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Apaguem a história (blog Estadão)

Apaguem a história

Paulo Rosenbaum

20 março 2015 | 19:22

polifonia

Podem comparar a vontade, não tem comparação. Este é um Pais único numa crise única, momento idem. Não é bem que não haja diálogo, enfim solicitado. Nunca é tarde, mas é preciso remover a mordaça dos interlocutores e passar a uma estratégia pouco praticada: dar voz e ouvidos.

Ficamos ouvindo as medidas que saneariam o mal feito. A boa vontade termina quando a sensação chega: fica evidente que continua sendo culpa dos outros. A saber, nossa. A humildade é — deveria ser — uma medida contra narcísica. Incompatível com quem sempre começa as frases na primeira pessoa “eu”. Quando começo a sentir pena do cenário patético a indignação é revigorada com as imagens de abandono dos que não podem se defender. Não só dos mais pobres, mas de todas as classes que foram iludidas pelo perfil, a pálida sombra. Concluo que foi a aversão do regime ao fundamento da democracia — a polifonia — que nos trouxe até a intolerancia, à mesquinhez, ao abismo de conclusões instantâneas.

Essa administração federal foi incapaz de aprender na carne a abrir mão do projeto hegemônico. Alguém acaba de me falar que numa grande Universidade paulista, alunos defenderam abertamente o direito dos carrascos do estado islâmico. Isso diz tudo. Outorgado o direito, a concessão inclui eliminar quem se opuser.  E por acaso estes estudantes não tem um tutor? Alguém que os guie à reflexão? Para que servem mestres? Neste caso, o titular da pasta é autor de comentários à obra de Bakunin, admira Stalin e carrega no chaveiro a foto do caudilho latino americano. E o País que o professor venera está em pé de guerra. Como no famoso filme de Peter Sellers conscientes do inexorável fracasso, apostam numa recompensa análoga ao plano Marshall. Não deveria nos espantar. Monologo e hegemonia são tandens. Movimentos correlatos como o minucioso trabalho da KGB e outros tantos aparatos repressivos que apagavam das fotos históricas aqueles que caiam em desgraça. A técnica atual evoluiu para seleção bibliográfica rigorosamente revisada pelo partido.

E por que tanta perplexidade com a história e os Museus sendo eleitos alvos preferenciais de militantes genocidas? Os extremos detestam a história e seus efeitos. Eles se incomodam muito quando deparam com a insignificância de suas convicções. Não admitem que haja um acervo de ideias superadas.  Não suportando observar outras fases da civilização, agem sob a curadoria do martelo. Não concebem a existência de processos. E o mais importante: não admitem perguntas. Pelo menos não as inconvenientes.  E um museu é um lugar de incertezas. De busca por respostas. Reúne uma síntese que nunca chega a um fim. Para a civilização a dúvida faz sentido, para quem odeia o ocidente e suas instituições é uma ameaça. Cabeças fanáticas não tem espaço para o inacabado.

Para que pensar muito?  No fundo, são parentes próximos da literatura de auto ajuda: tudo mastigado ou nada feito. A intolerância é um sintoma de esgotamento da cultura. A truculência máxima, da inépcia política. E o caos, sinal de que já houve, em algum ponto, algo diferente. A cultura que passou a exigir um Estado onipresente impôs, ao mesmo tempo, a retirada progressiva das responsabilidades individuais. Mais um aceno para o retrocesso: uma nova era patriarcal sem patriarcas. A ressurreição dos populistas pelo mundo não deixa de ser um dos dividendos deste notável contexto. As eleições tornaram-se álibis perfeitos para abusos. O voto, o escudo que os referenda. A denúncia excessiva é amnésica. O caudal de bullying de Estado é verificado como epidemia de injustiças contra o cidadão. O menu de desmandos variado apresenta da perseguição fiscal à terceirização de pelotões.  A intimidação é o legado mais evidente de uma Pátria que desistiu da educação por fundos partidários e um punhado de slogans de campanha.

