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De Itajaí para o mundo

Coisas da Política

Hoje às 06h00

De Itajaí para o mundo

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Os habitantes da cidade de Santa Catarina foram surpreendidos?  Deveriam. Pois de madrugada, lá pelas 3 da manhã, alguém espalhou a coisa viscosa pelas ruas. Colada nos postes na cidade estava a foto do Fuher com um agradecimento e votos de feliz aniversário. O recrudescimento da velha paixão de homens por líderes autoritários é indicio de muitas coisas.

O retrocesso tem implicações que devem ir além da atração por homens fortes que muitos acalentam. Alguns dias depois, nos mesmos postes, Adolph foi substituído por Josef. Agora Stálin aparecia derrubando o maníaco nazista.

Esta pequena e grotesca guerra de publicidade de ditadores nos postes desnuda mais nosso momento do que gostaríamos. São simbolismos conectados de polaridades do atraso. A análise pode ir para bem além do que supomos.

Em primeiro lugar, muito cuidado com postes. Eles sempre estiveram lá. Nós que nunca costumamos notá-los, a não ser quando algum falastrão queria colar neles algum discurso. Os nosso colonizadores portugueses já abusavam deles quando não existiam editais.  Entupiam de publicidade os velhos troncos com “bandos”, e neles  os mais estranhos anúncios: do aumento de impostos à convocação de gente para abrir picadas para  monarcas, dos alvarás escravagistas ao anúncio da punição para os inconfidentes mineiros. Hoje, são usados nas eleições para reciclar papelões. Sem a menor consistência eles descascam rápido. A péssima qualidade empregada só notamos depois de algum tempo. Em geral, tarde demais.

Voltando ao pequeno mundo de adoradores de homens fortes, para eles o que vale mesmo é a inspiração. Precisam confiar cegamente em quem fala com tom de mando.  Quem promete o vago. Quem encomenda culpa ao outro. Segundo eles, é preciso liderar com mão de aço. Esmagar opositores e, se preciso for, caçar papagaios só porque falam e, ainda pior, se acreditarem no diálogo.

É intrigante imaginar por que raios de pensamento mágico essa nova juventude hitlerista, daqui, mas também de acolá, imagina que seria poupada pelo bigode da Bavária.  Todo açougueiro contumaz costuma dar preferência por carne fresca.

Numa população com altíssimos indicadores de miscigenação como a nossa, pouquíssimos escapariam da eugenia dos teóricos do nacional socialismo. Além disso, não precisamos de agentes externos nos comandando. Nossos locais já se encarregaram de meter prioridades numa agenda bizarra.

Ali, há um cardápio de cores para que as pessoas escolham sua tonalidade de pele.  Os teóricos da pátria entenderam que isso teria mais visibilidade do que uma escolha baseada em critérios de renda que gerasse real igualdade de oportunidades. Mas é claro que entre o justo e o cinismo ideológico, já sabemos quem dá de goleada.

O racismo e a intolerância — crescentes nos estádios, nas filas, nas ruas — crescem na medida em que o próprio Estado orgulhosamente vem adotando critérios discriminatórios.

Mas, e a as boas intenções? Parece que se aposentaram. Entrou em campo um reserva: o pragmatismo político selvagem. Predador perigoso, seu programa de governo está anunciado: canibalizará outras espécies para reinar sozinho.

Quando perguntaram se não se importava com o isolamento, deu de ombros e saiu de fininho. Com o rabo entre as pernas, aos confidentes, disse que sempre imaginou que seria barbada.

— Não era bem assim.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/04/24/de-itajai-para-o-mundo/

 

Madrastas (Blog Estadão)

As madrastas, são elas, mais uma vez. Mas elas são muitas. Quem as tomou por sinônimo de maleficência? Onde se obteve a inspiração inicial? É justo remete-las à chave analógica do mal? Para além dos contos de fadas, a maioria assimila, cuida e ampara a orfandade. Muitas vezes, reagrupam famílias. Boa parte sabe que, mesmo com mães insubstituíveis, a vida pode ser regenerada a partir de suas doações. 

