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A paz começa com perguntas ( Blog Estadão)

A paz começa com perguntas

Paulo Rosenbaum

terça-feira 22/07/14

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da [...]

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da população de ataques violentos. Para quem quer discutir a questão do ponto de vista legal, leia o artigo de Christopher Greenwood, “Self Defense” na Enciclopedia Max Planck de Leis Internacionais. Num País com democracia estável e com muitas vozes, a praxe é falta de consenso. Isso colocado, a demonização a qual Israel — e, por tabela, judeus — estão sendo submetidos só não é sem precedentes, porque o holocausto é, em termos históricos, um evento recente. Não bastasse a desproporcional quantidade de citações desqualificadores de Israel nas redes sociais e na mídia, o abuso de comparações descabidas, o discurso agora está centrado na ideia de que a injustiça está na desproporcionalidade das forças. Só por má consciência, ignorância ou incapacidade intelectual de discernimento um País que tem um milhão e meio de árabes israelenses, a maioria muçulmana, poderia ser acusado de limpeza étnica ou genocídio, sem gerar escândalo. Mas não só ele não aconteceu como a acusação vêm sendo replicada e endossada por intelectuais. A maioria são aqueles de sempre, que tem uma militância (desconfie sempre deste gênero) que parece apagar os traços de treinamento na arte de pensar. Essa situação chega a ser mais grave do que a própria guerra, porque reedita o apoio aos períodos em que os povos eram ritualisticamente demonizados. Para a maioria, a distinção entre antissionismo e antissemitismo tornou-se apenas retórica. Entretanto, quem precisa ser convencido da desproporcionalidade não são as forças de defesa de Israel, mas as lideranças que se ocupam em espalhar o terror. Quem contesta, que então defina melhor: o que significa construir túneis embaixo de hospitais, mesquitas e centros residenciais? O que representa para essas pessoas manter foguetes nos céus dirigidos especificamente contra populações civis? E é precisamente esse o ponto central. Muito provavelmente Israel aceitaria o cessar fogo e a abertura de fronteiras. Desde que se garantisse que o fluxo de armas, mísseis e material bélico fosse substituído por alimentos e infra estrutura para os habitantes de Gaza. E quem pode garantir isso? A ONU? Os EUA? Os países da Península? A Comunidade Europeia? Ontem, um dos líderes do Hamas condicionou a trégua ao direito de resistir. Chegaríamos ao seguinte paradoxo, e preparem-se para o nonsense: reivindicam do algoz a liberdade de obter aparatos e tecnologia bélica para ataca-lo. Curiosamente, Israel vem sendo pressionado neste sentido! Mesmo correndo o risco de ser deslegitimado, a contradição apontada tem a estranha mania de sobreviver às personalizações. É inusitado que os esforços pela legítima defesa dos civis de um País sejam colocados em cheque, só porque no imaginário social os habitantes deste País tenham propensão ao sacrifício diante de quem explicita seu desejo de extermínio.São tempos nos quais já é impossível acreditar que quaisquer esforços racionais sejam suficientes para demover quem já tem todas as respostas. A paz começa com perguntas.

Torto (Blog Estadão)

Querido presidente, hola, que tal? Bien, bien, y usted? (sacodem-se pelos ombros e encostam os rostos para falar mais baixo) Melhor hablar el português acá! Seguro comandante! Me entendes, não? Perfectamente! Que lugar rico! Es nuestro? Praticamente! No era el palácio brasileno? Querido, no se deixe enganar pelas aparências Não houve protestos? En mi [...]

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Querido presidente, hola, que tal?

Bien, bien, y usted?

(sacodem-se pelos ombros e encostam os rostos para falar mais baixo)

Melhor hablar el português acá!

Seguro comandante!

Me entendes, não?

Perfectamente!

Que lugar rico! Es nuestro?

Praticamente!

No era el palácio brasileno?

Querido, no se deixe enganar pelas aparências

Não houve protestos? En mi País teríamos que usar as milícias.

Não, não, ninguém se molesta aqui, e ainda fizeram chistes, uma piada

Ah, sim?

