia – segundo o velho Winston Churchill, “o pior sistema de governo exceto todos os demais”- entrou na perigosa rota de um novo absolutismo com a inestimável ajuda de toda essa cosmetologia representativa cuja autonomia encontra-se seriamente comprometida. Comprometida com o que? Para evitar o que? Ao fim e ao cabo: a prevalência da vontade dos povos.

Isso mesmo.

Há uma elite de bem pensantes que sabe muito melhor, e com certeza absoluta, o que é melhor para você. Não só sabe como, caso você não esteja ciente, ela o levará pela mão até a boca da urna. Por bem ou por mal. No impresso ou no eletrônico.

Espantoso, pois não?

Aqui entraria bem a expressão: mas isso é puro populismo.

Notem que o populista contemporâneo não se preocupa mais em agradar eleitores, precisa apenas subsidiar quem os influencia. Monitorar aqueles que construíram sua auto referencia a partir da grana e de muita alavancagem corporativa. Isso basta, olhem em volta.

Por isso mesmo os burocratas da USAID, órgão criado em 1961 por John F. Kennedy com uma intenção benévola até prova em contrário, estão desolados com seus desligamentos. Afinal a administração americana anterior fez fluir bilhões para Ongs ligadas ao discurso do ódio, subsidiou racistas e até alguns milhões foram para os terroristas de Gaza, além de gastos imprescindíveis como os U$ 7,6 milhões para ensinar jornalistas do Sri Lanka a usar linguagem não binária.

Você não precisa, e nem deve, acreditar neste escritor ou no industrial das baterias elétricas para julgar a pertinência de tais bons investimentos. Apenas verifique sozinho. Transforme-se temporariamente em um jornalista investigativo sem diploma. Porém, se a sua ideologia te paralisar na hora de fazer as constatações a partir dos dados que você mesmo apurar é hora de parar para uma dura reflexão à luz do reflexo no espelho.

Precisamos ter claro que o sujeito, a subjetividade e a necessidade de independência de pensamento precisaram ser subjugadas pelo Estado para reconstitui-lo como um novo modelo de governança. É o modelo Imperial piorado. Tudo isso evocando um daqueles “retrocessos do bem” que entre outras coisas desprezou a magna carta, um documento de 1215, fundante do conceito de democracia.

Não se enganem também com a farsa do argumento “polarização“ que usa o termo como se não houvesse uma clareza de princípios estratégica que norteia a destruição do centro político para dar lugar à opções rasantes. Rasantes porém sedutoras dada a redução da realidade que propõem. Trata-se de uma tática para mimetizar extremismos induzidos. As razões de Estado são cada vez mais claras: suprimir o sujeito individual e troca-lo por uma liberdade coletiva abstrata. Aquela que nunca chega. E, se chega, tem um corte medíocre. Não vale um tostão de mel coado. O mesmo acontece com uma casta que, a despeito de não ter obtido um único voto, legisla sobre milhões de pessoas e outorga-se o direito à uma elasticidade hermenêutica sem precedentes para interpretar, vale dizer, tergiversar sobre a constituição da federação. Digam lá, a carta ainda está em vigor? Lutamos contra a ditadura para ficar submetidos às irrecorríveis decisões monocráticas?

Por isso, mas não só por isso, para os regimes de hoje a desinformação assistida deve prevalecer como uma cortina de fumaça que simula as velhas palavras-chaves que hoje funcionam como slogans vazios: transparência, sustentabilidade, e claro, a isenção acima de qualquer suspeita.

Parece pessimismo, mas é apenas um fragmento mínimo do realismo fantástico dessa nossa nova era. Portanto, filtrem tudo e, caso tenham a sorte de extrair uma gota de informação crível, deem-se por satisfeitos.

A alternativa é começar a considerar que sob uma regeneração espontânea a imprensa deverá recuperar sua capacidade crítica e gerar uma nova geração de articulistas combativos e dispostos a enfrentar as modas.

Afinal, parafraseando Kafka, milagres acontecem!

Não para nós.

Quem sabe amanhã?

___________________

Ler também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/grao-de-areia-na-ampulheta/

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Um heroísmo jamais solicitado. (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Um heroísmo jamais solicitado

Paulo Rosenbaum

Se há algo que é consenso num mundo com cada vez menos consensos é a recusa da ideia de que crianças podem ser impunemente torturadas, seviciadas, decepadas, e colocadas ainda vivas em fornos.

Mas mesmo aquilo que pareceria um consenso óbvio torna-se polêmico num ambiente de obliquidade moral, geralmente construído por fantasias ideológicas, sejam elas religiosas, disputa de poder ou teses bizarras.

Estou há milhares de quilômetros de distância, mas mesmo daqui posso sentir o trajeto dos corpos dos dois bebês, Ariel e Kfir, e supostamente de sua mãe Shiri, (corpo que depois se revelou pertencer a outra pessoa) sendo transportados até o pai, Yarden, o único que conseguiu sobreviver nas mãos dos inimigos da humanidade, o regime tirânico e opressor dos terroristas que ainda governam Gaza.

Outras crianças e adolescentes foram trucidadas nos massacres de 07/10, outras mulheres e mães sofreram os tenebrosos abusos nos túneis do metrô fantasma mais caro da história. Todos os assassinatos são parecidos: insuperáveis e nos causam sentimentos de impotência. Mas nenhum deles terá o simbolismo das crianças da família Bibas.

Foi esta decisão do comando encapuzado regiamente patrocinado por países produtores de combustíveis fósseis, humanistas de ocasião, instituições que deveriam servir para construir entendimento e finalmente o silêncio da cumplicidade de um mundo indiferente que selou o destino daquelas pessoas.

É também evidente que os mortos inocentes dos filhos de dirigentes das entidades macabras devem ser considerados igualmente trágicos. Igualmente trágicos, mas não igualmente significativos. Por que? A diferença encontra-se na escolha individual, afinal assumir a responsabilidade pelos atos demanda uma consciência de cada sujeito. Cada assassino que optou pelo estupro,  esfolamento, vivissecção e fuzilamento fez uma escolha, e ostentou um cálculo pessoal. Portanto, é muito mais evidente ainda que quem teve a iniciativa de colocar suas próprias crias em risco, como escudos inumanos, para acobertar seus delitos é sobre eles que deve recair a responsabilidade.  A culpa por estas tragédias de vidas palestinas perdidas é exclusiva destes pais, extremistas de inspiração jinazista, que controlam a faixa há décadas para investir em porões de tortura.

Há, portanto, um simbolismo incontornável decorrente deste dia histórico: o radicalismo religioso ou laico – pois afinal são construídos pela mesma matéria prima, uma profunda ignorância acerca da missão humana neste mundo — criou uma solução unilateral, e decretou assim o fim da solução senso-comum (que já estava por um fio) de que poderia haver a criação de dois Estados.

Não é impossível que ela ressuscite em um futuro remoto, entretanto agora ela se tornou inviável, impensável e até mesmo ridícula.

E é esta responsabilidade histórica que precisa ser levada até as últimas consequências, assim como a instrumentalização da abjeta tolerância do ocidente com os 4.321 atentados terroristas que aconteceram na Terra apenas no ano de 2022.

O diagnóstico é que que estas agremiações terroristas estão sendo naturalizadas por cúmplices sob a fraude linguística das mídias ao nomeá-los como combatentes ou “resistência” (sic).