No dicionário de símbolos de Juan-Eduard Cirlot a “mãe terrível” representa “não só a morte, mas o aspecto cruel da natureza, a indiferença à dor humana”. O mais provável é que a verdadeira origem dos pesadelos infanticidas seja o pai omisso. Esse foi o roteiro no mais recente conto de horror no Rio Grande do Sul.

Há um vazio no lugar do pensamento preventivo em nossa cultura?

Relatos de opressão e maus tratos, fartos. A sequencia prévia de eventos, óbvia.  Era obrigatório deduzir o que estava por vir. Se as sibilas decretavam destinos nos oráculos gregos, uma de nossas vantagens deveria ser tentar antecipar desfechos como esse. Como em eventos recentes de incêndios, execução de juízas, jornalistas e ex-esposas, foi a sequencia de falhas nas redes de proteção que precipitou a criança à cova rasa.

Antecipação obrigatória de quem, constitucionalmente, deveria zelar pela segurança e parece ter renunciado sem aviso prévio. Na inimaginável leniência muito nossa de justiça (grau que nem Hamlet sonhara) o agressor, tarda, mas triunfa.     

Depois do mal selado na escritura definitiva, nada resta a não ser soluços. O irreparável é auto evidente. Arrependimentos do setor público não contam, duram nada.

Esqueçam fatalidades, coloquem na cabeça a frase “um destino evitável”. Isso significa que a antecipação continua sendo a única medida racional que a sociedade solidária junto a um Estado minimamente eficiente têm à mão para se antepor às barbáries consentidas.

Isso, se contássemos com qualquer um dos dois.  

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/madrastas/

 

Da coerência e do coincidir

Coisas da Política

Hoje às 06h00

 Da coerência e do coincidir     

Paulo Rosenbaum*

“Coincidir com nós mesmos” (Paul Ricouer)

Se esse conceito/aforismo elaborado por Paul Ricoeur está bem formatado, é preciso discernir coincidir de coerência.

Podemos inclusive coincidir em nossas incoerências, inconstâncias e fragmentações. A coerência, por sua vez, pode ser só uma corda que engessa. Uma amarra     que sacrifica a criatividade à servilidade e ao reducionismo que as ideologias exigem.

Por isso, é com alegria que deveríamos acolher mudanças, revezamentos, alternâncias e a  flexibilidade. Apreciemos mesmo as incoerências, tão difíceis de aceitar, mas absolutamente comuns e necessárias na vida prática. Até mesmo a saúde reconhece quão importante é mudar de ideia, variar o fluxo, se livrar da mesmice.

Somos polissêmicos, falamos em várias linguagens ao mesmo tempo, e, apesar de tentarmos conservar uma vida minimamente integrada, somos todos seres ambivalentes. A incoerência e a inconstância são as marcas do sujeito.

Sociedade e meio exigem e nos pressionam para perfazer a trilha retilínea e uniforme. Uma carreira por exemplo. Um exemplo de sucesso. Temos que parecer ícones, triunfar, vencer os demais. A ditadura do êxito está condicionada a performance. Acriticamente, repassamos a mesma prescrição aos nossos filhos. Mas os fatos, são os fatos que renegam isso: somos erráticos, andamos em zigue-zague, e, divididos, nunca alcançamos uma identidade definitiva. A novidade é que isso pode ser bom.

Isso não significa que quem se dedica ao planejamento público não deva responder por projetos que tenham começo, meio e fim. O Estado é que deve responder pelo planejamento e direção do país.   

Por isso, e para isso, é preciso distinguir projetos pessoais-privados daqueles de interesse público.

Muitas vezes a ideologia pessoal de um político ou administrador, projetada na esfera de sua atuação pública, distorce completamente a lisura esperada da atuação dessa representação.

