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“Imagens que cegam no fio da navalha” Ricardo Garro – Resenha do livro “Navalhas Pendentes”* (Publicado no Blog Estadão)

“Imagens que cegam no fio da navalha” Ricardo Garro – Resenha do livro “Navalhas Pendentes”*

A partir da Fotografia Original de Polly Schiveik

Paulo Rosenbaum, em Navalhas pendentes,[1] seu terceiro romance, por intermédio de um narrador que afirma que sua memória só “permite uma narrativa pouco linear, tudo aos solavancos”,[2] envereda o leitor por entre uma história cujo caráter visual é notadamente marcante.

Do brilho metálico das navalhas que cruzam a narrativa do início ao fim, do vermelho do sangue que, na abertura do romance, cobre as roupas, a barba e o apartamento do narrador, ou da luminosidade cegante de uma cidade a beira-mar e do seu contraponto na luz fraca e sutil de um lugarejo no “extremo sul” do continente americano, tem-se cenas de um apelo visual que ilumina e a imaginação do leitor. Elas adquirem um sentido ainda mais amplo quando o leitor se atém aos aspectos de construção e de montagem da memória efetuados pelo narrador, que muitas vezes, se aproximam dos processos de escrita e de edição de um livro – não à toa um dos temas centrais do romance –, ou mesmo da montagem cinematográfica, com sua sucessão de imagens encadeadas entre saltos temporais, flashbacks e flashforwards.

Assim, um dos grandes méritos de Rosenbaum é a forma com que imprime essa visualidade em sua narrativa, pois esta se forma não apenas pela descrição de ambientes, objetos e pessoas, mas, sobretudo, pela imaginação alucinada de seu narrador em primeira pessoa que, entre lapsos de memória e pouca coerência, tenta reconstituir o que parece ser a cena de um crime.

Homero Arp Montefiori, esse narrador alucinado, é um revisor que trabalha para a Filamentos, a maior e a mais importante editora do país, e que acaba se envolvendo em uma rede de corrupção, possíveis assassinatos e roubos intelectuais, tendo como elemento central uma máquina que “escreve” livros a partir de trechos de manuscritos de autores rejeitados pela editora. Com esse argumento, Rosenbaum revela, especula e brinca, não sem ironia, com elementos da própria criação literária, com as relações entre editores e escritores, assim como com o mercado editorial como um todo, ao mesmo tempo em que espalha na trama paranoias e conspirações.

Dessa forma, é difícil afirmar se Homero é inocente ou culpado, se é vítima de uma armadilha ou um sujeito que fantasia crimes e armadilhas, dentro da tradição de narradores nada confiáveis que marcam muito da boa literatura, de Machado de Assis a Jorge Luís Borges. Mas é justamente o caráter alucinado e pouco confiável do personagem que faz com que a característica imagética do romance tome corpo. A imaginação desenfreada que espalha pistas, verdadeiras ou falsas, lembra o que Italo Calvino, no seu conjunto de ensaios Seis propostas para o próximo milênio,[3] assinala sobre características que ele considerava importantes para a sobrevivência da literatura.

No capítulo sobre visibilidade, Calvino argumenta que a imaginação pode ser vista “como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido”,[4] e a partir dela ele conecta visibilidade narrativa e os meios eletrônicos que inundam de imagens a contemporaneidade, aproximando a mente criativa a uma mesa de montagem, tal qual o leitor pode vislumbrar em Navalhas pendentes.

Para Calvino, a mente do poeta e o espírito do cientista, em certos momentos, funcionam de acordo com um “processo de associações de imagens que é o sistema mais rápido de coordenar e escolher entre as formas infinitas do possível e do impossível.”[5] Desse modo, a “fantasia é uma espécie de máquina eletrônica que leva em conta todas as combinações possíveis e escolhe as que obedecem a um fim, ou que simplesmente são as mais interessantes, agradáveis ou divertidas. Resta-me esclarecer a parte que nesse golfo fantástico cabe ao imaginário indireto, ou seja, o conjunto de imagens que a cultura nos fornece, seja ela cultura de massa ou outra forma qualquer de tradição.[6]

A seguir essa marcação de Calvino, o romance de Rosenbaum produz imagens que se sucedem de forma rápida e associativa, e seguindo ainda uma lógica investigativa, resvalando, em muitos momentos, na urdidura de narrativas policiais. Mas também alguns aspectos de narrativas de ficção-científica permeiam a trama, e a própria máquina que “escreve” funciona por combinações nas quais “nenhum original era, de fato, descartado. Todos passavam por peneiras digitais […] esses cérebros-símiles de literatos montavam roteiros, enredos e histórias com fragmentos de textos descartados”.[7]

Outro aspecto a ser destacado do romance é a sua contemporaneidade. Ele parece exprimir o imediatismo e o excesso de informações que transformam fatos em falsificações e falsificações em fatos, em meio a teorias conspiratórias que infestam o cotidiano. Uma possível chave para a leitura desse aspecto é a referência ao filme F for fake, de Orson Welles, lançado em 1975, premonitório da contemporaneidade.

A ideia de falso, no romance, se dá tanto pela memória lacunar como pela personalidade cambiante e ambígua do narrador, mas é também um reflexo do meio e da cultura que o envolve, e cuja revelação final torna mais evidente. Certamente que paranoia e conspiração parecem constituir a própria forma do romance, ao envolver todo o entorno do narrador, a partir de sua personalidade.

