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Kepler 452 (blog Estadão)

Caros habitantes,

Queríamos dar as boas vindas para todos neste dia histórico. Aviso que estamos usando o tradutor automático para 214 línguas.

Nenhum antigo parece ter valorizado suficientemente aquela previsão. Na verdade, grosseiro erro de estimativa, pois era mais do que uma advertência. Foi tomada como desafio moral. Inútil, diziam todos eles. Mas isso foi antes do grande incêndio. Hoje, daqui, podemos enxerga-la com telescopia de lentes de água e vapor solar. Em tese, com a aceleração linear, alguém poderia, caso ousasse, voltar e atingi-la em 1.400 anos luz. Ou, se preferem, na velha cronologia, em 236 anos, 22 dias e 18 horas.

Obviamente, como ninguém desconhece, isso está fora de questão por toda contaminação atmosférica e pelo deslocamento do eixo magnético. Sem contar o aquecimento e a radiação. Sim, aquele sol minúsculo nos impediria pisar ali, naquele que já foi um solo fecundo segundo os arquivos e as poucas marcações que restaram da biopaleontologia. Ninguém a deseja mais a não ser por uma estranha nostalgia. Nunca se esquece de um berço. Não se pode desprezar aquela que foi objeto de todas nossas especulações e depositária dos desejos da espécie até não muito tempo atrás.

Quem poderá esquecer as amostras que hoje preservamos no Museu Copérnico II? As experiências de desmaterialização no eixo polar? A concentração de verde no hemisfério sul? A extração recente dos painéis de sondas e embarcações perdidas em missões frustradas (na época de combustível liquido fóssil) são um patrimônio da memória. Muitos eram, assim como em nosso velho mundo, a favor da destruição desses registros de memória. Congratulemo-nos todos já que a argumentação não passou nos testes dialógicos.

A energia dos núcleos como armas não poderá mais ser esquecida. Nossa responsabilidade deixou de ser só com aquele sistema solar, hoje obsoleto até a órbita de planeta com a grande tempestade, graças aos nossos erros. Neste ano 127 da novíssima experiência humana, podemos avaliar retrospectivamente o que fizemos com o velho habitat e evitar amanhãs de erros antigos. Por isso, é com grande alegria que inauguramos este memorial na via Kepler com a famosa frase do escritor Arthur C. Clarke (infelizmente, profissão quase extinta nesse nosso novo mundo, que apenas ameaça renascer)

“Os dinossauros desapareceram porque não tinham um programa espacial”

Via Estadão: Kepler 452 – http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/kepler-452/

Legalidade

Legalidade.

Legalidade

A legalidade

legitimidadeXXX

Quem ouviu  soube. O que se passou nos últimos dias é mais que simbólico. Aqui na CPI, Viena ou Atenas. A legalidade transformou-se numa embarcação que não pode mais ancorar. Isso durará mais do que o previsto. Enquanto as velas se distribuírem pelas marés, enquanto estivermos à deriva, enquanto a agitação exceder a orientação, enquanto a carta náutica modular a dissipação, enquanto a tormenta for maior do que os ventos, enquanto a vida ameaçar o consenso, enquanto a decisão de um, solapar o combinado com tantos outros. O compartilhado à muitas mãos. Blefe rima com esquece. Legalismo não pode ser  oratória, nem persuasão stricto senso. A legalidade se transformou num conjunto de regras. Ainda bem. Mas é igualmente impossível esquecer que há uma legalidade sem credibilidade. Se há excesso ou déficit, ambas fabricam distorções progressivas e insanáveis.  O que esta em questão na governança é bem mais do que o jogo perigoso num jogo de futebol. A falta costuma ser evidente. Já jogo perigoso é a intenção deletéria, cuja penalidade é feita com cobrança livre indireta. O legalismo não pode disfarçar nem a falta grave, nem o jogo perigoso. Ou tergiversar não é uma outra forma de obstruir a justiça?

A legalidade é contra o senso comum. Não pode emergir da criatividade, da engenhosidade, do desejo de fazer justiça a qualquer preço.

O Estadista não pode achar, nem por um minuto, que seus êxitos se devem à retórica. Todo triunfo de um líder, deveria ser, por natureza, essencialmente coletivo e não populista. Ou com tudo pelo qual estamos passando alguém ainda acha que deveríamos preferir quem argumenta melhor aquele que emana confiança? Acordos podem ser costurados na base da verificação, mas confiar continua sendo  essencial. Se ainda estiver por aí, a história será o juiz no caso do acordo nuclear. Mas não importam esforços diplomáticos de adiamento, ou a misericordiosa paciência dos aitolás: há jurisprudência histórica suficiente para demonstrar que acordos mal traçados são muito mais nocivos que um status quo incerto, mas que preserve a vigilância e o alerta do mundo.

