Coluna 80 –  Infancia política e o Fim de mundo. 

A origem é remota, mas, nas cátedras  universitárias de história política, talvez sejam as teses mais recalcitrantes e predominantes de nossos dias. Reparem, há sempre alguém por trás das denúncias, das maracutais, dos erros. Sempre existe o dedo infame do conspirador, do inimigo oculto, a trama de bastidores. Sempre o fantasma vive nas heranças malditas, nas mídias burguesas, no capitalismo e seus instrumentos de tortura.

Se a culpa é sempre de agentes externos, onde sera, e no que consiste, assumir responsabilidades pelos próprios atos?

A esquerda selvagem já percebeu: só é possível sobreviver com a recriação diária de uma agenda paranoide. A fatia da esquerda que ainda pensa foi engavetada  dentro do aparelhamento geral das capitanias corporativas. É claro que esse é um caldo propício ao conservadorismo de ocasião, que nasce, vive e cresce na decadência de posturas pueris.

Se são os outros culpados por nossas mazelas, impossibilidades e incapacidades quem está no comando? Ao indicar o cérebro oculto como mentor das nossas vicissitudes produz-se uma espécie de catárse que nos isenta da culpa de termos sido cúmplices, excessivamente passivos, ou simplesmente fracos.

Neste momento, às vésperas de mais um pseudo impasse institucional, passamos por um momento delicado, cuja resolução ou perpetuação terá severas repercussões.

No futuro, podemos especular como será ensinado este periodo nos manuais e nos vestibulares:

– Sobre a ação 470, conhecido na mídia pela burguesa como “processo do mensalão” assinale a única alternativa correta:

a- episódio juridico de natureza criminal no qual a cúpula política do partido atentou contra a democracia para se tornar hegemônico.

b-escândalo artificial, sem nenhuma base judicial, produzido pelo mídia e insuflada por banqueiros e sustentada pela elite rancorosa, racista contra o governo popular

c- crime eleitoral

d- mesada grande

e- nenhuma das anteriores

Usando as metáforas do psicólogo David Laing, o problema verdadeiro é que eles todos acham que ninguém mais esta vendo o jogo que vem sendo jogado. Nem imaginavam que alguém, por ousadia, curiosidade ou intuição, registrara tudo na súmula.  O jogo foi catalogado com mais atenção do que se gostaria. Mesmo diante destas evidencias a saída foi tentar fingir: não, ninguém daqui participou do jogo reafirma a cúpula partidária. E, se participou, não fez nada além do que todos os outros, desde os primórdios, fizeram. Só que muitos, até quem os sufragou no início, sem ter participado do esquema tático, estão vendo tudo. Certo, foi lá de longe, não dava para ter certeza absoluta. Estávamos todos desatentos, dando de ombros as denuncias, tomadas como complôs. Mas, aos poucos, apareceram os primeiros para reforçar os testemunhos de como tudo aconteceu.

O apego – as coisas, as pessoas, ao poder — é um lado nosso meio teimoso, traço humano meio coletivo. Mas para quem usa a política como instrumento arrivista é preciso confiar que a mentira reiterada tem o poder redentor e mágico: pode converter culpados em impunes. Então, é de lá que brota essa insustentável simulação: toda realidade é relativa e tudo não passa de uma questão de interpretação. Pode até ser, mas nem eles mesmos acreditam mais nisso. Apostam numa grande embolação, na geleia geral, na bagunça, no despiste que os tire da linha de tiro, ainda que a ideia de pelotão tenha sido criação autoral própria.

E apresentando versões sucessivas e progressivamente inverossímeis vão tentando colar a louça que destruíram para remontar o quebra cabeças que estilhaçaram. Malgrado os índices de aprovação por uma economia herdada e bem mantida, as negativas e as manipulações vão se tornando desgastantes e pouco convincentes. Há quem acredite em restauros perfeitos, há quem ache, céus, que a elite paulista e os banqueiros realmente estejam por trás de tudo. Ora, isso tem nome especifico nos manuais psiquiátricos.

No entanto é muito mais simples, todo esse exótico manancial de pés pelas mãos tem sido obra da política governamental errática. Denunciar “a elite rancorosa, a aristocracia, a realeza” faz parte do desespero da tese partisã.

Tudo é mais importante que reconhecer que   o projeto foi autodesfigurado de dentro do próprio partido que nos governa. Que a autodestruição foi anunciada quando se tentou formatar uma base, sacrificando o único núcleo duro com significado republicano. “Pragmatismo” dizem os que ainda militam. Faz lembrar a famosa frase do Vargas, o Getúlio:  “a lei, ora, a lei”.

Talvez seja mais fácil chamar essa nossa tormenta que se arrasta de crise, mas muito mais certo seria reconhece-la como um soluço da democracia. Por isso precisamos de um susto para suspender o fenômeno.

Há quem acredite que tudo seja fruto do que foi construído. Mal construído, mal mal-ajambrado, mal concebido, mas sem nenhum dedo externo.

O que os políticos de todas as matizes devem à população é um mais de consciência de seus próprios atos e, claro, um pouco mais de amor às necessidades  das pessoas.

O primeiro indicio da decadência é quando se nota que, para distorcer a realidade, força-se o terremoto. De fato, no caos epidêmico, tudo é tão ruim que parece que é igual ao que sempre se fez neste pais.

O fator surpresa, é a bomba-relógio da consciência. A opinião pública vai amadurecendo e, aos trancos e barrancos sacode-se da hibernação para enxergar, que,  enfim, pode se tornar sujeito da própria história.

Se não der, pelo menos saberemos, há uma insonia desejável.