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Teatro do Opressor (blog Estadão)

OpressãoXXX

Indique-me um, apenas um. Alguém que enxerga com clareza. Que distingue o rigor do emaranhado. Que não foi cego pelo excesso de interpretações. Quem se exaspera em uma democracia? Aqueles que governam? Quem fala tua língua? Quem ilude a montante? O jogo de cena chegou ao fim do tablado. Agora teremos que aceitar, de qualquer forma assumir: estamos rigorosamente sós. Sós, não porque não haja mais gente com a mesma sensação. Não porque estamos no mesmo espaço e sob o mesmo desamparo.  Sós, porque nossos dias estão sendo gastos num horizonte avesso à fusão. No planalto sem relevo. Na rota costurada por quem não se importa. Se as instituições subsistem é à nossa revelia. Se nunca nos arrependêssemos seria nosso dever e obrigação, perguntar: como deixamos chegar a este ponto? O silencio indica uma sociedade sem audição. Rendida ao berro crônico. Pois o recesso não é mais do parlamento, o clima é de cancelamento geral. Fomos apresentados para um outro carnaval. Não queremos mais ouvir, decerto nem ver. O que será que nos paralisou? Estreitamento, mesmo os mais entusiastas podem precisar conceder. A pátria, postergacionista, induziu alienação, revolta e submissão. Por isso não se enxerga mais meio do caminho. Qualquer trilha é precária, derrapante e insegura. As clareiras, rondam brasas. Os atalhos, tomados pelo reducionismo típico. Na performance do governo, a instalação provisória. Nós, civis amadores, gente que até esteve confiante, quer vencesse um ou outro, pouco importa, perdedor ou ganhador, iriam ambos, em nossa imperdoável ingenuidade, nos assegurar a vida. Mas a República, recém dilacerada, foi entregue à legião de anti ourives. Regressamos ao beco, de onde nunca pudermos sair. Uma quadra atacada pelos vícios da violência. Cercada pelo império do descuido. Sitiada pelos maestros do descompasso com seu orgulho sem sentido. Podemos ter falhado, decerto capitulamos impotentes frente à estupidez. Sem dúvida, alimentamos a anomia com nossa mania por desmentidos. “Não, eles não fariam isso”. “De forma alguma ousariam”. “São alarmismos, invenções e disparates, ninguém subjugaria todo o Estado”. Pois é por isso mesmo que persiste a esperança. O paradoxo não poderia ser mais brutal. Na aceleração de um blackout moral e no empuxo de um abandono sem precedentes, uma forma toma corpo. Sem nome e sem passado a responsabilidade pessoal, irrigada pelo colapso, pleiteia espaço inédito. Em meio aos disparates e às buzinas acabaremos reencontrando a voz que sufocáramos. Uma resposta aos enganos. Aprendizado doloroso, ética parece discurso desqualificador. Será portanto um carnaval único, reconstituído a partir da incompletude das cinzas. O trajeto não será longo, na verdade, seguirá breve. Da paralisia à alegria, o bloco partirá rumo ao desconhecido. Se alguém ainda se preocupa com os solavancos basta levantar do trem para enxergar o que já deixamos para trás. É pouco provável que alguém se arrependa. E, mesmo que sim, o destino, que não costuma ser revisionista, decretará o recomeço. Trilhos não faltam.

Reblog – A Dor merece nosso constrangimento

A Dor merece nosso constrangimento

Paulo Rosenbaum
Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro presidencial nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.
 
São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.
 
A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.
“Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana”
 
Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?
 
Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.
 
Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
 
Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe. Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.
 
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos terá status de lei.
“Podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Mas crematórios, não”
 
Na hora dos massacres a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.
 
Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.
 
Publicado no Jornal do Brasil em 2013
Cronologia de erratas (Blog Estadão)

Cronologia de erratas

Paulo Rosenbaum

25 janeiro 2016 | 10:31

Onde se lê “Ela fica”, leia-se “Ele vive”. Onde se “Ele vive” leia-se “o golpe foi vosso”. Onde se lê “vosso” leia-se “o que é isso companheiro?” Onde “se lê  “companheiro?” leia-se “não morderemos tua isca”” onde se lê “isca” leia-se “ninguém vai melar” Onde se lê “melar” leia-se “o que está em curso não tem mais volta” Onde se lê “não tem volta” leia-se “e não é ressentimento”. Onde se lê ressentimento leia-se “a justiça persiste”. Onde se lê “justiça” leia-se “nas democracias, o fim de ciclo não é vingança”, onde se lê “fim de ciclo” leia-se “ninguém é intocável”.

Mas imporemos particularidades: onde se lê “ninguém é intocável’, leia-se também “toda tragédia tem um sentido, a regeneração é dolorosa”. Mas se a esperança surpreende é porque brota do desespero. A oposição seremos nós. Como a história não comporta nem “nunca antes” nem “para sempre”, podemos estar testemunhando a maturidade: a renuncia ao vício em heróis e vilões.

Então talvez agora seja possível, ainda que improvável, que da mais dissimulada opacidade nasça uma transparência difusa.

 

Política não se discute (blog Estadão)

Política não se discute.

Paulo Rosenbaum

20 janeiro 2016 | 13:13

Não_se_discuteX_

Bom dia, para onde vamos?

Bom dia, toca lá para o centro por favor.

Tem um caminho da sua preferência?