Só mesmo para quem não viu os filmes e as provas documentais e forenses – ou preferiu ignorar — do gênero de malevolência que esteve presente naquela manhã de sete de outubro no sul de Israel. Poder-se-ia até jurar que estavam “possuídos”, mas seria cair na tentação sobrenatural e acobertar suas responsabilidades criminosas, provavelmente nada do outro mundo ainda que me pergunte se o mal possui uma existência palpável ou conter uma dimensão metafísica.

Apesar dos impulsos eméticos (de vômitos) serem frequentes nos telespectadores das plateias que ousaram testemunhar as imagens, a exibição dos filmes e documentos deveria ser obrigatória em cada espaço público do mundo.

Assim como Yad Vaschem, o museu em Jerusalém que guarda a memória de 6 milhões de judeus mortos deveria abrir um espaço específico para os acontecimento de outubro de 2023.

Não faltam escatologistas de plantão para nos alarmar com o anúncio de final dos tempos: dos asteróides que extinguiriam a vida no planeta ao uso de armas nucleares por parte de países que desconhecem e/ou desprezam o conceito de dissuasão.

Destarte, eles podem um dia ter razão, porém, como escreveu Albert Camus, todos os dias encerram uma fração de fim de mundo. Todo dia o mundo acaba um pouco. Hoje é um destes dias no qual o mundo foi um pouco mais despedaçado. Para nossa sorte (ou infortúnio), ele recomeça. Recomeça sem necessariamente ter os erros zerados, e, por isso, nossos amanhãs estão repletos de erros antigos.

Se há algum mérito em haver sobrevivido a um transe tão assustador ele está em termos nos transformado em heróis à revelia. É óbvio que nosso heroísmo não pode ser comparado àqueles guerreiros que salvaram pessoas das tragédias, resgataram gente do sofrimento, ou defenderam e ainda defendem legitimamente o País das agressões e ameaças contra sua população.

Fomos obrigados ao fortalecimento e a renunciar às facilidades da vitimização. Refiro-me não só aos judeus, mas a todos os povos amantes da paz e da democracia que compreenderam que estamos numa luta decisiva pela permanência ante às múltiplas ameaças existenciais.

Fomos, se quiserem, condenados a ser aquilo que Freud chamava de “homens de ferro”. Férreos porque, apesar de tudo, não cedemos à fúria cega, indistinta e generalizada, mas somos obstinados quando se trata de uma implacável busca por justiça.

Férreos não porque desejávamos, mas porque o desgovernado rumo da história nos reergueu e nos obrigou a ficar em pé.

E, podem acreditar, desta vez será muito diferente, dificilmente cairemos novamente.

________________

Ler também:

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/grao-de-areia-na-ampulheta/
https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/esquecam-a-resiliencia/

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Entrevista com Hillel Neuer* (Diretor executivo da UN WATCH) (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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abordou a importância das mídias sociais no combate às violações de direitos humanos, é crucial que Israel conte sua história por meio de uma comunicação clara e eficaz., caracterizando-os como um massacre que expôs o ódio do grupo. Neuer também criticou a cobertura mediática que contribui para o antissemitismo e a desinformação, destacando sua velocidade e capacidade de contornar a grande mídia, diretor executivo da UN Watch, embora reconheça os perigos de desinformação. Ele analisou o impacto global dos atos terroristas do Hamas em 7 de outubro, enfatizando a necessidade de jornalistas questionarem narrativas não verificadas. Para ele, Hillel Neuer

Entrevista com Hillel Neuer* (Diretor executivo da UN WATCH)

Por

Paulo Rosenbaum (Judaísmo sem Partido)**

Jornal “O Estado de São Paulo”

Blog Conto de Notícia

Parte II

Blog-O combate às violações de direitos humanos envolve o aperfeiçoamento e a capacitação de mecanismos de controle de informações. Nesse sentido, como você avalia o papel das mídias sociais em três aspectos: velocidade com que as informações são disseminadas, qualidade das informações e combate à desinformação. E o que você sugere como abordagem para a mídia tradicional? Qual sua opinião sobre o papel das mídias sociais na denúncia de violações de direitos humanos? Você percebe que há uma falta de interesse da grande mídia em abordar o assunto?

HN- A mídia social é uma ferramenta essencial para nossa organização. Não precisamos mais depender dos guardiões da grande mídia, que é, em última análise, um pequeno grupo de pessoas, muitas das quais compartilham a mesma visão de mundo. Twitter, Instagram e YouTube nos permitiram comunicar nossa mensagem a milhões diretamente. Claro, a cobertura da grande mídia também é muito importante, pois são grandes plataformas e fornecem seriedade e legitimidade.

Ao mesmo tempo, não há dúvidas de que as mídias sociais têm perigos. No passado, havia algumas verificações antes que uma história fosse relatada em um jornal conhecido. Nas mídias sociais, qualquer um pode inventar uma história, e isso é usado efetivamente pela Rússia, China, Irã e Hamas. Precisamos estar cientes da propaganda, e há muita dela. Certifique-se de seguir e confiar apenas em pessoas ou instituições que tenham provado seu comprometimento com fatos, integridade e verdade.

Blog-Qual é a sua leitura do conflito atual desencadeado pelos atos terroristas do Hamas e como você imagina que os eventos de 7/10 impactarão o futuro não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo.

O massacre de 7 de outubro mudou tudo. Não foi apenas um ataque. Foi o pior massacre de judeus desde o Holocausto — crianças, mulheres e avós que foram sequestrados, torturados, agredidos e massacrados, com comunidades inteiras destruídas.

Expôs a verdadeira face do Hamas: um grupo terrorista genocida que não quer paz, apenas a destruição de Israel. Não se tratava de fronteiras ou negociações. Tratava-se de ódio, puro e simples.

O impacto é global. Primeiro, ele destruiu ilusões. Muitos acreditavam que o Hamas poderia ser “administrado” ou “contido”. Não mais. Os israelenses agora sabem que precisam desmantelar o Hamas para sobreviver.

Segundo, forçou o mundo a escolher lados. Ou você é contra o terror, ou está dando desculpas para ele. Infelizmente, vimos universidades e até mesmo alguns oficiais da ONU justificarem ou minimizarem as atrocidades. Isso foi um colapso moral.

Terceiro, desencadeou uma onda de antissemitismo no mundo todo. Escolas, sinagogas e estudantes judeus estão sob ataque — não por algo que fizeram, mas simplesmente por serem judeus. Isso nos diz que 7 de outubro não foi apenas sobre Israel. Foi um chamado para o mundo livre.

A lição é esta: apaziguar o terror só convida mais terror. Assim como o ISIS ou a Al-Qaeda, o Hamas deve ser derrotado. Caso contrário, outros seguirão o exemplo deles.

Israel está lutando não apenas por si mesmo, mas pelos valores do mundo civilizado.

Blog -Sabemos que as manifestações antissemitas começaram a ocorrer antes mesmo da retaliação de Israel contra os terroristas em Gaza. Parece claro que ainda há antissemitismo/antisionismo estrutural nas sociedades ocidentais. Na sua opinião, como isso foi possível considerando que apenas 8 décadas se passaram desde a Shoah?

HN – É chocante, mas não surpreendente.

