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Discursos de posse (blog Estadão)

Discursos de posse

Paulo Rosenbaum

24 outubro 2014 | 12:14

Primeira Hipótese

Queria aqui, humildemente, agradecer o apoio e dizer que precisamos sanar todas as fendas criadas entre nós. Temos que caminhar como uma civilização, distribuindo renda, diminuindo a desigualdade mas sem criminalizar o empreendimento, o trabalho, o esforço pessoal, este seria o verdadeiro triunfo da meritocracia. Quero ainda dizer que, se desejamos alcançar uma meta, qualquer que seja a distancia que nos separa dela, ela terá que ser feita com solidariedade e gentileza. Diremos não a qualquer autoritarismo, não ao culto à personalidade e um grande basta para a incompetência e a falta de gestão. Não vamos cultuar a ruptura e a violência, vamos, ao contrário, buscar transformar o País para que ele seja, de fato, a Nação para todos. Saberei respeitar os 38,6% da minha adversária e convido a parcela propositiva de base que a apoiou, em meu nome e de meus amigos, a se juntar a nós nesta tarefa, que será árdua, e cheia de obstáculos diante dos quais não fugiremos, de reconstruir o País, e apagar as marcas das cisões que nos castigou durante as paixões eleitorais. Temos a oportunidade, única e irrepetível, de unificar o Pais e de trazer todas as forças construtivas para nos reerguer. (aplausos) Fico imensamente grato por toda generosidade. [começa a chorar, mas suprime as lágrimas]. Só eu sei o quanto fui atacado, mas vamos deixar isso de lado. Agradeço a todos que nos ajudaram nesta trajetória e, mais uma vez, quero que saibam, estou bem consciente que esta foi uma escolha que transcendeu meu nome e dos partidos que nos apoiam. Assumo a responsabilidade, mas sei que esta foi uma vitória da ação coletiva, de um povo que amadureceu, que daqui em diante, se Deus quiser, recusará salvadores da Pátria e aventuras temerárias. Quero ajudar para que a consciência inovadora use o Poder de um item do qual pouco se fala: a promoção do bem estar e da felicidade das pessoas. Faremos um governo libertados de ideologias retrogradas, uma administração transcultural e aberta, com justiça social e abertura. Uma gestão que use o poder, não para impor ou controlar, mas para respeitar os cidadãos, oferecer segurança, preservar a natureza com uma política ambiental séria [olha para o lado cumprimentando alguém] e reorganizar as cidades e municípios que estão abandonados. (discretos aplausos). E, é em homenagem a isso que faço nossas as palavras de um escritor notável, o norte americano Mark Twain “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”. (saudações com a mão aberta). Muito obrigado.

Hipótese restante

Companheiras e companheiros, muito agradecida pelo voto de confiança e quero dizer aqui que nós não estamos aqui a toa. Nos colocaram aqui, porque somos o povo. E o povo sabe quem que os governe. E nós estamos aqui para dizer que nós agora vamos mudar e mudar para valer. E que aqueles que não queriam a gente aqui agora vão ter que nos engolir, com ou sem barba. (aplausos e urros indecifráveis). E, além disso, quero dizer para vocês que eu devo de ter o apoio da maioria e quem quiser se juntar a nós será bem vindo e os que não querem…bem, isso já é problema deles. (gritos e assobios) Além do mais, vamos criar muito mais empregos, com mais especialidades, mais casas, mais reformas, ideias novas, mas novas mesmo [branco ou tilt]. Desta vez, será inovação. Serão ideias tão novas, mas tão novas que vamos deixar os outros estarrecidos e humilhados. A culpa pelo que ainda não foi feito é deles, da imprensa, e das forças que não querem o bem do povo. Sabem por que eles não gostam de nós? Porque sabemos fazer, e eles não sabem. Ganhamos porque fizemos o melhor. O plano real que acabou com a inflação? Pode ser um tiquinho [gesto depreciativo] Mas nós é quem fizemos a melhor gestão, as mudanças, e mesmo com a grande crise mundial [olha para os lados em busca de apoio] crescemos uns 0,21. Para eles é pouco. Mas quem se importa com eles? Perceberam a diferença entre nós e eles? Já ordenei, fiz os decretos. Temos que parar com esse negócio e mostrar quem é que manda por aqui. Eu, eu, eu…quero dizer para vocês que eu devo de ter uns 1000 e-mails pedindo para fazer as reformas. Nós dois que demos as bolsas, nós dois que tiramos as pessoas da miséria. E os reajustes podemos agora falar com clareza vão só sobrecarregar quem pode. Por exemplo, essa classe media atrasada, não é professora? E também, [longa pausa, seguida de pigarros do assessores] e…quero dizer para vocês mais uma coisa que nós estamos contentes e chegou a hora destes pessimistas calarem a boca. E vida longa ao partido! (punhos cerrados)

