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De @bengurion para @bibi (Blog Estadão)

26 janeiro 2015 | 14:07

debengurion

Bibi, na santa paz na qual me encontro hoje fui chamado às pressas. Amigo, esqueça memorandos e encare esta comunicação como um telegrama urgente. Não houve escolha: por aqui, quando te sacodem de madrugada, é como ser convocado. Enquanto era balançado me explicavam, amanhã faz 70 anos que as tropas russas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz.

Vim mais para ouvir, mas se você abrir uma exceção, uns conselhos. Nossa extraordinária desvantagem na mídia não pode servir como desculpa. Não, não, nisso estamos de acordo, as críticas mais benevolentes, da esquerda à direita, amiúde mostram pouca, vale dizer, simpatia por Israel. São vícios do discurso. Não compreendo também, há algo de irracional, inexplicável, atávico e insondável. Até já perguntei para a chefia, mas parece que o assunto é altamente classificado. Vai entender. Mesmo assim, há sempre aquela parcela que merece um “por que?” A direita sempre foi o que foi. Por que essa cara? Não tem nada de indireta. Falo como um velho socialista olhando nos teus olhos. Não é provocação. Aliás, como esses pensadores esperam credibilidade se militam no lugar de manter o foco na análise? Você acha que é a propaganda? É possível. Comentava com os companheiros de nuvem, nunca, nem na época mais fértil da minha imaginação, poderia conceber o retorno de um clima tão hostil contra minorias. O mal que considerávamos superado foi reativado, separatismo, intolerância e xenofobias. Desta altura, terrorismo parece um termo desgastado, mudem para inimigos públicos da humanidade. Na sigla ficaria IPH.

A Europa não aprende? Os algozes se reciclam? Se o nazismo tem uma nova cara é preciso arrancar sua máscara. A liberdade de existir não deve preceder a de expressão? É claro que com o volume de agregados antissemitas e anti-israelenses tenho dificuldade em enxergar a distinção entre uns e outros. De acordo, é só ver o que acaba de acontecer na capital Argentina. Vergonhoso, mas auto evidente. Ao fim e ao cabo, dá no mesmo. Se estou fechado com sua posição? Confesso que oscilo, concordo e discordo de sua condução política.

É claro que vejo o risco e compreendo a agitação. Ninguém por aqui quer que Auschwitz e as outras fábricas de extermínio sejam só símbolos da tragédia. E garanto, nem aqui nem ai vamos esquecer o que aconteceu. Nunca. Mas é que vendo da perspectiva que tenho hoje, o mundo mal começou. Prefiro que o Shoah se transforme em espírito de recuperação para toda a humanidade. Lembra-se? Nenhuma palavra será a última, muito menos o principio de todas as outras. Dialética é assim mesmo, mas quem entende? Pois deveriam, imagine uma civilização com o espírito talmúdico?

Não deboche deste antigo batalhador. Temos defeitos como insistem em apontar, mas que tal fazer valer nossas virtudes? A principal delas, subvalorizada. Ou você conhece alguém com nossa capacidade de superação? Fica até chato, mas qual povo duvida tanto de tudo? Nós, que superamos o conceito de blasfêmia e heresia, escolhemos o bom humor. Há outro nome para questionar o universo e arguir até a palavra divina? Não ficamos tentando achar novos sentidos para cada palavra? Pode ser irritante, mas cada povo com suas idiossincrasias. Com elas é que fomos nos tornando mais tolerantes. O que torna um País único não são decretos ou exigências formais, mas capacidade de conversar. Você está enganado. Não sou nenhum ingênuo colega. Sei que fanáticos não tem conserto, mas que tal prevenir conversões em massa?

Nem perguntei, ainda há tempo? Sei que está trabalhando no discurso para o Congresso.

Mais um minuto, bem conciso. Falo do status quo do nosso povo em nossa terra, mas falo principalmente do mundo atormentado em que vocês vivem. Você só quer o bem do povo? É o que todos dizem. Mas e se não for suficiente? Você enxerga a situação como um todo? Sabe desarmar os espíritos? É só isso que interessa. Não, não quero saber de chips, nem das últimas tecnologias da defesa. Certo, certo, abaixo do equador fale como revertemos a crise hídrica usando o mar. Escute mais uns segundos. Não, não falo dos profetas hebreus, nem de religião, falo de cultura e de homens de Estado. Gente palpável no agora. Quantos pensaram estar mudando o mundo? Mas cá de longe dá para ver, a maioria só administrou um status quo indesejável. Quanto desperdício de biografia. Há muita gente interessada em entornar o caldo. Não sabe o que é isso? Você?

