Desta vez, começaremos com as Brancas.

Paulo Rosenbaum

“A tolerância se torna um crime quando refere-se ao mal”

Thomas Mann

Somos as vezes surpreendidos, com eventos inesperados. Acidentes. Conflitos vindos do nada. Tempestades súbitas. E ameaças que se concretizam: o incontrolável. Mas há uma outra alternativa: antecipar-se ao que pode ser antecipado. Não viver reativamente. Dar início. Romper com o jogo ação – reação.

É chegada a hora, sejamos contundentes. O que é que vocês esperavam?

Que sentássemos até que vocês viessem novamente e roubassem mais vidas? Mas notem bem, há uma vida que não pode ser anulada, o registro das memórias. Ela contém a vida dos milhões que você e os seus cúmplices tentaram inviabilizar século após século. Em tempo, doravante recusaremos o papel da boa vítima. A boa vítima é aquela que tenta agradar seu algoz com boas ações. No nosso caso a outra face não está disponível, nem à venda. Não somos vítimas no sentido estrito do termo. Deixa-se de ser vítima quando não se espera mais nada de ninguém. Renunciamos ao papel de vítimas porque nos libertamos do jugo da paciência.

E agora, somos gratos, esta geração iracunda que vive pelo ódio anônimo nos fez amadurecer uma convicção: daqui para a frente seremos veementes, seremos veementes como agentes de nossa própria história.

Uma palavra para os oportunistas e quinta-colunas: até os kapos, aqueles serviçais dos nazistas, eram mais coerentes, afinal tentavam sobreviver. Vocês? São voluntários insignificantes. O que o traidor ignora são os rastros que deixa. As pegadas. Os colaboracionistas apostam no aplauso e na glória fugaz. Mas os registros ficam: os vídeos das marchas com multidões ostentando bandeiras do terror, tua performance nos campi universitários encurralando e linchando estudantes judeus.

Será necessário recalibrar a liberdade, formular uma dosimetria jamais vista, e mesmo que a justiça tarde, acontecerá. Será um julgamento de proporções inéditas.

Por quê?

Porque pela primeira vez na história contemporânea as marchas ecoaram apoio à degola de bebês, estupro coletivo, incineração de pessoas vivas, vivissecção, e a celebração do massacre, não como vingança, mas acompanhada do gozo histérico. O triunfo da pulsão da morte. O culto a thanatos. Tudo isso já havia acontecido, jamais nessas proporções. E quanto aos reféns? Expliquem-me como os terroristas e seus cúmplices conseguiram naturalizar que eles estão com 58 sequestrados, entre vivos e mortos?

Se me incomoda ver os civis da Faixa sofrerem? Evidentemente. Mas há um abismo moral entre a vítima e o protagonismo daqueles que massacraram 1.200 civis durante um festival de música. O agressor assassina e berra “assassinos” para o outro lado. Acusa de genocídio quando ele mesmo explicita suas intenções genocidárias. É uma versão do que, por aqui, conhecemos como o famoso “pega ladrão” alardeado pelo punguista como despiste enquanto foge com o fruto do seu roubo. Não há portanto equivalência ética entre quem usa sua própria gente como escudo e aqueles que, apesar de tudo, ao fim e ao cabo, lutam por sua gente e, ao mesmo tempo, preocupa-se em tentar proteger aqueles que são meros anteparos humanos. Imagine, apenas imagine, se a mesma força e empenho do bloco de nações que pressiona Israel fosse redirecionado a obrigar os inimigos da humanidade a devolver os cativos e acabar com a guerra? A guerra terminaria amanhã. Mas as nações hibernam, torcendo que o mal desapareça sozinho. Não compreenderam a frase dramática de Thomas Mann de que “a tolerância  se torna um crime quando se refere ao mal”. Enquanto nas ruas do ocidente temos marxistas armados e o islã radical unidos pela mesma causa, quem diria? E esta incompreensão tem um custo que vai muito além da segurança de apenas um povo, ameaça nossa concepção de liberdade, de direitos humanos e de democracia. É incrível que não se compreenda ainda que os judeus são apenas a faísca para um incêndio de grandes proporções.

A grande novidade desta quadra histórica de perseguição religiosa (pois é o que é) é que o desfecho será outro. Não será aplacado pelas mentiras que os diplomatas costumam contar uns para os outros. Nada, absolutamente nada, poderá deter o que se avizinha. Não é ameaça. É apenas o anúncio público de uma nova atitude existencial e as suas consequências. Análogo ao de uma pessoa que teve a experiência de quase morte, ou EQM. Todo sujeito que emerge do referido estado volta completamente transformado.

Os judeus da Terra acordaram assim no dia 08 de outubro de 2023. Saíram da letargia para a ação. Saíram das cordas para a renovação da luta. Saíram do gueto eterno para, se preciso, enfrentar o mundo. O mundo no qual uma minoria estridente move uma abjeta campanha de desumanização. Num processo lento, mas progressivo, há décadas as instituições foram cedendo espaço ao discurso, (e ação) de ódio contra judeus. Dentro e fora das faculdades. Trata-se, na verdade, de um renovado pacto filonazista, o qual, a despeito das transformações cosméticas conservou seu núcleo duro.

Se a tua conclusão é a de o povo hebreu abandonou o pacifismo numa cultura dentro da qual o livro principal menciona a palavra shalom 236 vezes, você, mais uma vez, errou.

O mundo quando sóbrio é avesso ao terror como ferramenta política. Acordamos sobressaltados pelo pesadelo coletivo e fomos todos coagidos a virar enxadristas, mas desta vez, começaremos com as brancas.

Moveremos a primeira peça, daremos o primeiro saque, largaremos na pole position.

Enfim, agora é um absoluto: determinaremos qual será o jogo.

Será um torneio emocionante.

As regras? Ainda estamos confeccionando o material.

Aguardem.

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