Um Médico chamado Matheus Marim

Médico, professor de medicina, homeopata por escolha, um sujeito que nunca se rendeu aos dogmas, nem às doutrinas pétreas, e tinha na atitude científica genuína uma morada. Porém não a qualquer ciência, mas aquela que questiona o cientificismo e privilegia a visão experimental e vitalista. É verdade que tem muita gente muito mais próxima dele e que o conheceu de forma mais intima. Amigos e colegas médicos que poderiam falar melhor sobre ele, discursar com mais conhecimento sobre suas características e qualidades.

Só ouso fazê-lo porque o meu contato foi baseado na intensidade e sob a pressão dos momentos agudos e críticos. O suficiente para conhecer a ética e o rigor pessoal com que ele a aplicava. E por saber, ou intuir pouco importa, o rumo de seu leitmotiv. É improcedente falar do que era consensual em sua personalidade, mas é essencial ressaltar o que dele emanava: uma tranquilidade peculiar, que se infiltrava mesmo à revelia do interlocutor. Testemunhei por várias vezes seu atuar calmo em meio à turbulência, e suas palavras que se assentavam, sutis, mesmo em meio às situações dramáticas. Nunca houve uma mudança de tom, nenhuma exasperação, zero afobação. Sua intensidade fazia-se pela firme constância e pela responsabilidade com que tomava e assistia seus casos clínicos.

Seria ele um adepto de uma versão do estoicismo moderno? Talvez. Decerto um workaholic convicto. Seu heroísmo nunca foi acidental, tanto no combate à peste como às mazelas humanas, e este é um esforço que merece um registro especial. Assim como de tantos e tantos médicos, enfermeiros e equipes de saúde que tombaram frente a uma onda de patologia sem ainda nenhum sinal de desfecho. Muito provavelmente a melhor definição de seu atuar como médico que ajudou milhares de pessoas através da clínica da similitude, é lembrar de uma qualidade evocada pelo fundador da homeopatia, uma virtude que Samuel Hahnemann julgava fundamental num cuidador.

O terapeuta pode ser solidário, deve ser empático, mas deve também exercer uma “muda comiseração” durante as entrevistas médicas.

E era essa sua forma particular de interagir com os enfermos. Relatos mostram um médico que agia como uma pessoa frente à outra. Um clínico que, enquanto ouvia as queixas, polia as lentes dos óculos dos seus pacientes idosos, que se preocupava em jamais renunciar a um pedido de alguém precisando de seus serviços. Sua mera presença, com seu indisfarçável e longo avental branco, impunha uma espécie de respeito tácito, isso mesmo quando se encontrava em meios hostis ao tipo de medicina que praticava. De alguém que se entregava ao inegável talento na arte de cuidar, muitas vezes em detrimento dos interesses pessoais. Às vezes, para acolher um relato de sofrimento da pessoa tratada, mas, muitas vezes, dos familiares destas pessoas também. Às vezes, por horas, às vezes durante a madrugada.

Matheus apostava, como Gregório Maragnon, que a homeopatia seria, um dia, redescoberta em laboratórios. Na verdade, ela já foi redescoberta pela ciência e validada pela sociedade, apesar de todas as tentativas de interdita-la, na maior parte das vezes por motivações alheias à saúde dos homens e contra os interesses da humanidade. Independentemente de seu atuar clínico e de pai e avô atento aos seus, encontrava ainda tempo para produzir experimentações de novos medicamentos (como, por exemplo, Botrophs jararacuçu e Brosimum Gaudichaudii), procurar bons interlocutores dentro das ciências da saúde, articular eventos, promover cursos, e, talvez, o motor número um de sua trajetória vital: sua defesa de uma forma ímpar de praticar a medicina.

Matheus, por tudo isso e, gracias a la vida, sua marca no mundo estará garantida, aqui, agora, mas também num futuro longínquo e lá fora.

Obrigado por tudo, grazie mille: é a Medicina que te agradece.

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