O penúltimo deserto
Paulo Rosenbaum
Não me chamem de deserto. Nunca houve deserto. Desertos são tão múltiplos. Impossível limitá-los à areia. A aridez é um preâmbulo do que nunca se forma, o adiamento de toda umidade. Até que chegam os oásis. Ilhas aleatórias para destinos humanos avulsos. Antofagasta. Atacama. A Alma dirige-se ao céu. Do Explora para toda Exploração. Mas a luz chega como partícula em milimétricas e submilimétricas ondas de rádio. A frequência ocupa o lugar de nossa cegueira. O laboratório corre para alcançar a rede integrada de captação.
O céu é um altiplano sem margens ou limites. Força a linguagem para o absoluto. E neste penúltimo deserto, vulcões mudam como nuvens. Então sabemos das camadas: salares de 8 kms de profundidade. Parece que o sal orquestra sua passagem para que outros animais vivam. Bactérias dão o tom, e a cor, para patos e flamingos
Mas foi lá, no Alma, que enxerguei as comprovações de galáxias dispares. Espirais de Cloro na cauda de cometas. Vi a boca de dimensões impossíveis. Lá estava um oco negro. Um buraco especulativo. Pode ser um túnel, uma ponte ou o lado indizível da sombra. O corredor que dá passagem de um horizonte a outro. Um insondável alçapão do tempo. Um evento jamais detectado antes. Uma fotografia histórica. Mas também havia o Viento Blanco. A beleza é perigosa. E logo vi o galpão com a Antena. Gigante de 12 metros de altura por 7 de diâmetro. Adiante um parque de interferências. 16 km de extensão. O maior olho da Terra. Um olho sem lentes. E um telescópio sem visão aparente. Daí, notei. O dia é um esconderijo. As disruptivas emissões de uma notável falsa invisibilidade.
A luz azul de nosso habitat obscurece a luz que viajou. A refração da água, inimiga do esclarecimento. E, por bloquear um dos sentidos, achamos que temos uma jornada dupla. É quando o fato se impõe: só temos a noite. Só contamos com matéria escura. A abundância incalculável para contabilizar o celeste. Tudo não passa de uma ilusão de fótons migrantes que circulam desde o último ponto perceptível até a irreversibilidade do infinito. E que já sem sabemos se são mesmo 13,8 bilhões. O outro espelho que flutua acabou com a farra matemática, mais uma vez relativizando as previsões da ciência. As certezas de um início esclarecido podem estar acabando.
Se apenas soubéssemos: a contabilidade do ignorado supera qualquer cálculo. O raio de curvatura do Universo é um elástico entre contração e expansão. Pulsa vago e inconstante, mas para sempre. É que o senso comum precisa desesperadamente conservar a ideia de que estamos apartados. Se apenas soubéssemos quão esmagados estamos sob o peso da gravidade. A leveza nunca foi insustentável, tornou-se refrataria.
Estamos submersos na violenta compressão das atmosferas.
Sulcados no mundo.
Fincados na areia dos desertos.
Nunca passamos de terra.
Pó de terra.