Mesmo antes de Israel responder ao Hamas, vimos pessoas nas ruas ocidentais celebrando o massacre. Não protestando — celebrando. Cantando “glória aos mártires” enquanto os judeus ainda enterravam seus mortos.

Como isso é possível, 80 anos depois do Holocausto? Porque as lições de “Nunca Mais” nunca foram verdadeiramente aprendidas.

Depois de 1945, o antissemitismo não desapareceu. Ele apenas mudou de forma. Hoje, odiar os judeus é frequentemente disfarçado como ódio ao estado judeu. É por isso que as pessoas cantam “do rio ao mar” — não é um chamado para a paz, é um chamado para apagar Israel.

Grande parte do problema vem de universidades, mídia e instituições internacionais. Elas promoveram uma visão de mundo em que os judeus são considerados “colonizadores” e os grupos terroristas são vistos como “resistência”. Fatos não importam — a ideologia sim.

E sejamos honestos: o antissemitismo é o ódio mais antigo do mundo. Ele se adapta. Na Idade Média, eles diziam que os judeus envenenavam os poços. Hoje, eles dizem que os judeus envenenam a política global, que o estado judeu é o maior violador dos direitos humanos do mundo, o arqui-criminoso, um estado racista. É a mesma mentira em uma nova forma.

E tudo isso contra a única democracia liberal no obscuro Oriente Médio, uma sociedade multicultural que é o único lugar na região onde milhões de árabes e muçulmanos podem realmente votar e ser eleitos em eleições livres e justas, e desfrutar de direitos humanos básicos como liberdade de expressão, reunião e religião.

O 7 de outubro não criou o antissemitismo — ele o expôs. Alto e claro.

O desafio agora é se o Ocidente terá coragem de se opor a isso.

Blog – Há uma atitude sistemática de grande parte da mídia que vem afetando diretamente os judeus ao redor do mundo. Cito a cobertura escandalosa da BBC e outros veículos de mídia internacionais comprando a versão dos eventos do Hamas, que culpou fraudulentamente o país pelo ataque ao hospital Shifa de Gaza quando foi resultado de um míssil errático disparado pela jihad islâmica. Multidões contra judeus no Daguestão e Amsterdã. Interrupção de reuniões diplomáticas e ameaças, intimidação física e ataques violentos em universidades americanas. E contra todas as evidências demográficas, as acusações infundadas de genocídio. Como você vê o papel da mídia e da imprensa internacional em inflar as acusações contra Israel?

HN- Sim, nesse sentido pode-se dizer que a mídia tem sangue nas mãos.

Em 17 de outubro, quando um foguete atingiu o estacionamento do hospital Al-Ahli em Gaza, o Hamas correu para culpar Israel. Nenhuma evidência. Nenhuma verificação. Mas os principais veículos — BBC, New York Times, Al Jazeera — continuaram com a mentira. Assim como a Anistia Internacional. Dias depois, vimos multidões no Daguestão gritando “morte aos judeus” enquanto invadiam o aeroporto, caçando na pista passageiros israelenses cujo avião tinha acabado de pousar. Judeus foram alvos em cidades por toda a Europa e em universidades dos EUA.

A verdade real veio à tona rapidamente: era um foguete da Jihad Islâmica, disparado de dentro de Gaza. Mas o dano já estava feito. A correção nunca alcança a manchete.

Este é um padrão. Quando se trata de Israel, grande parte da mídia suspende o ceticismo. Eles tratam a propaganda terrorista como “testemunho de testemunha ocular”. Eles amplificam libelos de sangue — e então seguem em frente, enquanto os judeus pagam o preço.

E agora, alegações absurdas de “genocídio” estão sendo repetidas nas primeiras páginas e na ONU, mesmo com Israel fornecendo avisos antecipados aos civis, abrindo corredores humanitários e mantendo 59 reféns ainda detidos e torturados pelo Hamas.

Em vez de expor o terrorismo, muitos jornalistas estão lavando sua narrativa.

A imprensa deve responsabilizar os poderosos — não agir como um megafone para assassinos.

Blog – Você considera a desinformação a arma contra a qual temos menos conhecimento para nos defender no século XXI? Como podemos evitar o preconceito contra Israel e como podemos encorajar o jornalismo saudável para neutralizar campanhas de desinformação baseadas em preconceito e ideologia?

HN – Sim — a desinformação é a arma mais poderosa do século XXI. É barata, rápida e mortal. Um único tuíte de um grupo terrorista pode desencadear tumultos, mudar manchetes ou desencadear crises diplomáticas. Vimos isso depois da explosão do hospital Al-Ahli — uma falsa alegação do Hamas, e o mundo explodiu.

Mas a desinformação só funciona quando a verdade é fraca. Esse é o perigo real — não apenas a mentira, mas o silêncio que a deixa se espalhar.

Como podemos combatê-lo?

Precisamos de coragem. Jornalistas devem fazer perguntas difíceis — mesmo quando são impopulares. Quando o Hamas faz uma alegação, a imprensa deve tratá-la com o mesmo ceticismo que usaria para qualquer grupo armado. Não repeti-la como fato.

E precisamos de responsabilização. Quando veículos como a BBC ou o NYT publicam falsidades, eles devem corrigi-las claramente — não em notas de rodapé, mas com a mesma energia da história original.

Por fim, precisamos de educação. Muitos jovens hoje em dia obtêm suas notícias no TikTok ou no Instagram. É onde grande parte do preconceito anti-Israel se espalha. Precisamos ensinar pensamento crítico. Mostrar a eles como identificar propaganda. Lembre-os de que os fatos importam.

A desinformação prospera no silêncio. A verdade precisa de defensores.

Israel não é perfeito — nenhum país é. Mas merece ser julgado por fatos, não por padrões duplos ou libelos de sangue disfarçados de “ativismo”.

Blog- Você acha que uma mudança na administração dos EUA terá algum impacto positivo, negativo ou neutro no combate às violações de direitos humanos?

HN – Depende da questão — e de quem está liderando.

Um sinal encorajador é que Marco Rubio, agora servindo como Secretário de Estado, tem sido há muito tempo uma voz forte e de princípios sobre direitos humanos. Ele tem consistentemente falado contra os abusos de Cuba, Venezuela, China, Irã e Hamas. Confiamos que ele continuará a denunciar ditadores e defender dissidentes.

Dito isso, também temos preocupações. O presidente Trump elogiou Vladimir Putin, mesmo diante de graves abusos de direitos humanos. Esperamos que a administração adote uma postura mais firme sobre a Rússia daqui para frente.

No final das contas, defender os direitos humanos deve transcender a política. O que importa é se os EUA estão com os oprimidos, não com seus opressores. Estaremos observando de perto — e falando quando necessário.

Blog  – Por favor, comente sobre o papel atual da ONU, especialmente em relação ao atual conflito no Oriente Médio. Além do viés das ações de Antonio Guterres, que ambiguamente afirmou que o massacre de judeus no sul de Israel reivindicado pela organização terrorista Hamas “não aconteceu no vácuo”. E depois das várias evidências de que escolas da UNRWA, incluindo jornalistas credenciados por agências internacionais, estavam presentes no massacre do festival NOVA e mostraram algum grau de apoio às atividades terroristas que ocorreram antes e depois de 7 de outubro?

HN – As Nações Unidas se tornaram parte do problema.

