@DavidbenGurion para @Yeukuziel (Moisés)

— Prezado Mestre, sinto não ter compartilhado contigo os últimos acontecimentos. Me faltaram palavras para o que testemunhamos. Estamos todos muito inquietos e preocupados. O inimigo é agora um pouco diferente. Uma teocracia financiou um exército do terror. Acabei de ver as imagens. Nem sei por onde começar.
— Estamos muito busy aqui. Fala logo querido, desembuche.
— Foi no 07/10, o maior massacre de judeus desde o holocausto. Mais de 1400 foram mortos, pessoas foram degoladas, crianças e mulheres seviciadas, corpos despedaçados. E sequestraram 241 pessoas de 27 nacionalidades. Os terroristas do Hamas declararam guerra ao mundo, mas o mundo ainda não sacou.
— Moisés? Está na linha? Ficou tudo mudo aqui.

(Silêncio de 5 minutos)

Ben Gurion sacode o celular para ver se é problema de bateria.

— Caro Ben, é a mesma velha história?
— Achei que tinha te perdido.
— Não, não, estou aqui. (voz rouca e embargada de quem acaba de controlar o choro)
— Exatamente, meu Profeta. Mas desta vez foi muito pior, e eles nem tentaram esconder: filmaram, registraram os crimes, e estavam eufóricos com o que estavam fazendo. Um deles contou histérico para sua mama que acabou de chacinar… e que um amigo assou um bebê no forno.

(Lágrimas densas gigantes caem e ecoam sobre toda a Terra)

–E, Moisés, tinha até mais de um fotojornalista portando máquinas polaroides para não perderem nenhum lance ao vivo.
— Ah a imprensa esteve junto e cobriu tudo direitinho? E mesmo tendo sido atacados eles estão nos acusando de tudo, confere?
— Ye. Como você sabia?
— Isso nunca mudou meu caro. E quando se trata da natureza humana a gente aqui fica sempre antenado.
— Então me fala: Por quê? Por quê?
— Porque funciona! Porque funciona.
— Como?
— Sempre precisaram de álibis, e velhíssima ideia do bode expiatório. E faz séculos que as pessoas vem comprando as conspirações. Nunca foi sobre o País. A fantasia camuflada sempre foi sobre você sabe quem.

— Quem Mestre?

— O povo do livro.
— Mas que tal um rodízio, hoje nós, amanhã escolhem outro? Que tal?
— Não funciona assim filho.
— Você está muito impassível. Como consegue ficar tão calmo?
— Confio na justiça.
— Sério Mestre, eu aqui quase perdendo minha confiança nos Céus.

(Trovão Único Grave)

— Já discuti isso com Kafka, e posso te garantir, ela chegará.
— Quem chegará?
— A esperança. E virá junto com a justiça. Confere Altíssimo?

(Barulhos e rumores suaves do Alto)

— Mas agora mesmo aquelas pessoas com as quais tínhamos afinidade e que falavam da justiça social, democracia e progresso…

— Sim, conheço todo mundo dessa ala.
— Elas também estão nos ameaçando. (falando baixo e constrangido)
— Em toda geração eles se levantam…lembra-se?
— Mas agora se associaram aquele pessoal da velha Germânia – que hoje, surprise, está do nosso lado.  Mesmo assim as ruas estão cheias de gente, vou abrir o microfone, ouça a turba:

“Do rio ao mar.” “do rio ao mar”

