Intelectuopólio, ou, Monopsismo do Pensamento
“A instituição não é nada em si mesma. Ela consiste num conjunto de regras, aplicadas aos papéis e aos comportamentos sociais, permitindo à liberdade de cada um realizar-se sem prejudicar a dos outros. Todo pensamento político fundamental deve levar em conta este ponto crucial em que a instituição e a liberdade se entrelaçam, ou melhor, se engendram mutuamente. Se a instituição não se situa nesse trajeto inteligível que Hegel chamava de “realização da liberdade” ela se torna, então, opaca, ilisível, indecifrável, e cada um começa a sonhar com sua liberdade fora das leis.” Paul Ricoeur in “Interpretação e Ideologias”.
Venho fazendo solilóquios. Talvez este seja apenas mais um deles, mas vai que alcance algum leitor com atenção flutuante. Tenho buscado sutilmente (ou nem tão sutilmente) mostrar em artigos e até através da literatura que — apesar da pletora de slogans :”Pela diversidade”, “Pluralidade”, “Respeito às diferenças”, portanto todos teoricamente a favor da multiplicidade de vozes e metodologias —temos vivido sob o domínio de um sistema que poder-se-ia chamar de intelectuopólio. O monopólio das ideias é uma derivação do pensamento único, do centralismo partidário, da visão de uma cultura de massas que detém um conceito anacrônico de verdade, apesar de estar camuflado sob o manto da abertura e da aceitação das diferenças.A ideia é incompatível não só com a essência epistemológica da ciência, mas da própria cultura. A pandemia, por exemplo, demonstrou que há um proceder por parte da ciência e de seus veículos, incluindo a mídia que a suporta através da divulgação científica, a qual vem adotando uma postura monológica sobre uma patologia que toda a comunidade científica sabia (e assim ainda é) muito pouco. Isto é, diante da ameaça busca uma espécie de solução derradeira, de última palavra sobre o que é clinicamente eficaz e o que não é. Vale dizer, existiria um saber último que se sobreporia a todos os demais. Ora, quem conhece os princípios básicos da crítica do conhecimento sabe que essa é uma posição antagônica à atitude de neutralidade e receptividade que o cientista deve adotar.Como escreveu Imre Lakatos há uma permanente competição entre programas científicos rivais, destarte isso não significa que o objetivo seja a prevalência vitalícia de um deles sobre todos os demais e a qualquer preço. Ou seja, é preciso estar aberto— e até desejoso — para encontrar evidências e indícios que vão contra o teste de hipótese que comprova ou não uma tese.O mesmo se passa com as instituições. Pois bem, quais as consequências imediatas de cientistas ferrenhamente engajados em causas ideológicas, portanto políticas, quiçá partidárias? Perdura uma atitude de pré julgamento. Neste caso, adota-se um vício de análise que é capaz de cega-lo, e aos demais, sobre a veracidade e plausibilidade de outras propostas metodológicas, e especialmente de suas conclusões e aplicabilidade empírica. Sob o império da monocultura é que criamos o risco do intelectuopólio. Pode-se até mesmo afirmar que é uma das origens de sociedades tão fendidas com os respectivos danos para o entendimento dialógico.Vale dizer, a hegemonia de certas teorias e teses se sobreporiam de forma tão arbitrária e sectária que qualquer novo conhecimento seria asfixiado no berço, ou até mesmo antes disso. O comprometimento da originalidade e da criatividade é incomensurável. Isso vale para as ciências duras, mas também para as ciências humanas e portanto estende-se a todos os outros campos do saber. Essa refutação apriorística de tudo que desafia o corpus canônico estabelece um paradoxo insanável: se a pesquisa busca desvelar o novo — Bachelard dizia era preciso provocar para fazer com os átomos fossem evidenciados — como poderia fechar-se diante de uma possibilidade apenas perscrutada — desde, é claro, que possa ser racionalmente defendida para além dos próprios bolsões ideológico-culturais.E agregue-se um problema novo: hoje a I. A,, Inteligência Artificial já tem como redigir artigos, elaborar relatórios e até assinar obras literárias. Como fica a revisão por pares (peer reviewers – corpo de pessoas que julgam a qualidade científica dos papers), quem dará o veredito se devem ou não ser publicadas?O critério de escolha destes pares para integrar boards editoriais também estabelece um sério problema, pois é sabido que os editores destas publicações — incluindo jornais e revistas comuns — acabam escolhendo revisores juízes e colaboradores com afinidades não só no campo das disciplinas pelas quais transitam, mas também de proximidades político-ideológicas. Esse endogenismo pode ser uma das raízes do aprofundamento da chamada polarização que tomou conta do mundo, especialmente das grandes democracias ocidentais. Engana-se que o fenômeno está circunscrito às matérias políticas, ela se estendeu a todos os setores da vida pública e privada.Nestes casos, o critério se aproxima de um cientificismo político— pois este é o nome — que ajuda a deslocar a cultura para uma posição sempre dicotômica, a qual, inevitavelmente, desvia-se até chegarmos ao maniqueísmo. E, ao assim proceder, ferem-se os princípios fundantes da arguição acadêmica, que consiste em atitude analítica, na histórica busca pelas melhores perguntas e na permanente luta contra os dogmas.Ao se posicionar de forma política (e partidária) estão aceitando suspender o juízo em nome da causa. E a causa, como todos sabemos, não não nos leva à desejada fusão de horizontes, mas às idealizações inter-excludentes e, consequentemente, ao desmantelamento das instituiçõesPortanto temos sido levados a crer que só há paraíso e inferno, esquecendo de toda inexplorada vastidão que existe entre o céu e a terra.
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