As cenas dos crimes ou o mundo editorial são apresentadas dentro desses termos, etre a vida pessoal do narrador e a metalinguagem. Daí a desconstrução de verdades absolutas e mentiras relativas. Desde as lembranças de infância, não qual se destaca a figura paterna, apresentado como alguém apaixonado por dicionários, que introduz o filho no mundo das palavras e seus significados, delineia-se o seu futuro profissional, mas também espalha indícios do que se constituirá na ambiguidade discursiva desse narrador. Ao incluir a subjetividade de quem conta a história, o escritor joga com o lugar do indivíduo em meio a uma “sociedade do espetáculo”,[8] que parece cada vez mais dominada por máquinas e algoritmos.

Calvino, em sua proposta sobre a visibilidade, pergunta se o “futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a “civilização da imagem” e se o “poder de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas”. Para o crítico, no passado

a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar forma a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas. Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.[9]

Nesse sentido, Navalhas pendentes põe em relevo o poder da literatura de construir imagens que se instauram no imaginário do leitor entre o pastiche e a ironia intertextual, partindo do próprio leitmotiv da saturação e do excesso de informação que constituem a contemporaneidade.

Não se pode, ainda, deixar de relembrar o caráter subjetivo que por vezes invade o romance e imprime poesia e reflexão, mesmo que estas logo sejam cortadas por uma lâmina irônica. Cenas como os últimos momentos na biblioteca do pai, ou do refúgio em meio a um grupo de descendentes de índios gigantes nos Andes, parecem representar o lugar do individual e do subjetivo que Calvino desejava que resistisse em meio à saturação de imagens, mas ambiguamente, fazem com que o leitor caminhe sobre fios de navalhas ficcionais.

[1] ROSENBAUM, Paulo. Navalhas pendentes. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2021.

[2] ROSENBAUM, 2021, p. 135.

[3] CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[4] CALVINO, 1990, p. 106.

[5] CALVINO, 1990, p. 107.

[6] CALVINO, 1990, p. 107.

[7] ROSENBAUM, 2021, p. 295.

[8] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

[9] CALVINO, 1990, p. 107.

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1

* Originalmente publicado no Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 15, n. 29, nov.2021. ISSN: 1982-3053

Editora responsável – Profª. Lyslei Nascimento, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais Brasil, Brasil

Profa. Alessandra Conde da Silva (UFPA)

Profa. Lyslei Nascimento (UFMG)

Editoras deste número

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Quando o abismo não te olha de volta – A experiência no Canyon Vermelho.* (Blog Estadão)

Quando o abismo não te olha de volta – A experiência no Canyon Vermelho.*

Paulo Rosenbaum

Fotos – Paulo
Rosenbaum

O risco faz parte da decisão daqueles que resolvem emigrar. Mas e quando os pais visitam filhos cuja escolha foi essa? Além da viagem ser um empreendimento perigoso em nossos tempos, as barreiras não se limitam a ela. Os riscos? Risco de ter a saudade exacerbada no lugar de mitigada. Risco de enxergar as condições nada ideais de vida prática mesmo considerando que foi esse o impulso que costuma mover o imigrante. Risco de saber que uma distância de 12.000 milhas não pode ser transposta mesmo por mensagens de texto instantâneas ou ligações de vídeo pela internet. E, por último, o mais difícil, saber que o horizonte substituto do outro jamais se transformara no seu próprio. Foi neste contexto que resolvemos, então, durante a viagem, fazer uma escalada em família.

Escolhemos o canyon vermelho, região sul de Israel, uma pequena área de Wadi Shani, (em hebraico: הָעֲרָבָה, literalmente “área desolada e seca”; em árabe: وادي عربة) uma cadeia montanhosa que começa sua trajetória desde o Deserto do Sinai no Egito, e que tem um desfecho nesta estranha paisagem de deserto. Trata-se de uma formação montanhosa rochosa, pequena, um trajeto de 5 quilômetros, com uma hora e meia de duração a depender do trajeto escolhido. O problema está na volta. O risco paira sobre a vida assim como em toda literatura, e o retorno costuma simbolizar a dor passada. O exemplo icônico é representado pela estátua de sal na qual se transformou a mulher de Lot: a areia que nunca se desfaz.

Mais uma vez estive visitando e ouvindo uma terra que persiste em ser ameaçada e inserida num mapa alternativo do mundo. Evidentemente, para desgosto dos caluniadores, em Israel não há apartheid, não há racismo, claro que isso não significa que a tensão entre os desiguais não esteja presente, como em todas as partes do mundo. O alarmante recrudescimento do antissemitismo, mereceria, dos democratas do mundo e da imprensa livre bem mais do que tímidas interjeições de ultraje.

