“Haverá presunção de inocência para Israel?”
https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/de-onde-vem-tanta-solidao/
De onde vem tanta solidão?
“Haverá presunção de inocência para Israel?”
Por Paulo Rosenbaum
Hoje não vamos ver o que costumávamos ver. Há uma perplexidade que não vem dos fronts, Sei que é exagero, mas acordei em 1939. Num mundo declaradamente dividido. Meu espanto não se reflete nas outras caras, não invade os perfis alheios. Andei em transe até encontrar um amigo e para fiquei chocado que para os demais e detectei quão impassíveis estavam. Para eles o mundo continuava intocado. Eu os invejei. É como um susto sem limites definidos. Borrado pela surpresa. Pelo silêncio seletivo. Pela inércia do mundo. Pelo inútil apelo incessante por ajuda. Hoje, dia um da mortificação, de um adormecimento que nos atingiu com sombras desproporcionais. Mesmo sendo hoje a nossa hora mais sombria, fiz esforços para hoje mesmo rogar por arcas da salvação.
Hoje, dizem, as vítimas podem ser culpabilizadas porque não foram suficientemente vítimas. Hoje, lê-se por aí, que não tem sido vítimas com comportamento apropriado para vítimas. Hoje vivemos a inexorabilidade das guerras de defesa e o sofrimento evitável. E o que é justo? Hoje perdemos a medida: líderes que não lideram e povos que não conhecem seu valor. Hoje nosso senso histórico foi corrompido porque, imperdoavelmente, nossa memória colapsou.
Hoje a única unanimidade é rezar pelos reféns, por crianças que não sabem que participam de uma história na qual não atuaram, e por inocentes que estão perdendo o que nunca tiveram. Hoje a vida foi rifada nos mercados de foguetes imprecisos. Assistimos a desinformação, as mídias calculadas, o ajuste para a imprecisão sincronizada. Ou não testemunharam as notícias duplas? As meias palavras emitidas em notas suspeitas? Hoje a palavra que define massacres prefere contornar a palavra “terror”. Do que afinal tem medo? De chamar o nome pelo nome? Ou de mudar o nome do que delimita o inaceitável.
Hoje nos deixaremos levar pela alienação. Por um estado no qual buscamos alegrias imotivadas. Falam de Gog e Magog. Falam de uma inflamação crônica do mundo. Falam das 70 nações. Falam de um fim imprevisível. Mas como faço? Não acredito em prognósticos. Nunca pude crer em previsões. Como alguém anunciou: a diferença entre o oráculo grego e os profetas hebreus era que o primeiro se orgulhava de seus vaticínios certeiros, o outro tentava preveni-los ao persuadir a audiência que decretos dos céus podem ser retificados. Hoje, a refinada mística exposta por Gershon Scholem parece ter sido substituída por mistificações pasteurizadas.
Hoje, vi um após o outro falarem. Permanente e sistematicamente. Assisti as transmissões, os discursos, a retórica e nada, absolutamente nada me convenceu. Há uma neblina que afoga as sensações. E decidi mergulhar em uma dessas nuvens.
Hoje não se vê amanhãs. Mas ele está lá. Sua intensidade foi provisoriamente apagada. Não vim para falar de tragédias. Nem para dizer quem está certo. Eu sei quem está certo. Vim para dizer que todo este sofrimento não seria necessário. Vim, ingenuamente, para falar sobre a provisoriedade de tudo. Vim para mostrar que o mal não é uma entidade abstrata. (como até ontem consentia). Vim para anunciar uma espécie de fim. Não é escatológico. Nem o fim dos tempos. É um fim de um termo que contém outro final. Um desfecho que não pertence à razão. O fim continuará em direção ao término da noite até que sejamos todos culpados ou inocentes. Há um fim. O que é inaceitável é um fim sem finalidade.
Hoje não enxerguei sentido. Em nada. Tudo me pareceu irrelevante. E por mais que enxergue razões, o sentido foi capturado. Deve haver razões nos corações que o intelecto não é capaz de captar. São estas que busco. E onde estão?
Hoje não consigo saber do descanso. Hoje é o Shabat, mas é o vinho, a chalá, o pão trançado, que estão descansando de nós. Há uma rebelião dos objetos, e a natureza será cúmplice. Não há pessimismo. É uma realidade intrusiva que me trás para um outro destino. Freud escreveu: o mais peculiar nos judeus era a capacidade de ir adiante. Adiante? Quem sabe. Hoje não Freud. Hoje será imersão no dia. Hoje será suíte quebra nozes. Hoje será um dia após o outro. Sem amanhãs, sem adiantes. Sem vínculos. Serão cem anos de solidão concentrados em um.
Hoje não veremos slogans. Hoje não escreveremos “nunca mais”. E você sabe bem por quê. Hoje ouvimos silêncios que para sempre, ontem e hoje, nos pareceram traição. Mas e for somente sofrimento solidário? E se for apenas perplexidade daqueles que não conseguem expressão. E se as próprias sociedades tivessem se tornado inexpressivas? Que não conseguem alcançar a dor alheia e o justo? Nesta ordem: a dor alheia e o justo. O atacante e o atacado. O crime e a legitima defesa. Estamos alheios e parecia que nunca estivemos unidos. Admito, admito, admito. Não assumirei mais nada a não ser o instante.
Hoje vivemos no fio de uma navalha que desceu em voos pérfidos. Não apenas sobre nós, mas em todas as vidas que que foram escoadas. A abominação é contra todos. Ouvimos que não estamos sós, então diga, de onde vem tanta solidão? De onde brota o isolamento que nos ceifou a ilusão? De onde parte a dor não compartilhável?
Hoje sabemos, estamos meticulosamente divididos. As pessoas são indivisíveis. Destinos não. E desta partilha ficamos com a parte que se esfacela. Ouve Oh Criador: hoje estamos inconsoláveis. É que não aceitamos mais inspirações sem clareza. Os que falam por nós não falam mais por nós. E quem governa não consegue nos enxergar como somos. Hoje há um vinho ritual que sobra nas mesas. E nem sabemos mais onde estão os inimigos. As armas internas estão sem as baterias.
Hoje, a luta é contra o que nunca será humano. O que nunca foi humanidade.
Hoje podemos sentir que há um ardil coletivo. E que quem fala porta uma voz. Hoje somos contáveis e isso atesta nossa fragilidade. E o que era sutil hoje é apenas desproteção.
Há uma vulnerabilidade que corre atrás dos judeus. E ela hoje nos alcançou. Não é que o mundo tenha nos dado as costas, mas não deu as mãos nem o abraço conclusivo. Como Kafka escreveu: “Há esperança – Não para nós.” Mesmo na mais generosa relativização do mundo existem absolutos. Limites que podemos suportar.
Hoje os enganos confundem-se com autoenganos. Hoje a paz parece uma miragem perdida.
Uma imagem que ninguém pode perseguir, a menos que, ou até que, alguma justiça desça sobre todos.
Ad Matai? Até quando?
22 de Tishri de 5784
7 de outubro de 2023
