NASCIMENTO, Lyslei. Despertar para a noite e outros ensaios. Belo Horizonte: Quixote-Do, 2018. 178p.

Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah*

 

Paulo Rosenbaum**

São Paulo, Brasil – rosenbau@usp.br

 

Em Despertar para a noite e outros ensaios, Lyslei Nascimento realiza uma abordagem multifacetada sobre a Shoah, também conhecido por Holocausto. Como é notório, mas nunca inoportuno frisar, trata-se do exterminio sistemático de judeus como Politica de Estado, levada a cabo pelo regime nacional socialista alemão com apoio e omissão de outros povos e Estados Nacionais. Ao mesmo tempo, a coletânea lança um facho de esclarecimento sobre o contra-intuitivo retorno – ou o fim de uma curta e hesitante hibernação – do antissemitismo em nossos dias.

De acordo com Wander Melo Miranda, que prefacia o livro, “na forma de vestigios, rastros ou residuos, a reminiscencia se constitui no intervalo entre o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.1

 

Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas.

(Lyslei Nascimento)

 

Ao se dedicar a estudar livros e filmes, portanto, aspectos iconograficos e literarios, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e pela erudição, como tambem, e principalmente, por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a pesquisadora retoma as vozes não audiveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre – indiziveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerancia etnico-racial – não encontram mais lugar para testemunhar. Esse restauro das vozes adquire especial importância ao testemunharmos a onda em curso que procura reescrever com penas revisionistas a historia. Como se a aplicação de tintas mutantes resolvessem o problema produz-se, sob a alegação de cunho vergonhosamente ideológico, neo-ideologias justificacionistas.

Como afirma a ensaista no capitulo em que evoca, muito oportunamente, dois poetas brasileiros que também se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

A imperiosa necessidade de se revisitar o episodio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreendimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.2

Isso significa que a escavação se processa em camadas e, assim como o arqueólogo, autor e leitor devem recolher, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos da história ocidental, fragmentos e ruinas, para, enfim, reconstituir aquilo que o pesquisador italiano Carlo Ginzburg chamou de micro-historia. Para o autor de Mitos, emblemas e sinais, o exame da história pode obter outra abrangencia ao incorporar os aspectos qualitativos e individuais dos grandes eventos cronologicos. Trata-se de uma investigação que procura se apropriar e inspecionar as particularidades quase idiossincrasicas dos fenomenos históricos.

É com esse enfoque epistemológico que a autora esmiuça – por intermédio do cuidadoso levantamento literário-iconográfico – os arquivos culturais produzidos pelos vários enfoques hermenêuticos inspirados pela Shoah e afiança que nela ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos.

Sendo assim, para a ensaista:

 

Nascimento passeia com destreza no seu campo de analise que é o da literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante. Ela nos faz pensar nos múltiplos aspectos da Shoah, investindo, de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda – ou perpetuamente – incompreensível. Ao mesmo tempo, a pesquisadora não cai na armadilha do “fato histórico” como inexorabilidades inexplicáveis. Ela investe seu esforço na resposta vigorosa que a arte e a cultura se esforçaram para reparar o indizível.

A autora oferece, desse modo, uma síntese de seu trabalho: a Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi estudar alguns escritores e artistas que, a contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a ensaísta se recusa ao reducionismo: não existe uma à guisa de conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho. Assim como em outros genocídios quando “o homem é o lobo do homem” não há sinal de término, nenhum indicio de que aporias éticas possam ser elucidadas por meio e uma racionalidade asséptica. Quando se trata de holocausto, o predomínio é de uma razão exaurida, ainda que jamais vencida. Por isso, não será exagero afirmar que o livro tem um tônus desbravador na luta contra a inércia da repetição e da neutralidade.

As exortações vem de comunicações pessoais da própria autora. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis e equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigilia é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os pequenos relatos que escapam à grandiloquência devem ser trazidos á  luz, sem mistificações.

 

“Cercar o fato historico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, barbara”. 3

 

A extensão da terra devastada do que, tambem, já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocidio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer sintese e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

É desse espanto e dessa impossibilidade de reduzir o evento que nasceram as mais variadas explorações que a pesquisadora escrutiniza nestes ensaios.

Para quem tem dúvidas de que se trata de um livro com vocação canônica, basta atentar ao sumário. Ele já desvela, desde o início, a extensão e a abrangência da pesquisa de Lyslei Nascimento: “Despertar para a noite: a memória da Shoah”; “Jorge Luis Borges contra o nazismo”; “Poetas em tempos sombrios: Vinicius de Moraes e Jorge Amado”; “A miniaturização do mundo em A Guerra no Bom Fim, de Moacyr Scliar”; “Ver: Shoah: o romance e a enciclopédia em David Grossman”; “Crime no gueto: Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler”; “Humor e Shoah: O trem da vida, de Radu Mihaileanu”; “O tango e o tango dos Rashevski” e “Arquivos possíveis: Sob céus estranhos, de Daniel Blaufuks”.

Em cada um desses tópicos, o leitor atravessará um universo de perspectivas incomuns. A autora poderia limitar-se à análise sociológica da literatura, mas, sem a abandonar, ela arrisca-se para compreender a dimensão poética dos textos. E é precisamente essa originalidade que, ao percorrer as péginas, o leitor não deixará de notar uma das caracteristicas marcantes no texto: a ousadia não alinhada, o raro traço da independência intelectual.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.


1 MIRANDA, 2018, p. 13-17. 2 NASCIMENTO, 2018, p. 77.

2
Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 13, n. 24, maio 2019. ISSN: 1982-3053.

 

3

NASCIMENTO, 2018, p. 77.

Recebido em: 30/03/2019. Aprovado em: 10/04/2019.

* Uma versão desta resenha foi publicada no jornal O Estado de São Paulo (São Paulo, 4 jan. 2019), disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de- noticia/despertar-para-a-noite/.
** Medico e Doutor em Ciencias pela Universidade de São Paulo, poeta e romancista.