Ilustração – Nilda Raw – O.s.t 2018 “Tree of life”

O asteroide de 15 kilometros de diâmetro que há 66 milhões de anos atingiu a península de Yucatan no México extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superfície do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do início da segunda maior ameaça a vida, desta vez é a humanidade que será apagada. Até os não negacionistas sabem, que voltar ao trabalho não é uma escolha. É pedir muito voltar a aceitar uma condição que se remonta ao Gênesis e nos impôs que o sustento deveria ser obtido através do esforço? Ontem foi inevitável voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfarçar e tive que conter a satisfação enquanto caminhava até o escritório. Estava chegando no prédio quando fui interpelado por uma moça toda encapotada: — E essa cara feliz? Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada? –Pois é, estou retomando a rotina, primeiro dia. E até consegui esboçar um sorriso amistoso. –Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura à pergunta. — Uma hora teria que acontecer, minimizei. — Olha. Não sei não! E ela franziu as sobrancelhas. — O que é que você não sabe? E depois de ter me ensopado de álcool gelatinoso, já com o antebraço enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atrás. — Sei lá, o Sr. não é mais nenhum jovem, é grupo de risco, não acha que é muita ousadia? — Amiga, é aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, “espere pelo melhor”. E virei para seguir minha jornada. Ela não desistiu. — Está brincando? Neste caos no qual estamos metidos? É sério que você acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse você… Pois é. Ela não era eu, portanto não respondi e determinado, entrei no prédio para subir e começar a atender as pessoas que já estavam a minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observações não solicitadas. E cheguei a conclusão de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epidêmica, todos devem estar disponíveis todo o tempo, todos são devassáveis, todos podem ser julgados e interpretados. Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conotação pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre “ingênuo” e “cândido” e evoluiu rapidamente à “trouxa” e “imbecil”, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres serão utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreendíamos para onde caminhávamos. Mas, por pura incompetência, cessaram as fantasias de que seríamos reféns da tecnologia. E olhem que não esbarramos nos limites das órbitas distantes, na temível singularidade dos buracos negros, nem nas dimensões de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matemática: a história registrará que entramos num estado de animação suspensa diante de um animalículo. O vírus (do latim,veneno) não se contentou em ser só mais um fenômeno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube usa-lo da única forma que tornaria uma democracia realmente sustentável: benevolência e genuíno interesse pelos governados. Como disse em março o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: “Eis a aparência de um Estado Policial”. No mundo todo o fato é que para mostrar serviço quando os governos não sabiam qual serviço mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram versões paradoxais, criaram regras marciais, prenderam críticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideológico, e, finalmente, respaldados por extrapolações epidemiológicas a toque de caixa estão na iminência de prescrever soluções mágicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente. Aqueles que vem acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidadãos podem ser etiquecados como desejarem , mas, sem dúvida é deles a coragem que falta às instituições. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma moléstia em mito e espalhar o pavor. No lugar da mínima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfeiçoado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das mídias que, se livres, escolheram ser sócias voluntárias dos governantes contra os governados e a opinião pública. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesmíssima frase “tem mais é que apavorar mesmo”. Sob a indecência das mordaças psicológicas, com a previsível corrosão da linguagem, não foi difícil imaginar por que é que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurreições foram registradas, sempre por causas parasitas, periféricas, sublevações secundárias, motins autoritários, fúteis e até engraçados diante da superficialidade das reivindicações. Então surgiram os “anti”, aqueles que só se importam com a vida de alguns — e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as múltiplas fantasias conspiratórias para desconstruir as verdadeiras ameaças. Não sou otimista nem pessimista. É que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdoável? Para desespero de muitos hoje a pandemia — assim como seus instrumentadores — está saindo de foco. A pressão evolutiva sobre o vírus está resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doença se arrefece e não só porque hoje já há alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: “o vírus não quer matar o paciente”, precisa se propagar. Mas há uma analogia pedagógica merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos políticos, também aprendeu a fórmula para permanecer entre nós: vão continuar nos dando dor de cabeça sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, vão ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com poluição visual de rostos justapostos vinham criando uma estética mortificadora. O único sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa são as máscaras e as fantasias por trás de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de não estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solidários com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipação das políticas governamentais. Nossa sobrevivência não pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade à espreita da próxima crise. A desumanização começa com a uniformização e termina com a arte e cultura reféns da ideologia. Quando superarmos esta fase será graças aos esforços individuais, ao sacrifício silencioso das maiorias torturadas pela tirania de ofício. Infelizmente nem mesmo o rodízio no poder, a última salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos. O que os bem pensantes nunca imaginariam — e detestam a sensação, pois é um território que não conseguem entender — é que eles perderam a hegemonia. Se há um risco que vale a pena correr — em oposição ao determinismo dos cultores do apocalipse — é precisamente o risco da esperança. — É que na tradição judaica — eu deveria ter tentado explicar à moça encapotada — a árvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prudência com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel é temperado para que a tinta do Único sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.  

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