76 ANOS: de @Moisés para @HerzlTheodor

CLARÕES E LUZES DE COR AZUL-LILÁS BAIXAM ABRUPTAMENTE DO CÉU

Moisés é avistado numa carruagem que pousa suavemente na nuvem 18

— O que? Não Acredito! Querido. Mestre. Quanta honra.

— Fala aí chegado.

–Cheguei faz um tempo, e falaram sempre que você era figurinha carimbada, mas que nunca está no pedaço. Você fica bem lá no alto, né?  De Moshe a Moshe nunca houve alguém como…

— Tá, tá, Theodor, não vamos exagerar, uma das vantagens aqui é que ninguém precisa puxar o saco, — Moisés puxa Herzl para perto pela gola — mas sabe como é, sempre tem um mané que esqueceu que aqui não tem carne.

–Churrasco, nunca rola?

–Falta brasa.

— A que devo a honra da sua visita na minha modesta nuvem?

— Estava vagando por aí, mas hoje me sacudiram em plena escuridão cósmica. Quem te acorda de madruga e te manda descer sem te dar tempo para saborear a gemada do dia?

— O que houve Moshe? Tua cara tá meio amarrada!

— Você é que parece espantado, e só chegou faz o que? Uns150 anos? Amigo, eu estou de plantão há 3.000 anos, você está ligado na muvuca lá embaixo?

–O Zoilo lá do Sul?

— Um desmiolado, mas nein!

— Os aiatolás radioativos?

— Também nein.

— Já sei, é o pessoal lá de Columbia? A tal baronesa Shafik?

–Café pequeno!

–Foi bom lembrar, você aceita um?

–Aqui nada de estimulantes, só orgânicos.

— Perdão, é que mocosei uma garrafinha de vodka.

— Falo das pataquadas dos caras da ONU, que furada cara. Como pode?

— Pois é, tá tudo dominado.

–Vamos ao que interessa Theo. Ouça bem aí, estamos documentando cada fala, cada slogan contra nós, cada fake acobertada, agora mesmo convocamos e estamos gravando com Spielberg um documentário para o streaming. Registramos cada barbaridade que tú nem faz ideia. Coisas que não se ouvia desde 1939.

–Achávamos que o mundo estava vacinado.

–Amos Oz, aquele da nuvem número 36.

ESTRONDO VIOLENTO

— Ok Já sei – Moisés fala constrangido — Altíssimo: eu sei, eu sei, nuvem é sigilo. Continuando, como escreveu Oz, o holocausto foi uma vacina contra o ódio aos judeus, mas o efeito imunizante, infelizmente, está passando.

—Mas e a tal da memória imunológica?

–Não vale para a história. O que vemos hoje é uma nova epidemia de demência e irracionalidade. Voltando ao ponto, eu estou calejado, mas vim te ver aqui exatamente por isso.

— Eu dei uma espiada daqui. Que coisa absurda Moshe, e agora a coisa está pegando até no novo continente.

— Estamos monitorando bem de perto, Yale, Harvard, turbas nas ruas da Europa financiados por bilionários, o apreço à barbárie virou moda, hit até para os bacanas em Manhatam, estão zoando com a palavra enquanto comem bagel torrado. Há um grande vazio e o você sabe muito bem qual é o bode expiatório que sempre funciona!

— Nosotros!

— Bingo!

— Tem jogo aqui?

— Só botcha no domingo. Noé e Abraão faturam todas. Agora direto ao ponto querido Herzl, a moçada hamazista encanou com a tua palavra.

–Qual palavra?

— Uai, aquela você inventou, sionismo.

–Ah essa?

— Ué, véio, baixei aqui por isso.

–Bem que desconfiei, tua nuvem é a aquela ali, não?

–Tem coisas que nunca revelamos aqui, nuvem é igual sigilo bancário

RISOS ABAFADOS

— Por que a risadinha?

— Esse negócio de sigilo está fora de moda, quero dizer para os mortais comuns que colocam tudo na net.

– Jura? Mas aqui o lugar de cada um na nuvem é segredo de Estado.

— Uhn.  Mas, a que devo a honra da visita? O Altíssimo te mandou vir falar comigo?

–Queremos entender melhor o que está rolando, mas cá entre nós sabemos que a implicância com o teu neologismo de retorno para Sion é pura fachada. O problema é o mesmo, isso tudo é cortina de fumaça.

— Moshe, esses racistas fanáticos não têm noção? Nos expulsaram de todos os lugares da terra e agora querem o único lugar que restou para os judeus?

— NÃO, NÃO, no fundo eles e a torcida do Corinthians sabem, a terra nunca foi a questão. Mais uma vez estão implicando com a gente.