Terrorismo à revelia (blog Estadão)

Terrorismo à revelia

Paulo Rosenbaum

29 março 2015 | 12:49

rostoIIjpg

Andreas, o que foi que você fez? Que rosto é esse? Quem foram seus médicos? Alguém cuidou? O que lhe falaram? Quais drogas lhe prescreveram? Uma daquelas que borram os contornos da realidade? Quem foram seus interlocutores? Entrar para a história! Com qual perfil? Crises existenciais? Todos nós, todo bendito dia. Bilhões de ciclotímicos, bipolares e borderlines escaparam das fronteiras da psiquiatria. É que não são mais semanas em cada estágio. Podemos mudar a cada minuto. As moléstias recusam inércia e se readaptam. Acompanham os tempos. Passamos de um polo a outro sem a menor cerimônia. Na velocidade das redes. No 4G.  Fama ou desgraça encontram-se ao alcance de qualquer digitador hábil.

É compreensível que a celeridade das oscilações acompanhem a era. A dúvida poderia nos salvar, improvável por nossa retrospectiva. É que não costumamos dar crédito para oportunidades. Já lemos isso antes: “mal estar na civilização”. O que deveríamos ter aprendido? Não eleger alvos randomicamente. É inaceitável que o mal – esqueça rótulos e reduções caricatas — tenha assumido existência autônoma. Ou a autodeterminação de alguém pode coincidir com a eliminação da nossa?

José Ortega y Gasset escreveu: a vida é puro acontecimento. E nós, quem somos? Uma família humana com suas tradições, insígnias e símbolos? Oráculos de lutos antecipados? Espaços destinados aos vínculos provisórios? Somos agregados ou participamos da essência? Qual sua família e qual a minha? Não respiramos juntos e fundo? Não nos conhecemos ao mesmo tempo? Não percorremos trajetórias análogas? O que esperar de uma sociedade cada vez menos compassiva e sem poder de agregação? Lobos solitários ou alcateias dispersas? Vivemos dias obscuros, mas não inéditos. Nas palavras cada vez mais ásperas, a audição foi ficando surda. Nem as vozes que imploram, importam.

Você não abriu a porta. Só sua respiração refratária estava audível. Você saiu da vida e entrou para a história. Temos suicidas com jurisprudência análoga. Se qualquer biografia pode ser interpretada de muitos modos, na sua, só uma coisa parece certa: façanha sem significado.

Sempre achei que determinação peremptória, convicções e certezas absolutas cheiravam abismo. Vacilar e duvidar transformaram-se em valores párias. Rebaixados da virtude à vicissitude. A perplexidade deveria ter gerado ao menos um consenso: mesmo o idiota mais resoluto precisa aprender recusar projetos estúpidos. Enfim turvamos a fronteira entre terrorismo à revelia e terrorismo explicito. E por falar nisso, em meio à guerra civil subnotificada, epidemia de homicidas e cooptação de pessoas para atividades genocidas o que o Congresso Nacional espera para formatar uma legislação sobre o tema? O direito à vida não deveria preceder qualquer outro assunto? Mais uma vez ultrapassamos o anacronismo, estacionamos à beira do ridículo.

Ódio e política pueril – blog Estadão

Ódio e política pueril

Paulo Rosenbaum

15 março 2015 | 00:33

panelasXX

A burguesia petista e coxinhas de panela vem construindo cenas sem paralelos na extensa história do patético. Alguns se perguntam de onde provém todo esse ódio e intolerância? As fontes são inesgotáveis, mas, como se sabe, sob a traição política, a cólera fica quase indomável. Os mitômanos podem não saber, mas é assim que instigam a grande ferida. No imaginário social, nenhum redentor se atreveria a enganar a boa fé. A infeliz fala recente de quem nos presidi emprestou do seu mentor a tese de “esgotamento do modelo”. Ela pode ser traduzida de outra forma: não confiem demais em quem vos fala. Com a quase extinção dos bodes expiatórios críveis, não há mais a quem culpar. O crack de 29 não colou e a elite branca racista pode ser simultaneamente a classe média morena reacionária. O petróleo, privatizado pelo consórcio. O Estado foi ficando cada vez menos republicano. Os poderes, embaralhados e fatiados. Taxas de ruim/péssimo ameaçam extrapolar os gráficos. É evidente que a sociedade deve estar errada. Como estamos diante de uma administração avessa à crítica, toda chiadeira parece exaltar a convicção no sentido contrário. Não resta a menor dúvida de que a equação se inverteu: doravante, se tudo der certo, a sociedade é quem deverá servir à Pátria.