O mais notável que — mesmo em meio as escaramuças— as relações entre árabes e judeus sejam contínuas há milênios. E mesmo que sejam instáveis e mesmo que sempre estejam sob uma integração oscilante, elas permanecem. Chamou a atenção como a vida se desenvolve em meio a uma multiplicidade de variáveis incomodas. Por exemplo, a tipologia dos povos, costuma ser vasta em todos os cantos, porém, em Israel, isso se transforma em uma metáfora exuberante, pois há uma multiplicidade de tribos e pessoas em estado de pura peculiaridade. Étnica, racial, cultural. Beduínos gourmets, árabes yuppes, judeus ortodoxos rastfari, drusos especialistas em drones, cuidadores tailandeses, russos guias de museus, penitentes em estado extático sem contar aqueles que desenvolvem a famosa síndrome de Jerusalém, quando sujeitos comuns se descobrem prolixos profetas assim que desembarcam na cidade.

A polissemia religiosa, cultural e política é tão ampla que se torna impossível estabelecer qualquer predomínio ou homogeneidade. A divisão é uma das permanências nesta sociedade. Para além de interpretar este fato como virtude ou defeito o curioso – para contornar o vocábulo “milagroso”- é preciso tentar compreender por que todas aquelas pessoas querem estar ali, amontoadas, espremidas em trens lotados, em intransitáveis mercados, alguns a céu aberto, em peregrinações erráticas.

Isso tudo em Jerusalém, mas deslocando-se mais ao sul, em Eilat, pode-se apurar melhor que este é um lugar parecido com todos. Mesmo Israel sendo único, como todos os outros rincões.

Já em Tel Aviv, sob um cosmopolitismo quase artificial, pode-se sentir a modernidade liquida na pele. Antes de tudo ela é afetiva e dosada em shekels, já que hoje passou a ser a cidade mais cara do mundo, superando Paris e Singapura. As pessoas passam a sensação de estar em uma ciclotimia ritual e isso pode ser muito estranho para um visitante. O humor aqui oscila bem mais do que a temperatura. Sim, pois para entender a improvável diversidade do País é preciso capturar senão sua história, seu contexto exclusivo.

Não basta ser o lugar dos judeus, dos sobreviventes do holocausto, nem a terra que, mesmo em meio às turbulências dos arredores, se recusa a ser uma ditadura como tantas espalhadas pelo oriente, e enigmaticamente toleradas pelo ocidente. Este resultado – uma diversidade cheia de couraças, mas duradoura — só pode acontecer sob eleições livres e com rodízio de poder. Por isso mesmo, judeus e árabes convivem mesmo sem as confluências e isonomias idealizadas por analistas militantes e acadêmicos com viés ideológico A coexistência não significa necessariamente paz, assim como compreender não significa perdoar.

É portanto mais do que plausível arriscar que uma das características desta sociedade seja esta: ninguém por aqui idealiza mais nada. A receita? Quase seis milênios transformam qualquer um em pragmático. Dos garçons aos vendedores de suco de romã. Dos fumadores de narguilé aos operários que varrem os pedidos que costumam ser grudados no Kotel (o muro ocidental, também conhecido no jargão do SAC como “muro das lamentações”) a vida prática se impõe com a mesma devoção das tradições e o turista não deve se assustar. A não ser que alguém busque criar espaço com os cotovelos ou uma vendedora de sorvete se recuse a vende-los se você deixou algo fora do lugar no supermercado. Neste caso, abstenha-se de coisas geladas e esfrie a cabeça.

Conflitos costumam ser resultados de complexos, que geralmente são comandados por desejos inconscientes, idiossincrasias e mitos pessoais. Porém aqui existe uma espécie de densidade geográfica espiritual. Sob a carga da experiência acumulada, camadas e camadas de uma arqueologia sentimental ignorada, de qualquer maneira, praticamente indecifrável, se faz presente e predomina.

Se toda análise requer uma síntese é preciso uma que reconstitua a trajetória dos sentimentos e sensações para colocá-los no lugar certo. O judeu, não mais o errante — de Eugene Sue e Sigmund Freud — permanecerá para viver a vida por aqui e onde mais ela estiver disponível. A coexistência no Oriente Médio não significa necessariamente paz, assim como compreender não significa perdoar.

Voltando ao Canyon, lá estava eu pendurado sobre o abismo e sob o olhar apavorado das minhas filhas – de fato estar pendurado sobre a face do abismo é um exercício pouco recomendável para pessoas acima dos 40. Foi quando pensei no meu pai e no recente sofrimento por perdê-lo. Agarrei mais fortemente as alças de metal chumbadas para escaladores. Foi ali, ainda pendurado, apreciando o mundo de ponta cabeça que enxerguei o canyon com outra perspectiva. Vasculhei com os olhos as camadas que demoraram milênios para formar aquela sedimentação, a precariedade das rochas empilhadas e o aviso na placa “Cuidado: fique atento, pedras rolantes”.

Pensei na célebre frase de Nietzsche: a sensação de que enquanto olhava para o abismo ele olhava de volta. Se houvesse uma insinuação do desfiladeiro não era fazer o papel de imã, mas reafirmar sua vocação de um solo, outrora fértil. Minhas mãos vacilaram e deslizei. O insustentável peso do ser pode ser um momento sublime de apego a vida. Aumentei a pressão das mãos sobre as barras de segurança. E, de novo, fiquei atento: pedras rolantes. Uma mensagem digna da porta da cozinha para antes do café da manhã. Ali, com a lua pairando ao fundo em pleno dia, e ainda vendo o mundo sob outro ângulo, o pendente, notei que desde que a morte impôs o frio veredito sobre a família, permaneci alienado. Mais do que distante, fui dominado por um estoicismo melancólico. Em apenas um segundo, eis que fui invadido por um insight: o abismo é só um vazio que não só não te deseja como te despreza acintosamente. Voltei então à avaliação do risco original. É possível que concorremos mesmo para nossa própria extinção, e até ela só se torne possível sob tal condição.

