O livro da não polarização.
“A tradição oral do Talmud nao ensina sanidade, cria sanidade” Adin Steinsaltz
Testemunhamos mesmo cizânias e divisões sem precedentes na história recente?
“Sempre foi assim”nos alerta a retrospectiva histórica. Talvez, mas raramente com tanta veemência, nunca com esta velocidade, jamais com tanta reatividade.
O estatuto de “on line”, em tempo real, e o debate instantâneo, são provavelmente os ingredientes responsáveis por tais agudizações. As ideias, os argumentos, as réplicas e tréplicas demandavam um período de decantação intelectual, reflexão, processamento mental, acomodação psico afetiva, vale dizer metabolização dos argumentos. Agora é o presto, o súbito, o esfuziote, à queima bucha, a luma de palha : verte-se opiniões e respostas ab abrupto. Os auto denominados influenciadores digitais ou manuais fazem valer seu inacreditável poder sob o manto desta espécie de império da atuação das vísceras contra as considerações analíticas.
Houve uma vez na qual a arte dialógica era longa e imersiva. Hoje corre-se o risco de gerar interlocutores mortalmente ofendidos caso um WhatsApp demore mais do que alguns segundos para ser contestado.
Como se sabe através dos estudos psicométricos, o impacto das comunicações hiper expressas é diretamente proporcional à velocidade da resposta emocional. A repercussão ultra reativa idem. Pois este é o tempo que foi abolido no bate-pronto das digitações, no ímpeto de produzir contrapontos, no impulso irreflexivo. Pode-se interditar um relacionamento histórico ao toque de caixa. Criar um conflito irreparável por palavras mal colocadas. O paradoxo óbvio numa era de comunicações relâmpago é que tornou-se arriscado exprimir-se. O correr da pena já teve o rascunho como escudo, a digitação selvagem, não.
Isso dito, podemos até tentar fazer um recenseamento de como foi que mergulhamos neste novo mundo. Um mundo não dialético, não dialógico e, ao mesmo tempo, preocupantemente parcial. O mundo parcial é um mundo pela metade. Um mundo em eclipse permanente. Um mundo de juízes e julgados.
Isso significa, necessariamente, a exortação a um neutralismo comprometedor?
Nada disso.
Não é que — como explicava o epistemológico Paul Feyrabend em seu famoso texto “contra o método” — qualquer coisa serve. E que, por exemplo, deve-se aceitar disparates de cunho existencial, político ou científico em nome da convivência entre as partes. Não é isso. Mas que dever-se-ia conceder muito mais espaço ao tempo e à distância do si mesmo para que a voz do outro tenha a chance de ser ouvida, e efetivamente escutada. Ou seja, estar um passo além da mera detecção das vibrações sonoras. Cuidado escasso, se não impossível, e cada vez mais difícil sob a ditadura da velocidade, do julgamento rápido, da sentença pré-formulada.
As tribos só puderam sair de seus guetos — e dai às cidades — quando aprenderam que a tolerância minima seria o preço a ser pago para ter e conservar uma vida menos insegura. A duras penas e ao custo da renúncia ao instinto é que nasce a ideia de cidadania. A própria palavra “urbanidade”, cuja herança semântica, não é fortuita.
Num ambiente com tantas ameaças globais sincrônicas vindas através de satélites diretamente para aparelhos de uso maciço, a tendência do mundo não parece ser a reversão do ping-pong eletrônico e da tirania dos algoritmos.
Nossas chances de nos tornar mais lentos sob bandas largas progressivamente mais rápidas e abrangentes são quase nulas. A esperança viria de uma consciência cultivada. Um aprendizado continuo para a moderação e o meio termo. Devemos ter conservado em algum lugar, como memória ancestral, uma racionalidade não maniqueísta e menos polarizada. É muito plausível que habite em nos uma lógica não adversarial. Será necessário evoca-la. Trata-se de uma superação contra-intuitiva, uma vez que não é nada óbvio que ela tenha se sobreposto ao nosso renitente cérebro reptiliano.
O crescimento da mediação como recurso está ai como prova de que evitar a judicialização de todos os conflitos (e não o oposto) é um excelente instrumento para diminuir a litigância e para a promoção de paz social. (Cf Rosenbaum, Silvia.F. https://s.migalhas.com.br/S/367FF4 Mediação uma abordagem interdisciplinar)
Temos que aceitar que temos mais perguntas do que respostas e é esse o mérito de toda metodologia maiêutica uma das propostas talmúdicas que coincide com a filosofia socrática. Ela é quem pode criar uma consciência crítica, o único antídoto para a cronicidade imobilista do “isto ou aquilo”
Assim, até mesmo os sufrágios nas democracias representativas poderiam se transformar em um ato de ponderação e não uma vingança guiada pelas entranhas.
Por um ano 5783 suave, e sempre nas trilhas dos caminhos do meio.
Shana Tová!
