quarta-feira, 3 de março de 2010

Entrevista Fictícia com o Dr. Mure, o divulgador da Homeopatia no Brasil – Paulo Rosenbaum

Dia da Homeopatia

No dia 21 de novembro, comemora-se o dia da Homeopatia, uma data que propicia um momento
de reflexão sobre a terapêutica criada por Samuel Hahnemann e introduzida no Brasil pelo médico Benoit Jules Mure. Numa fictícia entrevista como Dr. Mure, o Dr. Paulo Rosenbaum levanta algumas questões que, do seu ponto de vista, são importantes para o atual momento da Homeopatia.
Mais um dia da homeopatia no Brasil e não é difícil reconhecer a desmotivação generalizada. Mas haverá alguma explicação razoável para ela?
O médico Benoit Jules Mure tinha muitas preocupações em mente. A ampliação do horizonte de atuação da
medicina era uma delas. Um projeto generoso e compatível com os desejos da sociedade que pedia, e continua pedindo, compartilhamento, diálogo, ética e solidariedade, seja lá qual for a medicina utilizada. Para discutir este e outros temas conseguimos conversar com o Dr. Mure em Lyon, França:
Dr. Mure, Neste dia que comemoramos a introdução da homeopatiano Brasil, há o que celebrar?
O Sr.Sempre defendeu que a homeopatia desempenhasse um papel social bem mais amplo. Que pretensão era essa? Qual sociólogo ou filósofo concedeu esta liberdade para a medicina?
BM – Não estamos pedindo lugar junto às sociedades alopáticas e levantamos sem temor bandeira após bandeira, escola após escola. Os homens religiosos tomam o partido da medicina do sacrifício e espiritualismo, contra a da matéria e do egoísmo. Nossas preces nos sustentam os sonhos, nossos TDeum, nossos triunfos (Carta de Mure: Bulletin de la Societé Hahnemanienne de Paris, 1847, t. 2, 310)
Por favor, sabemos que faz tempo, mas poderia fazer um rápido balanço da época de sua passagem pelo
Brasil?
BM – Nós contávamos com um processo de conversão em massa. Apenas um décimo da população ainda se atinha aos sistemas antigos, enquanto todo o restante adotava com convicção a reforma médica. Os bancos da Faculdade estavam praticamente desertos e, dos doutores que produzia, a metade abraçava a Homeopatia… Tínhamos um segundo ministério abalado e modificado por conta da questão médica que varria o Brasil inteiro, desde os inspetores de polícia até o Conselho de Estado e as Câmaras. A luta era
aberta, ardente, declarada… Mas como você sabe deixei o Brasil em 1848, nãosei bem como a coisa andou nestes últimos 159 anos.
Sei que o Sr. tem saudades do Brasil, se voltasse, o que faria hoje? (Mure olha em volta, tira os óculos, e nostálgico deixa sua voz combativa de lado, meio inconformado):
BM- Mas, justo agora… agora que chegamos tão perto, onde é que foram parar todos?
Neste momento, mostro a ele a portaria 971 que deveria regulamentar a prática de medicinas integrativas. E
explico ao Dr. Mure – alguém tinha que o fazer – que em nossos dias a homeopatia, assim como toda a medicina, deixou de ser uma causa com corte ideológico, que ela hoje em dia se encaixa apenas como mais uma técnica dentre outras. Mure fica em silêncio, pensativo, olhando o pedaço de papel.
O que você me diz disso, Dr. Benoit?
BM – Fizemos nossa parte na divulgação da Homeopatia, tanto na Europa como na América, podemos reivindicar a fundação de três institutos e de cinqüenta dispensários… a conversão de cem médicos, a instrução de quinhentos alunos, a redução da mortalidade em nações inteiras, numerosas obras escritas em italiano, português, francês e árabe, dois mil artigos em jornais, viagens por todas as latitudes, o desmonte
de epidemias e contágios, o desencadear de paixões odiosas, a indiferença, perseguições, inveja, calúnias, derrotas ou empates, o tempo, o trabalho e o dinheiro perdidos para sempre.
Dizem por ai que a homeopatia como conhecemos pelo menos está desaparecendo. Qual mensagem
deixaria aos médicos homeopatas de hoje que estão um tanto atônitos pelo mundo?
BM – Se a Providência evidentemente nos sustentou durante uma prova superior às nossas forças, fomos merecedores desse favor praticando, antes de tudo, a máxima salutar: “Ajuda-te que o céu te ajudará” (Cf Mure, B. Patogenesia Brasileira, Ed. Roca, São Paulo, 1999 e Benoît Mure”, Ch. Janot – Homeopathie
Moderne, 15 de fevereiro de 1933). ■

Dr. Paulo Rosenbaum, médico e escritor.
http://aph.org.br/images/stories/informativo/aph_101nov-09.pdf