Ainda assim, o apego à vida ficou mais enraizado, e, nunca saberei ao certo se tal adesão foi o instinto de auto preservação ou puro amor pelos demais. Soube apenas que o risco revelara seu valor oculto e fiquei grato pela experiência no canyon vermelho.

E agora, já de volta, posso ouvir a risada das filhas abafando o silencio do abismo.

*Para Marina, Hanna e Iael

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A Descoberta do Grande Telescópio* (Publicado no Blog Estadão)

A Descoberta do Grande Telescópio*

*Para aqueles que não duraram este ano

Eu vi o silencio e recriei os passos do espaço-tempo,

Eu andei sobre as miríades de luzes,

Eu as dispus intercaladas, enquanto aquecia os rostos de velhos, que sorriam.

Eu os escolho porque não mais sabem quem são

Eu provi os embriões de toda matriz

Eu vi o silêncio das profecias quebradas pela realidade.

Eu vi a terra que, devastada, ainda permanece

Eu supro o solo com sementes de horizontes substitutos.

Eu projeto crostas de Terras que nunca se formaram.

Eu testemunhei o espelho que prometeu desvendar segredos

Segredos de um Universo que ainda não se completou.

Eu trouxe para cada mão estendida o espinho que nem chegou a crescer.

Eu fiz arranjos para sonoridades

Timbres que ninguém escutou

Eu atuo solo, aspirando parcerias

Eu compus na pedra mapas de alfabetos

Eu trouxe, contra as sombras, o sopro até que a argila vingasse

Eu interfiro na direção dos ventos para emoldurar destinos

Eu o fiz por uma ninhada, uma florada, e até para a lágrima ilhada

Eu não te dei as asas da gaivota

Nem a leveza das folhas

Para que sulcasses a areia

Eu modelei um signo que não era apenas a letra

Fiz por amor à linguagem,

Eu insisti no símbolo não codificado

Eu trouxe o mérito para cada espécie

Eu soube do sentimento das vítimas,

Entrei no coração dos indecisos

Recusei escolher entre justos e transgressores

Preferi consolar os justos que sofrem

Sob o papel dos intermediários

Eu carreguei todo pai e mãe através dos desfiladeiros da dúvida

Eu te doei filhos e descendência

Eu intercalei peso e leveza, penumbra e fresta, janela e transparência

Eu costurei com tintas, pincelei com cordas, esculpi com o hálito

Eu te mostrei as cordas, o quantum, o bóson, a onipresença da matéria escura

Eu fiz com voz

Fiz com nada

Eu sou aquele que experimenta tudo

Eu te vi nascer, crescer e te inculquei a ilusão de finitude

Eu mudei tudo, simplesmente tudo,

Porque te amei

Assim permanecerei até que o ciclo se reinicie

Eu sou o nunca e o nunca mais

Eu te fiz escolher significados

Te ofereci a liberdade que ainda temes

Te protejo de perigos sequer enumerados

Eu te amo como a ninguém

E não tendo o nome que você imaginou

Nem a textura que o mundo apregoou

Penetrei no mistério que te deixa insone

Regenero tudo que toco

Eu molho e seco

Expandi e separei mares até que as praias nascessem

Estimulei o descontrole que gera

Recriei o que consideravas obsoleto

Ensinei às partículas o giro das órbitas

Sou o que sou

E não é por isso que você é o que você é

Eu estive nos órgãos curados, nas vitalidades refeitas, em cada existência vigente

Vivo sem esperança de retribuição

E só vim porque vocês me esqueceram

Sou, como queria o filósofo, puro acontecimento

Eu produzo sonho e pesadelo

E te entreguei a chave de todas as páginas

Com o texto, propositalmente inacabado

Eu te fiz indagar por mim

E mesmo que a nostalgia te desvie

Da única incumbência:

Eu me transformei no sentido

Para que haja Um sentido.

Um.

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Mure, the visionary who brought us the homeopathic art

Mure, the visionary who brought us the homeopathic art
Dr Paulo Rosenbaum

In November 1840, the French physician Benoît Mure disembarked in Rio de Janeiro, who would become the introducer of homeopathy in Brazil, reaching his personal fortune to spread medicine and direct it towards the treatment of slaves and those “excluded by society”

Contrary to what many believe, homeopathy has a long political and institutional history in this country. It has gone through various phases of rise and fall and at the end of the century it seems to be catching its breath. Homeopathy was officially introduced in Brazil by a direct disciple of Samuel Hahnemann, the Frenchman Benoît Jules Mure.

Benoît Mure (1809-1858) is an important character in the history of Brazilian medicine, especially in the context of homeopathy. He left influences and the repercussions of his work continue.

Mure arrived in the country after making a pilgrimage to Europe, where he spread and spread the principles of the then new medical art. Palermo (in Sicily), Paris, Cairo and Malta were in his homeopathic propaganda script.