— Querem um balneário, ou é propaganda de resort internacional?
— Não Senhor, gritam pelo nosso fim.
— Fica frio, lembra do Sartre? “Se os judeus não existissem teriam que ser inventados”, Israel é para sempre.
— É, mas…
— Estimado David Ben Gurion, você sabe muito bem como funciona. A maioria é silenciosa e tem noção de que, na maioria das vezes, há justiça em nossas decisões. Mesmo quando são decisões muito difíceis como ter que lutar para não ser eliminados.
— Nem sempre.
— Nem sempre, mas na média acertamos muito mais do que erramos. Basta ver, construímos um País invejável.
— Invejável, aí pode estar o problema.
— Nós podemos ensinar, e aí a paz será uma só uma consequência.
— Pode ser meu profeta, mas ainda assim preocupa. O mundo está novamente em silencio!
— Filho, isso é erro de avaliação da conjuntura. Repare bem, há massas ruidosas e maiorias silenciosas. Quem quer crime, terror e medo? Quem quer ditaduras e radicais? Com quem será que a maioria silenciosa se identifica?
— Meu Rei, saiba que sua calma e sabedoria são reconfortantes.
— David, não estou nada calmo. Você nem imagina como estou segurando a turma aqui, a barra está tensa.
— Mas você parece sereno.
— Sei me controlar, você deveria fazer o mesmo.
— Tentarei mestre, tentarei.
— E se recorrer à memória você verá que sempre que isso acontece, recomeçamos novamente.
— Moshe, desculpe o incomodo, mas não vão nos deixam em paz nunca?
— Nós é que a levaremos até eles. Já oferecemos inúmeras vezes, uma hora dará certo.
— Mas estamos sendo massacrados, veja hoje as redes sociais.
— É legal? Conseguem muitos peixes?
— Ah, esqueci, vocês não se atualizam on line. Não me refiro a este tipo de rede, são lugares onde as pessoas se encontram através de máquinas. Muitos espalham ódio e ressentimentos e geralmente se escondem atrás do anonimato.
— E é isso que está moda por aí?
— Pois é, agora o pessoal não lê muito.
— E se informam como?
— Majestade, eles preferem a desinformação, hoje existe uma coisa chamada algoritmo.
— E tem um tal de I.A. também, não? O treco já chegou aos meus ouvidos.
— Então, eles só te informam o que você quer ouvir.
— Parece sedutor, mas isso não é conhecimento.
— Exato, eles não querem, preferem ficar com suas próprias certezas.
— Não gostam de ouvir todos os lados?
— Não Rav, não gostam, chamamos de polarização.
— Fico triste em ouvir, e onde foi para a relativização? O deixa disso? O diálogo? Não existe mais aquele meio de campo?

–A diplomacia internacional? Bem, melhor nem te contar quem preside hoje a comissão de direitos humanos na ONU.
— Quem?

— Os Aiatolás

(Raio fortíssimo)

— Não brinca!

— É Sério. Hoje infelizmente, o centro e os moderados estão sumindo.
— Mas nossa democracia segue firme, certo, como da última vez que conversamos?
— Sim, sim, ainda somos assim. É que eles não se cansam de gritar os velhos slogans.
— Slogans?
— Sim inventam que temos um regime de apartheid. Pode acreditar nisso? E outras calúnias: que não oferecemos liberdade religiosa, limpeza étnica e otras cositas mas.
— Já eu abandonei as dietas, regime não faço mais. Espera, este pessoal sabe que somos primos, que os semitas tem origem comum?
–Acho que sabem, sei lá.
— Os acordos de Abrão, será que é isso que está pegando?
— Matou a pau Chefia!
— Matou a pau?
— Digo, Bingo, acertou na mosca!
— E será que também não sabem que há 2 milhões de árabes-israelenses trabalhando conosco? Tenho um descendente no Supremo que me contou que tem colegas do Islã na alta corte do País, lado a lado com ele, no nosso egrégio colégio.
— Exato, mas eles não se interessam pelos fatos, nem pela verdade.
— Que intrigante, e quanto à liberdade religiosa? Não sabem que está na nossa carta constitucional?
— Está sim Sr. mas hoje temos um recurso estranho chamado “narrativa” que se bem construída, mesmo que for uma mentira deslavada, acaba colando, entende?
— Tudo isso é incompreensível.
— Para mim também, Mestre dos Mestres.
— Não me chame de Mestre.
— Ok, Magnificentíssimo.
— Muito menos disso aí.
— Por que Mestre?
— Acaba de passar uma circular por aqui: muitos reitores foram omissos em proteger pessoas nas Universidades,  muitos judeus e pessoas que nos defendem estão sofrendo perseguição ou estão acuadas.
— E vândalos picham nas casas o símbolo daquele partido, sabe, o do Adolf.
— De novo? Não aprendem nunca?

–Negativo Mestre. E tem até artistas do rock famosos que apoiam o terror, um deles fará um show patrocinado por uma famosa casa de seguros alemã.

— Bah, que coisa Che, eles tem algum aliança? (com forte sotaque gaucho)

— É que tem gente que justifica o terror e questiona o direito de Israel à legítima defesa.
— Ninguém é santo, e a paz só virá no tempo certo.

(Raios, trovões, gigantesca chuva de granizo)

David se esconde no shuk entre uma barraquinha de falafel e de húmus.

— Olha só quem chegou, Jó está aqui conosco, veja estou com o Ben Gurion aqui na tela

— Quanto tempo. Eu ouvi tudo David, que coisa, mas já vi coisa pior.

— E o que devemos fazer?

— Rezemos juntos?

— Pedindo o que Jó?

— Ajuda-te, que o Céu te ajudará.

(Clarão inexplicável, terror derrotado, seguido de chuva brilhante com Bandeiras Brancas)