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Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) (Blog Estadão)

Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) 

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Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço mudaremos a insignificância ou escaparemos da perplexidade.

Para bem além do Tambor (blog Estadão)

Gunther grassa

Paulo Rosenbaum

14 abril 2015 | 09:31

guntIII

Para bem além do tambor*

Em 2012, o recém falecido escritor Gunther Grass publicou uma poesia abertamente antissemita, usando Israel como pano de fundo. Ninguém duvida que o ganhador do Nobel de 1989 tenha lá motivos para expor o país hebreu e adicionar seu nome à legião infame que dá credibilidade à intolerância que cresce pela Europa, e pelo mundo. Graças a campanha de demonização, comunidades judaicas inteiras vivem hoje cerceadas, sob constante ataque em várias cidades europeias. Notável que parte desse endosso subliminar tenha vindo da própria intelligentsia. Da extrema direita conhecíamos as proposições xenófobas. Mas hoje ela também se oculta na retórica daquilo que em dias nostálgicos, costumávamos conhecer como esquerda. O que restou das proposições que deram origem à defesa das minorias, da liberdade e da justiça sem tirania? Precisamos recuperar a memória: é verdade, houve um um dia uma esquerda democrática.

Hoje, rendida ao anacronismo baseado quase que exclusivamente na demonização anti-imperialista e na grandiloquência mais nostálgica que autocrítica. O apoio de intelectuais, inclusive nativos, e artistas europeus ao jihadismo, por exemplo – autojustificado como contra-propaganda ianque, não sobrevive à nenhuma análise séria. É da natureza da racionalização buscar meios para justificar impulsos inconscientes.

A pulsão atual está nua: é capaz de se alinhar com qualquer rebeldia que, por exemplo, pegue em armas contra colonizadores e supostos espoliadores da nação. Por isso mesmo, estampas racistas viraram rotina. O baú de infâmias, antes lacrado, rompeu nas mídias sociais e o fenômeno é mundial. Periodistas e articulistas continentais armam suas pistolas e diariamente disparam um tiro no próprio pé, bem no meio das redações.

O poder de persuasão dos escritores sempre foi superestimado, mas quando alguém empresta sua pena à causa, seja ela qual for, precisa assumir o risco de que a obra toda inscreve-se no tribunal histórico. O problema do julgamento da historia é o veredicto, sempre anunciado entre testemunhas sepultadas.

Gunther grassa e ele não está sozinho nessa vertente devidamente acomodada no manto anti-israelense. A ele aglutinaram-se nesses anos exércitos terroristas, pensadores marxistas, campus universitários e massas desinformadas. As vezes, recorre-se a fantasias diversionistas para atingir o alvo final. É decerto muito mais confortável ser identificado como obstinado antagonista do Estado hebreu, que caçador de judeus.

Dizem alguns que condenar um País não é, necessariamente, atacar seu povo, sua etnia ou a religião que professam os que ali habitam. Depende. Para o bem ou para o mal, Israel tem sido encaixado numa perspectiva de “pacote”. Mesmo considerando a existência de um milhão e meio de cidadãos árabes-israelenses, a condenação quase maciça da Mídia às ações governamentais daquele País (é preciso recordar que a hostilidade nunca cessou, mesmo quando o País era governado por uma coalização de centro esquerda) traz sempre uma única conotação, a de se trata afinal de um “país de judeus”. Pois é essa evocação subliminar, às vezes explicitada, que confere às críticas ao País o caráter de condenação coletiva do povo judaico. Não se pode sufocar a cronologia. Muito antes do massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo e das pessoas no supermercado Hipercasher, a campanha judeofóbica estava sendo propagada no continente. Pois, passada a comoção, ela persiste incólume.

O conflito israelo-palestino, enorme fonte de tensão, ainda assim somente um precário pano de fundo para a retomada da intolerância.  Os nazistas foram derrotados pelos países aliados, não o mito do judeu dominador. O ciclotimico resgate de mitologias destrutivas parece ser um motor sem interruptor.

O socialista Gunther passou décadas omitindo de sua biografia sua militância nazista na 10ª Panzerdivision Waffen-SS, pois, como admitiu depois, isso “prejudicaria a carreira”.  Se os sábios de Estocolmo apenas soubessem. De qualquer modo, o antissemita se associa ao seleto grupo de antecessores, como o poeta fascistófilo Erza Pound e até redatores contemporâneos como Tarek Ali. Não faz muito, o paquistanês analisou os desvios dos americanos e israelenses sem dar o menor contrapeso à belicosidade do regime iraniano, a sanha xenófoba de regimes islâmicos contra minorias cristãs e de outras etnias em vários países árabes, enfim escancarada com a grife midiática do estado islâmico. A desonestidade intelectual passa, necessariamente, pela seletividade com que se elegem os alvos.

