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Jejum Nacional pelo término dos maus decretos

Há uma tradição, compartilhada por muitas tradições, de que o jejum sincero pode evitar um mau decreto. Proponho jejum coletivo, nacional, ao modo de Gandhi, nesta quinta feira, 23/10, do nascer do sol até o poente. Todos os que gozam de razoável saúde e, que acreditam numa ação de resistência pacífica, podem se privar de alimentos sólidos (e doar o equivalente ao que não foi consumido). Sugiro meditar 45. No final, rogar por uma vitória do Aécio contra todos os maus decretos.

Jejum_NacionalX

Querido Neto (blog Estadão)

Querido Neto

Paulo Rosenbaum

17 outubro 2014 | 13:45

Respondo sua missiva de ontem a noite. Não sei usar este negócio direito, mas aqui diz: on line. Vamos ser rápidos. A chefia está preocupada e convocou Estadistas que já fizeram alguma coisa pelo País. Vou ter que dar uma subida até lá. Eu sei, vi, ouvi, testemunhei, você está fazendo o máximo. O povo vai percebendo. Claro, escutei sim, filho. Para constar, cá entre nós, você sempre foi o favorito. Exatamente, isso você herdou de mim. Bate pronto. Mas, mantenha distancia, recordou a sequencia? Depois do soco inglês, vêm os jabs de direita. Cruzado de esquerda? Esqueça, desperdício, ela não aguentaria o tranco. Nenhum conterrâneo decente quer o outro beijando lona. Lembra do ditado? Aquele lá de São João? Quem luta na sujeira, colhe lama. Não era bem isso, parecido. Cansei de falar isso ao Getúlio, mas ele foi ficando teimoso. Aquele chimarrão fervendo! Sabe o que me levantou? Aquela malícia que ela insinuou, e você, assumiu e devolveu com bônus. Não. Eles não sabem o que significa elegância. Senti orgulho. Eu vi, eu vi. Agressão e mentira são fáceis no começo, e a prova veio a cavalo: sustenta-las por muito tempo faz mal à saúde. Exato, é chegada a hora. Está certíssimo, autocritica. É isso que temos. Claro que lá tinha muita gente boa: mas foram sendo expulsos, ameaçados, cooptados. Querias minha previsão? Não posso, aqui têm gente muito mais qualificada que eu. Agora posso confessar? Sabe o que achei mais alentador na madrugada do outro debate? Não, não foi o próprio. Foi o videoteipe da opinião de um senhor negro de meia idade. Foi apresentado alguns minutinhos antes do início. Entrevistado sobre o que esperava do confronto entre vocês dois, ele olhou de lado para o repórter (olho no olho, não na câmera) e disse com notável determinação algo como “não tem mais ninguém bobo não senhor”. Palpito que este governo deve sucumbir exatamente porque está apostando no contrário. As contradições chegaram naquele ponto de sinuca. Já lutam entre eles. Não, não é bem isso. Não tem partido santo. Mas eles cruzaram a fronteira. Dali, ninguém nunca passou e levou. Discordo. No mundo deles isso não é baixaria, é agonia por revanche. Lembro do JK, ele dizia que incompetente é raivoso. Fique e mostre generosidade. Agora, a conversa vai ser diferente. Como já disse o escritor – aliás, vi ele outro dia com um livro do Machado numa mão ,e, na outra, uma pena toda enfeitada – quando a verdade escapa, sobram interpretações desesperadas.

Boa sorte dia 26, a família está toda aqui, torcendo pelo Brasil.

Ps – Hoje teve muita neve aqui em cima, bom sinal, bom sinal, bom sinal.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/querido-neto/

Memória dos Românticos (blog Estadão)

Memória dos românticos

Paulo Rosenbaum

10 outubro 2014 | 18:42

Estamos bem na metade da ponte, e a tendência é que se encontrem bem lá, no meio. De um lado acordos, alianças, confluência, liga. De outro, luta, conflito, colisão polaridade, e antagonismo. No fundo, todo adulto pobre ou rico, erudito ou leigo, rural ou urbano, nortista ou sulista, sabe intuir: exceto no futebol, vitória nunca foi fazer o outro lado engolir a derrota. Pode ser de grande valor acionar a memória nos incertos dias do presente.

O interesse pelo bem comum, teórica característica do que fazer político, pode estar não só ultrapassado, como ter sido destituído sem consulta prévia. Deu lugar a uma geração de hábeis representantes cismáticos, porfiosos, rabulisticos e facciosos. Ao se açular uns contra os outros e, abraçar diretamente o partido, quem estão submetendo ao combate? Não é mais um postulante contra o outro, nem rinha de ideias. Agora, é povo contra povo. A maioria nem percebe, trata-se de um jogo que, lá atrás, poderia ser chamado de zangui-zarra, renzilha ou chantagem. Nele, a esgrima de baixa qualidade, fingindo discutir valores, promove a deselegância. Com efeito, o refrão já está pronto e na ponta da língua: “é política, vale tudo.” Se ao menos pudéssemos resmungar, encaixar a agressão em alguma figura jurídica, ou, simplesmente, migrar para um reino menos litigante.

Mas, pensou-se em tudo. Nada parece estar ao nosso alcance a não ser entrar na bolha e assumir o contágio. No manual dos litigantes está o alfabeto do ajuste de contas, buscar ocasião de bulha, falar entre os dentes, medir-se em duelo, em uma palavra, haver-se.

Quando lá do fundo da sala te perguntarem: é essa então a tal festa democrática? Já poderás dissuadi-los e responder que não sabe. Mas, na memória dos românticos haveria outra: não é nem a sombra do que poderia ter sido.