Um mandato é sagrado porque deve obedecer a expectativas e demandas de um conjunto heterodoxo de pessoas. O homem público — expressão duplamente infeliz, homens jamais serão públicos, no máximo portamos interesses coletivos — que se apropriasse realmente de seu papel deveria saber que sua ideologia pessoal não significa nada diante da monumental tarefa de representar um determinado conjunto de expectativas.

No caso de quem se decida pela vida pública não se trata de suprimir o ego, mas de submetê-lo aos outros. Os partidos tampouco podem cumprir essa função porque — como androides que ficam arrogantes — passam a atuar como organismos independentes e agir em causa própria. E já sabemos o tamanho da erosão causada pela sede por hegemonia. 

Não sei se legisladores e executivos governamentais deveriam aprender isso em aulas de teatro ou em liceus de filosofia. Seria vital que todos adquirissem a consciência de que não passam de coadjuvantes, assim como o próprio Estado o é. Como resultado dessa incompreensão, testemunhamos uma cadeia de deformações. Elas culminam naquilo que pode ser chamado de representação negativa. Isto é, o sujeito cujo  papel seria o de simbolizar um  agrupamento — sejam minorias ou não — passa a representar a si mesmo, assumindo o protagonismo.   

Quando esta cadeia de representação negativa passa a se generalizar (nosso presente) os cidadãos desenvolvem uma aversão natural aos seus próprios representantes. No jargão psicanalítico seria a má transferência. E esta pode se estender ao próprio Estado. Aí é/está a desagregação no sistema representativo.

De fato, para que sustentaríamos o demiurgo que recolhe tributos sem oferecer nada ou quase nada em troca? Como acreditar em poderes independentes que se submetem uma hora à força dos financiamentos, e, numa outra, à associação fisiológica? Qual seria o objetivo em desqualificar as instituições senão para perpetuar-se no poder?

É essa crônica inversão de papéis, e não os cidadãos, aquela que subverte a ordem social, criando uma situação insustentável e a baixa governabilidade.    

Já coincidir é demandar sentido espiritual lato sensu. Isto é, criar uma direção, gerar um horizonte plausível para o desenvolvimento pessoal e material das pessoas.

É encaminhar-se na direção de uma vida com significado. O coincidir implica também um sentimento de compromisso: a ética, cuja tradução criadora poderia ser cuidado e responsabilidade. Se somos todos responsáveis, cuidaremos uns dos outros. Neste sentido, caberia descartar o Estado como tutor. Era essa, imagino, a ideia original de fraternidade.

Governos e governantes provavelmente bocejem lendo o que escrevi logo acima. Que ninguém pense, porém, que daqui em diante gozarão de sono reparador.  

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. - rosenb@netpoint.com.br

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/04/17/da-coerencia-e-do-coincidir/

Pessach: a travessia de Moisés (Blog Estadão)

Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

14.abril.2014 11:24:49

Pessach: a travessia de Moisés

Travessia de Moisés

Deixe-me entender, eu vou carregar este povo todo? Nas costas?

Quase dois milhões? Todos os escravos? Que alivio, achei que era todo mundo.

Senhor, não quero parecer arrogante!

Insolente?

Ok, insolente. Mas mesmo assim preciso dizer, isso que me pede é inviável.

O governo não está exatamente contente com a agitação das massas.

Eu sei, eu sei, mas arrancar todos escravos de uma só vez?

TROVÕES!!

Não está mais aqui quem falou!

Finalmente atravessamos Senhor, espero que isso entre para os anais. Manchete:  a maior libertação em massa da história.

Agora devo subir? Até lá em cima? 40 dias? Oh Oh! Farei isso Senhor. Isso aprendi. A razão é sempre da chefia.

Desço com as tábuas? Agora?