Se o Estado de Israel comete erros – e decerto os comete – eles não devem ser separados do contexto que cercam as circunstâncias em que são cometidos, ainda que, para alguns deles, não deve haver complacência. Há uma amnésia programática que abandona o conceito de proporção e equivalência moral. O regime expansionista dos aiatolás, problema bem mais nocivo ao mundo, assim como o abandono do povo sírio à própria sorte, é que deveria pesar na consciência da diplomacia ocidental. O acordo nuclear poderia caracterizar um inédito avanço e seria mais significativo se forçasse o clero xiita a reconhecer Israel e interromper suas incursões violentas na região.

Uma estranha passividade hipnotizou a vida. O mundo, testemunha de explosões de intolerância e fanatismo não está interessado em refrear o empuxo de guerra entre os povos. Bastaria observar a calma que reina na naturalização das hostilidades como “choque de civilizações”. O “choque” que vai ganhando vida: eis a maior suspeita de nem sequer termos alcançado o estatuto de civilização.

A história já cansou de demonstrar o preço pago por omissões, desta vez pode não haver mais desconto para fornecedores.

*Artigo reescrito a partir de publicação original na revista Sibila, 09 abril de 2012

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/gunther-grassa/

Pessach e Páscoa : libertem as idiossincrasias (blog Estadão)

Publicado originalmente em Paulo Rosenbaum:

Paulo Rosenbaum

03 abril 2015 | 17:19

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

idiossincrasiaII

Alguns dias são mais díspares que outros. Hoje é um deles. Reparem nos poetas alienados, nas alegrias infundadas, nos sonhos para um final.

Nossa única constância vive de travessias infindas, na carne esquecida, nas mortes mitigadas, na resistência das cascas de ovos sem fim, num mundo sem rugidos nem gemidos.

Abram alas: precisamos de espaço, ideologias e seus mentores que esperem, enfim nossa vez de passar. Nós merecemos dizer o que queremos, exigir o que desejamos, mostrar ao que viemos. A passagem pode não ter beira nem margem, pode não acrescentar beleza nem coragem. Tudo passa, limbo e muro, enquanto a vida insiste, futuro.

Se sobrou qualquer significado para as tradições? Recobrar sentidos que pedem expressão, presença de símbolos que isolam certezas. Hoje é dia ideal para cabeças feitas, desfeitas. Mesas postas na nova ordem. Sequencias sem…

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Pessach e Páscoa : libertem as idiossincrasias (blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

03 abril 2015 | 17:19

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

idiossincrasiaII

Alguns dias são mais díspares que outros. Hoje é um deles. Reparem nos poetas alienados, nas alegrias infundadas, nos sonhos para um final.

Nossa única constância vive de travessias infindas, na carne esquecida, nas mortes mitigadas, na resistência das cascas de ovos sem fim, num mundo sem rugidos nem gemidos.

Abram alas: precisamos de espaço, ideologias e seus mentores que esperem, enfim nossa vez de passar. Nós merecemos dizer o que queremos, exigir o que desejamos, mostrar ao que viemos. A passagem pode não ter beira nem margem, pode não acrescentar beleza nem coragem. Tudo passa, limbo e muro, enquanto a vida insiste, futuro.

Se sobrou qualquer significado para as tradições? Recobrar sentidos que pedem expressão, presença de símbolos que isolam certezas. Hoje é dia ideal para cabeças feitas, desfeitas. Mesas postas na nova ordem. Sequencias sem ritual, formas sem apego, ritmos sem hiatos. Religiões e não religiões. As idiossincrasias são sagradas,  são elas que podem nos restituir a união.

Na paz permanentemente adiada, acordos podem ser pesadelos.  E desacordos são lá uma alternativa? Hoje é o dia no qual as regras foram abolidas, réguas desprezadas, tréguas assimiladas. Nenhuma paz será derradeira mesmo que todos os sonhos sejam roubados por guerras rejeitadas.

O dia cuja passagem tornou-se permanente. No qual presidentes falam baixo, juízes benévolos, juízos perfeitos. Na travessia, a infância dos homens transformou nossas retinas para sempre. Apagou-se o fosco do céu. Impeliu brilho aos confins. Para que o Cosmos ajeitasse as coisas eis o dia da leniência abstrata. Da pax correlata. Da vigência temporária. Da flexibilidade originária. Coacervados mudos e algas falantes, evolução errante. Campos que alimentam as raças.  Animais mutantes e homens persistentes.

