Conto de Notícia entrevistou o cientista social André Lajst (AL) diretor da SWUBrasil, sobre os recentes desdobramentos da situação no Oriente Médio e um balanço do que foi o ano para as relações internacionais.

Blog – Houve uma notável aceleração de notícias fraudulentas na web, vícios de informação nas mídias, e muitas delas envolvem ataques contra Israel. Primeiramente queríamos enfocar especificamente a pseudo polêmica com a Autoridade Palestina sobre a recente campanha de vacinação em Israel. Ficou evidente a manipulação política da Autoridade Palestina no episódio e a tentativa de transformar um feito invejável de vacinação em massa em acusações sem fundamento. Poderia fazer um resumo da situação?

AL – Basicamente, Israel não tem obrigação, pela Lei Internacional, de vacinar os palestinos. A primeira coisa a ser clarificada é que os territórios da Cisjordânia não são territórios e o território não é considerado ocupado. Pela Quarta Convenção de Genebra, territórios são considerados ocupados quando são conquistados por um poder soberano. A Palestina não existia em 1967 e a Jordânia não era um poder soberano legal na Cisjordânia entre 1949 e 1967, então o estatuto real da região está na categoria de territórios em disputa. Depois da criação da Autoridade Nacional Palestina em 1994 através dos Acordos de Oslo – que foram acordos assinados pela Autoridade Palestina com os israelenses – ficou acordado que a responsabilidade pela saúde pública da população civil palestina passaria a ser responsabilidade integral do novo governo palestino. Então quem tem a responsabilidade de vacinar a população palestina e suprir todas as necessidades básicas dos palestinos em relação à saúde é a Autoridade Nacional Palestina. Além disso, os palestinos não fizeram requerimento para que Israel desse ou comprasse vacinas para eles e recentemente, quando Israel lhes ofereceu uma quantidade simbólica de vacinas, eles rejeitaram.

Blog – O número de condenações e de sanções contra Israel na ONU impressiona e bateu um recorde em 2020. Considerando que as acusações nunca são comprovadas e muitas vêm do Conselho de Direitos Humanos (que tem como integrantes representantes de países como Irã e Venezuela) qual seria o viés da Organização? Em sua análise trata-se de um problema ideológico?

AL – Esse problema que as Nações Unidas tem com Israel é antigo. As Nações Unidas são um conjunto de 193 países que votam em uma assembleia democrática, cada país pode dar um voto, independentemente do tamanho da população ou do governo que possui. Quase metade desses países não são democracias, e muitos considerados democracias são democracias falhas, que possuem problemas de censura da imprensa,  um sistema jurídico atrelado ao executivo, ou setores que não são  parte do governo oficial mas que influenciam as políticas externas do país, como é o caso do Líbano, que é um país em teoria democrático, mas que na realidade não é, se formos ver quem controla as decisões do governo libanês.

Quando escutamos uma frase “a ONU votou na resolução x ou Y” estamos falando no conjunto desses países votando em alguma resolução, que por sua vez pode ter sido introduzida por um país ditatorial, como a Líbia ou a Arábia Saudita, e se a resolução passa, fica o nome da ONU em uma decisão que não necessariamente é moral ou ética. As votações contra Israel são motivadas pelo ódio ao país e não por preocupações com a vida dos palestinos.

Em relação especificamente ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, que antigamente se chamava Comissão de Direitos Humanos, esse Conselho foi reformado, lá pelos anos de 2004, 2005, justamente a pedido de alguns países como os Estados Unidos que viam nesse Conselho um viés muito forte contra Israel desde sua criação, na década de 1990. Mesmo com a reforma, isso continuou. Países são escolhidos por votação para preencherem vagas de 54 cadeiras, e os países eleitos acabam mantendo uma agenda anti-Israel para poder fazer uma frente diplomática extremamente enviesada contra Israel para que saia nos jornais esse tipo de notícia que vemos hoje, com manchetes como “A ONU condenou Israel”, “o Conselho de Direitos Humanos condenou Israel”. Um leigo que não entra a fundo no tema vai achar que realmente Israel é o maior violador de direitos humanos do mundo dada a quantidade de condenações que se dá ano após ano nesse Conselho. Mas é importante lembrar que nas reuniões ordinárias do Conselho, que acontecem algumas vezes por ano,  o único país que é citado de forma nominal é Israel e as supostas violações que Israel comete contra os palestinos. Nenhum outro país é citado nominalmente. Isso não significa que Israel não tenha que ser citado ou que não haja violações em Israel.  O problema é que nenhum outro país é citado, por maiores que sejam as atrocidades cometidas nesses países.  Nem a Venezuela, nem o Irã, nem a Arábia Saudita, nem a Coreia do Norte, nem outros países não-democráticos com governos problemáticos e ditatoriais, que perseguem minorias étnicas e religiosas, são citados uma única vez.  E quando o Conselho de Direitos Humanos da ONU acusa Israel, ninguém questiona quem faz parte deste Conselho, qual a sua agenda, etc. Claramente existe um problema ideológico, um problema de não aceitação da existência do país. E isto é interessante, pois a ONU votou na decisão que criou a legitimidade internacional para a existência de Israel, e agora um Conselho da mesma organização conta com uma agenda para condenar e deslegitimar Israel constantemente.

Como as frentes militares, as frentes de boicote, e as frentes terroristas das décadas de 1990 e 2000 falharam, desde 2005 há uma tendência de se formar frentes diplomáticas, como por exemplo via organizações internacionais, para fazer com que Israel seja condenado e consequentemente isolado do mundo por causa disso. E isso é um grande problema para a comunidade internacional, porque a população mundial acaba sendo influenciada por essas decisões, acreditando que Israel é o maior violador quando na verdade não é, e isso acaba gerando, no final das contas, antissemitismo.

