Paulo Rosenbaum
Paulo Rosenbaum
Compartilhado com Seus amigos
Eu respiro Glasnost, você vive cogitando censura. Não me detenho diante dos retrocessos, você os estimula. Comemoro a liberdade, você legisla para restringi-la. Quando se trata de ideologia sou ciclotímico, você tem fidelidade doutrinária. Volto ao caminho do meio, o centro te parece repugnante. Cada dia acordo diferente, você nunca despertou do alinhamento automático. Você pensa nas virtudes da mordaça, eu recuso reduzir-me ao silêncio. Prezo o sujeito, você adula as massas. Penso através de imagens plásticas, você memorizou a cortina de chumbo. Eu preciso da contradição, você ama linearidades. Você aponta para um passado que emula futuro, eu, desconcertado, me deixo dominar pelo agora. Vivo de ansiedades premonitórias, tuas certezas nem desconfiam da inconsistência do mundo. Eu mudo com celeridade e testemunho tua renitente cristalização. Eu fluo, você engessa. Teu rosto está permanentemente oculto, o vento bate na minha cara. Tu selecionas com estratégia, eu vivo improvisando. Reconheço o descontrole do destino, você já disse que o domina. Olhando para o horizonte me encho de duvidas, você anuncia meias verdades. Estufas o peito para anunciar a redenção, eu duvido de mim mesmo. Reconheço tua complexidade, você me simplifica numa palavra. Você diagnostica a todo segundo, eu busco compreender os sintomas. Tua aparente tranquilidade nem imagina como meus sonhos são agitados. Você só interage porque tem objetivos, eu não tenho escolha. Você enxerga pessoas como instrumentos, eu derreto contemplando suas vulnerabilidades. Eu me oponho por não concordarmos, teu antagonismo é por convicção. Eu assumo os ressentimentos, você os justifica. Você delega os juízos, eu reconheço os equívocos. Eu enfrento o poder, tuas cédulas o adulam. Prefiro a paz das aproximações, tua pregação de reconciliação não passa de exortação à capitulação. Seus amigos são treinados para aplausos, os meus poucos são exímios perguntadores. Com dificuldade resigno-me diante das leis injustas, você as endossa. Você so concebe a vitória, para mim o jogo é contínuo. Você entende a democracia como altercação permanente, para mim, aproximação sucessiva de consensos provisórios. Quem nos salvará das propagandas de salvação? Eu aceito a totalidade, você sonha com o partido. Sou propenso a me denunciar, você é infalível. Se reconhecesses o bem comum eu te cederia o trono, você preferiria incendiá-lo.
Não é bem que nos opomos, habitamos dimensões paralelas que não se tocam.
Se toquem.