Marginal, a faixa do centro está sempre livre!

Isso ai não posso discutir.

Perdão?

O senhor falou de marginal, faixa do centro livre.

Exato!

Prefeito proibiu assuntos polêmicos.

Que?

Não podemos dar trela para os assuntos políticos.

O Sr. esta bem? Estou falando de transito!

Começa assim, depois ninguém sabe onde vai parar

Céus!

Religião também não pode.

Isso é piada.

Humor pode!

Filho, dirija, prometo que fico em silêncio.

O Sr. é fiscal?

Fiscal?

Dizem que colocaram espiões.

(Sussurra e faz mímica indicando ausculta no veiculo)

Chegamos a isso!

O Sr. me desculpe! Olha aqui.

O que é isso?

O cardápio de assuntos permitidos.

Cardápio?

Desses podemos falar, escolha um.

(murmúrios inespecíficos)

Então este aqui. (suspiros) Já ouviu falar do “Os Lusíadas”?

Literatura? Infelizmente não entendo nada.

Então este aqui!

Bom. Esse é a melhor coisa para fugir desses políticos.

Receita de bolo?

Receita de bolo!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/politica-nao-se-discute/

 

 

 

 

Sobre a resistência da Laje (blog Estadão)

 

Sobre a resistência da laje

Paulo Rosenbaum

13 janeiro 2016 | 13:27

Leio colunistas que torcem a pena para encaixar suas teses sobre o problema da militância deste governo contra a política de outras nações. Por mais objeções que alguém tenha à política interna de Israel fica patente a particular má vontade com que este País é tratado por este governo. Claro que nada disso indulta a reatividade imatura da chancelaria israelense, a qual, sempre que pode, morde a isca. Mesmo porque, quando se trata de jogo de cena é impossível competir com o partido.

E aqui o simbolismo digno de apreciação: o que os países livres representam para a perspectiva lulopetista de mundo?

É equivocado nomear a atual gestão de antissemita: hábeis e múltiplos dissimuladores se escondem hoje sob o manto do antissionismo de ocasião. Para um governo que prefere ditaduras de corte pseudo marxista e autocracia de aiatolás a uma democracia estável, ninguém pode se espantar quando indisposições artificiais com outros países são criadas por supostas diferenças ideológicas.

O problema central do lulopetismo e de seus apoiadores portanto, é com a liberdade de expressão. E não se pode mais considerar só oportunista o endosso tácito dos intelectuais orgânicos do partido a esta e outras celeumas menores, quase todas destituídas de relevância.

O fato é que as manobras diversionistas protagonizadas pela atual gestão federal para sair das cordas atingiram proporções esotéricas. Precisamos ser intransigentes quando se trata de tentativas de adulterar as regras em pleno andamento da partida. Pois é exatamente isso que o Partido, simulando legalidade, vem fazendo não só com os dispositivos constitucionais, mas principalmente com o abuso com que lida com os recursos públicos. Penaliza o contribuinte para cooptar o apoio cada vez mais caro e escasso. Há quem finja não entender que as coisas caminham assim. O abuso e a manipulação com que o executivo vem operando para inabilitar, limitar, de qualquer forma engessar os outros poderes, ferem muito mais do que as normas operativas com o qual a República conta para não arrastada a um novo ciclo autocrático.

É preciso eliminar os meios termos quando se deseja esclarecer aos cidadãos o que se passa numa República temerária. Neste sentido, é que parece ser vital explicitar a fusão entre o sistema e todas as forças que o apoiam, contra os interesses da sociedade civil. Só assim estaremos preparados para que os sinais não sejam tomados como carapaças e as tergiversações de praxe, como carapuças.

Cabe recapitular. A democracia não é apenas um conjunto de normas fixas, baseadas nas escolhas que sufragam nomes em eleições periódicas e sucessivas. O jogo democrático envolve regulações suplementares, sutis, baseadas no bem comum, direitos e deveres das minorias, mediados por acordos intersubjetivos. A transgressão desses dispositivos, coincide com a linha demarcatória entre Estado democrático de direito e outros regimes autoritários de governo.

É sob essa sobrevida selvagem diária, que este governo, desaprovado pela maior parte da sociedade, finge ignorar o próprio estrangulamento.

As pessoas apenas se enganam quanto a provável origem do desmantelamento. Como toda jovem democracia que não se mobilizou preventivamente contra os agentes da perpetuação, a eficaz blindagem que construíram já atingiu algum grau de irreversibilidade.

Portanto, é razoável especular: de qual horizonte surgiria o defenestramento do mal feito organizado, que, por enquanto, nos administra?

Não virá de Curitiba. Nem das instituições. Muito menos da molecada remunerada que depreda sob demanda. Mesmo que a somatória dos fatores acima possa pressionar o resultado final, quem costuma dar desfecho para uma insustentabilidade política dessa envergadura é um outro fenômeno: autofagia.

O poder, fragmentado por contradições, disputas narcisistas, contravenções pecuniárias, e, sobretudo, preservação de pescoços, se dividirá progressivamente.

Isso, até que os últimos em condições viáveis despachem os demais. É então, que estes mesmos, num penúltimo ato e sem conflitos existenciais, costumam se arremessar sobre o telhado.

Nosso problema é saber se a laje resiste.

PS- Churrasco só amanhã.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/sobre-a-resistencia-da-laje/

 

 

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