Blog – Historicamente em períodos de peste e epidemias as mitologias tendem a se acentuar. O povo hebreu parece ter sido a vítima preferencial de bizarras teses conspiratórias. O jornal Jerusalem Post fez uma analogia desta pletora de acusações com os famigerados “libelos de sangue” que circulavam na Europa durante a Idade Média, quando judeus eram responsabilizados pelas epidemias. A pandemia e suas catastróficas consequências sobre a economia e a restrição das liberdades individuais suscitou vários ataques contra organizações judaicas pelo mundo e não seria surpresa o recrudescimento deste número no ano que entra, especialmente se Israel obter sucesso na campanha de imunização de sua população.

AL – Historicamente existem sim essas acusações que aconteciam na Idade Média, e na Idade Moderna,  obviamente também por conta do infame “Protocolos dos Sábios de Sião” (libelo elaborado pela polícia czarista para incriminar os judeus russos) então não é de hoje que existem essas acusações.Obviamente ainda existem setores da extrema esquerda ou extrema direita que acusam judeus, ou Israel, por epidemias, e quando Israel sair da pandemia vacinando sua população, obviamente é possível antecipar que vão acusar o Estado judaico de estar em conluio com algum tipo de intenção maligna por ter saído da pandemia antes de todos os outros países por meio da vacinação em massa.

Blog – As redes sociais se transformaram, para o bem e para o mal, em importantes veículos de informação. Parece que o caminho da censura usa um álibi frágil contra os diversos “discursos de ódio”. As grandes corporações tecnológicas têm adotado um problemático critério seletivo, pois enquanto bloqueiam e tarjam certas informações como falsas, a autoridade máxima do regime teocrático do Irã, por exemplo, continua livre para clamar pela destruição de Israel e o twitter permite que negadores do holocausto continuem propagando informações falsas. Como enxerga este problema?

AL – Em relação às mídias sociais, acredito que haja um problema moral e ético quando uma empresa privada faz uma decisão interna, trazida de uma pressão popular muito forte e também por causa da ideologia, de bloquear um presidente de um país democrático e não um ditador de um país teocrático. Existe um problema moral.  Pessoas podem ser banidas por incitar violência ou colocar a democracia em risco, e eu não estou entrando especificamente no caso do ex-presidente Trump, mas sim no fato do regime iraniano ter proibido o Twitter no país, mas o aiatolá ter sua conta no Twitter, apesar de morar no Irã. Por que ele pode ter Twitter e a população não? Só isso já poderia ser considerado um problema moral e ético. Pois bem, ele usa essa ferramenta para clamar pela destruição do Estado de Israel, e chama Israel de “câncer que deve ser eliminado”, também é trazer incitação à violência e ao ódio, o que eventualmente tem enorme potencial para gerar mortes e destruição. Mas o Twitter do aiatolá não foi banido. Como também não foi banido o do presidente da Venezuela, do ditador da Coreia do Norte e de outras pessoas que lideram grupos – até mesmo os terroristas – que possuem contas oficiais no Twitter e em outras redes sociais. Então, a política deveria ser algo geral e não algo direcionado.

Blog – Israel é um País que se notabilizou em promover ajuda humanitária em várias partes do mundo, às vezes em regiões que sofreram desastres naturais, outras vezes quando apenas existem crises como fome e epidemias. O que particularmente mobiliza Israel nesta direção de treinamento do voluntariado e priorização em ajuda humanitária? E por que muitas vezes há resistência em que alguns países aceitem esta ajuda?

AL – O que mobiliza Israel é um conjunto de fatores que funcionam em harmonia. Ajudar o próximo é parte da cultura judaica. Israel se preocupa não só em exportar essa ajuda, mas internamente também. Israel conta com muitas ONGs e associações da sociedade civil que possuem milhares de voluntários, nas áreas de educação, medicina, segurança, e outros setores com milhares de voluntários dentro do próprio país e que servem à própria população de Israel nesse voluntariado.  Isso acaba sendo exportado quando há crises humanitárias, como enchentes, desabamentos, deslizamentos de terra em algum lugar, etc.  Pelo fato de Israel ter essa experiência e invejável know-how além de já possuir um sistema cultural de voluntariado, é natural que o país exporte esse voluntariado. Essa vontade de ajudar países vizinhos e também a comunidade internacional é portanto “natural” quando as circunstâncias exigem.  Isso ajuda a mostrar a imagem verdadeira do país, cuja missão é de cooperação e ajuda à outras nações, inclusive países que não mantêm relações diplomáticas com Israel. Recentemente, há alguns anos, o Irã passou por uma seca muito grande, e Israel produziu vídeos em persa que foram enviados pela internet para agricultores iranianos para que eles pudessem criar formas de irrigação baratas e superar o período de seca, apesar de que nunca ter sido muito divulgado. Isso mostra que mesmo com o governo iraniano sendo extremamente agressivo e contra a existência de Israel, Israel vê a população iraniana de maneira diferente do que seu governo. Como vizinhos no Oriente Médio, Israel tinha interesse em ajudar a população iraniana a mitigar esse problema tão grave, que é a falta de água na agricultura. Alguns países não aceitam essa ajuda por recusar legitimar a existência de Israel. Ou imaginam que a exaltação da imagem do país, ajude a destacá-lo favoravelmente neste tipo de assistência. Infelizmente, apesar de se beneficiarem dessa ajuda, não é infrequente que os países beneficiados não reconheçam publicamente a  ajuda humanitária que recebem.