Os traços de esgotamento estão por toda parte. Há sinais, signos e símbolos de que uma grande inviabilidade persistirá. Mesmo endossando a recusa ao catastrofismo, ninguém tem mais o direito de ficar peneirando mel. O laços de contra e a favor vão se estreitando, até não se saber mais quem é quem. Vai ficando difícil manter a honestidade intelectual e, ao mesmo tempo, apontar para direita ou esquerda. A complexidade social sempre superou a capacidade de apreensão analítica. Recorrer à luta de classes ou golpe militar revela o viés: estamos num sistema de notação maniqueísta. O anarco-marxismo e o atraso fanático escancaram a face pueril de nossas práticas políticas. Daí o emboloramento, a incoerência, o desatino programático. A anemia em líderes razoáveis. No malabarismo impossível, a maioria luta para exigir (e exigir-se) uma fidelidade ideológica que não mais existe.

Defende Cunha aliado, detesta Dilma malcriada. A favor de Calheiros com aversão ao procurador. O exército alternativo convocado para conter o golpe que, onírico, viria a calhar para salvar o projeto. “Viva a Petrobras” dizia Gabrielli em Salvador à frente de militantes com carteira assinada. Na CPI, na TV ou nas coletivas as falas, a retórica, o discurso, a impostação, a mímica, a gestalt de mais esse simulacro de verdade. Verdade? Decerto subjetiva, uma aporia sujeita à interpretações. Ninguém negará que mesmo um conceito pouco palpável exigiria contornos mínimos de realidade.

E com quem podemos contar?  Intelectuais subsidiados pelo partido? Blogs financiados por fundos partidários? Oposição encalacrada? Institutos de pesquisa controlados pelo poder? Para onde se olha enxerga-se as marcas da hegemonia. A doença se alastra. É que a colonização tem pressa. Se houvesse um manual de bons modos para além do conselho de ética e da controladoria geral da união, a manifestação deveria não só ser pacífica, mas solene. Agora não se trata de festa democrática, revanchismo ou enfrentamento. É a maturidade e o solene que podem encampar a seriedade do momento. A eleição passou. Inútil tentar culpar quem nos meteu nessa. Se há algo para aproveitar em uma marcha adulta é recobrar a consciência de uma saída.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/odio-e-politica-pueril/

E agora Dinamarca? (blog Estadão)

E agora, Dinamarca?

Paulo Rosenbaum

15 fevereiro 2015 | 04:50

terrorXX

Outra vez. Desta feita o jihadismo atingiu a Dinamarca. De novo, balas caçam quem defende a liberdade. Muita gente grita, mas por que será que as vozes se enfraquecem precocemente? A marcha de Paris já ficou anacrônica. Prevalece o silencio seletivo, aquele que reforça a inação, o conluio involuntário com a intolerância. A violência se expande sem margens definidas. Há uma vergonhosa recaída na velha e ofensiva fórmula de abafar a crise. E eis que ela já é continental.

Há poucos dias pode-se ler de um escritor nativo que o Ocidente é que precisava repensar suas barbáries. E quem discorda? Mas ele seguiu imodesto acusando a Europa de ser a produtora serial de monstruosidades. As cremações in vivo, as crucificações, estupros, escravização de infiéis e as degolas do neonazismo em nome de algum califa não passavam de detalhes da história. Pois, em oposição, considero seriamente todos os detalhes. A história não pode ser julgada como um só bloco. Sem contexto tudo parece mais do mesmo. As vezes não é.

Tentando conter a pressão e ao mesmo tempo rechaçando comparações que julgaram desproporcionais, assessores do presidente norte americano afirmariam que o estado islâmico não representa — como a aventura nazista na segunda grande guerra — uma ameaça existencial. Depende. Para quem? Obama complementou o discurso afirmando que a escolha de alvos judaicos para desferir os recentes ataques na França eram apenas “randômicos”: questão de sorte, cara ou coroa, impulso de momento. Pois não são, nunca foram.