When he landed in Rio de Janeiro aboard the French ferry Eole in November 1840, Mure was 31 years old and full of visionary projects. His story repeats that of many others: he was recovering from a pulmonary tuberculosis that affected him when he was under the homeopathic treatment given by Sebastião Des Guidi, disciple of Hahnemann and introducer of homeopathy in France. The son of a wealthy burgher from Lyons, Mure graduated in medicine in Montpellier (a stronghold of vitalist medicine).

This successful treatment was followed by an unsuccessful one, carried out by one of France’s most famous physicians in the early nineteenth century, the clinician Magendie.

However, we see that Mure’s scientific impulses are too intense to be just the fruit of gratitude for the medicine that saved him from a condition of tuberculosis. Mure finds logic – as the German physician and naturalist Constantine Hering had already done – and captures Hahnemann’s method, which is what particularizes his preference for homeopathy.

The introducer of homeopathy in Brazil, influenced by the ideas of Fourier and Jacotot, decided to found a Phalansterian colony in Santa Catarina, on the peninsula formed by the São Francisco River, called Colonia do Sahy.

a plan to the emperor

According to the records collected by Galhardo, it is known that on September 18, 1841, the French societal settlers were presented to the emperor, together with Mure. This colony was the initial purpose of the coming of Mure, who was the official representative of the Union Industrielle of Paris (Mure, 1999). Mure was presented to the emperor to outline his plan of action:

“I come, on behalf of all the suffering classes that aspire in France to change their position, to ask your majesty for the means to enjoy, under a tutelary government, the legitimate fruit of your labor.” (Mure apud. Galhardo, 1928: 280).

It is understandable, from this militant attitude of Mure, his later struggle, when he incorporated the treatment of slaves and the socially excluded in imperial Brazil into his homeopathy expansion project. In this context, the most recent political mobilizations are also understood, when homeopaths engaged in the country’s political and social struggles.

According to the homeopath and historian of homeopathy Galhardo, one of them, Antonio Ildefonso Gomes, was responsible for writing the first Brazilian document addressed to the National Congress, requesting, in writing, the restriction of slavery. It was Benoît Mure who founded the School of Homeopathy in Rio de Janeiro, in 1844, the embryo of the future Instituto Hahnemanniano do Brasil, officially founded in 1859.

The French doctor was a utopian, a misfit, and above all a person endowed with an invincible tenacity. These are those who believe that scientific development is really only evolution when there is simultaneous ethical progress. Hence, it is understandable why it occupied a substantial space in the socio-scientific context of Brazil in 1840.

social medicine

Mure tries to restore vitality to the medical thought of the recent Brazilian empire. He lectures for the future of medical art, is a proselyte of a more active social medicine, starts to defend the meanings and purposes of his particular conception of the objectives of public health.

Against an exclusive practice, he included in his project the treatment of slaves and social classes without access to Court medicine. In fact, homeopathy was, during the entire period of slavery, the only medicine used by slaves, since it had two essential qualities: low cost and efficiency.

There is a curious mixture in Mure’s proposals: socialism is always linked to religious passion. But it is precisely this characteristic that puts him on a list that is very particular to mankind: he is that type of tireless subject. He was a stubborn and perceptive ideologist and knew, as sociologist and professor at the UERJ Institute of Social Medicine Madel Luz showed, of the need for political support and academic endorsement to achieve more stable foundations for homeopathy.

So, Mure mobilized to achieve this support by putting pressure on institutions, making political contacts and seeking by various means a more respectable statute for homeopathic knowledge.

His aim was to get a favorable opinion from the medical academy for the then new medical school. It achieves recognition, but at a very high price, as the media resource it used as a platform for political support also served as the basis for subsequent attacks. A real war broke out in the big newspapers of the time, especially in the Diário do Comércio, and homeopathy became a national controversy.

It fell to the Brazilian physician Duque Estrada to be the first to apply, in some specific cases, homeopathy in Brazil. (Galhardo 1928, 275). Under his leadership, a popular pamphlet was published to hang on poles in Rio de Janeiro and São Paulo with the aim of containing the cholera pandemic.

Duque Estrada defends homeopathic treatment to contain the yellow fever epidemic and writes to the Chamber of Deputies proposing a subsidy of 100 contos de reis for the creation of an infirmary for homeopathic treatment.

“Senator Vasconcelos voted for the abolition of official medicine, all freedom should be given to the physician to cure by the system of his choice” (Carvalho, 1857: 9).

Sahy’s corporate colony did not thrive. But Mure sees the spread of homeopathy as a no less noble perspective and implements it in several states.

He and his collaborators make true marketing plans: they think of expanding advertising to other states through emissaries, and in 1847 the Sociedade Homeopathica Bahiana, a branch of the Instituto Homeopathic do Brasil, is installed.

personal fortune

At the end of 1847, a Homeopathic Hospital was also opened, under the presidency of Duque Estrada. Several popular offices were opened in both Rio de Janeiro and Salvador. The resources for all this, at least initially, seem to have come from the personal fortune that Mure brought to the country as an inheritance.

The free offices were created by homeopaths in 1843 and seeing their success with the population and the increase in popular adherence to the treatment, the Imperial Academy of Medicine also decided to open them in 1848.