Quando o Hamas realizou o pior massacre de judeus desde o Holocausto, esperávamos clareza moral. Em vez disso, o Secretário-Geral Guterres se colocou diante do mundo e disse que o massacre do Hamas “não aconteceu no vácuo”. Ele então listou supostas queixas palestinas contra Isael.

Mas se ele realmente quisesse falar sobre influências e causas, ele deveria ter reconhecido quem educou os terroristas. Ele deveria ter reconhecido que a UNRWA, sua agência em Gaza, emprega vários agentes do Hamas como professores, diretores de escolas e líderes sindicais. A UN Watch expôs centenas de funcionários da UNRWA que incitam a violência e elogiam Hitler nas mídias sociais.

Ele poderia ter nomeado Fathi Sharif, que supervisionou 2.000 professores da UNRWA no Líbano – enquanto ele também era um chefe terrorista do Hamas. Ou Suhail al-Hindi, um diretor de escola da UNRWA que também era um membro eleito do Bureau Político do Hamas. Em vez disso, Guterres não disse nada sobre como a ONU emprega conscientemente terroristas do Hamas para administrar a educação de palestinos, ensinando-os a odiar israelenses.

Pior, desde 7 de outubro, foi confirmado que pelo menos doze funcionários da UNRWA participaram diretamente do massacre — alguns no festival de música NOVA. Outros ajudaram a sequestrar reféns. Alguns celebraram online. Esses não são casos isolados. Isso é podridão sistêmica.

Durante anos, nós da UN Watch alertamos que a UNRWA estava permitindo o extremismo. Publicamos relatórios , citamos nomes e soamos o alarme. A ONU e Guterres nos ignoraram. O chefe da UNRWA, Philippe Lazzarini, nos acusou de “desinformação” e fingiu que não havia problema com terroristas administrando a educação da ONU para os moradores de Gaza. Agora o mundo vê o resultado.

Hoje, o Conselho de Direitos Humanos ainda culpa Israel enquanto permanece em silêncio sobre os crimes de guerra do Hamas. A ONU foi criada para defender a paz e a dignidade. Mas, de muitas maneiras, ela se tornou uma facilitadora do próprio ódio que deveria prevenir.

Blog- Henry Kissinger certa vez ironicamente declarou que Israel “não tinha política externa, mas apenas política interna”. Por fim, com toda sua vasta experiência, quais seriam suas sugestões para redefinir a comunicação de Israel com o mundo?

HN – A frase de Kissinger ainda dói — porque há verdade nela.

Por muito tempo, Israel se concentrou em sobreviver, não em explicar. Construiu uma das democracias mais resilientes do mundo, absorveu milhões de imigrantes, inovou em medicina, tecnologia e segurança — mas nem sempre contou sua história claramente. Isso tem que mudar.

Hoje, a informação é o campo de batalha. Mentiras se espalham em segundos. Libelos de sangue se tornam virais. E o silêncio é mortal.

Então o que Israel deveria fazer?

Primeiro, deve falar com uma só voz. Em tempos de crise, clareza e coordenação são tudo. Mensagens confusas são um presente para aqueles que desejam distorcer os fatos.

Segundo, invista em diplomacia digital. A próxima geração não lê jornais — eles rolam o TikTok. Israel precisa de vozes fluentes e confiáveis que possam alcançar públicos globais onde quer que estejam, em sua língua, com empatia e fatos.

Terceiro, eleve as histórias humanas. O mundo precisa ver não apenas políticas, mas pessoas. Quando as pessoas veem o custo humano, os corações mudam.

Quarto, empodere aliados. Muitas vezes é mais eficaz quando não israelenses falam — acadêmicos, ativistas, jornalistas, até mesmo dissidentes de países árabes ou do Irã. Suas vozes podem cortar o barulho.

E, finalmente, nunca peça desculpas por existir. A história de Israel não é apenas defensiva — é inspiradora. Um pequeno país, cercado por ameaças, prosperando em liberdade. Essa história precisa ser contada com orgulho.

No final, o objetivo não é apenas vencer discussões — é conquistar compreensão.

____________________

*A visita de Hillel Neuer  ao Brasil foi um convite da Vice Presidência do Hillel Internacional para compartilhar informações, reportar o mundo sobre o estado dos direitos humanos e alertar sobre todo tipo de fundamentalismo em comemoração dos 20 anos Hillel Rio e Kick off Hillel SP

** Registramos um agradecimento especial para Marcia Kelner Posiluk e João Erthal pela ajuda na viabilização desta entrevista

___________

Leia também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/entrevista-com-hillel-neuer-diretor-executivo-da-un-watch-parte-i/
https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/de-moises-para-o-mundo/
https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/grao-de-areia-na-ampulheta/

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l Neuer** (Diretor executivo da UN WATCH) (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Entrevista com Hillel Neuer** (Diretor executivo da UN WATCH)

Por

Paulo Rosenbaum (Judaísmo sem Partido)*

Jornal “O Estado de São Paulo”

Blog Conto de Notícia

Parte 1

Blog -Você pode contar aos nossos leitores sobre sua carreira acadêmica e profissional, suas principais motivações e o que o levou a se tornar um especialista em direitos humanos reconhecido internacionalmente?

HN- Cresci em Montreal, Canadá, criado em um forte lar judeu e em uma escola judaica, e enriquecido por um bairro onde as culturas se misturavam facilmente — meus vizinhos eram chineses, gregos, italianos e jamaicanos. Sempre fui cercado por diferentes vozes, diferentes histórias. Isso moldou meu senso de mundo desde cedo.

Meu pai trabalhava como advogado para pessoas que não tinham condições de pagar um. Muitos dos familiares dos meus avós foram assassinados no Holocausto. Minha casa era cheia de livros, debates e histórias — algumas alegres, outras trágicas, mas todas enraizadas em uma profunda consciência da história e da justiça. Eu sabia que a injustiça não era teórica — era pessoal. Desde cedo, entendi que a liberdade não é uma garantia — é algo que as pessoas perdem, lutam por e, muitas vezes, nunca recuperam.

Na Concordia University em Montreal, junto com minha especialização em ciência política, estudei um ótimo programa de livros de filosofia, literatura e história da arte, desde os gregos antigos até a modernidade. Eu me apaixonei pelas grandes questões — o que torna uma sociedade livre? Por que alguns regimes entram em colapso e outros perduram?

De lá, fui para a faculdade de direito na McGill e encontrei uma grande influência na minha vida e trabalho, o professor Irwin Cotler, ex-ministro da Justiça do Canadá e um dos advogados de direitos humanos mais respeitados do mundo. Fiz todos os cursos que ele deu e trabalhei como seu assistente de pesquisa. Mas seu impacto começou ainda mais cedo: eu o vi pela primeira vez quando criança, liderando um protesto em Montreal pela liberdade de prisioneiros políticos judeus na União Soviética. Sua paixão, clareza e coragem moral deixaram uma impressão duradoura. Em sala de aula, ele não apenas ensinava direito — ele fazia com que parecesse um chamado. Ele nos desafiou a imaginar liderar uma organização de direitos humanos. Na época, pensei que era apenas um exercício. Mas menos de dez anos depois, eu me vi fazendo exatamente isso. Cotler não apenas ensinou gerações de alunos — ele nos inspirou a agir, a falar e a acreditar que o direito, quando guiado pela consciência, poderia realmente mudar vidas

Depois, fiz um trabalho de pós-graduação em direito constitucional comparado na Universidade Hebraica em Jerusalém. Ao longo do caminho, trabalhei como escriturário na Suprema Corte de Israel e depois pratiquei direito em Nova York em um grande escritório. Trabalhei em casos de direitos civis — incluindo um envolvendo discriminação racial nas forças armadas dos EUA. Isso abriu meus olhos para como as ferramentas legais poderiam ser usadas para combater a injustiça, mesmo dentro de instituições poderosas.