Sabe como justificaram?

Não faço a menor ideia!

(aproximam-se de novo)

Disseram que era por reciprocidade!!

(gargalhadas abafadas, que depois se expandem e perturbam os seguranças armados)

O que posso fazer por você, Huguito?

Não está mais aqui, agora sou eu, Nicolas

Claro, claro, perdão.

Precisamos de mais gente, agora esta mui difícil. Sabes que a oposição está achando que tem direito de protestar?

Mais hombres? Já são mais de 50 mil !

Mire Raulzito, nunca poderíamos imaginar que maquiar la democracia desse tanto trabalho!

Ustedes seguem a cartilha? Falaram sobre a democracia direta? Criaram conselhos populares?

Sim, claro, modelos de soviets?

(Raul se afasta, espantado com a impudência)

Não pronuncie nunca esta palavra….

Desculpa, chefe.

Aqui a palavra chave é mais: lance lá o programa “mais instructores militares”

(Nicolas se esforça para estampar uma cara pensativa)

Não compreendo, comandante.

No importa. Temos eleições com uno solo partido há mais de meio século, e, mire, como estamos bien.

Também tentamos, mas ainda tem jornais que não controlamos.

(Os dois balançam a cabeça em desapontamento)

É essa coisa de liberdade atrapalha muito. Por que não faz como los hermanos daqui: “controlar a mídia”. Tenemos mucha experiência neste campo.

Por isso que vim, comandante!

(Os dois batem continência e saem para passear pelo jardim e deparam com a placa “Residência oficial do Torto”)

Comandante, o que significa torto?

(O dirigente para, coloca as mãos para trás, dá de ombros e continua andando até se voltar e explicar)

Algum significado místico.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/torto/

Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

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E agora, amanhã? (Blog Estadão)

Desconfie dos estereótipos. Árabes e judeus são péssimos negociantes. Tudo bem, o Brasil pode ser mais desta vez uma exceção. Sem ofensas. Leia até o fim que tudo será esclarecido. Por que as análises do conflito atual entre Israel e o Hamas se pautam pelo imediatismo? Quem não sabe que paz é raridade e a guerra é uma aporia obtusa? A cena é a mesma: parte do mundo árabe demonizando judeus. Israelenses pedindo a retomada de Gaza. Todos sabem berrar quando não querem conversar. Testemunhei o estupido crime premeditado dos três garotos. Suportei a vingança imbecil de guardiões religiosos que queimam pessoas vivas. Quando ontem Israel enfim aceitou o cessar fogo costurado pelo Egito – que oportunidade – algo precisava ser feito para esfriar a retórica contra o Estado judaico. Até antes de ontem era a resposta aos foguetes desvairados a causa do problema. O aforismo é correto: a primeira vítima da guerra é a verdade.

Li sobre a convocação de ódio aos judeus em Paris, Frankfurt e Cairo. Será que o crematório ainda está fresco? Não foi o suficiente? Dentro ou fora, Israel ainda é o único Estado que tem sua existência questionada. Isso já seria escandaloso. Judeus não podem mais aceitar imolação. Basta a culpa ancestral, a carga auto imposta, relembrada de tempos em tempos. Não é escolha, é reafirmação moral: judeus não podem perseguir nem permitir que alguém seja. Por isso, torna-se insuportável que as imagens descontextualizadas deturpem a realidade do solo. Muitos insinuam, mas não se sustenta dizer que o lugar histórico encontra-se invertido. Bancar o opressor não combina com os fundamentos éticos. Não faz sentido. Mas quem liga?

No documentário da HBO cinco chefes aposentados do serviço secreto de Israel, o Shin Bet, declararam que que não há solução militar. São acompanhados por generais de peso. Serão despreparados? Agentes duplos, infiltrados? Devemos ir para bem além do militar: talvez nem mesmo haja possibilidade de cura social, política ou espiritual.

Mas se todos compreendem que aprumar as coisas através das armas jamais funcionará, não teríamos de cara um desses milagrosos consensos?

