Lá se vão 136 dias em estado de animação suspensa. Trata-se de um momento fronteiriço. não sou de desperdiçar riscos, mas pensei em enfrenta-los. Decidido a ver os pais idosos, sai ainda impactado pela leitura de um recente artigo científico de autoria de dois psicólogos franceses que fizeram um sério alerta sobre o vírus e seu potencial para criar estados mentais patológicos*. Fora o rastro de destruição da economia, organização social e fobias suplementares, os efeitos colaterais da pandemia vem espalhando distúrbios que se assemelham às perturbações psicóticas. Desta vez considerei o tempo relativo dos confinados absolutos. Gente do chamado “altíssimo risco”. Para eles, um dia, uma semana e meses significaram nada mais, nada menos, do que uma brevidade maior de vida. Brevidade de vida ao ar livre. Brevidade de tempo relacional.

Mas, qualquer menção crítica à abordagem oficial dos governos é antecipadamente rebatida pela milícia jornalística uniforme dos meios de comunicação.  Enquanto nós e a opinião pública, como bons niilistas, recusamos a ver as benesses das evidentes mensagens dos dois RNAs. Recusamos o simbolismo opressor de um ser, que nem sequer temos consenso se é vivo.

Mais uma vez assumi os riscos, nunca precisamente calculado. Os idosos podem estar protegidos da ameaça infecciosa, mas decerto ainda são as vítimas preferenciais. É que o tempo, para eles, tem um escoamento mais célere, a renda encurta, as perspectivas afunilam, e o tédio vigora. Alguém considerou o impacto da melancolia e das saudades sobre os isolados? É muito fácil dizer para os outros “ao menos tu estás vivo”, porém, muito mais honesto, seria perguntar:

— Como tens vivido?

Mas quem tem coragem?

E quem pode dizer que não foi afetado? Não, faz tempo que não se trata mais da pandemia. Como dizia o sábio médico italiano Giambattisti Morgagni “cessam as causas, não cessam os efeitos”.

Mas os idólatras do fim insistem: quem ainda não enxergou que a vida como tínhamos acabou para sempre?  Quem se recusa a assistir webinares com o biólogo que desfila diariamente toda sua escatologia bibliográfica? Quando foi que nos transformamos em seres tão negacionistas? E principalmente, como um bando de não experts ousa discordar diante de evidencias tão colossais?

Pois descobri que sou um deles.

Já na porta do prédio dos idosos, tive um causal desencontro com um destes filósofos do arbítrio esclarecido, um escritor famoso que fez, por encomenda, biografias benévolas de caudilhos e ditadores:

–Tudo bem? Há quanto tempo!

–Tudo bem. (no esforço simulei a simpatia que não tinha) Fora o dióxido de carbono inalado dentro destas máscaras, reclamei.

— Pois é, um mal necessário.

Concordei com a cabeça, até que ele

–Mas tudo isso é para um bem muito maior….

— Como assim? Interrompi o passo no meio, e voltei-me ao tipo, já seguro que era para desperdiçar meu tempo.

–Essa doença é sofrimento, mas vai mudar tudo, vamos todos ficar de ponta cabeça. A natureza agradece. E, no final, a sociedade será reinventada, e a isonomia prevalecerá. E se deu por satisfeito ao  concluir sua tese de meio-fio.

–Isonomia? A sociedade será reinventada?

–Meu caro: é o novo normal.

Céus! Meu prognóstico para aquele desencontro desceu ao impensável. Era o que mais temia, mas jamais imaginaria que uma síntese estúpida se transformasse num slogan do senso comum.

— Espere um pouquinho mais e verás, respondi.

–O que? E ele esticou a corda que enforcava seu cachorro.

–Logo teremos o bom e velho anormal. Adeus, e, passe bem.

Deixei-o vociferando, enquanto virei as costas para o meu encontro com os derradeiros confinados.

A metapandemia está entre nós, para enlouquecer, matar e morrer. Os saqueadores subjetivos aproveitaram para impor suas agendas, exato, aquelas que ninguém pediu. E o festival de slogans anti estéticos contaminam: e “novo normal” é o mais detestável dentre todos. O novo normal dos prosélitos hegemônicos é uma mistura de wishful thinking com maniqueísmo instrumental.

A sociedade ideal, aquela que se assemelha aos sonhos dos ludopatas, aquele que insistem em regimes políticos totalitários que uma vez, em algum dia,  dará certo, é o vício incurável do “quase acerto”. A sociedade só pode ser aquela que eles imaginam, senão não faz o menor sentido. Melhor aliás seria que não existisse se não seguir o mapa da supremacia virtuosa. Pois o vírus tem sido usado sob esta diretriz e bandeira.

Uma agenda forrada de infecções ideológicas, de contaminação de ideias, e, principalmente, de uma hegemonia disfarçada de diversidade. É disso que se trata. Por qual outro motivo teríamos uma polarização nunca vista sobre eficácia de drogas, procedimentos preventivos, ações para conter o contágio? O sistema vem usando a máquina epidemiológica para triturar o que vê pela frente.

E, ao mesmo tempo, a mídia tornou-se uma voz unívoca, ventríloquos de sujeitos ocultos.

E é esta homogeneidade que prevalece contra todos, não importa se os cidadãos foram consultados, ou se a revolução da nova normalidade degradar a cultura, revisar a história e extinguir os monumentos, símbolos e valores.

Pois esta tese acaba de micar.

Há progressistas pelo fim da imprensa livre e conservadores reivindicando liberdade de expressão. Há guardiões constitucionais que querem impedir excessos sem sequer colocar o conceito de “excesso” para ser debatido. Há conservadores que gritam contra a usurpação do estado de direito. E é cada vez mais fácil saber porque a opinião pública não deve ser levada em conta: os bem pensantes superaram-se na arte auto congratulatória. Enxergam bem longe e acima da média para prospectar o futuro melhor do que ninguém. São eles os auto proclamados líderes, os únicos a poder nos ditar o que entendem ser o melhor para todos.

Finalmente entendi: o esforço para a normatização de um outro status quo é nos fazer ficar à mercê de novíssimas arbitrariedades. Fake news é só um contraditório selvagem que precisa de uma boa mordaça.

Sai do prédio e o filósofo ainda estava lá fumando e ostentando seu rottweiler estrangulado na coleira de couro. Ele então levantou a máscara para me olhar com cara feia e foi então que mostrou a língua.

Nem tudo é tragédia. Eu já sabia, de velho anormal eu entendo.

*https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S176546292030074X?fbclid=IwAR0l_3xY1CgwfUthYMl5GuB4E2WAO4BaseKMu9VLE1PZMaUsuj-5sJCsF-o

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-5-o-velho-anormal/