Already in poor health, apparently due to the reactivation of his pulmonary tuberculosis, and having already asked for his resignation from the position of director he occupied at the Homeopathic School of Brazil, Mure said goodbye to Brazil, from which he left in April 1848. Vicente Martins took over the Homeopathic School and restructured it, giving it a bolder curriculum.

After the departure of Mure – who died in Cairo ten years later, in 1858 –, new homeopathic organizations emerged: “Hahnemannian Society”, “Medical-Homeopathic Academy”, as well as the increase in the number of classical publications and originals. Driven and subsidized by the Homeopathic Institute of Brazil, it is time for other states to receive more information about homeopathy;

In the socio-historical context of the first half of the 19th century, what pioneer homeopaths, including Mure and his collaborators, did for the spread of homeopathy in this country, with its mistakes and successes, can only be defined, without apologetic exaggerations, as a work exceptional. For this reason, his theoretical work is of irreplaceable importance, both in understanding the current and past political-institutional situation of Brazilian homeopathy, as well as in today’s clinical practice.

But it is through his empirical/experimental work that his project acquired a worldwide dimension. Mure, in his “Brazilian Pathogenesis and the Doctrine of the Medical School of Rio de Janeiro”, directs and compiles a series of 39 pathogenesis (methodical experiments on medicinal substances) with substances obtained, selected and prepared according to homeopathic pharmacotechnics, in a historical period whose scientific difficulties were literally staggering. Editions of his book appear in 1853 (United States) and 1859 (Spain).

A natural choice for medicine

The scientific world had already recognized in a particularly generous way the works of travelers and naturalists who cataloged (scientifically and iconographically) the exuberant flora and fauna of this country. This is the case of Dutch doctors Piso and Marcgrave (members of Maurício de Nassau’s delegation), Saint-Hilaire, botanists Spix and Martius and less famous nineteenth-century researchers such as Freire Alemão, Velloso, Almeida Pinto, Caminhoá and Peckolt.

Now that we are approaching 500 years of discovery, it would be important to promote rescues and revise icons. Mure’s work failed to be recognized, especially for the study of the country’s fauna and flora. In addition, the author goes far beyond a pharmacodynamic/pharmacognostic cataloguing. It does not stop at making a mere compilation of medicinal effects or therapeutic indications of substances obtained from indigenous and popular medicine sources, very common in botanists’ treatises. He leads, directs and coordinates the presentation of medicines, many of them unprecedented, believing in the prodigality of a generous nature that offers curative means geographically close to the people who need them.

It presents listings of symptoms obtained through methodical experience. It does this using the Hahnemanian recommendations when adopting the criteria of a Hygantropharmacology (study of the effects of medicinal substances on man) when observations of effects – objective and subjective – on the totality are recorded.

The experimental work organized by Mure is not only suitable for historical research subsidies, and even a therapeutic instrument, as it actually represented an unusual milestone in the preservation of biodiversity. This at a time when such concerns were virtually non-existent. We would say then that the work of this idealist is provocative, original and above all of the most modern if we consider that there is a boom in current research looking for new medicinal substances in tropical forests, an investigation that the Homeopathic Institute of Brazil had been conducting since 1843.

It can be observed in “Patogenesia Brasileira”, the effort of the experimental work of Mure and João Vicente Martins (as well as other collaborators), the effort of a generation committed to the creative search for new visibilities for medicine, subjects and even for the social model itself. Visionaries who, like them, were willing to find medicinal substances, go to field research and organize a Brazilian medical material with elements obtained from the realms of nature, many of them ignored (or just cataloged) by other distinguished travelers

Paulo Rosenbaum, special for JT

Mure, o visionário que nos trouxe a homeopatia – Blog Estadão (publicado originalmente no Jornal da Tarde)

Mure, o visionário que nos trouxe a homeopatia
Dr Paulo Rosenbaum

Em novembro de 1840 desembarcava no Rio de Janeiro o médico francês Benoît Mure, que se tornaria o introdutor da homeopatia no Brasil, chegando a dispor de sua fortuna pessoal para difundir a medicina e direcioná-la para o tratamento de escravos e de “excluídos pela sociedade”

Ao contrário do que muitos acreditam, a homeopatia tem uma longa história política e institucional neste país. Passou por várias fases de ascensão e queda e neste fim de século parece estar recobrando seu fôlego. A homeopatia foi oficialmente introduzida no Brasil por um discípulo direto de Samuel Hahnemann, o francês Benoît Jules Mure.

Benoît Mure (1809-1858) é um importante personagem na história da medicina brasileira especialmente no contexto da homeopatia. Deixou influências e as repercussões de seu trabalho continuam.

Mure chegou ao país depois de realizar uma peregrinação na Europa, aonde difundiu e divulgou os princípios da então nova arte médica. Palermo (na Sicília), Paris, Cairo e Malta estiveram em seu roteiro de propaganda homeopática.

Quando desembarcou no Rio de Janeiro a bordo da barca francesa Eole em novembro de 1840, Mure estava com 31 anos de idade e repleto de projetos visionários. Sua história repete a de muitos outros: recuperava-se de uma tuberculose pulmonar que o acometeu quando esteve sob o tratamento homeopático ministrado por Sebastião Des Guidi, discípulo de Hahnemann e introdutor da homeopatia na França. Filho de um rico burguês de Lyon, Mure formou-se em medicina em Montpellier (um reduto da medicina vitalista).