É evidente que todos aqui apreciamos e achamos mais do que justa sua participação na marcha de Paris, mas permite? Aqueles acenos do pessoal da linha de frente pegou mal: não cabe aclamação no luto. Agora posso dizer o panorama que vejo ? O caráter judaico da terra não pode, não deve, ser dado por decreto. O que? Não, não, [riso rouco] nem sonho mais com paz. Minha fantasia recorrente é convívio tenso, mas justo. No estilo do pedido de Amós. Não, não o profeta, o escritor. Dois Estados, lado a lado, sem falsas identidades. Paciência eu tenho de sobra. A chefia reclama todos os dias “quando vão perceber que o oxigênio vêm da atmosfera comum?” Já que ninguém vai mesmo sair dai, que tal tomarmos a iniciativa e estabelecer as condições para que cada um ocupe seu lugar. Sim, ao sol. Nunca ninguém conquistou corações e mentes com chumbo.

Dia desses, no meio da rodinha enquanto jogava xadrez com Isahiah Berlin, cometi mais um daqueles aforismos: a melhor defesa é o ataque, diplomático.

Minha estima e votos de sucesso,

Shalom,

David

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/de-bengurion-para-bibi/

Somos os outros (blog Estadão)

Somos os outros

Paulo Rosenbaum

11 janeiro 2015 | 13:27

MarchaParis 

Para o escritor Victor Hugo, o valor mais importante da democracia é a solidariedade, e acabamos de testemunhar a maior manifestação desde o fim da segunda guerra mundial.  A avaliação histórica é retrospectiva, mas é muito provável que o futuro da Europa, e do mundo, pode estar sendo delineado nestes passos. E não é só pela “Marcha da Unidade”, é pela súbita e inesperada aglutinação de perspectivas. Políticos e povo na praça da República realinharam expectativas. Não é pouco. O símbolo é emocionante, independentemente do resultado concreto, esse já é um fenômeno enigmático. A diversidade, quando resolve se expressar é uma dessas raras forças com potencial para inibir o sectarismo fanático. A loucura será a utopia de uma Europa de fato reunida. Talvez nos termos do artigo de Stefan Zweig  “Da unidade Espiritual da Europa” publicado em 1942. Uma moeda comum, a abolição das fronteiras e a liberdade comercial pode não ter sido o suficiente para alinhar o sonho, um espírito de unidade para o continente.

É preciso ir além da festa da caminhada, da paz fugaz, do momento único. A solução é a aceitação incondicional da emancipação em meio a uma sociedade que se imagina homogênea. A unidade preciso reconhecer a heterogeneidade, inclusive a sectária. Todos os slogans “eu sou” desaguam num leito único, aquele que superaria as aporias, mudaria a vida, intensificaria a civilização para bem além dos valores ocidentais.

Aqueles que querem viver em liberdade e prezam a paz são maioria. Mas como lidar com minorias que usam as concessões das sociedades abertas para bloqueá-las? Que, através da manipulação e da espada, conseguem inclusive interferir nos resultados eleitorais? Como se resolve a preservação dos direitos civis e a questão da vigilância durante a vigência de uma guerra? Pois há uma em curso, como reconheceu o premier francês. Umberto Eco acaba de escrever que “O estado islâmico é uma nova forma de nazismo”. Subestimar a ameaça por considerações vagas, medo ou correção política também merece revisão. A mesma voz que condena a islamofobia, o antissemitismo e todas as formas de racismo precisa reafirmar, ao mesmo tempo, sua objeção ao renascimento do fascismo, religioso ou laico.

Como um estranho rio que brota do deserto, o dia nasceu com força inusitada. A energia é afetiva. “Eu posso ser o outro”, uma espécie de ápice da manifestação solidária. Mesmo que nem todos estejam conscientes da profundidade, sua penetração é infiltrativa, abrangente, difusa. A assunção de que também somos os outros, significa recusar qualquer forma de tirania, de Estado autocrático, de minorias violentas. É provável que não dure, mas, num mundo até ontem inflexível, é possível que a tragédia tenha criado uma oportunidade única:  juntar cidadãos numa inédita fusão de horizontes.

Somos todos judeus?

Somos todos judeus?

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2015 | 15:52

supermassacre

Escrevo sob forte emoção. Sim, agora está confirmado. Era mesmo o supermercado kosher, judaico, e agora me dizem, a inteligência confessou: não existem lobos solitários. Quatro ficaram sem vida. Deve ser porque alcateias separadas agem melhor. E me pergunto, partilhamos o mesmo mundo? E alguém, por favor responda, qual mundo considera recuperável pessoas que usam sua liberdade para eliminar a dos demais? Então é uma guerra, conflito armado. Neste caso como responsabilizar a omissão do Estado?  Já não era uma tragédia anunciada? Esta já passou, a próxima? Como se elegem alvos? Quanto tempo demora para se reconhecer que uma epidemia de terror não é só evento mimético?

