–Isso é um obituário?

–O que você acha?

O hábito dos judeus de responder uma pergunta com outra não é só um estereotipo. É um símbolo, um modo de viver, uma marca existencial que está impressa, tanto no genótipo como na tradição cultural.

“Pergunta, oh Israel!” tem sido um motto deste povo.

Pois é isso que Adin Steinsaltz químico, rabino, talmudista, sociólogo, educador, filósofo entre outros tantos atributos tentou deixar como legado.

Muitos ficariam impressionados com sua notoriedade mundial. A revista “Time” certa vez o classificou como “um erudito que nasce a cada milênio” (em livre tradução). Faz mais ou menos uns 30 anos que um querido tio próximo apontou-me uma matéria de jornal que comentava aquela reportagem do saudoso “Jornal da Tarde” para chamar atenção para a importância do fenômeno. Displicente, não prestei muita atenção.

Além da memória fotográfica, traduzir — ou, emprestando, a expressão do Haroldo de Campos, “transcriar” — ou verter o Talmud  ao hebraico contemporâneo era tido como uma tarefa impossível. E, para alguns, herética. Pois foi o que, durante 45 anos, ele se dispôs a fazer. E isso pode ser um indício de um espírito que transcende a erudição comum: trata-se de uma perseverança intelectual obsessiva.

Sempre achamos que os encontros com as pessoas são duradouros. Agora descubro que não duram. A duração pode ser de uma brevidade incomoda, e, é, geralmente, insuficiente. E só retrospectivamente conseguimos avaliar a densidade, a qualidade e o significado de uma interlocução. Quantos não passam diante de nós sem que a memória dê-se ao trabalho de fixar a conversa, a presença, ou ambos. Na extensa sucessão de momentos de uma vida só alguns merecem gravação. Foi o que aconteceu nas quatro vezes que tive o privilégio de encontrar e entrevistar Adin Steinsaltz, graças a ajuda do grande amigo Isaac Michaan.

Alguém já o chamou de um homem da Renascença. Provavelmente esta definição faça mais sentido, já que Adin reunia, natural e espontaneamente, vários campos do saber sem se preocupar em reafirmar uma expertise em nenhum deles. Aliás, era afiado quando se tratava de criticar os limites do saber super especializado.

“A ciência funciona porque se limita a um grupo pequeno de assuntos. Não há ciência com letra maiúscula. Alguns dos cientistas que lidam com as grandes questões são acusados pelos colegas de praticar filosofia. Eu os respeito e minha formação original é em química, não em ciências humanas. Tenho muito mais prazer em falar sobre um tubo de ensaio e testes laboratoriais do que de assuntos filosóficos, mas a ciência faz parte da insanidade. É parte da insanidade quando assume que os assuntos são muito maiores do que eles realmente são. Quando se fala com um cientista, perguntam-se coisas, que se você for sincero responderá: como por Deus eu vou saber? Você me pergunta sobre o destino da humanidade? Eu não saberia responder. Se você me perguntar o que vai acontecer daqui dois dias, como vou saber? Eu posso responder sobre as poucas coisas que eu sei agora. Eu não tento fazer da ciência uma espécie de deus pagão. E ao fazer isto, eu estou fazendo bem à ciência porque é isso que ela é. Quando o sol é um deus, é um deus perigoso, quando o sol é apenas uma estrela no céu é muito mais fácil lidar com ele.”

Sua inteligência, imprevisível e analógica, intrigava os interlocutores. E, ao mesmo tempo, impulsionava sua própria curiosidade.

Sua forma de perscrutar a mente dos homens e mulheres com quem conversava era de alguém que partia do nada. Era a céu aberto que ele iniciava sua exploração. Nos encontros que tive pude sentir seu olhar investigador, não exatamente como o de um cientista, mas o de alguém que, mesmo diante de uma vida intelectual das mais intensas não perdia a capacidade de se surpreender.

Ele me olhava, enquanto acendia, reiteradamente, o fumo do fogo quase extinto. E era este fogo quase sempre quase extinto que o mantinha aceso. Era mais do que uma metáfora a brasa que ele tentava manter em evidência.

Ao lembrar do isqueiro que puxava a chama para o centro do cachimbo, e o chiado que acompanhava a aspiração do tabaco holandês, demorei quase uma década para notar que sua pesquisa ininterrupta era direcionada a encontrar nas pessoas algum traço de novidade. Minha impressão é que ele vasculhava no palheiro em busca das fagulhas que encontram-se espalhadas, sabia que era preciso reuni-las, mas sem unifica-las. Se devem estar juntas, só podem existir como entidades separadas. Por isso, ele sempre insistiu nos trechos das escrituras que enalteciam a ação.

“Eu faço” ele insistia.

Em algumas entrevistas, que podem ser encontradas no YouTube e através da sua fundação a  “Aleph Society,  é possível avaliar a miríade de assuntos que ele dominava e trafegava com desenvoltura: de mística à medicina, inteligência artificial e clonagem, aos assuntos mais delicados da política e da filosofia.

Minha impressão, ouvindo minhas conversas gravadas com ele é que buscava capturar um ou vários nutrientes que poderiam ser usados para formular perguntas nunca antes formuladas. Usava o método para testar o método. Não como um instrumento pronto e cristalizado, mas para achar novas maneiras de opera-lo. Afinal, esse era seu leitmotiv, conforme expressou em várias entrevistas quando tentava justificar sua insistência e predileção pelo livro que compilou a tradição oral do judaísmo:

“O Talmud é um livro único, não há nada parecido, é um livro de discussões, que não ensina sanidade, mas cria sanidade”.

Por que? Pela capacidade de instigar a ininterrupta formulação de perguntas. Neste sentido, poderia parecer uma antecipação do método científico moderno de indução empírica, mas não é. Não é somente isso. Há, na compreensão generosa que Adin trouxe — e quem pode entender a expressão única que seus olhos transmitiam sabe do que falo —  uma finalidade última, uma teleologia geradora de futuro, que aperfeiçoa o discernimento, que tem a potencia para tornar as pessoas melhores do que elas são.

Sua conferência na Universidade de Oxford há alguns anos, assim como em muitas outras palestras que concedeu pelo mundo funcionava como um aviso, otimista, mas ainda assim uma advertência, a mesma mensagem unificada que estava no título do livro que publicou nos anos 60: “A sociologia da ignorância”.

Tornar o mundo melhor é, também, desmistifica-lo, e é disso que afinal a civilização contemporânea carece, onde paganismo e fanatismo anulam os esforços para promover o tikun olam, “o conserto o mundo”. E, para conserta-lo, é preciso desconcerta-lo. Isso não significa abolir os símbolos ou o próprio misticismo individual, mas um especial cuidado para não tornar deuses substitutos em titulares.

–E a pergunta que não quer calar?

–Adin, pode responder?