Mas, honestamente, sempre tive um pé na advocacia. Quando adolescente, escrevi um artigo para o jornal da minha escola criticando a ONU por seus padrões duplos. Eu tinha talvez 15 anos. Anos depois, quando ouvi que havia uma vaga em uma pequena ONG em Genebra chamada UN Watch, dei um salto — e esse salto se tornou o trabalho da minha vida.

Na UN Watch, defendemos pessoas que a maior parte do mundo ignora — prisioneiros políticos na Venezuela, heróis dos direitos das mulheres presos no Irã, ativistas pela democracia de Hong Kong, denunciantes da Rússia. Somos uma equipe pequena, mas amplificamos vozes que regimes autoritários tentam silenciar.

Uma das nossas plataformas mais importantes é a Cúpula de Genebra pelos Direitos Humanos , onde reunimos dissidentes oprimidos do mundo todo — sobreviventes uigures, desertores norte-coreanos, artistas cubanos — e lhes damos o microfone.

Às vezes somos os únicos a dizer o que todos os outros têm medo de dizer.

Quando o dissidente russo Vladimir Kara-Murza foi preso por chamar Putin de criminoso de guerra, lutamos muito para manter seu nome aos olhos do público. Quando ele finalmente foi solto, ele nos disse que fez a diferença — saber que as pessoas de fora não o tinham esquecido.

Ou quando me levantei em Genebra e denunciei a ONU por eleger ditaduras como China e Cuba para o Conselho de Direitos Humanos. Eles tentaram me silenciar. Eles cortaram meu microfone. Mas não paramos — e nossos discursos agora foram vistos por milhões online.

Este trabalho não é fácil. Nem sempre é popular. E sim, eu sou o homem mais odiado na ONU — mas tudo bem. Porque se os regimes em Teerã, Pyongyang e Caracas estão chateados comigo — junto com alguns supostos ativistas do Ocidente que são apologistas de terroristas e regimes antiocidentais — então eu sei que estou fazendo algo certo.

No final das contas, faço isso porque acredito no poder da verdade — e na ideia de que uma voz, mesmo pequena, ainda pode fazer a diferença.

Blog – Quais países enfrentam atualmente os maiores desafios em relação às violações mais importantes de direitos humanos e como você vê a atuação de organizações internacionais em relação ao monitoramento dessas violações? Há efetividade na investigação das denúncias?

HN- Infelizmente, a melhor indicação de onde encontrar os piores abusos de direitos humanos é olhar para o órgão mundial que deveria investigá-los: o Conselho de Direitos Humanos da ONU, composto por 47 nações. Os membros hoje incluem, por exemplo, China, Cuba, Catar, Sudão e Vietnã.

Isso mesmo: o regime comunista da China é um membro. A China está oprimindo 1,5 bilhão de pessoas, um quinto da humanidade, mas nunca foi criticada por nenhuma resolução, inquérito ou sessão especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Pelo contrário, eles se sentam naquele órgão como juízes.

Então, minha organização decidiu, na nossa recente 17ª Cúpula Anual de Genebra para Direitos Humanos e Democracia — que realizamos do outro lado da rua da sede do Conselho em Genebra, e com nosso evento de abertura realizado dentro da própria sede da ONU — que o mundo precisava saber a verdade sobre a China.

Então convidamos Wang da Time como testemunha . Seu pai Wang Biingzhang é o pai do movimento pró-democracia chinês. Eles o sequestraram em junho de 2002, e ele está definhando na prisão há mais de duas décadas.

O mundo precisa saber o que a China está fazendo com os uigures. Reunindo-os em campos. Tentando erradicar toda a sua cultura. Então, também convidamos Rahima Mahmut, uma ativista de direitos humanos uigur, como uma de nossas palestrantes .

O mundo precisa saber o que a China está fazendo com o povo do Tibete. Também tentando destruir sua cultura. Então tivemos conosco Nam kyi como testemunha . Por protestar contra a opressão da China aos 15 anos, eles a jogaram na prisão. Ela ficou lá por três anos. Ela conseguiu escapar. Ela andou sem parar por 10 dias e escapou para a Índia.

E o mundo precisa saber o que o Partido Comunista Chinês está fazendo com Hong Kong. Outrora uma grande ilha de liberdade na Ásia, sua democracia foi estrangulada por Pequim. Então convidamos Sebastien Lai para testemunhar sobre seu pai Jimmy Lai, editor de um grande jornal pró-democracia. Um homem muito bem-sucedido, Jimmy Lai poderia ter escapado para o exterior, mas ele disse não. Ele escolheu não abandonar o navio, para ficar com seu povo. Eles o jogaram na prisão. Ele tem 77 anos.

Outro regime que atua como juiz no UNHRC é o estado policial de Cuba . O mundo precisa saber o que a ditadura de Havana está fazendo com seu povo. Então convidamos Osiris Puerto Terry. Ele estava ao lado dos protestos históricos pró-democracia em julho de 2021 e levou vários tiros.

O Sudão também faz parte do UNHRC. O mundo precisa saber a verdade sobre a guerra que acabou de matar 150.000 pessoas. 11 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas. Então convidamos Niemat Ahmadi, uma importante defensora dos direitos das mulheres do Sudão, uma sobrevivente do Genocídio do Sudão.

O Vietnã está no UNHRC. Um regime comunista de partido único, o mundo precisa saber sobre eles silenciarem toda dissidência, inclusive nas mídias sociais. Então convidamos Van Trang Nguyen, que foi alvo do regime por seu ativismo pró-democracia.

É difícil imaginar, mas o Catar , um país que patrocina terroristas e regimes misóginos, também está sentado no Conselho de Direitos Humanos. Eles jogam dinheiro por aí, milhões de dólares para todas as agências internacionais, e os diretores adoram se encontrar com eles. No entanto, o Catar apoia terroristas e regimes misóginos, como o Talibã no Afeganistão.

Nas Nações Unidas, surpreendentemente, alguns querem normalizar e reconhecer o Talibã. Ouça as palavras da Secretária-Geral Adjunta da ONU, Amina Muhammad, de pouco mais de um ano atrás: “Espero que haja um dia em que reconheçamos este governo.”

Então convidamos a Dra. Massouda Jalal, a pediatra que serviu como Ministra Afegã de Assuntos Femininos, e sua filha, Husna Jalal, ambas agora exiladas, para contar ao mundo como as mulheres são tratadas sob o Talibã. Por sua liderança corajosa, elas receberam nosso Prêmio de Direitos das Mulheres.