HERZL VAI AO DESESPERO

— Mas por quê Criador? Por quê? Por quê?

RELAMPAGOS FUGAZES CORTAM OS CÉUS

— Porque fui o co-autor das algumas regras éticas, códigos morais e preceitos civilizatórios mínimos que o pessoal chamou de religião.

–E os beócios querem nos cancelar?

— Pois é, o que eles não suportam mesmo é que agora temos uma terrinha e um exército que pode nos defender.

–Mais uma vez estão nos acusando dos males do mundo.

— É como a Golda Meir vive por ai dizendo, por que devemos ser o único povo do mundo que os demais se acham no direito de dizer como fazer para se defender?

— Golda? Que mulher. Ela está por aqui?

— Não é para o nosso bico Theo, a nuvem dela fica direto abarrotada com feministas querendo autógrafos.

–Moishe? Feministas? Depois de todo o vexame que elas deram?

— Pois é, na verdade aquelas não eram feministas de verdade, elas sumiram lá de baixo na hora que mais precisavam mostrar a que vieram! Minha mensagem é clara, fui enviado para te avisar: desce lá e fala para os democratas que lá na nuvem dos founding fathers, os pais fundadores da América, especialmente Thomas Jefferson e George Washington não querem nem ouvir falar dessa administração. São democratas, mas eles acham que os caras estão pisando na jaca, estão aqui implorando por gente nova.

–Jaca?

–É, uma dessas frutas tropicais, dá muito no Brasil

–Adoro esse lugar, as vezes fico olhando pela minha câmera tele só manjando a moçada surfando em Copa.

— Sei, sei. Herzl, se liga, é hora se concentrar no problema central.

–Mestre, me diga, como?

–Fala para o pessoal parar de divulgar nas redes desse jeito as mensagens contra nós.

— Como? É preciso denunciar os antissemitas.

–Agora, na nova língua, mudaram de nome, eles se autodenominam antissionistas.

— Como é que eu viro influencer?

— Vou fingir que não ouvi.

— Desculpa, é que parece tão sedutor.

— Seguinte, não fiquem espalhando denuncias com as mensagens de ódio, lembre-se da grande regra do marketing, o meio é a mensagem. Na hora que você coloca a mensagem dos haters como denuncia, você as espalha. Deixe isso com os profissionais.

— Explica ai Mestre!

–Seguinte, o que fica no “das Unterbewusste”; o subconsciente, também conhecido como desconhecido é o circuito do ódio, e a denúncia que realmente importa fica em seguindo plano, sacou?

— Ahãn. Neurolinguística?

— Não, inteligência do mass media.

– Ok

– E ai, prosseguiu Moshe, o tal algoritmo, essa coisa medonha, se espalha e dá a falsa impressão de que eles são a maioria. Capicce?

— Eles não são?

— A minoria ruidosa sempre suprimiu o grosso silencioso da população. A maioria sabe que no caso de Israel a questão é uma luta por sobrevivência. E que dessa vez fio, garanto, vai ser outra história.

— E quanto aos primos, os árabes da região?

— Eles estão percebendo que a única saída são os Acordos. Em qual outro lugar no pedaço há democracia, em qual a liberdade religiosa está constitucionalmente garantida? Fica firme e você vai ver que a coisa vai virar, a parte saudável e a paz justa vão prevalecer.

— Mestre, tu sabes que sou meio secular, mas respeitosamente te pergunto: o Criador está ligado no que está rolando?

ASSOBIOS E TROMBETAS

Moshe olha misericordioso para cima e exclama:

–Não cochila nem um segundo desde 07 de outubro.

— Mas e o futuro, e Israel?

— Fica frio, isso é conosco.

— Estou frio há mais de século, rs

SILENCIO CELESTIAL

— Moshe, no fim você não me deu a resposta!

— Fio, aqui também temos mais perguntas do que respostas.

–Até ai? Céus. Então o que devemos fazer?

–Aprendi duas máximas: Na dúvida, refletir bem antes de reagir, ai está nossa liberdade. E meditar na máxima do nosso querido Hillel: cuidar do outro como cuidamos de nós mesmos.

— Hoje temos uma nação!

–Não é bem só uma nação, é uma cultura acomodada em um Estado.

— Feliz Dia da Independência de Israel Moshe Rabeinu.

— E foi graças a ti também: 76 anos. Apareça para o chá de romã das 5.

— Vou sim e levo uma lembrancinha, uma plaquinha que fiz aqui na minha impressora 3D

ESTAMOS AQUI HÁ 6.000 ANOS, VAMOS CONTINUAR, GRATO.

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