Este tratamento bem-sucedido, sucedeu outro sem êxito, levado adiante por um dos mais famosos médicos da França no início do século XIX, o clínico Magendie.

No entanto, vemos que os ímpetos científicos de Mure são intensos demais para serem apenas os frutos de uma gratidão pela medicina que o salvou de um quadro tuberculoso. Mure encontra a lógica – como o médico e naturalista alemão Constantine Hering já havia feito – e captura o método de Hahnemann, isto é o que particulariza sua preferência pela homeopatia.

O introdutor da homeopatia no Brasil, influenciado pelas idéias de Fourier e Jacotot, resolve fundar em Santa Catarina uma colônia societária falansteriana, na península formada pelo Rio São Francisco, denominada de Colônia do Sahy.

Um plano ao imperador

Conforme os registros coletados por Galhardo, sabe-se que em 18 de setembro de 1841 foram apresentados ao imperador os colonos societários franceses, juntamente com Mure. Esta colônia foi o propósito inicial da vinda de Mure, que era o representante oficial da Union Industrielle de Paris (Mure, 1999). Mure foi apresentado ao imperador para expor seu plano de ação:

“Venho, em nome de todas as classes sofredoras que aspiram em França a mudar de posição, pedir a vossa majestade os meios de gozar, debaixo de um governo tutelar, do fruto legítimo de seu trabalho.” (Mure apud. Galhardo, 1928: 280).

Compreende-se, a partir desta atitude militante de Mure, sua luta ulterior, quando incorporou a seu projeto de expansão da homeopatia o tratamento dos escravos e dos socialmente excluídos do Brasil imperial. Neste contexto compreendem-se também as mobilizações política mais recentes, quando homeopatas engajaram-se nas lutas políticas e sociais do país.

Segundo o homeopata e historiador da homeopatia Galhardo, coube a um deles, Antonio Ildefonso Gomes, a redação do primeiro documento brasileiro dirigido ao Congresso Nacional, solicitando, por escrito, a restrição da escravidão. Terá sido Benoît Mure quem funda a Escola de Homeopatia do Rio de Janeiro, em 1844, embrião do futuro Instituto Hahnemanniano do Brasil, oficialmente fundado em 1859.

O médico francês era um utopista, um incorformado, e sobretudo um sujeito dotado de uma invencível tenacidade. Trata-se daqueles que acreditam que o desenvolvimento científico só é de fato evolução quando há progresso ético simultâneo. Daí compreende-se porque ocupava um substancial espaço no contexto sócio-científico do Brasil de 1840.

Medicina social

Mure tenta devolver a vitalidade ao pensamento médico do recente império brasileiro. Faz preleções pelo futuro da arte médica, é prosélito de uma medicina social mais ativa, passa a defender significados e propósitos de sua particular concepção dos objetivos da saúde pública.

Contra uma prática exclusora ele inclui em seu projeto o tratamento dos escravos e das classes sociais sem acesso à medicina da Corte. De fato, a homeopatia foi, durante todo período de escravidão, a única medicina usada pelos escravos, uma vez que reunia duas qualidades indispensáveis: baixo custo e eficiência.

Há uma curiosa mistura nas propostas de Mure: o socialismo está sempre atrelado à passionalidade religiosa. Mas é precisamente esta característica que o coloca numa lista muito particular do gênero humano: trata-se daquele tipo de sujeito incansável. Ele era um ideólogo obstinado e perspicaz e sabia, como a socióloga e professora do Instituto de Medicina Social da UERJ Madel Luz mostrou, da necessidade de apoio político e aval acadêmico para conseguir bases mais estáveis para a homeopatia.

Então, Mure mobiliza-se para alcançar este apoio pressionando instituições, fazendo contatos políticos e buscando por vários meios um estatuto mais respeitável para o saber homeopático.

Seu objetivo era conseguir um parecer favorável da academia médica para a então nova escola médica. Consegue o reconhecimento, mas a um preço muito alto, já que o recurso midiático que usou como palanque para o apoio político também serviu de base para os ataques subsequentes. Uma verdadeira guerra se estabelece nos grandes jornais da época, especialmente no Diário do Comércio e a homeopatia vira uma polêmica nacional.

Coube ao médico brasileiro Duque Estrada ser o primeiro a aplicar, em alguns casos específicos, a homeopatia no Brasil. (Galhardo 1928, 275). Sob sua liderança, publica-se um panfleto popular para fixar nos postes do Rio de Janeiro e São Paulo com a finalidade de conter a pandemia de cólera.

Duque Estrada defende o tratamento homeopático para conter a epidemia de febre amarela e escreve para a Câmara dos Deputados propondo uma subvenção de 100 contos de reis destinada à criação de uma enfermaria para tratamento homeopático.

“O senador Vasconcelos votou na abolição da medicina oficial, toda a liberdade deve ser dada ao médico para curar pelo sistema de sua escolha” (Carvalho, 1857: 9).

A colônia societária do Sahy não vingou. Mas Mure vislumbra a difusão da homeopatia como uma perspectiva não menos nobre e a implementa em vários estados.

