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A travessia de Moisés – Shavuot (A entrega das tábuas da Lei)

Moisés estava recebendo as últimas instruções antes de descer da montanha. Estava por lá há 40 dias e 40 noites, ele meditava enquanto fazia jejuns não intermitentes. Especulava sobre a natureza do Criador: Invisível, mas que interfere no mundo físico. Onisciente e Onipresente, destarte permite o inimaginável. Ele lutava pela convicção da esperança contra sua racionalidade desconfiada. Tentava ser contraintuitivo como um cientista, mas aberto ao inesperado como um Poeta.

O ambiente no acampamento estava carregado e tenso.

Moisés cochilou, e acordou com uma bronca:

— Acorda aí meu caro.

Moises achou que ouvia coisas, virou para o lado e pegou no sono novamente.

(Estrondo violento)

— As suas ordens, oh Senhor.

— Desce filho, desce que tá pegado. O caldo está entornando.

— Hoje tem canja?

(Som da terra se partindo e fendas de terremoto se abrindo)

— Foi mal. Perdão!

— Vai logo antes que eu perca minha paciência e olha que ela é do tamanho do raio de curvatura do Universo. Albert sabe, ele é do Conselho e está aqui ao lado, e não me deixa mentir.

Moshe calçou as sandálias e desceu devagar equilibrando as tabuas pesadíssimas. A carga estava na responsabilidade. Já havia quebrado as anteriores quando viu o que faziam no acampamento com o bezerro de ouro.

Confabulou para si: Ih, tem uns itens aqui nessas tábuas que vai fazer o pessoal chiar horrores.

— Yekuziel filho, posso ouvir pensamentos também.

— Rei do Universo, sinto, é que conheço bem essa rapaziada. E como fica o sigilo entre criatura e Criador?

— Quer mesmo que te mostre onde fica o sigilo?

— Altíssimo, pega leve comigo, sabe quando foi minha última refeição?

(Chove em abundância Maná, com gosto de churro!)

— Grato Senhor!

O monte Sinai estava cheio de vida e florescia conforme ele ia passando com as tabuas e o seu mensageiro.

— Sr. Estou com medo, o pessoal esta impaciente lá embaixo.

— Certo, suave, pega leve.

— Preciso confessar, não consigo ser um ortodoxo.

— E quem disse que você precisa ser, conhece o lema da entrada do Jardim do Paraíso?

— Não conheço

— É: viva e deixa viver.

— É que um amigo me disse que sou um ortodoxo não observante.

— Excelente. Vou adotar. Eles podem esperar mais um tantinho, chegue com classe.

— Eu sei Todo Poderoso mas eles…o Sr conhece!

— Conheço, oh se conheço

— Estas leis são para sempre?

— Para todo o sempre.

— É que (Moisés fica sem jeito mas desembucha) – É que vai demorar um tempo para o pessoal se adaptar.

— Decreto aplicação imediata para toda a humanidade. Para os primos. É isso ou a coisa vai para a fissão nuclear.

— Certo, podemos repassar?

— Desce.

— Posso dar uma lida antes

(Trovão violento)

— Desce já.

— Opa. Descendoô.

Aproximando-se do acampamento Moisés detecta de longe uma certa anarquia. Ninguém se interessa. Todo mundo parece grudado no celular.

Ele pigarreia para tentar receber alguma atenção.

— Preparem-se, que aqui estão as instruções que devem ser seguidas.

— Moshe, pode esperar terminar? Estamos vendo a CPI.

— Mais uma? Qual CPI?

— A dos aposentados

(Faíscas erráticas e brasas voam de todos os dados)

— Oh irmãos, isso aqui que trago nestas pedras é muito mais importante.

Moises nota que também há muita gente grudada num telão

— O que aquele pessoal está assistindo ali? É o Timão? Interfere o Senhor.

— Altíssimo. Nem te conto!

— Estão vendo o que?

— Noticiário internacional.

— Boas notícias?

— Depende.

— Depende do que?

— É que eles estão tentando entender como estamos sendo acusados por estar nos defendendo, e olha, os inimigos da humanidade fizeram barbaridades e ainda tem gente sequestrada.

— Cansei.

Pela segunda vez na história do Universo o Criador Suspira e o mundo para.

— Alegam o que desta vez?

— Que não temos direito à legitima defesa.

— Mais uma vez essa história?

Moises cogita voltar para cima, e pedir novas instruções. E roga:

— Altíssimo? Não dá para nos dar um refresco?

— Só tenho de maracujá, brincadeira. Eu tento, mas todo mundo precisa colaborar.

— Mas e toda essa situação? Os zumbis admiradores do Adolf saíram do armário.

— No pasaran!

— Agora senti firmeza!

(Trombetas de anjos soaram exigindo mais formalidade)

Moisés recolhe-se

— Ofereça a paz condicional em boa fé e se não aceitarem veremos.

— Este todo mundo irredutível. Enxergo muita desunião.

— Ai, ai, ai, já falei que o caminho é menos ego. Nunca leram Viktor Frankl? Não sabem o que é auto transcendência?

— Não ouvi bem o que tu disse Excelso.

— Falei baixo porque os freudianos têm birra.

— Ah, aí também rola uma divisão?

— E onde não tem?

— Aqui está todo mundo convencido que tem razão!

— Que ironia, eu que sou quem sou não estou irredutível

— Qual é o caminho? Dá uma luz aqui para a gente!

— Minha especialidade. Acordos, podem ser provisórios, faz tempo que abandonei a Utopia.

— Acordos de Abrahão?

— Chames como quiser — mas esse foi um filho muito amado, pai de muitos povos.

E ele tem enorme prestígio aqui em cima e respeito dos primos.

— O pessoal tem birra de quem fez a proposta!

— Menos ego moçada, devia ter feito esse o meu primeiro mandamento.

— Quer mexer? Ainda dá para editar. Trouxe o lap.

— Fica assim mesmo!

— E o Macron?

—- O da bofetada? Véio, aquela doeu.

— É que ele andou insuflando a turminha radical, manja, os que querem impor homogeneidade religiosa?

— Bom, como já avisei, vida e morte esta nas mãos da língua, ele deveria é ter mais respeito com a Bardot.

— Perdão, não é a Bardot, é só Brigitte.

— As vezes a informação demora um pouco para chegar aqui.

— Aqui é Musk! Chega rapidinho.

— O que, óleo essencial?

— Esquece.

— Agita aí, porque vocês precisam de um milagre.

— Desculpa a insolência Mestre, mas esse é o seu departamento.

— É verdade, mas já fiz tantos, e vocês já estão crescidinhos. Eu e a cúpula formamos maioria e decidimos que chegou a hora de ser apenas observadores participantes.

— Qual cúpula? Ai também tem Executivo, Legislativo e Supremo?

— Evidente. Divisão de poder e rodizio. Pergunta para o Freud, ele é que está na coordenação.

— Cheguei aqui bem embaixo, o que faço agora?

— Estou vigilante, dou a maior força, mas a bola está convosco. Boa sorte e Mazal Tov.

(Luz brilhante e ubíqua irradiada da Terra em direção aos céus)

— Amem.

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