Desinformação assistida
Paulo Rosenbaum
Não, isto não é uma discussão sobre a eutanásia do quarto poder. Testemunhamos mídias cuja missão tem sido desinformar, filmes que registram a história com viés ideológico, documentários que ocultam a verdade, jornais que tergiversam sobre o gravíssimo abuso de poder por aqui e acolá. Os mecanismos que supostamente foram criados para controlar a desinformação transformaram-se numa estratégia para perpetua-la. Vale dizer, controlar o vazamento do falso de uma tal forma que a massa, mesmo desconfiada, aceite a marca de “jornalismo ilibado”.
Ora, não é preciso muita astúcia para entender que o mundo idealizado da informação acabou. Não precisam acreditar, basta ler com atenção os blogs sujos, a mídia shinobi, o poder integral, a BBC, Al Jazeera e suas filiais ao redor no mundo. Igualmente não é preciso ser muito perspicaz para perceber que a mistura de propaganda com informação resulta em insciência.
Talvez a arte de bem informar renasça adiante, mas, pelo menos por hora, tenhamos em mente de que não há quase nada confiável, muito menos análises técnicas e imparciais. Os analistas disponíveis, salvo raríssimas exceções, adotam a linguagem do senso comum, exercem pouco seu dever sagrado da autocrítica e vão misturando coleta de fontes secundarias com inspirações superficiais do momento.
Uma palavra sobre o instantâneo: a velocidade com que as news se disseminam através de boatos, retransmissão e posts nas redes antissociais é também um fator que corrói a virtude do que é verdadeiro. E as máquinas com chips já aprenderam como o boato e as análises de ocasião são lucrativas. Ou seja, por enquanto, é irreversível.
A democracia – segundo o velho Winston Churchill, “o pior sistema de governo exceto todos os demais”- entrou na perigosa rota de um novo absolutismo com a inestimável ajuda de toda essa cosmetologia representativa cuja autonomia encontra-se seriamente comprometida. Comprometida com o que? Para evitar o que? Ao fim e ao cabo: a prevalência da vontade dos povos.
Isso mesmo.
Há uma elite de bem pensantes que sabe muito melhor, e com certeza absoluta, o que é melhor para você. Não só sabe como, caso você não esteja ciente, ela o levará pela mão até a boca da urna. Por bem ou por mal. No impresso ou no eletrônico.
Espantoso, pois não?
Aqui entraria bem a expressão: mas isso é puro populismo.
Notem que o populista contemporâneo não se preocupa mais em agradar eleitores, precisa apenas subsidiar quem os influencia. Monitorar aqueles que construíram sua auto referencia a partir da grana e de muita alavancagem corporativa. Isso basta, olhem em volta.
Por isso mesmo os burocratas da USAID, órgão criado em 1961 por John F. Kennedy com uma intenção benévola até prova em contrário, estão desolados com seus desligamentos. Afinal a administração americana anterior fez fluir bilhões para Ongs ligadas ao discurso do ódio, subsidiou racistas e até alguns milhões foram para os terroristas de Gaza, além de gastos imprescindíveis como os U$ 7,6 milhões para ensinar jornalistas do Sri Lanka a usar linguagem não binária.
Você não precisa, e nem deve, acreditar neste escritor ou no industrial das baterias elétricas para julgar a pertinência de tais bons investimentos. Apenas verifique sozinho. Transforme-se temporariamente em um jornalista investigativo sem diploma. Porém, se a sua ideologia te paralisar na hora de fazer as constatações a partir dos dados que você mesmo apurar é hora de parar para uma dura reflexão à luz do reflexo no espelho.
Precisamos ter claro que o sujeito, a subjetividade e a necessidade de independência de pensamento precisaram ser subjugadas pelo Estado para reconstitui-lo como um novo modelo de governança. É o modelo Imperial piorado. Tudo isso evocando um daqueles “retrocessos do bem” que entre outras coisas desprezou a magna carta, um documento de 1215, fundante do conceito de democracia.
Não se enganem também com a farsa do argumento “polarização“ que usa o termo como se não houvesse uma clareza de princípios estratégica que norteia a destruição do centro político para dar lugar à opções rasantes. Rasantes porém sedutoras dada a redução da realidade que propõem. Trata-se de uma tática para mimetizar extremismos induzidos. As razões de Estado são cada vez mais claras: suprimir o sujeito individual e troca-lo por uma liberdade coletiva abstrata. Aquela que nunca chega. E, se chega, tem um corte medíocre. Não vale um tostão de mel coado. O mesmo acontece com uma casta que, a despeito de não ter obtido um único voto, legisla sobre milhões de pessoas e outorga-se o direito à uma elasticidade hermenêutica sem precedentes para interpretar, vale dizer, tergiversar sobre a constituição da federação. Digam lá, a carta ainda está em vigor? Lutamos contra a ditadura para ficar submetidos às irrecorríveis decisões monocráticas?
Por isso, mas não só por isso, para os regimes de hoje a desinformação assistida deve prevalecer como uma cortina de fumaça que simula as velhas palavras-chaves que hoje funcionam como slogans vazios: transparência, sustentabilidade, e claro, a isenção acima de qualquer suspeita.
Parece pessimismo, mas é apenas um fragmento mínimo do realismo fantástico dessa nossa nova era. Portanto, filtrem tudo e, caso tenham a sorte de extrair uma gota de informação crível, deem-se por satisfeitos.
A alternativa é começar a considerar que sob uma regeneração espontânea a imprensa deverá recuperar sua capacidade crítica e gerar uma nova geração de articulistas combativos e dispostos a enfrentar as modas.
Afinal, parafraseando Kafka, milagres acontecem!
Não para nós.
Quem sabe amanhã?
___________________
Ler também