Kopenhagen repete, por atuação quase mimética, a epidemia de lobos solitários que vai se tornando rotina nas cidades europeias. Bélgica, Toulouse, Paris e agora a capital da Dinamarca. Imitam as mesmas configurações da capital francesa, e os terroristas ainda à solta. É provável que sejam capturados. Podem ser mortos em confrontos com a polícia ou sair da Europa com a cobertura de quem lhes forneceu armas, financiou a jornada e ofereceu cobertura logística.

Mas, e as ações preventivas? Aquelas que vieram depois dos feitos dos milicianos de Paris – pois ainda é assim que a eles se referem, combatentes para aqueles que enxergam nos assassinos algum resquício de causa justa – foram obras da inteligência e da polícia. Mas e a sociedade? Qual a força e rigor necessários para responder à terra de ninguém, quando os roteiros homicidas estão sendo traçados? Como aceitar que o radical inspirado por religião, ideologia, ou pela mistura confusa de ambas, conserve a liberdade de organizar ações que determinariam o fim desta mesma liberdade? Monitoramento de bilhões de telefonemas, vigilância de drones e a aposta tecnológica não tem sido nem suficientes, nem eficientes, para romper a convocação de guerreiros santos via web. Voluntários, vindo de várias partes do mundo chegam todos os dias às bordas da fronteira Síria.

Não enxergamos que por trás do evidente, vivem os detalhes. Aqueles que enganam com sua falsa obviedade. A convocação que arregimenta gente pelo mundo é a consagração de uma busca inalcançável. Para além das virgens e da confirmação instantânea de bem-aventurança, está também uma profunda decepção com os valores do materialismo. Paradoxalmente cultuado com carreatas de máquinas potentes, cavalos de pau nos tanques chineses, e a última palavra em fuzis russos, a ideia ali é uma confluência onde estão abolidas outros contratos sociais e só vale a palavra morta das leis teológicas. Precisam nos convencer, por bem ou por mal. (como se constata o bem foi estratégia logo descartada).

Isso tudo não é o suficiente para retirar o caráter doutrinário da islã radical que impregna e recheia a nova epidemia. A escolha de minorias é um fato essencial. Ninguém com algum poder crítico deveria cair na armadilha de traçar qualquer equivalência moral com outras guerras e conflitos em curso. Por sua vez a eleição de alvos judaicos tem um caráter duplo: é a mais infame, e ao mesmo tempo a mais naturalizada das perseguições.

A diferença entre um ateu que mata e o devoto que atende um chamado divino é auto evidente. Como também é notável a distinção entre a eleição calculada de alvos civis e os danos colaterais de uma guerra. Se um Estado exagera pode ser responsabilizado. Se um partido pula a cerca pode ser, à duras penas, chamado à justiça. Mas, se grupos anônimos e transnacionais se disfarçam de lobos solitários para fazer o que bem entendem, caminham à inimputabilidade. Suas ações se assemelham aqueles das turbas linchadoras, onde ninguém é capaz de definir quem é quem e menos ainda quem aplicou o golpe derradeiro.

É importante admitir que o terror já é uma força triunfante. Mudou a cultura e os hábitos de bilhões. Não bastasse todas as inseguranças que as pessoas vivem em seus cotidianos, o pânico extra, gerado por ações cada vez mais sistemáticas, obriga os cidadãos a operar sob o medo. E o medo é uma força desorganizadora, inclina o sujeito à hostilidade e ao desespero. No recuo, no recolhimento que a paúra provoca, estamos com o pé atrás. Quanto tempo a civilização concebe suportar becos sem saída?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/e-agora-dinamarca/

Minha folia é você (Blog Estadão)

folia

Minha folia é você

Minha folia é você

No momento,  fica

Não prometo nada

E se disserem sosseguem,

Negaremos

A folia transita num violino

Compromissadamente perdido

Comprovadamente visível

Concomitantemente relapso

A folia está nas nuvens,

Nas milhas náuticas

Nos pulsos indomáveis

Que esquecem tudo, juntos

Num particular anticarnaval

Nesse mar sem muros

Na fome da entrega

Toda e qualquer latitude

Deita folia em teu corpo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/minha-folia-e-voce/

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