Não é possível falar! Eles não estão fazendo isso…por que estão fazendo isso Senhor?…Me diga que não. Não quero mais ver.

Sei que pedi para ver como estava lá embaixo, mas isso?

Não, não vou me acalmar. O Senhor me desculpe, mas para que me acalmar? não foi o Senhor mesmo que me disse que me escolheu porque sou autêntico? Que era difícil encontrar alguém que assume ser ele mesmo? Se tenho a marca que o agrada, por que não posso reclamar?

Pronto, já me arrependi! Cá entre nós me assusta ver gente saindo do mesmo beco, deixando a miséria, emancipados da ditadura, mas não se contentam com nada. Eu me pergunto por que se odeiam tanto?

Eu sei, seu sei. Concordo convosco: no teu trono prevalece bondade sobre qualquer severidade. Não prometo, mas vou tentar lembrar.

Eu soube desde o inicio que não seria fácil. Posso perguntar? Eu tinha escolha?

Não? Obrigado. Já desconfiava!

Agora me descontrolei.Quando eu vi aquilo perdi a cabeça. Posso pedir uma coisa? Lembre-se: somos homens. Não somos anjos nem matéria inerte.

 Seriam só estas?

Não, não é que quero mais. É que achei que com uma constituição assim tão enxuta não sei se rola. Só com isso dá para civilizar toda essa gente? 

Teremos dificuldades em cumprir só estes dez? O que será preciso fazer?

Nada? De verdade. É que o Senhor me pede coisas difíceis.

Perdão Altíssimo, vou abrir meu coração. Sinceramente, não sei se sou o homem certo para o cargo. Não tenho as habilidades de um líder e há gente muito boa nas tribos. Tem pelo menos uns cem com mais capacidade. Eles seriam verdadeiros líderes.

Eu sei, eu sei, já me falavam isso desde pequeno, dou muitos palpites!

Posso só dar mais um? O último?

Obrigado. Eu só indicaria quem têm gosto pela coisa. Posso fazer uma lista tríplice e

Ah, entendi. O Sr só escolhe quem não tem gosto pela coisa. É, é um critério.

Posso perguntar por que?

O que mais posso fazer?

“Moisés têm pensamentos não verbalizados: estaria melhor cuidando dos meus, da minha família? Fui metido numa fria. Fiquei sem trono e sem sustento.” 

Nada, nada. Eu ouvi sim, estava meditando um pouco.

É para dizer logo o que quero? Se não estou abusando queria repostas claras. Todas essas instruções serão compreendidas?

Estou aqui? Sim recebi. Agora sei. Posso só formular mais algumas perguntas? Sei que os anjos andam impacientes e que estou embaçando.

Eu sei, o cronograma está atrasado. Eles me contaram, estou atrapalhando a agenda.

Mas isso aqui é uma tremenda responsabilidade, e eu achei mesmo que o Senhor tinha todo tempo do mundo.

Não sei se posso deixar para depois.

Se quero ver o futuro? Não. Quer dizer, depende. Posso só dar uma espiada? Permite interromper se sentir aperto no peito? O Senhor sabe como isso me afeta.

Não tinha ideia. Não tinha ideia!

Obrigado, mas já vi o suficiente. E o Senhor me garante que mesmo depois de tudo aquilo que vi sobreviveremos? Mesmo depois daquilo na Alemanha, na Polônia, a crise dos mísseis, a guerra fria, as ogivas? Agora tem a Ucrânia?

Eu escutei. Sim, e posso repetir com gosto: a liberdade é a herança mais preciosa. A primeira obediência ao Senhor é resistir à tirania.    

Estou arrepiado Senhor. Posso chorar? 

Estou arrependido. Desculpe, são recaídas infantis, estou ciente. Perdão, é que nunca confiei cegamente em ninguém.

Se já posso parar de chorar? Sim perdão, é que isso emociona qualquer um. Tamanha destruição e a humanidade se erguerá tantas vezes quantas forem necessárias.