Ocultos ou não em suas consciências, há quem entenda perfeitamente o que se passa. Agora que não é a liberdade de expressão, seria o que? Supressão dos outros. Era para ser assim? Como se identifica o terror? Desconfio que se considerem seres especiais. Ele perguntou na porta da mercearia judaica “você sabe quem eu sou, não?”. Não, não sabemos? Provocar a morte é tomada como passe livre para um mundo melhor. E quem vos ensinou isso? Nenhuma religião ensina ou não deveria ensinar. Os meus amigos acadêmicos acabam de me dizer que a culpa é da xenofobia, do passado colonial, das guerras inacabadas, da culpa judaica. Não discordo completamente, mas, no caso judaico, qual seria a culpa? A ancestral, a atual, a futura? Israel? Em disfarce, um justificacionismo intelectual vergonhoso. O alinhamento ideológico com a barbárie, ainda que atenuado por interpretações históricas criativas.

O discurso do ódio e o incitamento – ativo ou passivo — parece ter uma só direção e ele não conhece ascendência, descendência, idade ou classe social. Trata-se de um mundo forjado no triunfo, disso já sabíamos. Mas há algo novo aqui. E isso explica a perplexidade. Desconhecíamos um princípio narcísico de morte. Por quem serão lembrados? Pela auto extinção? O heroísmo tem enfim novo perfil. Valores como covardia e perversidade são valores neutros, interpretados como parte do martírio exigido. A mancha biográfica transforma-se em distinção. Entre milhões pacíficos eles e seus incontáveis cúmplices e coautores coroam-se como os novos ícones.

Você ainda quer explicar? Esqueça, e não me venha com mas, apesar de, ou considerando bem.

Falo, mas saibam que sou forçado à contenção. Em nossos dias, a sátira é perigosa, expor a injustiça pode virar crime e a espontaneidade pode custar caro. Pressinto que não deveria perguntar mas já que a verdade não pode conhecer prudência, – insisto.

E hoje, o mundo assumirá a próxima tarja?

 “somos todos judeus”.

No futuro todo jornalista terá status de correspondente de guerra (blog Estadão)

necrologicodevalorXX

 

Ninguém quer falar, mas agora ela se foi. Um último suspiro. Foi hoje pela manhã. Não divulgaram, mas as tentativas de salva-la, não foram só inúteis: evidenciou toda doença e expôs a desproteção sob a qual vivia. O estado já era crítico, mas, sempre nos enganamos com a maquiagem e com as expressões suaves. A verdade é que esteve suprimida para não exaltar ainda mais seus sintomas. Mesmo assim, ninguém percebia bem a gravidade da sua situação. Andava doente, mas mantinha a cabeça erguida. Vinha reclamando da população. Num episódio célebre, notou pessoas se escondendo enquanto a mordaça estava sendo apertada contra sua boca. Com uma lesão na garganta não conseguia mais falar como antes. Enrouquecia todos os dias. Engasgava e precisava ter cuidado com as palavras. Mesmo assim, não faltou um só dia para voltar à carga. Se todos estão testemunhando por que não se manifestam? Nunca conseguiu compreender ou aceitar fingimento. A sociedade teria enfim aprendido a cegueira seletiva dos políticos? Chegou a considerar que vivíamos uma epidemia de estoicismo. Não ver ou se recusar a enxergar num mundo cada vez mais vigiado e controlado.

Os alertas iniciais foram dados, ela mesmo se encarregou de acenar. Valores democráticos são frágeis, e tem sempre gente tentada a regular, monitorar e todos sinônimos marotos para driblar a palavra “censura”, costumava dizer. Sem precisar forçar pendia ao bom humor. Tudo era natural nela: a risada, a ironia e a sátira sempre usadas para romper o clima pesado. Tudo se intensificava quando insistiam nas carrancas, lamentos e assuntos sérios. As vezes se questionava. Tinha o direito de ser provocadora? Talvez não, mas isso nunca a intimidava. Era obrigação ser careta? Conter-se na missão de opinar? Defendia-se afirmando o direito de interpretar as notícias e que ela mesma era o último valor pelo qual fazia sentido lutar. Mesmo sem aptidão para profeta, acabou gerando profecias.