Ele e seus colaboradores, fazem verdadeiros planejamentos de marketing: pensam em expandir a propaganda a outros estados através de emissários, e em 1847 é instalada a Sociedade Homeopathica Bahiana, Filial do Instituto Homeopático do Brasil.

Fortuna pessoal

No final de 1847 também inaugura-se um Hospital Homeopático, sob a presidência de Duque Estrada. Vários consultórios populares eram abertos tanto no Rio de Janeiro como em Salvador. Os recursos para tudo isto, ao menos inicialmente, parecem ter vindo da fortuna pessoal que Mure trouxe para o País como herança.

Os consultórios gratuitos foram criados pelos homeopatas em 1843 e vendo seu sucesso junto à população e o aumento da adesão popular ao tratamento a Academia Imperial de Medicina, também resolve abri-los em 1848.

Já com a saúde abalada, ao que parece devido à reativação de sua tuberculose pulmonar, e tendo já pedido a exoneração do cargo de diretor que ocupava na Escola Homeopática do Brasil, Mure despede-se do Brasil, de onde parte em abril de 1848. Vicente Martins assumiu a Escola Homeopática e a reestruturou dando-lhe uma corpo curricular mais arrojado.

Depois da partida de Mure – que falece no Cairo, dez anos mais tarde, em 1858 –, observa-se o surgimento de novas organizações homeopáticas: “Sociedade Hahnemanniana”, “Academia Médico-Homeopática”, assim como cresce o número de publicações clássicas e originais. Impulsionados e subsidiados pelo Instituto Homeopático do Brasil, é a vez de outros estados receberem mais informações sobre a homeopatia;

No contexto sócio-histórico da primeira metade do século 19, o que os homeopatas pioneiros, incluindo Mure e seus colaboradores, fizeram pela difusão da homeopatia neste país, com seus erros e acertos, só pode ser definido, sem exageros apologéticos, como um trabalho excepcional. Por isto seu trabalho teórico é de uma importância insubstituível, tanto no entendimento da situação político-institucional atual e pregressa da homeopatia brasileira, assim como da própria prática clínica de hoje.

Mas é através de sua obra empírica/experimental que seu projeto adquiriu dimensão mundial. Mure, em seu “Patogenesia Brasileira e Doutrina da Escola Médica do Rio de Janeiro”, dirige e compila uma série de 39 patogenesias (experimentos metódicos de substâncias medicamentosas) com substâncias obtidas, selecionadas e preparadas segundo a farmacotécnica homeopática, em um período histórico cujas dificuldades científicas eram literalmente descomunais. Edições de seu livro aparecem em 1853 (Estados Unidos) e 1859 (Espanha).

Uma opção natural para a medicina

O mundo científico já havia reconhecido de forma especialmente generosa os trabalhos dos viajantes e naturalistas que catalogaram (científica e iconograficamente) a exuberante flora e fauna deste país. É o caso dos médicos holandeses Piso e Marcgrave (integrantes da comitiva de Maurício de Nassau), de Saint-Hilaire, dos botânicos Spix e Martius e de pesquisadores menos famosos do século XIX como Freire Alemão, Velloso, Almeida Pinto, Caminhoá e Peckolt.

Agora que nos aproximamos dos 500 anos do descobrimento, seria importante promover resgates e rever ícones. Faltou reconhecer ao trabalho de Mure, especialmente pelo estudo da fauna e da flora do País. Além disto o autor vai muito além de uma catalogação farmacodinâmica/farmacognósica. Não se detém em fazer uma mera recompilação dos efeitos medicinais ou de indicações terapêuticas das substâncias obtidas das fontes da medicina indígena e popular, muito comuns nos tratados dos botanistas. Ele conduz, dirige e coordena a apresentação de medicamentos, muitos inéditos, acreditando na prodigalidade de uma natureza generosa que oferece meios curativos geograficamente próximos dos povos que deles os necessitam.

Apresenta listagens de sintomas obtidos através da experiência metódica. Faz isto usando as recomendações hahnemanianas quando adota os critérios de uma Higantropharmacologia (estudo dos efeitos das substâncias medicinais sobre o homem) quando são registradas as observações dos efeitos – objetivos e subjetivos — sobre a totalidade.

O trabalho experimental organizado por Mure não é somente ainda apropriado para subsídios de pesquisa histórica, e mesmo instrumento terapêutico, como de fato representou um incomum marco na preservação da biodiversidade. Isto em uma época na qual tais preocupações eram virtualmente inexistentes. Diríamos então que o trabalho deste idealista é provocador, original e acima de tudo dos mais modernos se considerarmos que há um boom de pesquisas atuais buscando novas substâncias medicinais nas florestas tropicais, investigação que o Instituto Homeopático do Brasil já conduzia desde 1843.

Pode-se observar em “Patogenesia Brasileira”, o esforço do trabalho experimental de Mure e João Vicente Martins (assim como outros colaboradores), o esforço de uma geração comprometida com a busca criativa de novas visibilidades para a medicina, os sujeitos e até para o próprio modelo social. Visionários que, como eles, dispuseram-se a achar as substâncias medicinais, a ir à pesquisa de campo e organizar uma matéria médica brasileira com elementos obtidos dos reinos da natureza, muitos deles ignorados (ou apenas catalogados) por outros ilustres viajantes

Paulo Rosenbaum, especial para o JT