Freud? Quem é? Ele escreveu sobre isso? Vou anotar. Entra para a lista de leituras.

O Senhor não se comove? Por que a humanidade precisa passar por tudo isso?

Compreendi. O que vale é o mérito que o Senhor enxerga na humanidade. Bom saber que têm alguém com fé inabalável. Eu já estava quase sem esperanças.

Oh Altíssimo! Garanta por favor que é isso que nos acontecerá depois de tudo que eu acabei de ver? Mas e a paz?

Não só na terra santa. Fui abelhudo. Dei também uma olhada no estado do mundo.

Será uma surpresa para todos? Virá de onde menos se espera? Agora o Senhor aguçou minha curiosidade. Vão conseguir interromper as mudanças climáticas? O pessoal vai desativar os reatores? A intolerância vai acabar?

A coisa toda foi de propósito? Tudo faz parte de um plano maior?

É que o senhor não imagina quanta picaretagem, não faz ideia de como ouvimos isso por aqui!

Minhas mãos estavam fracas e tremulas. Só agora estão recuperando a força. Me sinto cada vez mais determinado. Posso agradecer?

Sei que um dia todos experimentarão a mesma liberdade. Por enquanto sou grato por ter chegado até aqui. Mas que trabalhão. Dia e noite. O Senhor não faz ideia de como eles me ocupam.

Não é só no STF. Eu mesmo tive que julgar coisas que o Senhor não tem noção.

Perdão. Perdão. Sei que o Senhor é o mais ocupado, mas sou só um homem.

Já terminei. Preferia as tábuas esculpidas com teus dedos. Agora desço. Vou e peço toda sua ajuda e benção.

Este dia será um marco para todo o Universo?

A alegria é sagrada? Entendi. Finalmente.

O Senhor está vendo?  Fiquei aflito de novo. Para que me contar tudo isso?

Sei que fui eu quem pedi, mas vou confessar, não ouça tudo que a gente pede. Quando for bobagem, ignore. Imploro. Truman Capote já tinha escrito isso? Vai para lista.

Do que o Senhor está rindo, posso saber? Eu também o amo, só não entendi a piada.

Vou pensar nisso, deixe ver se decorei:“alegria, Minha maior qualidade”

Deve ser também a nossa? Isso foi forte! Vou reconsiderar. Para começar, vou reclamar menos. 

Todo Poderoso? Seria abuso pedir mais duas coisas?

Não, não, sem lenga-lenga. Desta vez prometo não voltar atrás. Sem atrasos, de acordo. Poderia fazer com que os homens enxerguem tua presença? Pode ser? Uma única vez?

Desta vez o Senhor passa? Ok. Não o recrimino. Garanto que o Senhor está sendo poupado.

O outro pedido? Ah sim, claro. O Senhor poderia fazer sua voz ser ouvida? Alta e clara? É que eles podem achar que não conversamos. Não vão aceitar que pode ser com toda essa naturalidade.

Então pensei, se o Senhor…Ah, compreendo, eu só queria que todos experimentassem a felicidade, a liberdade e a fraternidade.

Não Senhor, não sou nada comunista, nem liberal, é só o desejo de ver todo mundo gozar de justiça e bem estar.    

Não saberia dizer porque não tenho o medo deles. Acho que é porque desenvolvemos esta intimidade. Eles lá debaixo não podem fazer o mesmo? Não, não, compreendo que ninguém os está impedindo. O Senhor me conhece. Queria dar uma forcinha. Não dá para quebrar o galho? Agora por que essa risada? Não, não, não sou deste lugar que o Senhor falou. Nem sei o que é Brasil, o que é Brasil?

Tudo bem, trato é trato é que….

VIOLENTO TROVÃO!!!         

Calma. Já estou descendo, já estou descendo.

