A Ciência Infusa da Maternidade II

Para Silvia Fernanda Rosenbaum

Como escrevi no artigo de 2022, a “Ciência Infusa da Maternidade I”, nosso professor, o neuropatologista Walter E. Maffei afirmava que “se a mãe não faz o diagnóstico ninguém mais faz”. Referia-se não apenas a uma intuição sobre a condição clinica da criança, mas a uma espécie de ciência infusa.

Falar sobre a função da maternidade do ponto de vista masculino é arriscado pois é especular sobre um terreno desconhecido.

Por outro lado, sabendo que a expectativa das mães estará sempre além do que os homens podem oferecer, alguma indulgência antecipada pode ser solicitada.

Isto dito, vejam como uma informação científica não só é plástica e dinâmica, como ajuda a compreender o que a maioria não pode sequer imaginar.

Durante o desenvolvimento do feto, existe um fenômeno que chamamos de barreira placentária. Uma proteção para a mãe entre outras funções, age contra a migração de material genético do pai, que poderia atuar como uma proteína estranha e sensibilizar imunologicamente a grávida.

Não é que a ciência tenha voltado atrás, mas ela é prodiga exatamente por se retificar constantemente.

A ciência que honra sua abertura mental e conceitual não mais se atém ao positivismo, seria um contrassenso aceitar o dogma.

Essa é a beleza ignorada do espírito da investigação cientifica e da pesquisa. A ciência não só admite que erra, e erra justificadamente porque é um saber inconformado, erra porque se auto inspeciona. Além disso deve lutar contra sua intuição e, portanto, o bom pesquisador precisa manter algum grau de desconfiança sobre suas certezas.

A ideia da infalibilidade da ciência está mais relacionada à mitologia do que à racionalidade. Mais relacionada à crença do que à hipótese colocada à prova.

Pode-se dizer inclusive que a ciência é insaciavelmente abelhuda. Aqueles que se fossilizam em informações seguras, peremptórias e incontestes não estão alinhados nem com o espírito da ciência, muito menos com seu devir.

E exatamente por isso ela, enfim, pode se curvar ao inexplicável, ao assumir que existem questões que ninguém pode responder, fenômenos que se constatam, mas para os quais não há explicação satisfatória, mesmo que provisoriamente.

Por isso mesmo a prática científica, dentro e fora das ciências médicas, requer a admissão de algum grau de empirismo. A ciência é, enfim, um campo totalmente aberto onde o desejável é que tenhamos mais perguntas do que respostas.

O campo da pesquisa é essencialmente analítico, por isso também é particularmente preocupante quando ela é sequestrada para atender à finalidades ideológicas, políticas ou interesses pecuniários.

Este tráfego bidirecional de células entre mãe e o bebê, especialmente a inédita fração de células que passa do feto para a gestante foi, sem dúvida, uma quebra de paradigma.

A descoberta do micro quimerismo fetal é tanto uma descoberta espetacular como um símbolo da união singular que vigora entre mães e seus filhos.

Singular porque é um evento único.

Vigora porque é uma espécie de laço indissolúvel.

Como todos os fenômenos biológicos a referida migração de células pode acarretar repercussões negativas – a depender das condições individuais — (como por exemplo estar na gênese ou contribuir para algumas patologias autoimunes), mas também estudos recentes apontam para efeitos muito favoráveis para as mães como demonstra este artigo publicado no NIH:

“No entanto, ainda não está claro se as células fetais microquiméricas que persistem na mãe são um achado incidental, são naturalmente patogênicas ou atuam como células-tronco reparadoras, e os estímulos ambientais ou biológicos que determinam o destino das células microquiméricas ainda são indeterminados. Estudos futuros também devem se concentrar em investigar se as células fetais criam melhora funcional em resposta à lesão materna e se essa resposta pode ser manipulada.”

https://pmc-ncbi-(nlm-nih gov.translate.goog/articles/PMC4989712/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc)

Tanto num caso como no outro há neste fenomeno um aspecto para além do simbólico. Respectivamente: o sacrificio da maternidade por submeter-se a um risco por um lado, e, de outro, uma inusitada proteção (as células-tronco protetoras) que as informações biológicas do bebe oferecem e que permanecem no organismo da mãe durante toda sua vida.

Talvez esta presença da mencionada informação biológica bidirecional explique uma parte da conexão que só as mulheres experimentam. Talvez explique o instinto protetor. Provavelmente esteja na raiz dos inúmeros testemunhos de mães que intuem sobre o estado de seus filhos, mesmo ausentes, mesmo quando eles emigram e vivem do outro lado do mundo.

É portanto uma conexão orgânica, de entranhas, onde a quimera se transforma em realidade física de pessoas que são constituídas do mesmo tecido.

Nem mesmo esta hipótese explica como as mães adotivas, aquelas que precisaram de doação de óvulos, alcançam a mesma empatia inata e incondicional com seus filhos. E a mesmíssima ligação, igualmente inexplicável, que relatam.

Afinal, é possível que ser mãe seja um outro estado de vida. Uma outra forma de presença do espirito, e quando se trata de estado de espirito a ciência também precisa aceitar que às vezes pode deparar com o insondável. Assim como é apenas aparente a contradição entre arte e ciência, admitir que existem aspectos que nos excedem pode ser saudável. A maternidade é um deles.

É com humildade que devemos pausar nossa obsessão por razões e explicações para apenas sentir e contemplar.

Que as mães tenham mais este dia significativo

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