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Os refratários – blog Estadão

Os refratários

Paulo Rosenbaum

08 outubro 2014 | 15:38

A sensação é incerta, mas o espírito indica que podemos estar saindo de um pesadelo. Mesmo que nem todos chancelem esta percepção, é notável, depois de domingo já se respira bem melhor. Mas não é bem a vitória da razão. O que vimos emergir foi a contracorrente, um sentimento coletivo que fermentou a aversão ao conjunto da obra. Pode-se explicar pelo artificialismo de uma cisão entre o sul contra o resto. Também buscaram-se justificativas nas más gestões apresentadas.  A maioria deu o recado em paz, com extrema civilidade. E foi exatamente esta civilidade, gentil, mas determinada, que fez acender as irascibilidades latentes. Iracundos que, refratários às decisões democráticas, e, impedidos de fazer autocrítica, preferiram ressuscitar teorias de conspiração, táticas neofascistas e a belicosidade de sempre. Previsivelmente preferiram apontar indetectáveis forças da reação, que assumir os enganos. Mas, se há mesmo uma conspiração em curso ela seria o método recorrente: hostilizar quem não os aprova. Desqualificar as divergências com personalismos foi o que insuflou a animosidade. Plantar veneno é uma aposta de alto risco. Parecem dispostos a corre-lo, enquanto cresce a usurpação do Estado. Sequestro ainda sem resposta por parte das instituições imobilizadas pelos exércitos de nomeados. Na guerrilha eletrônica tentam desconstruir a coalizão de descontentes usando todas as armas e recursos. Contam com a lentidão das medidas jurídicas que os conteria.

O que pode atrapalhar aquele que parecia ser o plano perfeito foi um erro de cálculo. Negligenciar uma terceira força, que, ainda não completamente desenvolta, que cresceu e cresce por contágio, esboça potencial mais amplo do que só um sufrágio. Se não é propriamente nova, aglutina prioridades distintas e, principalmente, concentra novas preocupações. Este novíssimo contingente não é propriedade de ninguém, líder, partido ou entidade. Emergiu do saldo da pós modernidade determinando a orfandade política de parcela significativa de jovens.

Órfãos preferem acompanhar ideias à submissão aos pastores. O carisma pessoal, o magnetismo sedutor e a capacidade de persuasão não convencem com a mesma facilidade de antes. O novo em política não será, portanto, decisão de uma cabeça, conselho de notáveis, nem do habitual messianismo roto. Emergirá de consensos que parecem escapar das ruas, das necessidades complexas destes nossos tempos, e dos verdadeiros direitos humanos: o desejo por uma vida melhor, mais liberta, mais secura, e menos consumista.

Faz parte destes ingredientes, por exemplo, não ser controlado por gestores e partidos desconectados dessas necessidades. Emancipação das ideologias que definem o que deve ou não ser pensado. Libertados daqueles que insistem na navalha dicotômica: direita ou esquerda, conservador ou progressista. O anacronismo sobrevive na bandeira dos ideólogos, que sucumbem aos dogmas, slogans e culto à personalidade. Incapazes de conceber outras soluções para os problemas sociais, persistem nas teses superadas: autocracia, Estado onipresente, progressivamente controlador e hegemonia partidária. Não foi por racismo, preconceito de classe ou elitismo. Foi para este projeto de poder que significativa parcela da sociedade, justamente a mais bem informada, registrou sua mensagem: NÃO.

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Dia dos Perdoados (Blog Estadão)

Dia dos perdoados

Paulo Rosenbaum

03 outubro 2014 | 16:34

Quem é perdoado reconhece o que se perdoou? Na generosidade irrealista do perdão, o perdoado raramente repara no que acaba de receber. E aí há uma interessante inversão. Uma carga às avessas. Um espaço criado à força. A inesperada perspectiva de reparação. Pois um perdão não precisa ser justo, coerente, adequado ou mandatório. Sua oferta, inclusive, prescinde origem, circunstância e justiça. O perdoado não necessariamente mergulha no mérito. Perdoar é um verbo estranhamente impreciso, porque não pertence à agenda da razão. Rompe com qualidades às quais acostumamos no universo da des-subjetivação. Onde bens, serviços e relações instrumentais ocuparam o lugar da solidariedade. Um perdão é, portanto, uma reconsideração filosófica de valores. Pode ser a pequena meditação sobre um julgamento, mas também, elevar a potência de uma consideração. Perdoar é abandonar voluntariamente – e não à revelia, essa é toda a diferença – a nostalgia. Esquecer o passivo parece medida anti terapêutica. Talvez não seja. Destarte, há que se impor a particularidade. A alienação e a passividade não podem valer frente aos opressores e regimes tirânicos, potenciais ou reais. Com efeito, já que o silêncio aplaca a repressão, toda perspectiva totalitária exigirá grito, resistência e luta. A mentira, dita com convicção, constrange. Eis que em tempos de cólera política, a alienação pode ser o oásis da neutralidade. Por que nos impomos escolhas? Ao sim ou não, ao agora ou depois, a este ou aquele, ao sucesso ou fracasso? Um dia de expiação não é para sofrer, mas buscar o neutro. Neutralidade não significa anulação (não anulem), mas atuação pelo desconcertante. Através da metáfora da desrazão, perseguir a paz da incoerência. A relativização da seriedade e a recuperação do humor. O verdadeiro desvio do previsível. Já que alguns significados do perdão devem recair na metafísica, sua máxima concretude pode estar em passar sobre as ofensas, alcançar o outro na congratulação do dia a dia, e sentir se há alguma fusão de horizontes em vista.

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Tags: dia dos perdoados, Yom Kipúr

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