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/discursos-de-posse/Tags:

Discursos de posse, eleições 2014, hipóteses de discursos

Fábrica de acirramentos (Blog Estadão)

Fábrica de acirramentos

Paulo Rosenbaum

23 outubro 2014 | 00:15

Claude Bernard, pai da medicina experimental, considerava que a estatística é uma verdade para o geral, mas uma mentira para o particular. É que ele não estava bem familiarizado com regimes totalitários, nem conhecia bem a era das manipulações. Pesquisas sempre foram indícios, não resultados. Ingenuamente tematizado, será mesmo o discurso do ódio um fruto do curso de jardinagem intensiva administrado nos últimos tempos? A luta política, se nunca foi civilizada, raras vezes alcançou a degradação que testemunhamos. Ódio nunca foi uma palavra muito especializada, e o rancor é outra generalização abstrata. Trópicos sempre significaram tradição em violência. As quase 60 mil pessoas assassinadas no Brasil no ano passado indicavam que já estávamos previamente rachados. Pelas discrepâncias não saneadas, inércia, e a curiosíssima fusão do público com o privado. Foi o discurso quem sucedeu os fatos, e não o contrário. Uma anomia programada foi sendo cuidadosamente instalada, sem que a maioria, inerme, percebesse. Como é mesmo que se proíbe a compra de votos? Quais as regras para adquiri-los, e qual é o poder que regulamenta o uso do Estado a serviço do Partido? Teríamos que partir daí: o sequestro do erário. Voto é decisão subjetiva. Em meio às injustiças, metáfora do parcialíssimo que nos assola, votamos. Na fria cabine privativa, onde deixamos para trás um som nada certificador, o cidadão têm sua última arma ainda não confiscada. Ódio algum jamais teve geração espontânea. Com fábricas espalhadas em zonas francas os neo oligarcas emergentes precisavam governar sobre o conflito e o usam para reinar. O acirramento é uma commoditie inesgotável, quando some do mercado, sempre pode ser refabricada. Aí estão, em triunfo, o marketing da difamação, a propaganda enganosa, e a indústria da boataria anônima. A demonização do adversário e a infame evocação do holocausto, feita pelo ex presidente, é só a gota d’água ignominiosa, o transbordamento da manipulação. A dualidade sempre esteve comprometida com o maniqueísmo. Mesmo assim, é preciso ter a coragem para recusar a tese da equivalência moral. Em tempos de desmandos, tentação autoritária e acefalia de gestão, a neutralidade é a atividade mais vergonhosa. As vezes, um lado não é só bem menos nocivo que outro: é ele que pode liberta-nos da maleficência máxima, a perpetuação no poder.

Jejum Nacional pelo término dos maus decretos

Há uma tradição, compartilhada por muitas tradições, de que o jejum sincero pode evitar um mau decreto. Proponho jejum coletivo, nacional, ao modo de Gandhi, nesta quinta feira, 23/10, do nascer do sol até o poente. Todos os que gozam de razoável saúde e, que acreditam numa ação de resistência pacífica, podem se privar de alimentos sólidos (e doar o equivalente ao que não foi consumido). Sugiro meditar 45. No final, rogar por uma vitória do Aécio contra todos os maus decretos.

Jejum_NacionalX

Querido Neto (blog Estadão)