Aqui ou na Europa, extremas, direita e esquerda, abjuram posturas de centro. Preferem convicções à dúvida. Fieis aos pressupostos, devotos da ideologia, escolheram não pensar para se alinhar. Se as motivações são claras, as consequências, imprevisíveis. A imposição de qualquer revolução é um novo status quo, o qual os extremos partilham intencional ou involuntariamente. Quanto pior, mais generalizado, mais embaralhado, mais fácil manipular.

Fica claro que existe mais de uma forma de romper com a ordem regimental ou readequá-la. Melar operação e ajeitar a votação são sinônimos. Consequências diretas das rupturas anteriores, onde o culto à personalidade sempre vale mais do que as Instituições. Entrar para a história é mais cobiçável que promover justiça. Quem vibra com exceções são os mesmos que as abjuram. São tentativas de sacrificar o diálogo pela imposição adocicada de opiniões e gentilezas. A acusação de seletividade vale para qualquer lado, apenas que o objeto selecionado continua valendo. Não pode ser apagado por quem, à contra ordem, quer anular um pelo outro. Doa a quem doer, não era esse o slogan?

Séculos foram necessários para que que conquistássemos o estado laico e mais uma eternidade para que a academia não fosse apenas uma plateia de doutrinados acríticos. Conquistas que, lentamente, definham no esteio do desprezo pelas culturas e tradições. Um fordismo afoito tomou conta dos procedimentos políticos e uma animação suspensa vigora no mundo. Nessa, uma linha de montagem onde todos carimbam automaticamente, contra ou a favor.

Ninguém confunde política com partidarismo numa terra onde todos deslizam juntos. Porém, para infortúnio de muitos, a figura chamada “escala” subsiste. Há um “quanto” para qualquer sociedade e essa enormidade de malefícios acaba de chegar aos destinatários; só o remetente ainda não se deu conta que já foi.

Tabu, ou, o politicamente correto (Blog Estadão)

irrelevante

O politicamente correto pode conservar o nome, mas talvez não seja político, nem correto. Pouquíssimo dialógico, produz mais dissonâncias que aproximações. De obras de Monteiro Lobato banidas ou censuradas nas escolas por supostos trechos racistas até a cartilha subsidiada pelo MEC com erros crassos propositais para não criar “constrangimento” em quem têm dificuldades no uso da língua, o politicamente correto se transformou numa bandeira com um simbolismo inquietante.

Chegamos a um mais do que improvável paradoxo: o senso comum não tem muito mais para oferecer, enquanto uma enorme quantidade de percepções e pensamentos precisam ser coibidos em nome de uma espécie de consenso que é apenas uma suposição apriorística, um tabu.

Foi a recente frase do Nobel de medicina sobre as peculiaridades de trabalhar com mulheres em laboratórios que gerou outro quinhão histérico de litigantes. Mas, o curioso, é que não se trata de extrema suscetibilidade, mas, antes, de um ilícito subjetivo cometido contra um glossário fixo e predeterminado. A intolerância de gênero, se é que aquele Dr. realmente externou algo assim, não é só dele. As redes fervilharam com ataques, às vezes contra uma opinião insossa e irrelevante. Quando há algum mérito no que foi pronunciado o que valeria a pena discutir é a opinião, não se ela está ou não na lista de frases que podemos aceitar no concílio imaginário que demarca a fronteira entre correto e incorreto. Neste sentido, é a hipocrisia pactuada e um maniqueísmo primitivo, disfarçado de debate democrático, quem comanda o cenário. O mesmo se deu até pouquíssimo tempo quando se discutia se algum governante poderia sofrer impeachment, deveria renunciar ou se novas eleições mereceriam ser convocadas. Por sinal, o que importa se o ex-apresentador conhece ou desconhece o cantor morto?

A onda é ampla e infame, sobretudo preconceituosa. Exemplo recente está naqueles que recentemente aderiram à campanha de ex roqueiro do Pink Floyd, que, pretendendo isolar Israel, fez uso seletivo e arbitrário do conceito de discriminação étnica. É só mais uma amostra de pactos baseados em insuficiências e inconsistências. A velocidade das transmissões e retransmissões na web, confronta a reflexão. Acusações de superfície, vazamentos e insinuações caluniosas operam o mesmo estrago que fatos ou evidencias significativas. E assim, a sociedade vai caminhando com construção de estereótipos nocivos, contando com ampla e impressionante aceitação, impulsionada através das replicações acríticas nas redes sociais e na mídia. Ao largo da aceitação das diferenças, a onda de tabu endossa o racismo com destaque para o especialista: o partisã de boatos. Subordinar ideias à difamação ou reduzir alguém a nada em algumas horas, por uma frase, uma entrevista ou um pulso no Twitter, mostram a velocidade e denotam a pobreza cultural contemporânea.