A Eritreia acaba de completar seis anos no Conselho. Em Nova York, eles fazem parte do comitê da ONU que supervisiona ONGs de direitos humanos. O mundo precisa saber sobre o ditador, o primeiro e único presidente do país desde 1993; ele é presidente vitalício. Então convidamos Betlehem Isaak para nos contar sobre seu pai, Dawit Isaak, o jornalista mais longo do mundo detido, levado em 2001, 24 anos atrás, por apoiar a reforma democrática.

Espantosamente, em 2023, o Presidente do Fórum Social do Conselho de Direitos Humanos da ONU era a República Islâmica do Irã . O mundo precisa saber quem é esse regime.

Então trouxemos três vítimas do Irã. Ouvimos Mahan Mehrabi, cujo irmão Mahmoud foi preso por participar dos protestos “Woman Life Freedom”. Em maio, ele foi condenado à morte – pelo crime de criticar o governo nas redes sociais. E ouvimos o testemunho de Saman Pouryaghma – por protestar, o regime atirou em seu olho.

Além disso, há regimes que por muitos anos estiveram sentados no UNHRC, por exemplo, uma das ditaduras mais poderosas do mundo: a Rússia sob Vladimir Putin. Então, há apenas seis semanas, convidamos como testemunha um herói que recentemente saiu do gulag russo: Vladimir Kara-Murza , um líder da oposição russa, autor, jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer, historiador e documentarista.

Como ele se manifestou contra Putin, tentaram matá-lo por envenenamento em 2015 e novamente em 2017. Ele mal sobreviveu. Ele voltou para a Rússia. Ele se manifestou contra o regime. Em abril de 2022, depois que ele chamou Putin de criminoso de guerra, eles o levaram embora. Eles o condenaram a 25 anos de prisão por traição. Ele estava definhando em um gulag siberiano, em confinamento solitário, sua saúde se deteriorando. Sua esposa Evgenia viajou pelo mundo, lutando incansavelmente por sua libertação. Nós a trouxemos várias vezes para as Nações Unidas. Por um milagre, em agosto, Vladimir foi libertado, e pudemos vê- los reunidos em nossa Cúpula de Genebra.

Na Venezuela , também um antigo membro de longa data do UNHRC, o ditador Nicolás Maduro destruiu o país, fazendo com que mais de 7 milhões de pessoas fugissem. Ele esteve no Conselho de Direitos Humanos por muitos anos.

Em julho passado, com o apoio da líder da oposição Maria Corina Machado, Edmundo González decidiu concorrer à Presidência. O mundo sabe que ele venceu. Maduro mentiu e inventou resultados falsos . O mundo sabe que o Sr. Gonzalez venceu. O regime sequestrou seu genro. Ele vive no exílio , mas continua falando. Tivemos a honra de ouvir o depoimento de Maria Corina Machado e Edmundo González, quando os presenteamos com o Prêmio Coragem 2025 .

A UN Watch está comprometida em apoiar esses e outros heróis corajosos em todo o mundo que lutam para libertar seus povos da ditadura e da repressão.

Blog- Quais são suas sugestões para mudar/modificar o viés ideológico e político evidente dos mecanismos/instituições que monitoram os direitos humanos?

HN- No final do dia, nossos governos individuais precisam mostrar coragem nas Nações Unidas. Infelizmente, a realidade hoje é que os representantes de nossas democracias muitas vezes apenas “seguem para se dar bem”. Eles seguem, por exemplo, com a eleição da República Islâmica do Irã — um dos regimes mais misóginos do mundo — para a Comissão de Direitos das Mulheres da ONU.

Somente quando expusemos essa obscenidade, e após uma campanha de dois anos , conseguimos finalmente expulsar o Irã daquele órgão. Os EUA sob Biden inicialmente não comentaram, mas eventualmente sob pressão, e especialmente depois que os protestos “Women Life Freedom” estouraram, eles mudaram sua posição. No final, os EUA usaram nossa ideia e convocaram uma sessão especial sem precedentes da ONU para remover os aiatolás da comissão de direitos das mulheres.

Então é isso que precisamos que outros façam também: França, Alemanha, Canadá, realmente tomando uma posição de princípios na ONU. Só então teremos multilateralismo credível .

Blog- Como foi o processo de fundação e desenvolvimento da prestigiosa organização que você dirige, (UN WATCH), e quais desafios você enfrentou até agora? Como você imagina o futuro da organização e quais são suas propostas para torná-la cada vez mais conhecida e eficiente, não apenas dentro da ONU, mas na observação de outras organizações?

HN – A organização foi fundada em 1993 pelo lendário ativista dos direitos civis Morris Abram, que já havia servido como embaixador dos EUA nas Nações Unidas em Genebra e foi uma figura-chave no movimento pelos direitos civis. Tive a honra de me juntar à UN Watch em 2004 e sou seu diretor executivo desde então.

Quando cheguei a bordo, a UN Watch já era uma voz respeitada por responsabilizar a ONU por seus próprios princípios. Mas trabalhamos duro ao longo dos anos para aumentar nosso impacto — tanto dentro do sistema da ONU quanto muito além dele.

Nosso mundo mudou por volta de 2007, com o advento do YouTube e a ONU começando a gravar os debates em vídeo. Vimos o potencial dessa oportunidade.

Se milhões de pessoas no mundo todo conhecem e admiram a UN Watch e a causa pela qual lutamos, é quase inteiramente por causa dos nossos discursos nas Nações Unidas.

A capacidade da nossa organização de falar nas Nações Unidas é uma oportunidade de ouro para ser uma voz no cenário mundial para constituintes que se sentem não representados e injustiçados. Isso é verdade para o direito de Israel de ser tratado igualmente e de se defender contra terroristas, e para vítimas de abusos de direitos humanos em todo o mundo, que de outra forma são amplamente ignoradas.

Palavras importam. Discursos proferidos na assembleia das nações têm o imenso poder de inspirar, educar e mobilizar milhões, reunindo pessoas para uma causa, como uma bandeira.

Até o momento, os vídeos do UN Watch alcançaram 60 milhões de visualizações somente no YouTube, e milhões a mais no Facebook, Twitter e Instagram. Nenhuma outra organização em nosso campo de tamanho comparável ou até mesmo maior conseguiu atingir esse feito.

Um dos nossos maiores desafios tem sido o desequilíbrio e a politização que vemos frequentemente na ONU, onde alguns dos piores violadores dos direitos humanos conseguem ser eleitos para órgãos como o Conselho de Direitos Humanos. Nesse ambiente, dizer a verdade pode ser impopular — mas é absolutamente necessário.

Enfrentamos esses desafios destacando as vozes que muitas vezes são silenciadas — dissidentes do Irã, Venezuela, Rússia, China e outros lugares.

Também levamos nossa mensagem além da ONU, alcançando milhões por meio de discursos, mídias sociais e cobertura da mídia internacional. Um dos meus objetivos pessoais tem sido tornar os direitos humanos reais e relacionáveis, não apenas resoluções e relatórios abstratos.

Os incríveis testemunhos pessoais de dissidentes que trazemos à ONU e ao mundo, dia após dia, são essenciais.

E nosso trabalho está sendo reconhecido. Em 2018, a Universidade McGill me concedeu um doutorado honorário por nosso trabalho para promover os direitos humanos, e por ser “uma voz para aqueles sem uma”, por ser “um inovador na criação de plataformas globais para dissidentes corajosos e campeões dos direitos humanos de todo o mundo”, e por ser “um defensor apaixonado dos direitos humanos, lutando incansavelmente contra a discriminação, a tortura e a injustiça”.