Seu leitmotiv? Brincar com a seriedade. Colou na entrada da redação: quanto mais nos levarmos a sério, mais insanos nos tornamos”. Acusada de irreverente quando deparava com culturas menos liberais, escrevia em seu diário que “Minha exigência? A razão da minha existência? Instigar o raciocínio, a crítica, desafiar e informar sem deixar que nos intimidem”. Contam os mais velhos que, certa vez, cercada por intolerantes de todos os lados, e à beira de um linchamento, saiu-se com essa: “Vocês podem acabar me eliminando, mas se é verdade que os valores subjetivos não morrem, sou como o fantasma que assombra. Piadas em dobro reservadas para aqueles que me perseguem”.

Em meio aos milhares de escritos inacabados, acaba de ser encontrado ao lado do corpo, um estudo que ela, A Liberdade de Expressão, esboçou para o próprio epitáfio: “A realidade é absurda: divirtam-se”

Tags: fanatismo jihadico, liberdade de expressão, luto pelo massacre em Paris, necrologico para um valor subjetivo

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/no-futuro-todo-jornalista-tera-status-de-correspondente-de-guerra/

Intuição para uma jovem democracia (blog Estadão)

Intuição para uma jovem democracia

Paulo Rosenbaum

05 janeiro 2015 | 21:55

Nos dias turvos que atravessamos, o mais recente artigo de FHC no Estadão, atestou um raro exemplo de lucidez. Ao mesmo tempo, resta uma lacuna que mereceria ser melhor examinada. As sociedades contemporâneas emanam incontáveis matizes de ideários e crenças políticas. Em muitas análises de nossa esdrúxula situação, desaparecem as sutilezas dialéticas, e as nuances da diversidade se reduzem ao preto e branco. É como se os lados se limitassem à duas forças antagônicas, que, num contraponto tanto permanente como conveniente, lutam pelo poder.

Há sinais claros, na linguagem e nas narrativas, que comprovam a insuficiência da taxionomia esquerda – direita. A palavra centro, pervertida e esgarçada pelo fisiologismo de praxe, também deixou de ser relevante. Como se fosse razoável resumir à duas forças o que existe de vivo como protagonismo político no País. É necessário aceitar que nem todas as causas progressistas são justas e boa parte das conservadoras pode não fazer mais sentido. Não é preciso erudição sociológica para entender que é preciso assumir: falta à oposição a coragem de se declarar independente. Essa seria a grande novidade, o verdadeiramente contemporâneo sugerido pelo artigo do ex presidente.

Por outro lado, quem ousa não se alinhar a nenhum dos dois lados, está, automaticamente, sentenciado ao exílio. O exílio de filiação doutrinária, a orfandade intelectual. Esse grupo imenso — desconfio de significava parcela da população — vem sendo arrastado a um lugar sem nome: o limbo político. É como se por falta de pedigree, organização ou confissão doutrinária, não merecessem espaço, partido ou atenção por parte da classe política. São também ignorados por parte dos intelectuais que preferem sustentar seu status quo diante do poder.

Este lapso de nomenclatura não têm nada de fortuito. A desatenção significa condenar amplas parcelas da população à invisibilidade. Notem que, até hoje, as massas que acorreram às ruas em junho de 2013 não foram devidamente classificadas. Penetras nas teses sociopolíticas, os intrusos não estavam em nenhum script.

Trata-se, lá e agora, de uma multidão cada vez mais expressiva que pretende julgar o mérito das propostas e não de onde elas vêm ou qual viés doutrinário carregam. Portanto existe algo muito mais importante do que esquerda retrógrada e direita golpista. É neste entre, um interregno pouquíssimo explorado, que se encontra a maior parte de gente desencantada. Pessoas que demandam mudanças imediatas. Pessoas impacientes, sedentas por orientação e ações que interrompam o ciclo de desmandos e violações sistemáticas das regras do jogo. Podem ser exigentes e pragmáticas, mas isso não as transforma automaticamente em radicais não democratas. É compreensível que generalizem sua aversão aos políticos, pois são grupos não articulados, que operam na base da indignação sem foco. Aguardam Estadistas que tenham a maleabilidade para compreender que um mundo ideologicamente coeso tornou-se inviável, que a liberdade não pode ser negociada e que é preciso ocupar os espaços para evitar governos com perfil totalitário.

A sociedade multilateral intuiu o perigo. Ela mesma precisa usar as brechas do sistema político para preservar os direitos e obriga-los a descer à ação. Só uma força diagonal, que julgue ideias com autonomia e que não se comporte como bloco ideológico, partido hegemônico ou seita pode prover a união para tirar, enquanto é tempo, nossa jovem democracia do sufoco.

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