São exatamente os mesmos que julgam terem construído consensos aqueles que mais se mostram violentos quando alguém trata de explicitar quão diferentes somos. Eis o supremo paradoxo: na linguagem politicamente correta as diferenças estão proibidas, e é a sua explicitação que dispara sinais eletrônicos que acionam o bullying tolerado. A luta de classes migrou, por caminhos inusitados, para um estranhamento mútuo das peculiaridades, de pessoas, grupos, nichos e raças. E a desinibição propagada através de perfis falsos, anonimato ou a certeza de impunidade, produzem legiões de franco atiradores digitais. Recrutar terroristas, convocar gente para qualquer tipo de ação nas ruas ou simplesmente entrar atacar e sair, tornou-se uma vulgarização pop. Às vezes, bem remunerada. Até a Grécia, em sua luta anti austeridade entrou na frequência. Uma coalizão de articulistas pelo mundo tentou mostrar como a luta grega é justa (politicamente correto) contra terríveis agentes capitalistas selvagens (politicamente incorretos), quando qualquer aluno mediano do segundo semestre da graduação de um curso de economia poderia nos contar algo mais interessante. Nas políticas de Estado não existem mocinhos, tampouco algozes. Neste sentido, o que o politicamente correto faz é sequestrar a discussão por um punhado de convicções anacrônicas e sustentadas pela manipulação eleitoral.

O ambicioso conceito de cidadania, amplamente evocado mas efetivamente inexistente no mundo prático, exige cimento mais consistente do que campanhas motivacionais, academias ideologicamente comprometidas ou governos com aspirações totalitárias. Exige, bem ao contrario do politicamente correto, um exame escrupuloso dos conteúdos da linguagem e suas mensagens: superar a imobilidade dos tabus.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/tabu-ou-o-politicamente-correto/

87% (blog Estadão)

Paulo Rosenbaum:

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conto de notícia, Pt e Psdb, redução da maioridade penal

Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada na linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois anteontem o ministro não interferiu na votação da redução da maioridade, insinuando que a votação abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E, enfim, mais alguma voz da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão que se arrasta desde 1993 não é só anacrônica e inoportuna, ela é, no fundo, recheada pela disputa entre dois partidos.

Sob o calor do clamor dos 87% a favor da redução da maioridade e sob a sombra dos míseros 9% de aprovação da presidente, a discussão — que acusava o tempo todo o senso comum como mau conselheiro em matérias legislativas — não passou exatamente de exposição de sensos comuns e chavões revestidos de estatísticas contraditórias. Chamava a atenção a pobreza absoluta do debate argumental, que se limitava a “se aqui estivéssemos”, “se a educação prevalecesse”, se “o governo fosse outro”. A inoperância nostálgica induziu uma paralisia crônica. Aparando os figurinos, a dicotomia entre PT e PSDB parece ter determinado ao parlamento a aniquilação de requisitos básicos para formular leis, tais como racionalidade e estudo.

Ainda assim, o partido do poder têm sido o grande responsável pela obstrução de tudo que se refere à modernização dos costumes. Durante décadas obstruiu a atualização do ECA, suprimiu o orçamento da segurança pública, relegou a educação à undécima prioridade. O partido, que sempre se perdeu no timing, paga pela inércia, e, sobretudo, pelo oportunismo. Quanto às “manobras” prova apenas uma fração do veneno que semeou. Agora, em pleno incêndio, resolveu dialogar e se mostra artificialmente indignado sob o lema cabotino “por que tanto ódio?”. Ódio é uma coisa, desejo furioso por justiça é outra.

Percebe-se que o parlamento não está de fato interessado nos temas que afligem os jovens, nem em esmiuçar as raízes da guerra civil ou examinar formas de controle da violência. A impressão que dá é que os dogmas, sob desfile de cláusulas pétreas, tenham que ser repetidos à exaustão para que eles mesmos se convençam de que sabem sobre o que estão falando. No final, consegui formular um voto heterodoxo: a favor do aumento da maioridade mental, mas só para cinismos hediondos.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/87/

Publicado originalmente em Paulo Rosenbaum:

Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada na linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois anteontem o ministro não interferiu na votação da redução da maioridade, insinuando que a votação abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E, enfim, mais alguma voz da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão…

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