Hoje, dia das faunas mistas. Das concretudes explicitas. Das mulheres sem dono. Dos radicais enjaulados. Da democracia para espíritos. Da incontinência dos libertários. Das conchas radiofônicas. Da velhice jovial. De palcos cordiais. Da derrota do inevitável.

Hoje, a tragédia foi abolida. Desvelada a calçada até a utopia, suspendam toda política. A razão da liberdade invadiu toda análise. Eis o dia em que a casa arderá com convívios. A noite da refeição direta. Diante da uva transformadora. O dia da interlocução como único valor. O momento da síntese Eterna.

Não importa como acordaremos: este é o dia.

Apaguem a história (blog Estadão)

Apaguem a história

Paulo Rosenbaum

20 março 2015 | 19:22

polifonia

Podem comparar a vontade, não tem comparação. Este é um Pais único numa crise única, momento idem. Não é bem que não haja diálogo, enfim solicitado. Nunca é tarde, mas é preciso remover a mordaça dos interlocutores e passar a uma estratégia pouco praticada: dar voz e ouvidos.

Ficamos ouvindo as medidas que saneariam o mal feito. A boa vontade termina quando a sensação chega: fica evidente que continua sendo culpa dos outros. A saber, nossa. A humildade é — deveria ser — uma medida contra narcísica. Incompatível com quem sempre começa as frases na primeira pessoa “eu”. Quando começo a sentir pena do cenário patético a indignação é revigorada com as imagens de abandono dos que não podem se defender. Não só dos mais pobres, mas de todas as classes que foram iludidas pelo perfil, a pálida sombra. Concluo que foi a aversão do regime ao fundamento da democracia — a polifonia — que nos trouxe até a intolerancia, à mesquinhez, ao abismo de conclusões instantâneas.

Essa administração federal foi incapaz de aprender na carne a abrir mão do projeto hegemônico. Alguém acaba de me falar que numa grande Universidade paulista, alunos defenderam abertamente o direito dos carrascos do estado islâmico. Isso diz tudo. Outorgado o direito, a concessão inclui eliminar quem se opuser.  E por acaso estes estudantes não tem um tutor? Alguém que os guie à reflexão? Para que servem mestres? Neste caso, o titular da pasta é autor de comentários à obra de Bakunin, admira Stalin e carrega no chaveiro a foto do caudilho latino americano. E o País que o professor venera está em pé de guerra. Como no famoso filme de Peter Sellers conscientes do inexorável fracasso, apostam numa recompensa análoga ao plano Marshall. Não deveria nos espantar. Monologo e hegemonia são tandens. Movimentos correlatos como o minucioso trabalho da KGB e outros tantos aparatos repressivos que apagavam das fotos históricas aqueles que caiam em desgraça. A técnica atual evoluiu para seleção bibliográfica rigorosamente revisada pelo partido.

E por que tanta perplexidade com a história e os Museus sendo eleitos alvos preferenciais de militantes genocidas? Os extremos detestam a história e seus efeitos. Eles se incomodam muito quando deparam com a insignificância de suas convicções. Não admitem que haja um acervo de ideias superadas.  Não suportando observar outras fases da civilização, agem sob a curadoria do martelo. Não concebem a existência de processos. E o mais importante: não admitem perguntas. Pelo menos não as inconvenientes.  E um museu é um lugar de incertezas. De busca por respostas. Reúne uma síntese que nunca chega a um fim. Para a civilização a dúvida faz sentido, para quem odeia o ocidente e suas instituições é uma ameaça. Cabeças fanáticas não tem espaço para o inacabado.

Para que pensar muito?  No fundo, são parentes próximos da literatura de auto ajuda: tudo mastigado ou nada feito. A intolerância é um sintoma de esgotamento da cultura. A truculência máxima, da inépcia política. E o caos, sinal de que já houve, em algum ponto, algo diferente. A cultura que passou a exigir um Estado onipresente impôs, ao mesmo tempo, a retirada progressiva das responsabilidades individuais. Mais um aceno para o retrocesso: uma nova era patriarcal sem patriarcas. A ressurreição dos populistas pelo mundo não deixa de ser um dos dividendos deste notável contexto. As eleições tornaram-se álibis perfeitos para abusos. O voto, o escudo que os referenda. A denúncia excessiva é amnésica. O caudal de bullying de Estado é verificado como epidemia de injustiças contra o cidadão. O menu de desmandos variado apresenta da perseguição fiscal à terceirização de pelotões.  A intimidação é o legado mais evidente de uma Pátria que desistiu da educação por fundos partidários e um punhado de slogans de campanha.

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