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Não basta viver?

Diz-se que Montaigne respondeu a uma carta cheias de lamúrias e imprecações existenciais de um velho conhecido, e redarguiu com um texto que ofendeu o remetente à morte. O filósofo emendou, numa única frase, um ensinamento que deveria vir gravado nos imas de geladeira ou no google glass:

— E não te basta viver ?  escreveu o francês.

Por que a leitura de algumas poesias e de muitos romances nos dá a sensação de incompletude? Aliás, o que é esta sensação que assola a maioria das pessoas e que muitos identificam com o vazio existencial? Há um nome? É possível defini-la através da elipse, da síntese, da condensação?

Também não se pode apontar o limites do tempo para explicar uma espécie de lacuna final nas obras clássicas. Pode ser que seja um simbolismo dos nossos ciclos de vida. Mas também é cogitável que sejam os limites das histórias que contamos uns para os outros.

Parece que não nos basta mais, ou nunca. Para ninguém. A vida, ela mesma, parece dessignificada e isso explica em parte a banalização da violência e dos conflitos tribalistas presentes na raiz das barbáries do XX e do XXI. Da Síria ao Congo, da China ao Kosovo.

Nossa cultura vai virando uma tradição dos sem tradição. Mas o que parece uma pueril simplicidade vai se tornando improvável no universo intelectual. Nossa natureza gregária e o medo faz com que ainda precisemos pertencer aos grupos, as tribos, ou clubes ou classes para fazer parecer que há qualquer sentido na vida e para a vida. É como se estivéssemos obrigados a adotar perspectivas exógenas para restaurar nossa improvável completude .

E como a vida também pode ser comparada a uma editoração, é o quanto falta para dar o acabamento que importa? Ou as páginas manuseadas e percorridas?

A sensação de que “não é bem por aí” fez longa trajetória até chegar aos nossos dias. Nossas obras são inacabadas como as páginas, que segundo Jorge Luis Borges, jamais chegarão à perfeição. Não se trata de uma estratégia de artista. É que o inacabado imita Deus em performance. Seguindo a tradição judaica – e este é o significado do ano novo — tudo está sendo feito e recriado todo tempo o tempo todo. O incessante não significa acúmulo, mas renovação radical, despojamento absoluto. É como se precisássemos escapar do útero todas as manhãs. Daí a imperfeição intrínseca de toda obra, humana, natural, sobrenatural incluindo as coisas de natureza indefiníveis.

Mesmo assim por que nos bastaria viver como um mérito em si mesmo? Será que o otimismo e a alienação controlada merecem vigilância, descriminação? Esquerda e direita, ambas escravas do monotrilho partilham do mesmo mau humor endógeno: estão escravizadas pela herança materialista. Mas eis um monitoramento que vai para bem além da política. Fomos tão intensamente colonizados por ideias e teorias abstratas tão variadas que já não conseguimos nos desvincular para adotar uma síntese pessoal das coisas. Estamos amarrados para criar. Por isso mesmo a teimosia é uma benção.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/09/06/nao-basta-viver/