Olhando para o futuro, quero ver a UN Watch se tornar ainda mais eficaz na defesa de vítimas e na exposição de padrões duplos. Estamos expandindo nossa pesquisa, treinando uma nova geração de defensores dos direitos humanos e fortalecendo parcerias com grupos com ideias semelhantes ao redor do mundo. Acredito em combinar a clareza moral de dizer a verdade com o foco estratégico necessário para realmente fazer a mudança.

Em última análise, nossa missão continua simples — e urgente: defender os princípios universais que a ONU foi fundada para proteger e garantir que aqueles que estão no poder sejam responsabilizados quando os traem.

_________________________________

*A visita de Hillel Neuer  ao Brasil foi um convite da Vice Presidência do Hillel Internacional para compartilhar informações, reportar o mundo sobre o estado dos direitos humanos e alertar sobre todo tipo de fundamentalismo em comemoração dos 20 anos Hillel Rio e Kick off Hillel SP

** Registramos um agradecimento especial para Marcia Kelner Posiluk e João Erthal pela ajuda na viabilização desta entrevista

Continua  na próxima semana (Parte II)

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A Ciência Infusa da Maternidade II

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A Ciência Infusa da Maternidade II

Para Silvia Fernanda Rosenbaum

Como escrevi no artigo de 2022, a “Ciência Infusa da Maternidade I”, nosso professor, o neuropatologista Walter E. Maffei afirmava que “se a mãe não faz o diagnóstico ninguém mais faz”. Referia-se não apenas a uma intuição sobre a condição clinica da criança, mas a uma espécie de ciência infusa.

Falar sobre a função da maternidade do ponto de vista masculino é arriscado pois é especular sobre um terreno desconhecido.

Por outro lado, sabendo que a expectativa das mães estará sempre além do que os homens podem oferecer, alguma indulgência antecipada pode ser solicitada.

Isto dito, vejam como uma informação científica não só é plástica e dinâmica, como ajuda a compreender o que a maioria não pode sequer imaginar.

Durante o desenvolvimento do feto, existe um fenômeno que chamamos de barreira placentária. Uma proteção para a mãe entre outras funções, age contra a migração de material genético do pai, que poderia atuar como uma proteína estranha e sensibilizar imunologicamente a grávida.

Não é que a ciência tenha voltado atrás, mas ela é prodiga exatamente por se retificar constantemente.

A ciência que honra sua abertura mental e conceitual não mais se atém ao positivismo, seria um contrassenso aceitar o dogma.

Essa é a beleza ignorada do espírito da investigação cientifica e da pesquisa. A ciência não só admite que erra, e erra justificadamente porque é um saber inconformado, erra porque se auto inspeciona. Além disso deve lutar contra sua intuição e, portanto, o bom pesquisador precisa manter algum grau de desconfiança sobre suas certezas.

A ideia da infalibilidade da ciência está mais relacionada à mitologia do que à racionalidade. Mais relacionada à crença do que à hipótese colocada à prova.

Pode-se dizer inclusive que a ciência é insaciavelmente abelhuda. Aqueles que se fossilizam em informações seguras, peremptórias e incontestes não estão alinhados nem com o espírito da ciência, muito menos com seu devir.

E exatamente por isso ela, enfim, pode se curvar ao inexplicável, ao assumir que existem questões que ninguém pode responder, fenômenos que se constatam, mas para os quais não há explicação satisfatória, mesmo que provisoriamente.

Por isso mesmo a prática científica, dentro e fora das ciências médicas, requer a admissão de algum grau de empirismo. A ciência é, enfim, um campo totalmente aberto onde o desejável é que tenhamos mais perguntas do que respostas.

O campo da pesquisa é essencialmente analítico, por isso também é particularmente preocupante quando ela é sequestrada para atender à finalidades ideológicas, políticas ou interesses pecuniários.

Este tráfego bidirecional de células entre mãe e o bebê, especialmente a inédita fração de células que passa do feto para a gestante foi, sem dúvida, uma quebra de paradigma.

A descoberta do micro quimerismo fetal é tanto uma descoberta espetacular como um símbolo da união singular que vigora entre mães e seus filhos.

Singular porque é um evento único.

Vigora porque é uma espécie de laço indissolúvel.

Como todos os fenômenos biológicos a referida migração de células pode acarretar repercussões negativas – a depender das condições individuais — (como por exemplo estar na gênese ou contribuir para algumas patologias autoimunes), mas também estudos recentes apontam para efeitos muito favoráveis para as mães como demonstra este artigo publicado no NIH:

“No entanto, ainda não está claro se as células fetais microquiméricas que persistem na mãe são um achado incidental, são naturalmente patogênicas ou atuam como células-tronco reparadoras, e os estímulos ambientais ou biológicos que determinam o destino das células microquiméricas ainda são indeterminados. Estudos futuros também devem se concentrar em investigar se as células fetais criam melhora funcional em resposta à lesão materna e se essa resposta pode ser manipulada.”

https://pmc-ncbi-(nlm-nih gov.translate.goog/articles/PMC4989712/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc)

Tanto num caso como no outro há neste fenomeno um aspecto para além do simbólico. Respectivamente: o sacrificio da maternidade por submeter-se a um risco por um lado, e, de outro, uma inusitada proteção (as células-tronco protetoras) que as informações biológicas do bebe oferecem e que permanecem no organismo da mãe durante toda sua vida.

Talvez esta presença da mencionada informação biológica bidirecional explique uma parte da conexão que só as mulheres experimentam. Talvez explique o instinto protetor. Provavelmente esteja na raiz dos inúmeros testemunhos de mães que intuem sobre o estado de seus filhos, mesmo ausentes, mesmo quando eles emigram e vivem do outro lado do mundo.

É portanto uma conexão orgânica, de entranhas, onde a quimera se transforma em realidade física de pessoas que são constituídas do mesmo tecido.

Nem mesmo esta hipótese explica como as mães adotivas, aquelas que precisaram de doação de óvulos, alcançam a mesma empatia inata e incondicional com seus filhos. E a mesmíssima ligação, igualmente inexplicável, que relatam.

Afinal, é possível que ser mãe seja um outro estado de vida. Uma outra forma de presença do espirito, e quando se trata de estado de espirito a ciência também precisa aceitar que às vezes pode deparar com o insondável. Assim como é apenas aparente a contradição entre arte e ciência, admitir que existem aspectos que nos excedem pode ser saudável. A maternidade é um deles.

É com humildade que devemos pausar nossa obsessão por razões e explicações para apenas sentir e contemplar.

Que as mães tenham mais este dia significativo

____________

Leia também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/a-ciencia-infusa-da-maternidade/

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A travessia de Moisés – Shavuot (A entrega das tábuas da Lei) (Blog Estadão)

26 quinta-feira jun 2025

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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ele se preparava para entregar as tábuas da Lei, enquanto enfrenta tensões entre sua fé e o que observa no acampamento. Após 40 dias de meditação, Moisés percebe a desunião e a anarquia entre os israelitas. Ele reflete sobre a necessidade de acordos e menos ego, Moisés recebe instruções no Monte Sinai antes de descer, pedindo orientações ao Criador, que participa com humor e sabedoria, que significariam um grande desafio para seu povo. Em meio a absurdos contemporâneos e críticas sobre a imediata aplicação das leis

A travessia de Moisés – Shavuot (A entrega das tábuas da Lei)

Moisés estava recebendo as últimas instruções antes de descer da montanha. Estava por lá há 40 dias e 40 noites, ele meditava enquanto fazia jejuns não intermitentes. Especulava sobre a natureza do Criador: Invisível, mas que interfere no mundo físico. Onisciente e Onipresente, destarte permite o inimaginável. Ele lutava pela convicção da esperança contra sua racionalidade desconfiada. Tentava ser contraintuitivo como um cientista, mas aberto ao inesperado como um Poeta.