O conflito atual está com os dias contados. A pergunta vital passa a ser: e agora amanhã? O que podemos esperar desta geração de israelenses e palestinos? Minha hipótese destoa. O fanatismo jihádico ganhou proporções irreversíveis. Boa parte não poderá ser dissuadida. Não, não é bem isso que amarra os acordos. Há um elemento oculto, inconsciente, subliminar que poderia ser apelidado de fobia à emancipação. Palestinos dependem demais dos assim chamados algozes para assumir sua independência. Por sua vez, Israel não consegue uma diplomacia sagaz e ágil. Teria que contar inclusive com alguma densidade psicoterápica. Para negociar sim, o que mais? Negociantes é o que precisam agora ser. Agora! Essa é a única perspectiva remanescente de viabilidade ou não daquelas terras. Mesmo santas, abrigam mais sangue do que todos os homens juntos podem suportar. Falcão contra falcão nunca gerou diálogo, canibalismo no máximo.

Antes das acusações: não me identifico com um pacifista entreguista. Recuso ser confundido com traidor da etnia ou pária que vira as costas à tribo. Isso aqui é só alguém tentando respirar em meio à asfixia generalizada.

Discordo de muitas teses defendidas por Amos Óz, mas ele tem razão em uma coisa: quem dera limitássemos as escaramuças às brigas de fronteiras, picuinhas entre vizinhos, ofensas entre embaixadores. Para isso, deve haver alguém generoso. Alguém que convença a parte resistente que deve aceitar os riscos da emancipação. Será duro crescer. Imensamente sôfrego depender das próprias pernas, mas o resultado final é que precisa ser enaltecido: o nascimento de duas Nações inteiras.

Considera-se covarde achar que não existem outras formatações possíveis para lidar com o conflito? Então, daqui assumo: sou o tal pusilânime. Se o País dos sabras é só para durões, talvez eu não seja um deles. Mas o gabinete deveria considerar que talvez os judeus da diáspora tenham alguma razão. De longe, pode surgir uma perspectiva mais razoável no horizonte. A obrigação de ser mais tolerante não comporta renunciar à autodefesa, mas pragmatismo para construir laços de confiança. E se for urgente chegar à paz de qualquer maneira? Não importa como, nem com quem. Que seja o inimigo que aglutinou os defeitos do mundo, ou o menos confiável dos habitantes. A outra alternativa é que os papeis da história podem se dar ao luxo de desfilar até o fim do abismo com a humanidade se encolhendo e desviando o olhar. Todos nós vamos passar, mas se nada for feito, é o mal-estar que fica para a semente. Sigamos Martin Luther King, já que ainda ninguém ousou caçar o direito de sonhar: e se essa não fosse só mais uma guerra para dar lugar a outras? E se fosse a última?

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Outras melancolias (Blog Estadão)

Palavras se impõem. Predominam, apesar dos fatos. Para além deles. Nem sempre designam o que os vocabulários exigem. São polissêmicas , transbordam dicionários. A melancolia (do grego, melakhole – bile negra, um dos quatro temperamentos) passou a ser a tradução do amargor pelo futebol no país da copa. Capa das manchetes. Não me refiro às rígidas categorias psiquiátricas. A depressão é cerebral, a saudade, anímica, a melancolia visceral. Mas, e as outras melancolias? As mais dignas de menção. A melancolia da política, ou de sua falta. A melancolia da rotina, sem jogos, o cenário lugar comum. A melancolia das guerras, que substitui razão por bile. O cinza pelo escarlate. A melancolia da poesia, para Goethe, vital. A grande melancolia, ainda não mapeada. A que se acha nos escritos de Jane Austen “uma cara agradável, e um ar melancólico”.A que enfoca a vida. A que rompe o automatismo. A melancolia da contemplação, do afastamento, do narcisismo, do enxergar que não é só isso. De que não é por ai. A melancolia das aberturas, do vazio que confunde, das ausências. A melancolia de fundo, a apreciação mais lenta, das balas perdidas, do choro hesitante, do soluço esparso, da beleza latente. A umidade dos dias, das tardes ociosas, da secura do ar. A melancolia como força de mudança, de esperança, de autenticidade. A melancolia da energia perdida, das manifestações rasuradas, da falta de consenso. Da educação transformada. Do país justo. Do planalto renovado. Da alegria contida. Da euforia gotejada. Das calçadas arejadas. A melancolia dos espinhos, dos parques, dos vinhos. A melancolia que não é ainda tristeza, flutua, no meio fio da incerteza. A melancolia do pensamento que criamos a todo momento.

