Um heroísmo jamais solicitado
Paulo Rosenbaum
Se há algo que é consenso num mundo com cada vez menos consensos é a recusa da ideia de que crianças podem ser impunemente torturadas, seviciadas, decepadas, e colocadas ainda vivas em fornos.
Mas mesmo aquilo que pareceria um consenso óbvio torna-se polêmico num ambiente de obliquidade moral, geralmente construído por fantasias ideológicas, sejam elas religiosas, disputa de poder ou teses bizarras.
Estou há milhares de quilômetros de distância, mas mesmo daqui posso sentir o trajeto dos corpos dos dois bebês, Ariel e Kfir, e supostamente de sua mãe Shiri, (corpo que depois se revelou pertencer a outra pessoa) sendo transportados até o pai, Yarden, o único que conseguiu sobreviver nas mãos dos inimigos da humanidade, o regime tirânico e opressor dos terroristas que ainda governam Gaza.
Outras crianças e adolescentes foram trucidadas nos massacres de 07/10, outras mulheres e mães sofreram os tenebrosos abusos nos túneis do metrô fantasma mais caro da história. Todos os assassinatos são parecidos: insuperáveis e nos causam sentimentos de impotência. Mas nenhum deles terá o simbolismo das crianças da família Bibas.
Foi esta decisão do comando encapuzado regiamente patrocinado por países produtores de combustíveis fósseis, humanistas de ocasião, instituições que deveriam servir para construir entendimento e finalmente o silêncio da cumplicidade de um mundo indiferente que selou o destino daquelas pessoas.
É também evidente que os mortos inocentes dos filhos de dirigentes das entidades macabras devem ser considerados igualmente trágicos. Igualmente trágicos, mas não igualmente significativos. Por que? A diferença encontra-se na escolha individual, afinal assumir a responsabilidade pelos atos demanda uma consciência de cada sujeito. Cada assassino que optou pelo estupro, esfolamento, vivissecção e fuzilamento fez uma escolha, e ostentou um cálculo pessoal. Portanto, é muito mais evidente ainda que quem teve a iniciativa de colocar suas próprias crias em risco, como escudos inumanos, para acobertar seus delitos é sobre eles que deve recair a responsabilidade. A culpa por estas tragédias de vidas palestinas perdidas é exclusiva destes pais, extremistas de inspiração jinazista, que controlam a faixa há décadas para investir em porões de tortura.
Há, portanto, um simbolismo incontornável decorrente deste dia histórico: o radicalismo religioso ou laico – pois afinal são construídos pela mesma matéria prima, uma profunda ignorância acerca da missão humana neste mundo — criou uma solução unilateral, e decretou assim o fim da solução senso-comum (que já estava por um fio) de que poderia haver a criação de dois Estados.
Não é impossível que ela ressuscite em um futuro remoto, entretanto agora ela se tornou inviável, impensável e até mesmo ridícula.
E é esta responsabilidade histórica que precisa ser levada até as últimas consequências, assim como a instrumentalização da abjeta tolerância do ocidente com os 4.321 atentados terroristas que aconteceram na Terra apenas no ano de 2022.
O diagnóstico é que que estas agremiações terroristas estão sendo naturalizadas por cúmplices sob a fraude linguística das mídias ao nomeá-los como combatentes ou “resistência” (sic).
Só mesmo para quem não viu os filmes e as provas documentais e forenses – ou preferiu ignorar — do gênero de malevolência que esteve presente naquela manhã de sete de outubro no sul de Israel. Poder-se-ia até jurar que estavam “possuídos”, mas seria cair na tentação sobrenatural e acobertar suas responsabilidades criminosas, provavelmente nada do outro mundo ainda que me pergunte se o mal possui uma existência palpável ou conter uma dimensão metafísica.
Apesar dos impulsos eméticos (de vômitos) serem frequentes nos telespectadores das plateias que ousaram testemunhar as imagens, a exibição dos filmes e documentos deveria ser obrigatória em cada espaço público do mundo.
Assim como Yad Vaschem, o museu em Jerusalém que guarda a memória de 6 milhões de judeus mortos deveria abrir um espaço específico para os acontecimento de outubro de 2023.
Não faltam escatologistas de plantão para nos alarmar com o anúncio de final dos tempos: dos asteróides que extinguiriam a vida no planeta ao uso de armas nucleares por parte de países que desconhecem e/ou desprezam o conceito de dissuasão.
Destarte, eles podem um dia ter razão, porém, como escreveu Albert Camus, todos os dias encerram uma fração de fim de mundo. Todo dia o mundo acaba um pouco. Hoje é um destes dias no qual o mundo foi um pouco mais despedaçado. Para nossa sorte (ou infortúnio), ele recomeça. Recomeça sem necessariamente ter os erros zerados, e, por isso, nossos amanhãs estão repletos de erros antigos.
Se há algum mérito em haver sobrevivido a um transe tão assustador ele está em termos nos transformado em heróis à revelia. É óbvio que nosso heroísmo não pode ser comparado àqueles guerreiros que salvaram pessoas das tragédias, resgataram gente do sofrimento, ou defenderam e ainda defendem legitimamente o País das agressões e ameaças contra sua população.
Fomos obrigados ao fortalecimento e a renunciar às facilidades da vitimização. Refiro-me não só aos judeus, mas a todos os povos amantes da paz e da democracia que compreenderam que estamos numa luta decisiva pela permanência ante às múltiplas ameaças existenciais.
Fomos, se quiserem, condenados a ser aquilo que Freud chamava de “homens de ferro”. Férreos porque, apesar de tudo, não cedemos à fúria cega, indistinta e generalizada, mas somos obstinados quando se trata de uma implacável busca por justiça.
Férreos não porque desejávamos, mas porque o desgovernado rumo da história nos reergueu e nos obrigou a ficar em pé.
E, podem acreditar, desta vez será muito diferente, dificilmente cairemos novamente.
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