O ambiente no acampamento estava carregado e tenso.

Moisés cochilou, e acordou com uma bronca:

— Acorda aí meu caro.

Moises achou que ouvia coisas, virou para o lado e pegou no sono novamente.

(Estrondo violento)

— As suas ordens, oh Senhor.

— Desce filho, desce que tá pegado. O caldo está entornando.

— Hoje tem canja?

(Som da terra se partindo e fendas de terremoto se abrindo)

— Foi mal. Perdão!

— Vai logo antes que eu perca minha paciência e olha que ela é do tamanho do raio de curvatura do Universo. Albert sabe, ele é do Conselho e está aqui ao lado, e não me deixa mentir.

Moshe calçou as sandálias e desceu devagar equilibrando as tabuas pesadíssimas. A carga estava na responsabilidade. Já havia quebrado as anteriores quando viu o que faziam no acampamento com o bezerro de ouro.

Confabulou para si: Ih, tem uns itens aqui nessas tábuas que vai fazer o pessoal chiar horrores.

— Yekuziel filho, posso ouvir pensamentos também.

— Rei do Universo, sinto, é que conheço bem essa rapaziada. E como fica o sigilo entre criatura e Criador?

— Quer mesmo que te mostre onde fica o sigilo?

— Altíssimo, pega leve comigo, sabe quando foi minha última refeição?

(Chove em abundância Maná, com gosto de churro!)

— Grato Senhor!

O monte Sinai estava cheio de vida e florescia conforme ele ia passando com as tabuas e o seu mensageiro.

— Sr. Estou com medo, o pessoal esta impaciente lá embaixo.

— Certo, suave, pega leve.

— Preciso confessar, não consigo ser um ortodoxo.

— E quem disse que você precisa ser, conhece o lema da entrada do Jardim do Paraíso?

— Não conheço

— É: viva e deixa viver.

— É que um amigo me disse que sou um ortodoxo não observante.

— Excelente. Vou adotar. Eles podem esperar mais um tantinho, chegue com classe.

— Eu sei Todo Poderoso mas eles…o Sr conhece!

— Conheço, oh se conheço

— Estas leis são para sempre?

— Para todo o sempre.

— É que (Moisés fica sem jeito mas desembucha) – É que vai demorar um tempo para o pessoal se adaptar.

— Decreto aplicação imediata para toda a humanidade. Para os primos. É isso ou a coisa vai para a fissão nuclear.

— Certo, podemos repassar?

— Desce.

— Posso dar uma lida antes

(Trovão violento)

— Desce já.

— Opa. Descendoô.

Aproximando-se do acampamento Moisés detecta de longe uma certa anarquia. Ninguém se interessa. Todo mundo parece grudado no celular.

Ele pigarreia para tentar receber alguma atenção.

— Preparem-se, que aqui estão as instruções que devem ser seguidas.

— Moshe, pode esperar terminar? Estamos vendo a CPI.

— Mais uma? Qual CPI?

— A dos aposentados

(Faíscas erráticas e brasas voam de todos os dados)

— Oh irmãos, isso aqui que trago nestas pedras é muito mais importante.

Moises nota que também há muita gente grudada num telão

— O que aquele pessoal está assistindo ali? É o Timão? Interfere o Senhor.

— Altíssimo. Nem te conto!

— Estão vendo o que?

— Noticiário internacional.

— Boas notícias?

— Depende.

— Depende do que?

— É que eles estão tentando entender como estamos sendo acusados por estar nos defendendo, e olha, os inimigos da humanidade fizeram barbaridades e ainda tem gente sequestrada.

— Cansei.

Pela segunda vez na história do Universo o Criador Suspira e o mundo para.

— Alegam o que desta vez?

— Que não temos direito à legitima defesa.

— Mais uma vez essa história?

Moises cogita voltar para cima, e pedir novas instruções. E roga:

— Altíssimo? Não dá para nos dar um refresco?

— Só tenho de maracujá, brincadeira. Eu tento, mas todo mundo precisa colaborar.

— Mas e toda essa situação? Os zumbis admiradores do Adolf saíram do armário.

— No pasaran!

— Agora senti firmeza!

(Trombetas de anjos soaram exigindo mais formalidade)

Moisés recolhe-se

— Ofereça a paz condicional em boa fé e se não aceitarem veremos.

— Este todo mundo irredutível. Enxergo muita desunião.

— Ai, ai, ai, já falei que o caminho é menos ego. Nunca leram Viktor Frankl? Não sabem o que é auto transcendência?

— Não ouvi bem o que tu disse Excelso.

— Falei baixo porque os freudianos têm birra.

— Ah, aí também rola uma divisão?

— E onde não tem?

— Aqui está todo mundo convencido que tem razão!

— Que ironia, eu que sou quem sou não estou irredutível

— Qual é o caminho? Dá uma luz aqui para a gente!

— Minha especialidade. Acordos, podem ser provisórios, faz tempo que abandonei a Utopia.

— Acordos de Abrahão?

— Chames como quiser — mas esse foi um filho muito amado, pai de muitos povos.

E ele tem enorme prestígio aqui em cima e respeito dos primos.

— O pessoal tem birra de quem fez a proposta!

— Menos ego moçada, devia ter feito esse o meu primeiro mandamento.

— Quer mexer? Ainda dá para editar. Trouxe o lap.

— Fica assim mesmo!

— E o Macron?

—- O da bofetada? Véio, aquela doeu.

— É que ele andou insuflando a turminha radical, manja, os que querem impor homogeneidade religiosa?

— Bom, como já avisei, vida e morte esta nas mãos da língua, ele deveria é ter mais respeito com a Bardot.

— Perdão, não é a Bardot, é só Brigitte.

— As vezes a informação demora um pouco para chegar aqui.

— Aqui é Musk! Chega rapidinho.

— O que, óleo essencial?

— Esquece.

— Agita aí, porque vocês precisam de um milagre.

— Desculpa a insolência Mestre, mas esse é o seu departamento.

— É verdade, mas já fiz tantos, e vocês já estão crescidinhos. Eu e a cúpula formamos maioria e decidimos que chegou a hora de ser apenas observadores participantes.

— Qual cúpula? Ai também tem Executivo, Legislativo e Supremo?

— Evidente. Divisão de poder e rodizio. Pergunta para o Freud, ele é que está na coordenação.

— Cheguei aqui bem embaixo, o que faço agora?

— Estou vigilante, dou a maior força, mas a bola está convosco. Boa sorte e Mazal Tov.

(Luz brilhante e ubíqua irradiada da Terra em direção aos céus)

— Amem.

____________________

Leia também

https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/contrariando-kafka-israel-e-o-dever-do-mundo/

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