 

 

Malandragem de ponta

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Malandragem de ponta

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Há uma tese circulando entre governantes. Prediz mais ou menos o seguinte: podemos errar o quanto quisermos: não pega nada! Estão cegamente confiantes que a blindagem é escudo que barra até as partículas radioativas. Das duas uma: ou a convicção é tão forte que resvala na imbecilidade.Ou o desejo de obedecer o slogan enganar para venceré de tal modo extremado que estão apostando no confronto e na divisão da sociedade como plano B. Neste caso, prognóstico reservadíssimo.

Vejamos o malando da ponta direita. Eles têm a desvantagem da transparência e da ingenuidade. Por aqui, as marchas pedindo golpe demonstraram quão despreparados estamos para externar a desaprovação aos desmandos. Rebelião contra serviços? Foi o que um megaempresário acabou de pedir. A qual lugar isso nos levaria? Vão culpar quem? O servente, o médico, o escriturário? Ou vamos dar safanões no motorista do metrô, ofender os funcionários públicos e destratar atendentes?

O que adianta depredar ônibus, escolas e estádios? Qual nome e legenda beneficiária política dos ímpetos destrutivos?

Se ganha a dona Le Pen na França, as minorias estarão em maus lençóis. De extrema direita ela já declarou — notem a índole do ódio liberador — que exigirá como uma das primeiras medidas que as prefeituras suspendam refeições especiais (isto é, sem carne de porco) para atingir muçulmanos e judeus. Que perfeita maracutaia capturar o crescente sentimento xenofóbico dos francos para enfiar mais votos nas urnas!

Já o malandro da ponta esquerda não é muito diferente. Se está longe da ingenuidade, sua opacidade não poderia ser mais densa. Se há um escândalo, tergiversam. Se há prejuízo, embolam. Pega bem. Se nada disso der certo, desmentem com veemência e dizem que é complô da oposição. Mesmo sem evidências, que ela esteja viva.

Por fim, o malandro pode recorrer à afirmação estúpida — o essencial é pronunciar pausadamente, com convicção:

— Podem dizer o que quiserem, foi um bom negócio!

Frases curtas, com reticências. Evite-se explicitar para quem foi bom.

Ou convoque uma reunião de blogueiros simpáticos a sua causa, acenando patrocínios.

—O que devemos dizer, Sire?

— Qualquer coisa, evitem falar do assunto.  Batam em quem fala.

— Mas, e as provas? O que fazemos contra as provas?

— Filho, temos unhas e dentes. Ninguém mais dá pelota para provas.

Pelo mundo, malandros parecem continuar embaralhando sozinhos as cartas do poder.

Putin, escolado em alguma colina nos arredores de Moscou, combinou com o ex-presidente deposto em Kiev que declarasse que divergia da posição russa. É que agora ele vai se engajar numa “campanha para que a Crimeia volte a ser parte da Ucrânia”. (sic)

Nice try Mr. Putin. No caso de Vladimir, não se sabe se ele é esquerda, direita ou um autocrata eclético, gênero em ascensão pelo mundo.

O que chama mesmo a atenção é a raridade de políticos com independência para cuidar da única coisa que importa na atividade: oferecer e implantar uma visão estratégica de Estado. Em sua maioria esses sujeitos estão sempre a zelar pela coisa privada na vida pública. Contradição em termos, podem resmungar alguns. Mas, e se for aí que estiver a essência da degradação?

Que ganhem. Que ganhem muito. Que mudem as leis. Que os salários dos representantes e parlamentares sejam bem próximos do absurdo. Não exigirá nenhum esforço. Que se aparelhe o Estado com parentes, amigos e simpatizantes da causa. Que se rateie o superávitdos negócios públicos. Mas queremos uma contrapartida. Uma única exigência. Façamos dela um dogma: exigir gerenciamento eficaz da República.

Mas isso já é pedir muito.

Tags: estado, governantes, kiev, le pen, putin, república, vladimir
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