Querido Neto

Paulo Rosenbaum

17 outubro 2014 | 13:45

Respondo sua missiva de ontem a noite. Não sei usar este negócio direito, mas aqui diz: on line. Vamos ser rápidos. A chefia está preocupada e convocou Estadistas que já fizeram alguma coisa pelo País. Vou ter que dar uma subida até lá. Eu sei, vi, ouvi, testemunhei, você está fazendo o máximo. O povo vai percebendo. Claro, escutei sim, filho. Para constar, cá entre nós, você sempre foi o favorito. Exatamente, isso você herdou de mim. Bate pronto. Mas, mantenha distancia, recordou a sequencia? Depois do soco inglês, vêm os jabs de direita. Cruzado de esquerda? Esqueça, desperdício, ela não aguentaria o tranco. Nenhum conterrâneo decente quer o outro beijando lona. Lembra do ditado? Aquele lá de São João? Quem luta na sujeira, colhe lama. Não era bem isso, parecido. Cansei de falar isso ao Getúlio, mas ele foi ficando teimoso. Aquele chimarrão fervendo! Sabe o que me levantou? Aquela malícia que ela insinuou, e você, assumiu e devolveu com bônus. Não. Eles não sabem o que significa elegância. Senti orgulho. Eu vi, eu vi. Agressão e mentira são fáceis no começo, e a prova veio a cavalo: sustenta-las por muito tempo faz mal à saúde. Exato, é chegada a hora. Está certíssimo, autocritica. É isso que temos. Claro que lá tinha muita gente boa: mas foram sendo expulsos, ameaçados, cooptados. Querias minha previsão? Não posso, aqui têm gente muito mais qualificada que eu. Agora posso confessar? Sabe o que achei mais alentador na madrugada do outro debate? Não, não foi o próprio. Foi o videoteipe da opinião de um senhor negro de meia idade. Foi apresentado alguns minutinhos antes do início. Entrevistado sobre o que esperava do confronto entre vocês dois, ele olhou de lado para o repórter (olho no olho, não na câmera) e disse com notável determinação algo como “não tem mais ninguém bobo não senhor”. Palpito que este governo deve sucumbir exatamente porque está apostando no contrário. As contradições chegaram naquele ponto de sinuca. Já lutam entre eles. Não, não é bem isso. Não tem partido santo. Mas eles cruzaram a fronteira. Dali, ninguém nunca passou e levou. Discordo. No mundo deles isso não é baixaria, é agonia por revanche. Lembro do JK, ele dizia que incompetente é raivoso. Fique e mostre generosidade. Agora, a conversa vai ser diferente. Como já disse o escritor – aliás, vi ele outro dia com um livro do Machado numa mão ,e, na outra, uma pena toda enfeitada – quando a verdade escapa, sobram interpretações desesperadas.

Boa sorte dia 26, a família está toda aqui, torcendo pelo Brasil.

Ps – Hoje teve muita neve aqui em cima, bom sinal, bom sinal, bom sinal.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/querido-neto/

Memória dos Românticos (blog Estadão)

Memória dos românticos

Paulo Rosenbaum

10 outubro 2014 | 18:42

Estamos bem na metade da ponte, e a tendência é que se encontrem bem lá, no meio. De um lado acordos, alianças, confluência, liga. De outro, luta, conflito, colisão polaridade, e antagonismo. No fundo, todo adulto pobre ou rico, erudito ou leigo, rural ou urbano, nortista ou sulista, sabe intuir: exceto no futebol, vitória nunca foi fazer o outro lado engolir a derrota. Pode ser de grande valor acionar a memória nos incertos dias do presente.

O interesse pelo bem comum, teórica característica do que fazer político, pode estar não só ultrapassado, como ter sido destituído sem consulta prévia. Deu lugar a uma geração de hábeis representantes cismáticos, porfiosos, rabulisticos e facciosos. Ao se açular uns contra os outros e, abraçar diretamente o partido, quem estão submetendo ao combate? Não é mais um postulante contra o outro, nem rinha de ideias. Agora, é povo contra povo. A maioria nem percebe, trata-se de um jogo que, lá atrás, poderia ser chamado de zangui-zarra, renzilha ou chantagem. Nele, a esgrima de baixa qualidade, fingindo discutir valores, promove a deselegância. Com efeito, o refrão já está pronto e na ponta da língua: “é política, vale tudo.” Se ao menos pudéssemos resmungar, encaixar a agressão em alguma figura jurídica, ou, simplesmente, migrar para um reino menos litigante.

Mas, pensou-se em tudo. Nada parece estar ao nosso alcance a não ser entrar na bolha e assumir o contágio. No manual dos litigantes está o alfabeto do ajuste de contas, buscar ocasião de bulha, falar entre os dentes, medir-se em duelo, em uma palavra, haver-se.

Quando lá do fundo da sala te perguntarem: é essa então a tal festa democrática? Já poderás dissuadi-los e responder que não sabe. Mas, na memória dos românticos haveria outra: não é nem a sombra do que poderia ter sido.

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