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Catatonia (blog Estadão)

Catatonia

Paulo Rosenbaum

Convenhamos, o time não era só fraco. Mostrava inconsistência, falhas e insegurança. Não se trata se enxergar cada um dos jogadores – neste torneio o segundo conjunto mais caro do mundo. Falamos de time. Mas a palavra essencial que pode ajudar a entender o transe no Mineirão. Está no relato de uma testemunha ocular da antológica final no Maracanã em 1950: este narrador chamou de “catatônico” (catatonia – do grego katátonos – forma de alienação com tensão permanente de certos músculos) o estado do time, depois que Alcides Ghiggia desempatou a partida.

No caso da atual seleção, o colapso emocional, a derrocada psíquica, de qualquer forma a catatonia, começou muito antes da joelhada. A maioria dos analistas mostrava cautela, mas foi patente o usufruto político que a administração federal e o Partido, sem trair seu estilo auto-referente, vinha fazendo com tudo que se referia à Copa do Mundo.

Descontrole das contas públicas, inflação, aparelhamento, queda do PIB, controle da mídia, a retração dos investimentos e o desejo por supremacia estiveram na ordem do dia da opinião pública, até que, para alívio do Planalto, vieram as partidas. Um stand by geral, tudo suprimido pelo entusiasmo da maioria da população. Muito antes da estranha partida contra a Alemanha, o País já havia sido subjugado pelos cartolas da FIFA. A entidade sem fins lucrativos mudou leis, fez exigências, impôs padrão, regras e preços. Insinuaram até que tirariam o time de campo. Reação? Nem um pio. A Associação foi amplamente atendida, em tudo, ou em quase tudo. Por que um governo, reputadamente presunçoso, se curvaria com tanta presteza? Medo de perder prestigio? Antecipação do potencial cacife político se tivesse dado certo? Obediência tácita? Subserviência estratégica? Sempre houve uma ligação mesmo que não houvesse uma linearidade óbvia com as pesquisas eleitorais. Estava funcionando.

Como anotou Dora Kramer sem sua coluna, quase 90 dias separam o fim da Copa das eleições, e o povo não é bobo. Mas eis que surge o imponderável. As tais fatalidades, que é como por aqui nos referimos aos acidentes evitáveis. Ai chegou a vez dos locutores, que, assumindo a missão do patriotismo pecuniário, puxaram o coro de ofensas. Juntaram-se ao ex-presidente para promover agressões indiscriminadas: pagantes nos estádios, quem vaiava, críticos do time, descrentes da capacidade técnica, e aí foi um passo para reuni-los todos: golpistas e desgostosos com o regime. O ufanismo atingiu o apogeu com jingles insuportáveis criando uma parodia com o aforismo da ditadura “torça ou deixe-o”. Até que colou. Durou pouco. Até que acontece a tragédia do desabamento do viaduto. O desastre catalisou a ruína, que veio em cascata. A partir dai era como se a maquiagem estivesse se denunciando: melhor parar de operar sob escoras. Toda improvisação é fugaz e enganosa. Foi como se o jogo oculto tentasse se auto elucidar. Por qual acaso os esportes seriam os únicos poupados em meio a um clima tão desfavorável? Foi ali, naquele exato instante, que essa seleção perdeu todas as chances. Com o simbolismo em frangalhos e com a tática de um técnico de competência ciclotímica, fomos humilhados. Menos pela Alemanha, do que por golpes da manipulação política.

Há mais mistérios nessa vida do que supõe o senso comum, mesmo assim alguns podem ser esclarecidos: o futebol foi a mais recente vítima instrumental desse governo.

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